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Campanha em Rokugan – Cena Nove

11/02/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Após algum tempo de viagem, os destinos de nossos heróis coincidem novamente. Graças à intimidação da liderança Matsu, eles acabaram detidos e conduzidos até Ninkatoshi – a Cidade da Permissão – por motivos diversos e pessoais. Mal sabem eles o que os espera por trás daqueles muros…

 

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi).

夜 (Noite)

Takashi permaneceu inquieto em seu dormitório, abalado pelo fortuito encontro com a destemida Matsu Hibiki. Lembrou-se do contragosto que sua decisão de assumir um Musha Shugyo provocou em seus familiares, e do rancor que as Matsu assumiram por essa desonra…

… Quando, de repente, ouviu uma voz familiar ecoando nos corredores da casa.

“Não toquem em mim! Já sei o que devo fazer, a sua ‘líder’ deixou isso bastante claro…”

“Kaori… aqui?” Aquilo não parecia possível. “Algo deve estar errado…”

Abriu a porta com discrição, apenas para perceber que há uma sentinela protegendo a porta do quarto mais próximo. Intrigado, revistou suas coisas – para descobrir se algo lhe foi tomado.

Apenas para perceber algo estranho: a wakizashi de Kakita Munisai, intacta e embainhada, entre suas posses. Deixou-a onde estava, por medo, e foi ter com Lishida, pela janela.

Apenas para perceber a figura, veloz e sombria, saltando janela afora do quarto vigiado.

“Kamui!”

Aproveitou a saída dele para conversar com a dama Bayushi, contando-lhe tudo que viram desde o momento em que se separaram. Da mesma forma, ela lhe contou o pouco que sabia sobre a tramoia de seu pai, com felicidade contida.

“Eu não poderei fazer muito agora, com esse estorvo na minha porta”, suspirou a jovem Samurai-ko.

“Não se preocupe, Kaori-san“. O Yorei-ke tentou lhe transmitir um pouco de confiança. “Eu e Lishida-san cuidaremos disso.”

L5R-Crane Mon

Lado a lado com o Caranguejo, Takashi caminhava pelas ruas de Ninkatoshi. Não havia ninguém à vista, ou qualquer sinal de movimeto àquela hora da noite – algo bem estranho para uma cidade grande. A presença de soldados em ronda, no entanto, incomodava bastante ao reforçar a sensação de que seus movimentos eram constantemente vigiados.

Não tinham muito para fazer, senão investigar a cidade e se deparar com a guarda local. Encontraram paz chegando aos jardins, e lá permaneceram sozinhos.

“E então”, questionou Lishida. “O que você acha disso?”

Tudo parecia bem obscuro, a bem da verdade. Aliás, bem ao modo dos Leões, como Takashi concluiu consigo mesmo. Como Ninkatoshi é uma cidade disputada, até pouco tempo atrás, por esse clã e pelo seu, provavelmente todo esse controle é mantido para evitar uma nova derrota.

“Não sei o que pensar, por ora. Esse toque de recolher nos limita a agir durante o dia, e sob o pesado olhar das tropas de Matsu Hibiki…”

Ao perceber o pesar nas palavras de seu amigo, o jovem Hida não deixou de perguntar:

“Mas não é isso que lhe incomoda agora… certo?”

“De fato”, ponderou o peregrino. “Antes de começar minha jornada, fui prometido para um casamento com uma das herdeiras Matsu – para selar a paz entre os clãs. Mas isso ia de frente com o meu destino, e minha escolha provocou a ira de minha ‘noiva’, Matsu Hibiki. A capitã que nos abordou, para ser mais claro.”

Isso fez o soldado Caranguejo pensar no quão pesaroso é participar de um casamento. Por conta de compromissos como esse, vê seus companheiros sofrerem com o rancor alheio. Mas, na verdade, sente-se feliz por não estar preso a nenhum dever, senão aquele de enfrentar as entidades do Jigoku sempre que possível.

Nesse momento, uma terceira pessoa surge interrompendo a conversa. O lustre da armadura da Taisa Matsu Hibiki irrompia na escuridão, enquanto retirava duas bokken debaixo da pele de leão que a cobria.

“Me disseram que vocês estavam treinando aqui”, disse. “Resolvi conferir de perto.”

Disfarçando a conversa, Takashi começou a falar sobre os fundamentos do Iaijutsu – apresentando, inclusive, algumas posturas e movimentos de sua técnica – para Lishida, que se sentiu motivado a experimentar.

“Vamos lutar, Taisa?” Desafiou o Caranguejo, pedindo com a mão por uma das armas.

Entregando a bokken para o desafiante, Hibiki responde:

“Então, façamos um duelo.”

Takashi permaneceu quieto e concentrado pois, muito mais que arbitrar o duelo, ele tinha a chance de ver sua rival em uma luta. Da mesma forma, este seria o primeiro momento que veria Lishida empunhar uma arma mais leve que seu maciço de ferro fundido.

“Será que o Caranguejo mostrará suas verdadeiras garras?”

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Uma troca de olhares gélidos antecedeu a decisão, e seu desfecho tornou-se incerto até mesmo para um espectador experiente como Takashi. Foi uma decisão rápida, como um piscar de olhos.

Felizmente, Matsu Hibiki não teve a menor chance. No momento em que saca sua bokken, teve seu pescoço atingido com força. Hida não poupou energia neste golpe, chegando a quebrar sua arma e lançando a desafiante para trás.

“Muito bom, caro aprendiz”, suspirou o herdeiro Kakita. Seu esforço era evidente para controlar sua satisfação naquela hora. “Da próxima vez, tente ser um pouco mais leve”.

Deixando para trás uma orgulhosa Leoa lambendo suas feridas, caminharam novamente pelas ruelas escuras de Ninkatoshi. Encontraram no caminho as lamparinas acesas de um humilde templo, dedicado a Benten – a Fortuna do Amor Romântico.

Ansiosos por pistas, entraram no santuário, encontrando apenas um monge assustadiço e dedicado a cuidar dos ferimentos de Miya Tetsuo.

Assim que viu Takashi, sua reação foi imediata: encheu as mãos de sal, e lançou contra ele, gritando “Yorei” repetidamente, como um pedido de ajuda. Apenas para ver um grande homem rindo, e o seu “macabro” acompanhante se zangando.

“Pare com isso”, retrucou ele, enquanto se limpava. “Tenho uma maldição, mas não sou fantasma”.

Lishida interveio, apontando para o febril Miya.

“Estávamos preocupados com ele”.

O monge volta a se focar em seus afazeres, trocando as ataduras manchadas do ferido. Trocou também a toalha em sua testa, para baixar a febre. “Ele parece resistir à morte”, pontuou. “Luta como poucos, como se algo dependesse disso”.

Uma série de murmúrios incompreensíveis confirma o veredito do bonzo.

“Será este um lugar seguro?” Takashi demonstrava franca preocupação, depois da reação assustada de seu cuidador.

“Como sacerdote, posso manter os Leões afastados por algum tempo”, afirmou. “Tentarei levá-lo a um lugar seguro, mesmo com as Matsu de olho nele… enfim, avisarei vocês quando o tiver feito”.

Os Bushis estão de acordo, ainda que o plano se mostre arriscado; mas, fica bem claro que, se o Leão o quer, fica bem claro que algo está errado naquela cidade…

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Na busca por sua harmonia interior, Kaori volta no tempo. Mesmo em seus momentos de meditação, suas memórias com Tetsuo ficam gravadas em sua mente, como uma pintura…

Lembrou-se de imediato da primeira vez que o viu com outros olhos, em uma das Cortes de Inverno que frequentou. Kamui estava ao seu lado, quando viu sua primeira performance: a tênue combinação entre dança e poesia, palavras e atos, paixão e razão.

Talvez, ela fosse muito imatura para entender tudo aquilo; mas foi nesse momento que seu coração bateu mais forte, abafado apenas pelos aplausos do público.

Embora seu irmão mais velho lhe chamasse ao fundo, a jovem Bayushi só tinha olhos para o futuro ator – e sentia-se envaidecida pela retribuição dele, a ponto de sonhar com um possível futuro.

Os mesmos sonhos que agitaram seu descanso, por breves horas…

Até que alguns gritos trouxeram-na de volta à realidade.

No impulso de descobrir o que aconteceu, Kaori levanta-se e descobre o caos: o chão manchado de sangue, e duas Samurai-ko da família Matsu escoltando um confuso Lishida.

“Este seu ‘amigo’ foi surpreendido ao assassinar uma de nossas irmãs, a sangue frio”, acusou uma delas, antecedendo qualquer questionamento. “Ele vai a julgamento, como ditam as leis do Leão”.

Para Takashi e aquela dama, restou apenas perplexidade.

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O espadachim peregrino acompanha o pequeno comboio até uma torre antiga e suntuosa, inferior apenas ao teto do Kyuden local. Sua arquitetura rude e vigorosa identificava o local como um templo que honra Bishamon, a Fortuna da Força – mas o seu interior se assemelhava muito mais a um tribunal: salão amplo, pontuado apenas por uma alta bancada, aos pés da estátua assustadora da entidade.

Bushis Samurai-ko ladeavam a bancada, encarando Lishida com os olhos ávidos por vingança, e morte. O Caranguejo permaneceu sozinho, frente a frente com a bancada, até que a pessoa responsável por julgar o caso chegasse.

Matsu Hibiki apresentou-se, desta vez, com um traje completo de batalha, finamente trabalhado em marrom e dourado. Um pesado manto listrado cobria seus ombros, realçando a cor de seus longos cabelos castanhos.

“Ora, se não é o ilustre visitante Caranguejo”, rosnou. A ira em sua voz era tão pertinente quanto sua bochecha inchada (um resquício de seu último encontro). “Desejava não vê-lo por aqui…”

Suas palavras irrompiam no burburinho como o amanhecer invade a penumbra, enaltecendo o valor de Bishamon e a devoção de seu clã perante o mesmo: o reconhecimento pela força.

“Da mesma forma que nos sujeitamos ao preceito máximo da força, iremos julgá-lo nessa premissa, réu. Diga bem alto o seu nome, para que Bishamon possa lembrá-lo, e torná-lo exemplo para seus adoradores!”

O guerreiro Hida ergueu a cabeça, fixando seus olhos em Hibiki, enquanto estufava os pulmõs para responder ao desafio.

“Me chamo Hida Lishida, e estou pronto para enfrentar este julgamento!”

つづく (“Continua”…)

Campanha em Rokugan – Cena Oito

04/02/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

À frente do caminho, Kaori e Kamui encontraram abrigo da viagem nas ruínas de um dojo abandonado, e acabaram surpreendidos pela chegada de um bando suspeito; em contrapartida, Takashi e Lishida encontram Kakita Munisai, e reconhecem a história trágica de sua vida – em palavras que, provavelmente, podem ser aproveitadas no futuro…

 

 

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi); I16 – Cidade do Império (Toshi Ranbo)

 

認可とし (Ninkatoshi)

Após o infrutífero encontro com Kakita Munisai, Takashi e Lishida optaram por seguir a estrada até Toshi Rambo (afinal, eles não possuíam qualquer outra pista do paradeiro de Kaori, senão as palavras do seu irmão mais velho).

Em algumas horas de caminhada, o anoitecer lhes trazia, além do seu manto estrelado, uma tragédia: um homem que lutava contra a morte, às margens da estrada. Seu kimono ostentava os claros tons das linhagens Imperiais, agora contrastando com as crescentes manchas de sangue em seu abdômen.

Mal conseguia respirar quando os viajantes lhe acolheram, estancando suas feridas com suturas improvisadas. O retorno do sangue corou sua face em minutos, restaurando-lhe as forças para respirar.

“O… obrigado”

Nesse momento, Lishida observava os arredores com o tetsubo à mão. Takashi permaneceu ao lado daquele homem, analisando as marcas e hematomas deixados em seu rosto,

“Quem pode ter feito isso com você?”

“Eu… não faço ideia”. Os olhos do ferido injetaram-se de pavor.

“Eram muitos … paus e espadas nas mãos, como se… desejassem a minha morte…”

Lágrimas escorriam por sua face, como um rio correndo por um vale montanha abaixo, selando o silêncio sobre o que acbou de passar. O Yorei-ke viu a mochila do homem, fechada e intocada, e logo pensou no pior.

Como não havia lugar seguro para que o sujeito se recuperasse, resolveram levá-lo consigo – pelo menos, até que encontrassem uma hospedaria, ou casebre para pedir por socorro.

“A propósito… sou Miya Tetsuo. Quais são seus nomes?”

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“Vamos, Homens! Preparem tudo para a chegada de Ganryu!”

Um dos homens, trajando kimono completo em cores escuras, os cabelos brancos destoavam de sua postura sinistra, bem presos em um mage. Cada parte do seu daisho estava em um dos lados de seu obi, aos modos de estilo Niten. Atrás dele, quatro homens permaneceram, armados com arcos e lanças.

Kaori os observava atentamente, buscando compreender o que era tudo aquilo. Entretanto, as telhas soltas daquele dojo denunciaram sua presença.

“Quem está aí?”

Para evitar o pior, ela contornou a construção. Com o máximo de cautela, esgueirou até os fundos do seu pátio, a katana em punho e pronta para lutar, se necessário.

Aguardava também por algum sinal de Kamui, ainda incógnito. Teria ele lhe abandonado, a esta altura dos acontecimentos?

“Apareça de onde estiver, ou teremos que usar a força!”

Percebeu que o líder do bando aproximava-se da sua posição, e os temores antecederam o impulso de lutar…

… Até que o relincho apavorado de um cavalo rasgou o silêncio tênue. No momento que os invasores se voltaram para o trote explosivo do animal, Kaori encontrou alívio nos gestos de Kamui – que apontava o muro alto, pouco antes de escalá-lo.

Guardou sua espada e, com uma corda de seda à mão, atravessou a parede com agilidade quase felina,

“Precisamos sair daqui, e logo”, sugeriu o ninja, baixando seu mempô e expondo seu rosto pela primeira vez. “Vamos precisar de ajuda para enfrentar o que vi lá dentro…”

O brilho de temor nos olhos do irmão foi facilmente percebido pela Samurai-ko.

“E onde poderemos encontrar essa ajuda?”

Cuidadosamente, Kamui conduziu sua irmã até a estrada. Em uma distância segura.

“Estamos próximos de Ninkatoshi, a Cidade da Permissão”, cocluiu com pesar. “Os leões são perigosos, mas parece que não temos escolha… não é mesmo?”

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Takashi manteve a dianteira, no intuito de proteger Lishida e o adormecido Tetsuo. Seus olhos bem treinados puderam perceber sinais luminosos ao longe, vindo em sua direção.

Em silêncio, trocou olhares com o Caranguejo, na tentativa de adverti-lo a evitar um confronto. Apenas a sutil aproximação denunciou a origem das luzes.

Uma patrulha de Leões, preparada para lutar.

“Alto, viajantes”. Uma voz feminina e, ao mesmo tempo autoritária, endureceu as palavras. “Para onde pensam que vão?”

“Pretendemos alcançar Toshi Ranbo”, respondeu o andarilho menor. “Pois temos um dever a cumprir com a Imperatriz, e com esta pobre vítima.”

O calor das luzes próximas aos dois bushis franziu o cenho da guerreira que os falou, notoriamente identificável como líder da patrulha.

“E… que tipo de dever podem ter, juntos, um Garça e um Caranguejo?”

O tom de zombaria contrariou Takashi, a ponto de fazê-lo buscar a permissão de sua família. Mostrou-a pouco antes de dizer:

“Não estou a serviço do clã Garça, mas em busca de auto-compreensão”

Os olhos dela correram sobre o pergaminho, aparentemente desapontados… ou seriam desinteressados?

Musha Shugyo, é…? Lamento, mas terão que nos acompanhar até Ninkatoshi, para esclarecermos isso e, claro, tratarmos desse homem.”

O sibilar das katanas abandonando suas bainhas foi o suficiente para convencer os viajantes, e a caminhada atpe a Cidade da Permissão foi silenciosa e breve. Em um primeiro momento, Takashi percebeu avidez nos olhos da capitã – algo como a excitação dos aprendizes pela primeira batalha – se perder no enfado de ter sua ordem prontamente atendida.

Após atravessarem os portões, Tetsuo foi levado para um local seguro. Já os Bushis acompanharam a líder da patrulha até uma das sedes dos exércitos do clã leão. Sob perguntas incisivas e rudes, explicaram sobre tudo que viram até agora: os eventos de Ravina Serena, a missão que carregam consigo e o encontro com Tetsuo.

“Bom, pelo menos você manteve o dever, não é mesmo, Takashi-dono?” As palavras transformavam-se, aos poucos, em rugidos, com a ira crescente na voz. “Pena que a palavra de vocês, Garças, não possui o mesmo valor.”

O herdeiro Kakita tentou compreender o que havia por trás daquelas palavras, até que a revelação daquela Samurai-ko lhe fez, ao retirar o seu elmo e soltar os longos cabelos castanhos.

“Eu sou Matsu Hibiki, também conhecida como a Presa do Leão”, respondeu com serenidade ímpar. “Aquela que tinha um compromisso com você, e que agora deseja um acerto de contas.”

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A pedido de seu irmão, Bayushi Kaori seguiu rumo a oeste, visando uma patrulha des Leões. Claro que ter a sombra de Kamui pairando sobre sua cabeça não era agradável, mas este desvio a deixou bastante satisfeita – afinal, teria tempo para repensar seus planos, e evitar que as tramoias de sua família se concretizem.

“Quero ser a Imperatriz, mas não dessa forma”, concluiu consigo mesma, pouco antes de ser abordada por batedores a serviço do leão. Não demonstrou a menor resistência perante eles, alcançando Ninkatoshi em passos rápidos e disciplinados. Apenas o enfado debochado nos olhos da líder desses homens lhe incomodou, como a pedra que rompe a paz de uma lagoa.

“Então, você foi encontrada viajando sozinha, a esta hora da noite…”

Kaori assentiu em silêncio. Os olhos da Leão ardiam como piras.

“Agora… me conte o porquê de viajar nas sombras, e para onde pretendia ir.”

“Não penso que isso seja de sua conta”, respondeu. “Saí de onde estava, para ir onde quero…”

Tais palavras perturbaram a Taisa, seus dentes rangendo em alto e bom tom.

“Você deve saber que passear nas terras de meu clã, sem prestar o devido respeito, não é nada saudável – principalmente para seres da sua laia.”

Foi a vez de Kaori sentir o amargor daquelas palavras em sua garganta.

“Passear? Ah, nada disso… Estava resolvendo meus próprios assuntos em Ravina Serena, quando fui rudemente abordada por seus lacaios, e trazida para cá…”

A irritação da leoa atingiu o limite, quando seus braços puxaram o colarinho da Escorpião, a empurrando contra uma das paredes.

“E o que um maldito Escorpião estava fazendo em minhas terras? Alguma tramóia imunda, com certeza!”

A dama Bayushi encontrou a brecha que esperava, como o peçonhento aracnídeo que carrega em seu sangue.

“Se Ravina Serena é seu território, então eu sou testemunha de sua incompetência. Pois, não fosse por mim, um maldito Maho-tsukai teria dizimado a vida naquele lugar.”

Pelos olhos daquela guerreira, Kaori percebeu uma fagulha de excitação – mas a rápida passagem congelou seus movimentos largando a viajante no chão.

“Já ouvi o bastante. Guardas!”

Duas mulheres truculentas (provavelmente, representantes da família Matsu) entraram, pegando Kaori pelos braços e a levando para outro lugar.

Deixaram-na em um suntuoso dormitório, sob a vigilância atenta de uma das Samurai-ko. Nem teve tempo para esboçar um plano quando Kamui chegou pela janela, silencioso como uma brisa noturna…

つづく (“Continua”…)

P.S: Você pode acessar a Cena seguinte por este link aqui.

Cena 23 – Falco, de volta à Erebor

31/01/2016

Cena Anterior: Cena 22 – Berion, Embaixador dos Galadhrim

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Autor: John Hodgson

Remexi minhas lembranças pra achar a Ladeira da Porca e Parafuso. Na última vez que estivera ali, há meses e meses, Vir me acompanhava na minha então primeira visita ao Reino sob a Montanha. Na ocasião eu havia parado para admirar as fontes que ilustravam a Queda de Smaug, mas desta vez meu caminho era direto.

Eu já não era mais o hobbit de outrora. Quando fui interpelado no portão pelos guardas, respondi em um tom que minha Tia Dora desaprovaria, mas no momento eu já não me importava mais em ser polido. Agora eu entendia um pouco de Bilbo e sua “estranheza”. Louco ou não, o Velho Bolseiro não poderia voltar ao Condado incólume depois ter viajado pela Terra Média.

De noite eu ainda via a cena de Hardhart sendo consumido pelas sombras.

***

Toc.  Toc. Toc.

A porta abriu lentamente, e fui recebido pela esposa de Qhorin.
Agnes ficou surpresa ao me ver, e logo fui introduzido novamente à morada do Maestro Martelo-e-Tenaz, maior fazedor de brinquedos entre os anões. Sua casa no entanto estava vazia, como se faltasse algo importante naquele lugar.

Agnes chamou Qhorin, que apareceu sozinho. Seu rosto estava cansado, e continua uma tristeza que eu não entendia.

– Onde está Ágrapo?, perguntei, com medo.

– Sente-se, pequeno companheiro.

Eu sentei, e então ouvi o que havia acontecido nos últimos dias. Qhorin contou sobre sua audiência com Dáin, e a terrível sentença do rei. Seu rosto permanecia imutável enquanto relatava os acontecimentos, como se seu espírito já houvesse aceitado o inalterável.

É claro que a sentença era simbólica, mas mesmo assim ela representava muita coisa. Além da separação física, a decisão do rei matou a casa Martelo-e-Tenaz. Sua linhagem nos anais se encerraria com a morte de Qhorin, e Agrapo não poderia seguir na oficina de seu pai biológico.

Pus a cabeça entre as mãos pra me impedir de desabar sobre o chão. Sofremos tanto, perdemos tanta coisa, pra isso? Uma vitória com gosto amargo?

– Qhorin, há algo que eu possa fazer pra ajudar? Um testemunho? Algo do tipo?

O velho anão deu um sorriso triste e colocou a mão no meu ombro.

– Sua presença aqui já me anima de alguma forma. Vamos ter com Dáin. Estou velho, mas minha memória é boa. Dáin uma vez mencionou um banquete quando você retornasse, para provar as delícias do Mago-das-Panelas do Condado. Vamos ver se o Rei ainda relembra suas promessas, e se ele te reconhece agora com um arco nas costas ao invés de uma panela.

Com Qhorin ao meu lado, comecei a reparar mais ao meu redor no caminho ao Salão do Rei. Os anões trabalhavam e andavam de lá pra cá, carregando armamentos e grandes blocos de pedra. A Montanha ecoava com o soar dos martelos e picaretas.

O Salão do Rei estava aberto, e pela quantidade de anões reunidos, alguma audiência pública estava acontecendo ali. A platéia estava inquieta, e ninguém pareceu notar a minha presença ou a de meu amigo até chegarmos bem próximos do centro da multidão.

– … é essa sua posição então ó Rei dos Anões? Pois bem, ao invés de anéis, te entrego outro tipo de presente então. Te deixo este baú, como estimas de meu Mestre.

No centro do Salão, repetindo uma cena que meus olhos já viram, encontravam-se dois homens vestidos inteiramente de negro. Dois mensageiros malditos que no passado solicitaram informações sobre hobbits e o Condado. Dáin devia ter dado sua resposta final.

Os malignos saíram apressados do Salão, e quando passaram, achei ter visto de relance algo no colar de um deles que me lembrava algo, embora daquela distancia ficava difícil ter certeza.

O Rei então levantou e se dirigiu ao seu povo:

– Khazâd de Erebor, filhos de Dúrin, povo de Mahal. Tenho pouco a dizer a voces que vá além do que já foi dito neste Salão. Pouco a acrescentar às palavras de Elrond Meio-Elfo, passado a nosso herói Glóin, filho de Gróin, e, mais recentemente, as palavras de Tharkûn repassadas à Qhorin, filho de Gaspar. A guerra bate a nossa porta, e nós temos que cumprir o nosso dever.

Dáin falava de um jeito tão majestoso que eu não pude deixar de perceber o poder que emanava da sua figura. Seus trajes, seu machado, sua voz e sua expressão produziam um resultado verdadeiramente poderoso. Assim como eu sentira quando me deparei com Beorn, eu sabia que estava diante de uma lenda viva.

– Que nossos olhos possam encarar a maldade do inimigo, para que tenhamos noção do que nos espera.

Para minha surpresa, foi Ágrapo que saiu do lado do rei, de onde eu não o tinha visto, e se dirigiu ao baú, deixado pelos mensageiros de Mordor.

– PARE COM ESSA LOUCURA!!!!!

Pra meu total espanto, Qhorin saltou para o meio do Salão, tremendo e balbuciando.

– QUEM SABE QUE FEITIÇARIA MALDITA ESTÁ CONTIDA NESSE BAÚ??

O silêncio era total. Qhorin tremia de raiva, e pela nossa convivência, eu sabia o que ele temia – perder Ágrapo pra qualquer tipo de maldição que poderia estar armazenada naquele negócio maligno.

– Qhorin Martelo-e-Tenaz, nossos druidas já afirmaram não haver nenhum encantamento ou feitiço neste baú quando ele foi trazido a este Salão. Contenha-se antes que você faça alguma besteira.

Qhorin olhava para Dáin com ódio, por tudo o que havia acontecido nos últimos dias. Por ver o filho e não poder levá-lo pra sua oficina, por vê-lo exposto, mais uma vez, às artimanhas do Inimigo.

– SEU IDIOTA! EU ESTIVE EM DOL GULDUR E VI O QUE O INIMIGO É CAPAZ DE FAZER. MEU FILHO NÃO VAI CORRER ESSE RISCO!

– BASTA!!

Agora era Dáin que estava lívido de raiva, e uma veia latejava em sua testa. Ele começou a descer os degraus para o centro do Salão. Seu machado já estava em sua mão.

– Ágrapo não é mais seu filho. Mas entendo seu medo, velho. Abra o baú você mesmo então.

Qhorin havia insultado o rei publicamente. Eu não sabia se temia mais pelo baú ou pelo que Dáin faria com ele.

Meu velho amigo andou até o baú, não sem antes olhar pra Ágrapo. Ele ajoelhou, respirou fundo e abriu a arca. Sua mão puxou de lá o que quer que havia.

Os anões começaram a gritar e puxar as barbas, e tal foi a comoção e movimento de corpos que eu não consegui avistar o que Qhorin segurava. Me esgueirei para ter uma visão livre, com meu coração acelerado de expectativa. Uma voz urrava em algum lugar do salão.

Qhorin segurava a cabeça de Thraurin Coração-de-Martelo, nosso antigo companheiro que, após resgatar conosco Agrapo em Dol Guldur, se dirigiu à Moria na tentativa de descobrir notícias sobre Balin, seu tio. Ali estava o resultado dessa empreitada que nunca deveria ter acontecido.

E eu estava certo, era o amuleto do Coração-de-Freixo de Rhosgobel que estava no pescoço de um daqueles canalhas.

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Campanha em Rokugan – Cena Sete

11/01/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Na escuridão noturna e plácida de Ravina Serena, alguém do passado retrona para assombrar Kaori. Nas palavras de Bayushi Kamui, vinha o dever para com sua família, revogado até agora por conta de um desejo pessoal. Nem mesmo os esforços de seus companheiros puderam impedi-la de, finalmente, assumir essa responsabilidade – ainda que à força…

 

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi).

停止 (Paragens)

A caminhada foi longa para Takashi e Lishida, mas foi também compensadora: ao longo da estrada, testemunhavam a vida se desenrolando despreocupadamente no passeio de pais e filhos, Bushis e Samurai-ko, comerciantes e agricultores, cônjuges… todos envoltos na normalidade cotidiana da existência.

Até certo ponto do caminho, seu horizonte fora pontuado por diversas casas de chá e hospedarias, todas prontas para receber visitas. Entretanto, quanto mais se aproximavam de Toshi Ranbo, mais a vida civilizada se afastava das estradas.

Contradizendo esta perspectiva, um isolado casebre desponta no ambiente, com seu despreocupado dono sentado em sua soleira, distraindo-se com seu cachimbo. Seus cabelos longos, brancos como as primeiras neves do inverno, dançavam ao ritmo do vento – acompanhados somente da manga esquerda de seu Kimono verde-amarronzado.

“Com licença, senhor”, pigarreou o peregrino Kakita. “Por acaso, você viu dois servos do Escorpião passrem a todo galope por esta estrada?”

“Hum”, ponderou enquanto exalava um perfeito anel de fumaça no ar. “Não vi cavaleiro nenhum hoje, e também penso que não irei vê-los. Afinal, Escorpiões odeiam sair à luz do sol”.

Um olhar mais atento à cor pura nos cabelos daquele homem, Takashi não pôde evitar a seguinte pergunta:

“Por acaso, o senhor conhece um veterano espadahim chamado Munisai?”

Em sua nova tragada, o sujeito engasgou com a pergunta, engolindo totalmente a fumaça.

“E… por que dois jovens como vocês procurariam por Munisai?”

“Foi o bonzo Okina, de Ravina Serena, que me orientou a procurá-lo”, respondeu o visitante. “Quero entender mais sobre a maldição que carrego”.

Até agora, Lishida permaneceu calado, observando atentamente palavras e gestos daquele homem; percebeu, inclusive, a grande semelhança entre o mesmo e seu companheiro de viagens. Nem mesmo o calor que abraçava sua pesada armadura o incomodou tanto quanto vê-lo se levantando, e os acolhendo com rasa simpatia.

“Gostariam de tomar um pouco de chá?”

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Para Kaori, o passar do tempo fora medido pelo bater incessante dos cascos do cavalo em que montava. Kamui permaneceu quieto por toda a viagem, concentrado apenas em mantê-los longe de qualquer testemunha em seu caminho.

“Você… sabe o que está fazendo comigo, não sabe, aniki?” A voz dela era firme e, ao mesmo tempo, desafiadora.

“Estou cumprindo meu dever”, respondeu secamente. “O mesmo dever que me foi entregue na noite do seu nascimento”.

“E mesmo assim, você pretende me levar à morte certa…”

ninja reduziu o ritmo da cavalgada, levando o cavalo à borda da trilha.

“Ninguém, eu disse NINGUÉM, será capaz de assassinar a nova Imperatriz de Rokugan, minha irmã! Pare de pensar dessa forma, e não se preocupe com isso”.

A dama Bayushi perdeu o ar com essas palavras.

“Espera um pouco… o que você disse?”

Os olhos de Kamui não expressavam o menor sinal de incredulidade, ou desapontamento.

“Então, nosso Pai não lhe disse nada sobre o seu destino, os bons augúrios que lhe foram destinados ou sobre o tratamento que que recebeste durante os seus dias?”

A resposta surgiu como um tímido meneio de cabeça.

“Neste caso, eu deveria levá-la até o nosso Kyuden para que o próprio Nitoshi-sama pudesse descrever o seu papel neste mundo”, suspirou o irmão mais velho. “Mas não temos tempo. Preciso levá-la para seu casamento, antes que seja tarde”.

O desconhecimento de Kaori sobre tudo aquilo fortaleceu sua relutância.

“Nesse caso… não seria mais prudente casar-me com Tetsuo-san? Afinal, ele pertence a uma das quatro linhagens Imperiais…

A melancolia assume, indisfarçadamente, o brilho nos olhos de Kamui.

“Ele… já tem o seu papel nesta história. Agora, espere aqui, para que eu encontre um lugar seguro para nós esta noite”.

Para ela, restou apenas o silêncio que sucede as grandes revelações do mundo, para que pudesse entender cada informação obtida neste instante…

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Nem memo o doce aroma de chá verde conseguiu apagar a decepção e angústia nas palavras daquele homem.

Yorei-ke… não pensei que estivesse acontecendo com tanta frequência”.

As palavras confundiam Takashi. Afinal, seria ele, realmente, um filho de mãe falecida – como disse o bonzo Okina em Ravina Serena?

“Mas minha mãe é viva, senhor”.

Aos poucos, a fumaça do cachimbo daquele homem consumia o ar puro da casa.

“Talvez, você não seja filho dela. Não de sangue, pelo menos”.

Uma pausa silenciosa emergiu no casebre, no momento em que o chá era sorvido por todos. O anfitrião retomou a palavra. “Isso acabou acontecendo com meu filho, graças aos impiedosos Kakita…”

Esta frase deu a Takashi a conclusão que esperava alcançar: aquele sujeito era Kakita Munisai. No entanto, ainda não reconhecia este nome na história de sua família. Retirou, então, a wakizashi que tomou de Lady Ganryu, no fatídico duelo às portas do templo de Ravina Serena.

“Eu… presumo que isto lhe pertença, Munisai-dono“.

O velho a pegou desajeitadamente, mal crendo no que via.

“Munisai… faz tanto tempo que não sou chamado assim. Seus parentes costumam se referir a mim como ‘Kotoko, o Inútil”.

Agora tudo fazia sentido, pois o andarilho conhecia bem a história de Kotoko, assim como todos os aprendizes de sua família, como exemplo da falta de disciplina e humildade.

Há cinquenta anos atrás, Kakita Munisai foi considerado um gênio da espada, o melhor duelista do clã Garça. Ninguém conseguia derrotá-lo no Iaijutsu, exceto uma jovem Mirumoto, cujo nome a história fez questão de apagar.

Mais que perder o duelo, ele também perdeu sua razão; tornou-se obcecado por ela e seu estilo Niten de esgrima, a ponto de abandonar sua família para casar com ela. Os parentes mais próximos não puderam tolerar isso, a perda de um talento raro para seus grandes rivais. Logo, para amenizar a desonra, uniram-se para capturar o casal, torturando a Mirumoto até a morte, e punindo Munisai com a perda de seu braço esquerdo (o “braço bom” dos duelos). Sem família, diz-se que não teve sequer coragem de cometer o seppuku.

“Onde… você conseguiu isso?” O engasgo de Munisai parece ter dominado sua garganta novamente.

“Uma jovem espadachim chamada Lady Ganryu a carregava, quando me concedeu um duelo justo”, respondeu Takashi, atenciosamente. “E decidi honrá-la entregando eta lâmina ao seu verdadeiro dono”.

A névoa do desdém pairou nos olhos do velho.

“Ou seja, a ganhaste de uma patife sem nome… foi este o legado que deixei?” Olhou mais uma vez para aquela espada, antes de lançá-la pela janela, tocando um lago nos fundos da estrada.

“Não precisarei mais disto”.

Tanto rancor irritou o Bushi Garça, que saiu do casebre sem olhar para trás – ignorando até o alerta do velho sobre um homem. Lishida, por outro lado, pôde ouvir um último lamento de Munisai antes de acompanhar seu amigo.

“Você vai morrer, se continuar seguindo este homem”.

O Caranguejo apenas respondeu, com a ríspida sinceridade que o torna tão peculiar:

“A morte faz parte do meu destino, assim como a de qualquer um ainda vivo. A diferença é o que fazemos no momento da sua chegada – e lutarei ao lado dele nesta hora”.

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Instalando-se nas ruínas de um dojo abandonado, Kamui e Kaori mantiveram a discrição. Esconderam o cavalo nos fundos da construção, e o ninja acomodou sua irmã no mais arrumado dos cômodos.

“Fique aqui, enquanto ficarei de vigia”.

Curioso notar que, mesmo sendo cauteloso, Kamui a deixou com suas armas – afinal, “ela não seria capaz de atacar seu próprio sangue” (crença esta confirmada por ele próprio).

Acomodava-se entre as telhas soltas do lugar quando Kaori subiu para lhes falar. Ele não fez questão de manter a compostura.

“Por que veio para cá?”

“Estava muito quente ali embaixo”, retrucou com o habitual ar de superioridade que lhe cerca. “Além do mais, queria lhe dizer uma coisa”.

Kamui deu de ombros.

“Não insista com isso”.

“E deixar Tetsuo-san morrer por minha causa? E abraçar um plano que sequer desejo para mim? Nada disso”, a irritação inflamava o discurso da Samurai-ko. “Não vou deixar que isso aconteça!”

O irmão mais velho deu as costas para ela, como a vergonha impedisse-o de encará-la.

“Então, você prefere trair sua família, o seu sangue, e o seu clã para viver uma paixão tola? Deixará seu destino de lado para se arriscar por um sentimento vazio? Vai deixar que eu, e outros servos fiéis ao nosso destino, dêem suas vidas por um capricho seu?”

Sem mais palavras, Kamui corre até o outro lado do dojo, em um rude pedido para não ser ignorado. Kaori permaneceu onde estava, pensando em Miya Tetsuo e em como escapar desse maldito compromisso novamente.

Pelo menos, até a chegada daqueles homens…

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つづく (“Continua”…)

P.S: Você pode acessar a próxima Cena por este link aqui.

Campanha em Rokugan – Origens: O Caranguejo

31/12/2015

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

No entanto, a história de hoje se passa algum tempo antes do contexto atual, onde Império e Terras sombrias se encontram…

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カニの巣 (O Ninho dos Caranguejos)

A noite era densa na Muralha do Carpinteiro, bem ao sul do Império Esmeralda. Chuva torrencial, gritos de batalha e urros de onis eram ouvidos horizonte afora, entre um trovão e outro.

Os passos apressados de Kaiu Hiromi ecoavam pelos corredores, silenciando-se apenas à frente da sala de Hida Oboro, o respeitado comandante da legião Sul.
A voz rouca e firme de Oboro rivalizava com os trovões.

“Pode entrar, Hiromi.”

Hiromi era um leal descendente dos Caranguejos, embora não representasse isso tão bem: mesmo sendo baixo e curiosamente esguio, não suspirou um minuto sequer em sua corrida por corredores e portas no interior da Muralha.

“Sente-se.”

A voz do comandante ecoava na sala,  quase ressoando na mente de quem o ouvia. Ele não era alto, mas sua compleição física era digna dos heróis que habitam os contos infantis. Seus cabelos eram grisalhos, sempre ostentando seu longo chonmage –  troféu de sua vasta experiência. Pelo peso das rugas, deveria estar entre seus 60 ou 70 anos, era impossível ter certeza; na verdade, nem mesmo ele sabia. A idade possui pouco valor nas fileiras da Muralha, mas com certeza é o mais respeitado dentre os membros do Clã, por evitar a morte por tantos anos.

“Desculpe-me, Hida-Sama, mas penso que sua decisão não foi a correta”.

Além do comando da legião Sul, Oboro era também o patriarca da família Hida. Mas isso não era suficiente para abrandar a saciedade do jovem soldado. Encarou-o diretamente, seu olhar dobrando a língua do visitante. Este último sentia-se frente a frente com a morte, curvando-se encolhido num silêncio fúnebre – na verdade, a face da vergonha por não se reportar a seu comandante de forma adequada.

“Perdoe o meu descuido, Taisa“.

“Esqueça”, pontuou Oboro. “Agora, justifique-se”.

Hiromi ofegou, retomando sua fala com a costumeira pressa das pessoas de pouca idade.

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“Lishida não está pronto para ser o Yojimbo de Hiruma Genjuro”, justificou o insolente soldado. “Ele é impulsivo e sem modos, a ponto de nos envergonhar na Corte de Toshi Ranbo!”

Oboro permaneceu calado, não apenas pelo costume, mas para que suas razões fossem articuladas o bastante para convencer o jovem do contrário.

“Não ouso questionar suas habilidades em combate, mas ainda é novo demais para tal responsabilidade. Com facilidade, desonraria meu nome ou, talvez, até o nosso Clã!”

A dose exagerada de desesperança nas palavras daquele Bushi  o incomodavam profundamente, mas a muralha no rosto do líder permaneceu inalterada.

“Tenho certeza de que ele irá falhar, deixando Genjuro-san morrer para destruir alguma coisa, ou matar alguém que o perturbe”.

Neste momento, um autoritário Oboro ressoa e tons graves de repreensão. “Já terminou, garoto?”

Um clima pesado se instaurou na sala, provocado pelo leviano questionamento do soldado. Oboro se levantou, caminhando até uma estante no fundo de sua sala. Era lá onde os Kabuto de todos os comandantes da legião Sul estavam guardados, e os contemplou em silêncio por longos minutos.

“Hiromi… você conhece a História do Vilarejo de Pedra Negra?”

Como todo bom ouvinte, consentiu em silêncio; afinal,  era somente uma pergunta retórica. Todos que chegam à Muralha sabem o que aconteceu lá, faz alguns anos…

Ainda assim, não era motivo para interferir na história do veterano.

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“Há dezessete anos atrás, recebi um chamado desse vilarejo, em uma manhã fechada em seu véu de névoas. O mensageiro falou da presença de um Ki-rin na região, atacando qualquer um que ali estivesse. Ainda que não acreditasse naquilo, convoquei  Hida Shada e Kuni Bakuya para irmos até lá”.

“No entanto, chegamos tarde; o animal já tinha partido, deixando apenas um rastro de destruição e morte como lembrança.

Hiromi continuou em silêncio, como um filho desobediente levando um sermão. Oboro retomou a história, após uma pausa para lavar a garganta com sake.

“Quando reviramos os escombros da cidade na busca de sobreviventes, o choro de crianças nos guiou e acabamos resgatando-as. Ao todo, nove crianças tinham sobrevivido, e apenas uma delas não chorava. Curiosamente, a mais saudável delas”.

Os olhos do aprendiz se aguçaram. Como é que nunca tinha ouvido falar nisso antes?

“Quando estávamos saindo do vilarejo, fomos surpreendidos pelo ataque de bakemono– cerca de cem, ou cento e cinquenta deles. Sem outra opção, recuamos até o centro da cidade para proteger as crianças, em uma batalha que durou até o anoitecer.  Ao término da investida, quatro das nove crianças tinham sumido de nossa vista. Nos apressamos para levar as cinco restantes até a Muralha”.

      Uma pergunta se formou na garganta de Hiromi, mas acabou engolida em seco. Oboro, por sua vez, deu meia-volta para sua mesa, antes de retomar sua história.

“Chegando na Muralha, recebi ordens diretas para separar as crianças, enviando-as para os cantos mais distantes de Rokugan. Contrariando a ordem, assumi a tutela da criança silenciosa, e o chamei de Lishida”.

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“O Mensageiro da Dor”, concluiu o soldado, ao lembrar do significado daquele nome. “Então, o senhor favoreceu um bastardo da pedra negra por estar sob a sua tutela? Ainda mais um garoto que foi tocado pela Mácula?”

Oboro tinha razões para se espantar com aquele desafio, pois era uma acusação bastante grave. Ainda que não conhecesse uma relação direta entre as crianças e o Ki-rin, uma conexão vaga entre os fatos seria o suficiente para tachá-lo de traidor.

“Hiromi… quantos anos você tinha quando realizou seu gempukku?”

“Doze anos, Hida-sama”. O orgulho transparecia na linguagem respeitosa e polida.

“Saiba que Lishida matou seu primeiro Oni ao completar oito anos”.

Tanto orgulho acabou cortado, como um pedaço de seda partido pela melhor das lâminas.

“Ele é mais novo que você, Hiromi. No entanto, já passou o dobro do tempo que você teve nas Terras Sombrias”.

Lembrou-se do apelido que o rapaz recebeu entre seus confrades: Andarilho Negro, por tingir suas roupas e armaduras com o sangue negro da Mácula, a cada nova incursão.

“Espera mesmo que ele saiba se portar entre a nobreza Imperial, tão distante das batalhas que aprecia?”

O olhar de Hiromi aguçou-se, matreiro como uma raposa.

“Ele é reservado, Taisa – o suficiente para saber com quem está lidando, e para evitar certos comportamentos na frente dos mesmos. Ao mesmo tempo, Genjuro encontrará muitos perigos pela frente, e confio na sua habilidade para eliminá-los|”.

Oboro se calou, para degustar um longo gole de sua bebida.

“Posso me retirar, senhor?”

“Sim”, suspirou o veterano. Virou-se para encarar o soldado mais uma vez, como se fosse a última. “Quando ele voltar… sinta-se livre para desafiá-lo, se assim desejar”.

Um sorriso quase transparente se estampou no rosto de Kaiu Hiromi.

L5R-Crab Mon

末尾 (Fim).

P.S: Deixo aqui o meu agradecimento ao grande amigo Bernardo Raulino, pelo excelente texto sobre seu personagem, Hida Lishida.

Campanha em Rokugan – Cena Seis

30/12/2015

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Após uma série conturbada de conflitos e descobertas, nosos heróis conseguiram deflagrar a influência maligna que tinha se apossado de Ravina Serena. Tudo parecia estar em paz, quando uma presença singular irrompe na escuridão noturna…

Rokugan Mapa Campanha 2

Pontos Relevantes Nesta Cena: Azul – Ravina Serena (Shizukana Keikoku). Amarelo – Templo Paz de Shinsei (Heiwa Shinsei no Shinden). I16 – Capital do Império (Toshi Ranbo)

ウェイ (Caminho)

“O… que você faz aqui, aniki?”

A naturalidade na voz de Bayushi Kamui enegrecia os temores de Kaori. As roupas dele, justas e escuras, acompanhadas do seu bem arrumado daisho, o denunciavam como um servo da família Shosuro, composta pelos assassinos mais perigosos de Rokugan (que a jovem conhecia somente de algumas histórias de seu clã).

“Você sabe muito bem porque estou aqui: você tem um compromisso a honrar em Toshi Ranbo.”

A detestável imagem de Doji Sasuke, seu noivo prometido, veio-lhe à mente como um soco no estômago.

“Você… sabe que não posso fazer isso”.

“Mas você deve!” A impaciência cresceu na voz antes contida do invasor. “Ou você pretende trair o desejo de nosso pai, e de nosso Clã?”

Kaori lembrava muito bem da rigidez de seu pai, o poderoso daimyo Bayushi Nitoshi, Um legado bem transmitido a seus irmãos, mas que não lhe agradava nem um pouco.

Em uma rápida passada de olhos, o irmão encontrou a echarpe de Tetsuo, e curvou-se para alcançá-la, evitando as mãos ávidas de Kaori.

“Então, é por causa dele que você fugiu…”

“Sim!” A língua ferina de sua família desferiu su resposta mais sincera. “E não pretendo me desviar disso”.

Os olhos de Kamui enrijeceram-se, agora tão frios quanto as pedras de uma cachoeira milenar.

“Me dê mais algns dias, aniki… para que eu possa encontrá-lo, e resolver definitivamente essa situação”.

Com esse apelo, ela esperava contar com o irmão terno e atencioso que tinha quando criança, o confidente que nasceu ao seu lado e que a conhece como ninguém – pelo menos, até o seu pacto com os Shosuro acontecer…

“O pai disse-me para matar você caso demonstrasse resistência”, disse ao se aproximar sorrateiramente da janela aberta. “Mas, em respeito a tudo que vivemos juntos, lhe darei uma chance: lhe darei uma hora para que arrume suas coisas. Estarei lhe esperando aqui fora”.

Em seguida, saltou para a escuridão silenciosa, como uma folha ao vento.

L5R-Crab Mon

“Lishida, eu preciso da sua ajuda!”

O embriagado Bushi, que tentava em vão se concentrar para buscar na meditação sua harmonia interior, levantou-se de surpresa – ainda que com certa dificuldade.

“O… que aconteceu?”

“Meu irmão está lá fora, e veio para me buscar. Eu não posso ir com ele agora, e você vai me ajudar com isso!”

Mesmo sem entender nada, ele arruma seu daisho na cintura e leva consigo o tetsubo que recebeu de sua família. Deixa sua armadura para trás, apresentando-se com um kimono amarronzado e os cabelos soltos, no mais puro desleixo.

Caminhou até a entrada da hospedaria, quando tropeçou em sua sombra bêbada e caiu escada abaixo. A jovem proprietária da casa foi ao seu socorro, acordada por todo aquele barulho, e acabou “distraindo” Lishida de sua intenção (fosse ela qual fosse).

Takashi, por sua vez, já estava pronto para seguir sua solitária viagem quando se deparou com Kaori; tinha em mente a procura pelo homem que Okina descreveu, para compreender a sua origem real. Para isso, precisaria chegar até Ninkatoshi, a Cidade da Permissão – um lugar bastante disputado por Leões e Garças, como já conhecia os fatos.

Em seu fôlego acelerado, explicou a situação na busca por auxílio.

“Não se preocupe, Kaori-san“, ele respondeu. “Vamos encontrar o Caranguejo, e pensaremos em algo”.

L5R-Crane Mon

Da hospedaria, Takashi foi o primeiro a sair, perfurando cada milímetro do véu noturno com seus olhos de falcão à procura do irmão de Kaori. Tinha-o no seu alcance quando Lishida saiu, trôpego e se apoiando em seu tetsubo. Ao seu lado, Kaori se amparava; vestida com as roupas heimin que encontrou na hospedaria, fingia carregá-lo em direção ao Templo Paz de Shinsei.

Entretanto, seu plano não funcionou conforme o esperado. Fugindo com facilidade de olhos bem treinados, Kamui os interceptou à frente do Torii, com a sua katana em punho.

“Esperava me enganar com um truque tão tolo, imouto-chan?”

Lishida se prepara para lutar, erguendo desajeitadamente o seu tetsubo e se pondo à frente da Samurai-ko.

“Este não é um assunto para Caranguejos!”Os olhos do ninja ficaram cravados em sua irmã. “Afaste-se, porque este é um assunto de família”.

“Não ouse me contrariar!” O álcool encorajou o Hida de modo voraz. “Ela tem uma dívida de gratidão comigo, e não s afastará de mim até que fiquemos quites!”

O confronto entre as duas famílias começaria naquele momento se Kaori não se colocasse no meio da contenda.

“Por favor, aniki… não fique no meu caminho. Por tudo que passamos, e pela consideração que tenho a você, deixe-me seguir o meu próprio caminho!”

“Ora, deixe de ser tola!” Kamui deixou-se levar pela ira crescente. “Você já nos desonrou por fugir do seu compromisso, e agora quer viajar ao lado do inimigo! Tudo isso por algo desgraçado como o amor! É isso que você deseja, Kaori? Abandonar o seu sangue, por algo tão trivial e passageiro como o amor?”

Neste momento, Kakita Takashi se aproxima, sua espada pronta para o iminente combate.

“Não deixarei que a leve, vilão!”

A decepção de Kamui transparece em seus olhos de ferro.

“Não quero que sua cabeça seja posta a prêmio pelos Doji, minha irmã. Pegue suas coisas, e vamos logo para Toshi Ranbo!”

Percebendo a irredutível posição de seu irmão mais velho, e querendo evitar o derramamento de sangue, a herdeira Bayushi recolhe suas coisas e o acompanha até o cavalo que os esperava. Olhou para trás novamente, para seus companheiros; em silêncio, transmitiu a eles uma mensagem silenciosa, de determinação e segurança:

“Não se preocupem: nossos caminhos se cruzarão novamente!”

L5R-Scorpion Mon

つづく (“Continua”…)

P.S: Segue o link para a Cena seguinte.

RPG, e a beleza do jogo

26/12/2015

Minha trajetória como jogador começou bem cedo.
Desde piazinho eu disputava damas com meu pai, jogava buraco com a minha família e desafiava meus amigos nos mais diversos tipos de jogos. Era uma maneira de socializar, de passar o tempo, de se divertir, de desenvolver o raciocínio e, principalmente, de vencer.

Ancient greek players

Em todos os tempos, em todos os lugares…

Chega a ser engraçado olhar pra trás e ver como eram as coisas antigamente nessa minha trajetória. Até os tipos de jogos. Era um contexto tão binário, 1 – 0, preto – branco, ganhou – perdeu.

Conforme eu fui envelhecendo eu entrei em contato com outros tipos de jogos, comecei a criar brincadeiras e histórias, até descobrir a narração e interpretação de papéis, que depois viria se mostrar como o RPG. Nesse momento houve um divisor de águas nessa dita trajetória de jogador, trazendo outras propostas, outros paradigmas, outros horizontes. Naquela época muitas coisas mudaram na minha vida, e não é leviano dizer que essas transformações envolveram até minha personalidade.

A Terra, no entanto, segue girando no sentido de sempre, mesmo que você esteja em outra rotação:

“E aí, quem ganhou o jogo?”

Não é fácil explicar. Tenho certeza que muitos leitores já passaram por situação semelhante: “Ninguém ganha ou perde no RPG, tia…”.

A melhor reação que presenciei foi a: “É mesmo? Que jogo xarope!”

Essa questão da necessidade da vitória não deixa de ser interessante.
Tenho certeza que tem muito a ver até com o jeito que levamos nossas vidas, nossos objetivos pessoais, as metas que são impostas a nós pela família e sociedade, entre outras coisas.

Diversas vezes já discuti com amigos (não RPGistas) sobre essa questão da vitória, e até já vivenciei situações bem chatas com ex-namoradas a respeito desse tema… Vencer, vencer, vencer, aparentemente é tudo o que importa!

Confesso que mantenho um desafio pessoal de desmistificar essa importância da vitória, destacando a beleza que cada jogo possui. Nesta cruzada, recentemente tive uma felicidade muito grande ao encontrar outra mente em sintonia com a minha, mais um templário nesta difícil empreita. Seu nome é Patrick Rothfuss, autor da The Kingkiller Chronicle [Crônicas do Matador do Rei, em português].

No seu livro The Wise Men’s Fear [O Temor do Sábio], o autor nos apresenta Bredon, um já vivido jogador de TAK (um jogo de tabuleiro que provavelmente se assemelha bastante ao GO), que introduz o protagonista do livro ao referido jogo. Kvothe aprende rapidamente as regras do Tak, mas de nenhum jeito consegue vencer Bredon, o que decepciona o jovem jogador. Num dos melhores capítulos do livro – A Beautiful Game, o autor nos presenteia com uma passagem muito bela, retratada abaixo:

‘Estou tentando fazer você entender o jogo’, Bredon disse. ‘O jogo por completo, não apenas as regras de como mover as peças. A ideia não é jogar do jeito mais seguro e estável possível. Você precisa ser corajoso. Perigoso. E, acima de tudo, elegante’.

(…) ‘É um espelho da nossa própria vida.
Garoto, pense numa dança. Ninguém “ganha” numa dança. Tudo está ligado ao movimento que um corpo faz. Um jogo bem jogado de tak revela o movimento da mente. Há uma beleza nesse tipo de coisa praqueles que possuem a capacidade de ver’.

‘Então… quer dizer que o objetivo não é vencer?’ – Kvothe perguntou.

‘O objetivo’, Bredon respondeu magnificamente, ‘é jogar um jogo com beleza’.

*
Chapter Sixty-Five, a Beautiful Game (The Wise Men’s Fear). Tradução livre – Chico Lobo Leal.

Fiquei emocionado quando li esse diálogo. Tudo o que penso estava ali, escrito naquele capítulo de três, quatro páginas. Como é delicioso se deparar com esse tipo de coisa. The Wise Men’s Fear tem mais de cem capítulos, mas este, em especial, é o meu capítulo.

Eu e meu grupo de amigos já jogamos RPG (e outros jogos) há mais de vinte anos. Dentre todas as sandices e manias que construímos nesse tempo, destaco a importância do estilo.

bard female

Essa, meus amigos e amigas, é a definição de estilo. (Arte: Autor Desconhecido).

Não importa se você interpreta um fazendeiro tosco, um detetive gago ou se sua Casa só apanha no Game of Thrones de tabuleiro. O importante é interpretar um personagem com estilo. Um fazendeiro que defende sua terra com unhas e dentes, um detetive que não tem medo de bandido. Jogamos pra lutar no GoT gritando o lema das nossas Casas, futucando o pé e colocando nossas almas no negócio. Não importa se ganhamos ou perdemos. Se nossos personagens morrem ou são presos (aliás, se ninguém for preso numa sessão típica nossa de RPG, algo está terrivelmente errado). Se nossa Casa termina o jogo com apenas um castelo.

Nós procuramos vivenciar a experiência. Construirmos os momentos que serão lembrados horas e anos depois, celebrados simplesmente por existirem. Momentos únicos, momentos belos. Jogos com beleza.

Roll the beautiful bones,

Chico Lobo Leal

 

 

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