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Quando a sorte te abandona…

16/02/2016

… ou quando a zica te abraça, os dados riem de você…

four-leaf-clover-black-md

Há vários nomes praquele momento. Você conhece ele, você sabe do que eu estou falando. Aqui eu não me refiro àquela rolagem de dado falha num combate:

Preciso de um 14 ou mais…
<rola o dado>
– Putz, não deu! Chama o mago!

Não meus amigos, isso não é azar. Acreditem, quem vos escreve é um especialista:

“O guardião está finalmente caído, todo seu preparo e artimanha para evitar o combate com ele aparentemente funcionou. Você só precisa caminhar ao lado do seu corpo adormecido, para finalmente alcançar a relíquia e ter sucesso na sua missão. Ele está dormindo, você está descalço, role o D20. Com 3 ou + você tem sucesso”.

Esse sou eu suando frio. “Com 3 ou + você tem sucesso”. No D20. Pra mim, e praqueles que jogam comigo, o desfecho é iminente. As chances de eu NÃO tirar 1 ou 2 são próximas de zero. É mais fácil o Fred fazer um gol de pé pela seleção brasileira do que eu superar essa situação num dado.

– Querido Mestre, não há necessidade disso. Jogue você o dado se achar pertinente. Meu personagem já fez tudo o que devia.

Esse é meu verde. Minhas palmas já formigam e meus amigos do grupo estão com a respiração presa. Se estamos num evento, e o Narrador não me conhece, ele dará de ombros e rolará o dado. Falhará em ouvir meu personagem e todos comemorarão.

Agora, se o Narrador já me conhece…

O Narrador sorri. Não por felicidade, mas por antecipação do que está por vir. Puro riso contido.

“Eu insisto”

Eu pego o D20, olho para os outros jogadores, como dizendo “eu tentei”, e rolo o dado. Ele gira, quica e cai da mesa. Eu pego ele novamente e o jogo para o centro do altar. Ele rola novamente, rola, rola e rola… O número 15 fica pra cima por uma fração de segundo, o suficiente para disparar uma fagulha de esperança. Mas o destino meus amigos, é inexorável.

2.
O resultado final é 2.

As risadas começam, os tapas nas costas, os “Eu já sabia, rolei Esconder antes mesmo de você tentar”.

probabilidade-jogos

Os dados não gostam de mim. Nem as cartas, nem os búzios, roletas e quaisquer outros elementos ligados à sorte.

Vou confessar algo aqui: há um motivo de força maior que me impele à defender a interpretação de personagem, os elementos narrativos e o drama como mecânica nos RPGs: a zica me adora.

Não que a Senhora Sorte, aquela dama de vestido branco com enfeites dourados tenha algo contra mim. Ela não tem, tenho certeza disso. Nós apenas nunca fomos apresentados um ao outro.

Meu primeiro D20 foi apelidado carinhosamente de “uruca” pelos meus amigos, e não me recordo de uma só vez que algum deles o tenha usado pra algum teste. “Você tá louco? Prefiro jogar um D12. Pelo menos vai ter chance de eu tirar mais que 10!”

Quando eu li Blood & Honor, de John Wick, e ele relata sua total ausência de sorte, me senti em campo conhecido. O Sr. Wick é meu autor favorito de RPG, e ler essa revelação dele me fez entender porque nos damos tão bem: seus jogos sempre dão um jeito de desviar da sorte. John Wick me entende.

Antes que eu seja interpretado como um velho reclamção, é importante mencionar que minha relação com a zica acabou me provendo muitas coisas boas. Na necessidade de evitar rolagens de dados em RPG, eu acabei desenvolvendo uma certa facilidade para disputas sociais, na conversa. Num grupo de RPG, sou normalmente eu que vou interpretar o FACE (interlocutor, negociador, arauto) do grupo. E também sou eu que vou interpretar o bardo, aquele que ninguém vai exigir muita coisa num combate ou numa perícia…

Essa perspectiva de ausência de sucesso numa disputa de sorte é muito interessante, porque acaba moldando muito meu próprio jeito de narrar. Quando eu narro, são poucos os momentos de rolagem de dado. Normalmente dou preferências a sistemas em que as mecânicas são mais ligadas às escolhas e diálogos. Eu gosto do elemento sorte, ele dá um friozinho na barriga que torna as coisas muito divertidas. Mas, sinceramente, um jogo que se baseia majoritariamente nele me traz pouco desafios.

Num contexto de jogos de tabuleiro, um War nunca será um Game of Thrones.

E vocês leitores, já tiveram muitas experiências de zica brava?

[Don’t] Roll the bones,

 
Chico Lobo Leal

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4 Comentários leave one →
  1. gerbur12 permalink
    24/02/2016 12:49

    Eu lembro uma vez num RPGcon ou em algum outro evento de RPG em Curitiba ou BH quando jogamos o sistema novo para O Senhor dos Anéis, chamado “O Um Anel”, se não me engano.

    Nessa ocasião inventei um bardo-guerreiro. Minha intenção original era um personagem bom de briga e também bom de papo. Galanteador, Mestre da Cítara, ele próprio seria o arauto de suas grandes façanhas.

    No entanto…

    Aquele dia eu estava com a Zica, Dengue e Chikungunya (tudo junto e misturado) e TODAS as minhas rolagens davam FALHA CRÌTICA. Acredito que em todo o jogo teve apenas 2 exceções a essa regra.

    Putz foi tão terrível, eu jogava minha lança num troll e atingia um dos heróis, rs. Resultado, meu personagem acabou mudando. Ele se tornou um mentiroso. Um cara que espalha histórias de heroísmo de si mesmo, mas na verdade todos os seus feitos eram mérito de sua equipe, que ele roubava nas músicas.

    Ficou parecido com aquele personagem de Harry Potter que todos acham que é um super bruxo contra o mal, mas na verdade o cara é super inapto. A única coisa boa dele é o feitiço de memória. Ele apaga a mente de todos e conta que ele é o cara, e todos acreditam, rs.

    • m4lk1e permalink
      07/03/2016 21:16

      Foi no fim de semana em que nos conhecemos, Gonça! Eu joguei essa sessão como um Beorning. Foi sensacional!

  2. gerbur12 permalink
    10/03/2016 18:12

    Puxa, verdade, Jairo!

    Olha só! Está aí um ciborgue que não me deixa mentir sozinho, rs.

  3. 11/03/2016 11:55

    Nossa, essa sessão foi histórica mesmo!
    Foi no WRPGFest de 2012 (tem até relato no blog).

    Gostei muito do seu personagem Gonça, o Lifstan! Até lembro o nome dele haha
    Achei incrível você ter transformado ele de acordo com o desempenho da sua sorte. Você conseguiu moldar todo o personagem e interpretação na hora, ficou muito legal!

    Sinceramente, achei ele muito mais interessante como contador de lorotas do que um guerreiro capaz.
    Afinal, já tinha o beorning do Jairo pra rachar cabeças de trolls no grupo! hahaha

    Abração pra vocês dois amigos queridos e distantes!

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