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Campanha em Rokugan – Origens: O Escorpião (Parte Um)

16/02/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

No entanto, a história de hoje se passa algum tempo antes do contexto atual, nas entranhas de uma entre tantas Cortes que compõem o Império…

Seria muito fácil contar a história de alguém como Bayushi Kaori, se a tomássemos apenas por sua aparência ou nome. No entanto, algo diferente será feito aqui: a contaremos a partir de palavras a princípio comuns, mas que possuem significado particular para ela. Que remontam, uma a uma, o desenrolar de sua vida…

Kyuden_Bayushi_3

代替案 (Alternativa)

Hime-Sama! Hime-Sama !!!”

O jovem servo correu pelos corredores atrás da pequena Bayushi de nove anos, que sempre escapava de suas obrigações. Qual sua surpresa quando um minúsculo raio dourado passou por sua visão lateral, parando em suas costas com a bokken empunhada?

“Renda-se, malfeitor!”

“Hime-sama… isso não é muito honroso de sua parte, me atacando pelas costas”, choramingou o rapaz. “E o senhor seu pai quer ter com a senhorita.”

O sorriso de Kaori morreu com as palavras do serviçal. Seu pai, o grande Bayushi Nitoshi, lhe aguardava no salão principal. O ambiente amplo e sério, com seus estandartes predominantemente amarelos com infinitos escorpiões, sufocava a menina, que respeitosamente se portava na frente do pai.

“Lhe darei uma alternativa, Kaori, que é mais do que tem a maioria. Será treinada e receberá a boa educação que uma mulher Bayushi de sua importância deve ter, e depois irá para uma de nossas escolas, para que exerça sua função e sirva sua família. Escolha qual escola frequentará.”

A voz grave de seu pai retumbou em seu corpo. Seu coraçãozinho acelerado, imaginando o fim de suas brincadeiras e sonhos infantis.

“Tem até amanhã para decidir. Caso não o faça, eu decidirei por você. Está dispensada!”

Já era hora de crescer, afinal.

武士 (Bushi)

“Você não é um Escorpião, é um Tanuki!”

Seu irmão falava entre uma mastigada e outra. Seu mempo recém-adquirido descansava ao seu lado.

“Só sabe fugir! Depois de seus anos tomando lições de etiqueta com sua preceptora e virar gente, que tal vir comigo ter umas aulas na minha escola? Quem sabe não sirva para algo útil…”

Kaori absorveu as primeiras palavras, lembrando de um dos contos que o Velho monge Fubuki havia lhe contado: O Bushi Tanuki – valente e esperto, como ela queria ser. Olhou para a bokken ainda em suas mãozinhas, com um novo brilho nos olhos.

“Não vê, irmão? Sempre foi óbvio! Sou a melhor Samurai do reino!”

Kamui botou a mão sobre o rosto, com uma expressão de enfado – mas sorrindo internamente.

犬 (Cachorro)

Kaori adora cães. Desde pequena se perguntava porque escorpiões, e não cachorros. São bonitos, quentinhos, divertidos e adoráveis, além de proteger seus donos em horas de necessidade.

O que ela faria com o aracnídeo? Jogaria em cima das pessoas? Levaria para passear? Riu diante dos pensamentos bobos e despreocupados, e se surpreendeu quando, no meio do brasão amarelado, pintou um enorme cão felpudo com a língua para fora e olhos pidões.

Entre gargalhadas solitárias, guardou sua “obra de arte” e voltou para o dojo, onde treinou imaginando um enorme cão de caça com o pescoço de uma garça entre os dentes. O treino nunca fora tão divertido…

悪魔 (Demônio)

“Sou bonita demais para usar um hannya!” Kaori exclamou.

“Talvez seja por isso que deva usar um. Veja meu mempo: assusta os oponentes! Fora que ter essa carinha bonita pode ser um problema para você, minha irmã!”

“Mas se eu usar, meu rosto ficará escondido. Não preciso colocar um Oni sobre minha pele”, Kaori rebateu.

“Verdade. É bem capaz que um Oni já esteja morando dentro dela mesmo…”

Kamui continuou limpando sua máscara, e Kaori sentiu o ar sair de seus pulmões, como se tivesse levado um soco na boca do estômago.

Hannya

演歌 (Enka)

Uma das melhores coisas da vida, para Kaori, era a arte. Principalmente quando em boa companhia.

Em um pequeno festival nas redondezas de Toshi Ranbo, um casal ouvia a apresentação, lado a lado, com seus braços levemente encostados, fazendo a moça corar (culpa dos tons agudos, claro).

As roupas simples escondiam seus sangues nobres, misturados na multidão. Miya Tetsuo explicava o sentimento na melodia, olhando diretamente nos olhos de Kaori.

“Está na hora de voltarmos, Miya-dono. Logo sentirão nossa falta!”

Tetsuo pareceu se decepcionar, mas, ouvindo a razão nas palavras de Kaori, concordou e seguiram de volta à Capital. Ao se despedirem, seus dedos se tocaram, e Kaori pensou que Enka era realmente uma excelente forma de arte.

刺します (Ferroada)

Naquela manhã, Kaori acordou com algo se mexendo em seu futon. Algo gelado ia andando por suas pernas com várias patinhas tamborilando em sua pele.

Foi levantando seu manto devagar, revelando aos poucos aquele animal de carapaça e pinças mais negras que o próprio breu. Seu coração parou de bater, e um suor gélido foi brotando em sua coluna.

“Preciso manter a calma, preciso manter a calma…” Kaori entoava como um mantra. Com leveza, foi movendo a perna até que o aracnídeo andou para o futon, sendo perfurado fatalmente pela wakizashi de Kaori.

“Bastardo!”

Sem pensar duas vezes, levou o animal empalado até seu primo Terada, cujos avanços insolentes foram rechaçados em todas as tentativas.

“Foi você?”

Kaori-chan, como vai? Vejo que está segurando o símbolo da família! Te digo, prima… nunca se esqueça de quem é.”

O sorriso de Terada era sádico.

“E nunca se esqueça de quem posso ser…” Os dentes brancos à mostra e a língua sobre os lábios eram a forma mais grotesca de provocação, enquanto encarava uma Bayushi furiosa.

“Cuidado para não se picar por aí!” Disse, dando a volta e sumindo da visão de Kaori.

“Ainda vou matar você, Terada-chan…” – Sussurrando para si mesma, gravou essa promessa em sua carne como uma ferroada venenosa.

巨人 (Gigante)

Hiroshi era enorme. Tão grande que, para uma menina de doze anos, parecia um gigante.

Sempre que Kaori treinava com ele, era jogada no chão como uma boneca de trapos, se machucando. Parecia impossível derrotar aquele aspirante a espadachim.

Suas pernas e braços eram permanentemente manchados de um roxo esverdeado, e não importava o quão inspirada Kaori ficava, sempre terminava caída aos pés do adversário. A raiva borbulhava na jovem Bayushi, e as engrenagens trabalhavam a todo vapor em sua cabeça.

Tantos anos de aprendizado deveriam servir para algo. “Só umas gotinhas, e tudo resolvido”, Kaori festejava consigo mesma, enquanto dava novo sabor ao líquido à sua frente.

Naquela mesma tarde, Hiroshi sentiu dores abdominais, e com apenas um golpe de Kaori, caiu de joelhos com a mão na barriga.

“Até mesmo um gigante acaba se curvando diante de mim”, pensou em êxtase! Afinal, é na escola que se aprende a vencer uma luta, de uma forma ou de outra…

名誉 (Honra)

Por toda sua vida, Kaori nunca entendeu muito bem o conceito da palavra honra. Guerreiros magníficos cometiam atos estúpidos em seu nome. Escondiam seus sentimentos, dores, alegrias, amores e aflições.

Para uma menina de treze anos, era inconcebível o fato de alguém preferir cometer o seppukku ao consertar o erro, apenas para se manter honrado junto com sua família. Como um morto pode recuperar o respeito alheio?

“Mantenha-se honrada! Honre sua família!” As palavras eram unânimes.

Honra, honra, honra… tantas formas diferentes de honra, com apenas um propósito: fazer aquilo que os outros esperam que você faça. No entanto, como Bayushi, ela viu coisas que a fez pensar ainda mais.

Como era possível ter honra fazendo jogos e maquinações nem um pouco honrosas? No fim, não importa qual bicho leva nas costas.. a honra é apenas uma questão de ponto de vista (grossa).

Bayushi Kaori Olhos

インポテンス (Impotência)

Doji Sasuke era invasivo, infame, interesseiro e impertinente. Seus olhos percorriam todo o corpo de Kaori, que prostrada no meio do salão da Corte Imperial, se sentia nua, mesmo vestindo seu pien fu.

Nem mesmo seu primo Terada a olhara de forma tão grotesca e faminta. Com seus dezesseis anos recém formados, a jovem foi, contra sua vontade, oficialmente concedida ao matrimônio com o Daimyo da Família Doji, trinta e quatro anos mais velho.

A boca abria e fechava, como se estivesse mastigando seu corpo, sua língua se remexia como se lambesse sua pele, suas mãos se moviam como se apalpassem sua carne e suas perguntas soavam como se perfurassem sua alma. Kaori sentia náuseas.

Os homens olhavam com desejo, enquanto Doji Sasuke se vangloriava por, em breve, poder colocar as mãos na “beldade Bayushi”, assim como em todos os benefícios que viriam junto com os arranjos. Bayushi Nitoshi apenas aprovava o silêncio e obediência de Kaori, que respondia somente ao que lhe era questionado.

Todas as regras de etiqueta que aprendera foram impostas e estavam sendo postas à prova, demonstrando que, pelo menos por fora, Kaori era a dama perfeita para um casamento de conveniências, tão comum em Rokugan.

Por dentro, ela não passava de uma boneca quebrada, saudosa por seu amado desaparecido, desesperançosa e totalmente impotente. Por um momento, ela deixou de ser um Escorpião e virou um coelho, de frente para não mais um Garça, mas um falcão.

庭 (Jardim)

Uma das coisas que Kaori mais gostava de fazer era se afastar do mundo com seu cavalete e caminhar até o jardim, para refletir e pintar as plantas e animais que passavam por ali. Tinha verdadeira adoração pelas cores e texturas que criava com suas tintas e pincéis.

Aquele era seu refúgio, seu lugar secreto, seu santuário. A solidão a transportava para mundos distintos, onde, não existiam Garças, Escorpiões, Leões, nem nenhum tipo de Clã ou interesse que poderiam prejudicá-la.

A brisa fresca e o primeiro sol da manhã iluminava docemente a lanterna acinzentada entre as folhagens, dando à Kaori uma visão refrescante. O sino dos ventos balançava gentilmente, trazendo paz e calmaria ao ambiente. Naquele momento, a jovem se sentou na grama, e de olhos fechados, imaginou os pequenos insetos caminhando para lá e para cá, entretidos em suas minúsculas obrigações.

Imaginou sementes brotando, ervas crescendo com seus aromas inebriantes.  Quando reabriu os olhos, sentia-se completa, com suas energias reabastecidas. O jardim, aquele lugar tão mágico, era o ambiente preferido de Kaori para meditar.

かおり (Kaori)

Kaori entrou no templo dentro das muralhas escorpianas e tão logo encontrou o conhecido monge, podando alguns bonsai.

Ohayo, Fubuki-sensei!”

Ohayo, Hime-sama! Posso te ajudar em alguma coisa?”

“Hum…Estava pensando… como posso dizer…” Kaori parecia incomodada ao abordar o assunto.

“Pode perguntar, criança.” Gentil, o monge limpou as mãos e voltou sua atenção à jovem que encontrava palavras para seu questionamento.

 “Sensei… Por quê Kaori? Digo… Não foi o senhor que escolheu meu nome?”

O monge idoso sorriu para a jovem de quinze anos, enquanto sentava-se no degrau de madeira polida na frente do templo.

Hai, Hime-sama… Se olhar no espelho, encontrará a resposta.” Disse, coçando a longa barba prateada, olhando a jovem sentar-se na relva. “Quando Hime-sama nasceu, nos presenteou com a cor dos seus olhos… Muito foi dito sobre isso, mas o que esse servo já sabia, era que sua mãe ficaria muito feliz.”

“Não entendo, Fubuki-sensei…”

“O lilás com verde é a representação das flores que sua mãe mais ama. Ela costumava cultivar peônias, lavandas, hortensias… Certamente hime-sama é a mais preciosa delas, para sua mãe. Kaori significa ‘perfumada como uma linda flor”.

Após alguns minutos de um silêncio confortável, Kaori levantou da grama e se curvou diante do idoso, sorrido com alegria.

Sensei, domo arigatou gozaimashita!”

自由 (Liberdade)

De todas as coisas que Kaori desejava, a liberdade era a única que ela realmente não poderia ter.

Salvo as idas ao seu jardim, sempre estava acompanhada, seja pelos seus ou por seus servos. As muralhas do clã eram como grades de uma gaiola. Suas idas e vindas à Capital eram regradas e em ocasiões especiais, com familiares e lacaios. Sua segurança era prioridade, e em muitas vezes, intimidadora.

Lembrou, ainda maravilhada com a sensação do vento frio e noturno no rosto corado, da fuga com Tetsuo para um festival nos arredores. Sem adulações, sem cuidados extremos, e principalmente, sem barreiras.

Um pássaro voou para além de onde sua visão alcançava, cruzando o céu azulado da manhã, e imediatamente sentiu inveja. Voar para lugares distantes, desbravar florestas, correr em campos abertos, visitar templos, conhecer povos diferentes… sem rumo, sem pressa.

Percebeu que a pequena fuga com Tetsuo naquela noite não era suficiente. Queria explorar o mundo. Queria, do fundo do coração, ser livre.

Bayushi Kaori 6

つづく (“Continua”…)

P.S: Um agradecimento especial para Ludmila Selvatici Faiolli Borges (a jogadora que interpreta Bayushi Kaori) pelo texto, e pelas ilustrações. :)

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3 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    16/02/2016 23:57

    Glossário:

    Bushi: Samurai guerreiro.

    Bokken: Espada esculpida em madeira sólida (carvalho, por exemplo), bastante usada em treinamentos de esgrima.

    Tanuki: Animal próximo dos Guaxinins e Texugos, que também deu nome a um Clã – huma dentre as várias lenda do Império.

    Mempo: Máscara de uso comum entre os Bayushi.

    Hannya: Máscara de um demônio de presas longas e olhar perdido.

    Oni: Literalmente, “demônio”.

    Hime-sama: Literalmente, “princesinha” ou “pequena princesa”.

    -sama: Forma honorífica de tratamento, atribuído a pessoas de status elevado e/ou em posições de respeito.

    -chan: Forma honorífica de tratamento, atribuído a pessoas intimamente, na forma de diminutivo.

    -dono: Forma honorífica de tratamento de um vassalo perante seu senhor.

    Enka: Estilo de música que mescla melodias ocidentais com ruídos e sons típicos do Japão.

    Futon: Cobertor, também usado como colchonete para dormir.

    Mantra: Oração oriental de curta duração.

    Wakizashi: Espada de lâmina curta, componente do Daisho juntamente com a Katana (espada de lâmina longa).

    Seppukku: Ritual de suicídio, utilizado por Samurais desonrados perante seus senhores, para reparar um grave erro cometido.

    Pien Fu: Vestimenta originalmente chinesa, como uma túnica de mangas largas e finamente ornamentado.

    Daimyo: Líder de uma província ou, no caso de Rokugan, de uma Família.

    Ohayo: Literalmente, “bom dia”.

    “Domo arigatou gozaimashita!”: Literalmente, “Muito obrigada”.

  2. 17/02/2016 18:26

    Sensasional! Nunca vi um background tão belamente descrito. Invejinha branca aqui deste grupo. Parabéns e vida longa e próspera ao grupo e à campanha.

  3. Monseha permalink
    17/02/2016 23:11

    Parabéns Lud. Pelos textos e pelas belas imagens(ela que desenhou (Y) ). Vamos ver se alguém vai notar uma “particularidade/curiosidade” nos textos. :D

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