Skip to content

Campanha em Rokugan – Cena Quinze

06/07/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

O retorno inesperado de Miya Tetsuo causou espanto a todos – em especial, a Kaori, que se viu abalada com as consequências que sua escolha causou. A ponto de Lishida, seu companheiro endurecido pela batalha, declarar-se para ela em um momento breve e inesperado…

Entretanto, tudo não passava de um embuste: Takashi queria tirar suas provas a limpo, e quase acabou vitimado pelas garras da criatura que assumira as vestes do ator. Lishida e Kaori chegaram a tempo para evitar o pior, lutando com o que tinham em mãos pra expurgá-la.

Cansados e feridos pelo confronto, os três acabaram surpreendidos pelo soar dos sinos percorrendo a cidade. Uma legião de homens tomou as ruas, armados e vestindo as cores do clã Garça, tomando de assalto a inesperada Ninkatoshi…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

戦い (Batalha)

Lishida, como era de se esperar, foi o primeiro a agir, correndo como podia até alcançar a hospedaria que os acomodou. A pedido de Takashi, ele foi resgatar suas posses para, se sobreviverem a isto, retomarem a estrada.

Alguns dos invasores interviram, brandindo lanças  e desafios tolos. Deixou que o sangue subisse à cabeça, erguendo seu tetsubo e abrindo caminho entre os patifes. Ao entrar, juntou tudo que podia consigo. E, ao seu retorno, acabou cercado por outros Budokas que anseavam pela sua morte.

Pelos menos, até que um grande sujeito irrompesse em ira contra o bando. Com rápidos movimentos de seu maciço de ferro preto, anulou a desvantagem numérica em segundos.

O Caranguejo, surpreso com tão impetuosa aproximação, reconheceu de imediato a postura indolente de Matsu Koji. Este, por sua vez, apenas o encarou com leve ironia em suas palavras.

“Ora, não pensei que nosso reencontro acontecesse tão cedo”…

Deixou seu tetsubo quicar no chão batido, assumindo uma postura livre para revidar um possível ataque. O sangue de Lishida gelou, mas ele manteve o foco.

“Já que você está aqui, talvez esta seja o momento de acertarmos aquela dívida, não é mesmo?”

O veterano despejava malícia em suas palavras, tal qual um demônio das lendas de guerra. O jovem tomou suas palavras como um desafio, e aprumou-se para restaurar sua confiança.

Koji, por sua vez, virou-se para contemplar, no alto, a torre do Kyuden local – um braço que se ergue aos céus para clamar ajuda às Fortunas.

” Então, siga-me. Temos um palácio para defender”.

Matsu_Turi

Com passos suaves e rápidos, Takashi corre por entre as pelejas urbanas como se o fizesse pelo piso liso de um dojo. Não baixou a guarda por um instante sequer, até que alcançasse o amedrontado Doji Sasuke. Um homem que, nas palavras de seu pai, “não estava no lugar que lhe era adequado”.

O lorde confiou sua vida a um grupo de Yojimbo para que pudesse sair de Ninkatoshi, mas as marés da batalha singravam sobre seus homens. Aos poucos, suas vidas foram tomadas por lanças e flechas dos invasores e, também, dos confusos Leões. E Takashi nada pôde fazer senão seguir as palavras do líder daqueles protetores.

“Por aqui, rápido!”

Avançaram a oeste, visando as guarnições do clã que defendia a cidade. Doji-sama estava quieto, suas mãos tomando formas curiosas e seu rosto desenhando uma expressão férrea e bem focada. Os demais a tudo aquilo assistiam, com as katana preparadas para defender o seu senhor.

Contudo, nem toda cautela pôde salvá-lo da Kunai que cortou o espaço para cravar-se no ombro do shugenja, tirando sua consciência e equilíbrio.

Doji-sama!”

O grupo se fechou para acudir o seu senhor, que permaneceu inconsciente. Enquanto verificavam o ferimento, Takashi permaneceu na defensiva.

“Ele foi envenenado! Precisamos de um abrigo com urgência!”

Carregando nas costas o suserano, o líder dos soldados encontrou um casarão intocado pelo caos. A julgar pelo tamanho, poderia ser uma hospedaria, ou restaurante.

Não perderam tempo ao entrar, bloqueando as passagens com a mobília. Colocaram o suserano Doji sobre uma mesa, em posição confortável. Em tão pouco tempo, o ferimento já estava bem inchado, e todos pareciam preocupados.

“Maldição, o que podemos fazer?”

Essa questão era compartilhada pelos Yojimbo, a ponto destes não perceberem o crescente ruído de passos no telhado…

Otosan_Uchi_in_Flames

Mais uma vez no Templo a Benten, Bayushi Kaori pensava em traçar um plano de fuga. Ninkatoshi tornou-se um lugar muito perigoso para ela e, ao mesmo tempo, muito triste. Não podia mais ficar ali, quando estava ciente dos planos ardilosos de seu pai.

Recolheu suas coisas, em inigualável pressa. Despediu-se do monge, que se dedicava na recuperação de suas mazelas, e recebeu do mesmo as bênçãos da Fortuna do Amor.

Foi nesta hora que se viu sozinha, sem saber onde estava o Caranguejo. Ao longe, via Takashi lutar ao lado do homem de que tanto foge.

“Lutando por Doji Sasuke, Takashi? Que patético!”

Correu na direção daquele traidor, para entender melhor o que de fato estava acontecendo. Saltava de telhado em telhado, chegou até o casarão onde os servos de Sasuke se refugiavam do confronto.

Passava os olhos pelos arredores, à procura de qualquer sinal do responsável por aquele golpe traiçoeiro, e nem percebeu o momento em que se tornou a próxima vítima – apenas quando a dor lhe atingiu em seco.

Retirou a Kunai de seu ombro esquerdo, percebendo o icor frio escorrer da lâmina rumo a sua mão.

Na mesma hora, sentiu o formigamento se espalhar por todo o seu corpo. Seus braços agora pesavam dez vezes mais que o normal, e as pernas lutavam para mantê-la de pé.

Apressava-se para escolher o antídoto entre as poucas ervas que carregava em sua mochila, quando viu uma figura familiar à sua frente: suas largas vestes em tom escarlate fulguravam ao vento, como as chamas de uma fogueira. Mal tinha cabelos à mostra, e seu rosto estava coberto por um pesado mempo, adornado com o animal símbolo de seu clã: o Escorpião. Apenas os seus olhos estavam visíveis, em um desbotado tom azul.

“Como é bom vê-la, Kaori-chan!”

O riso esganiçado daquele sujeito perturbara Kaori intensamente, quase a ponto de causar-lhe náuseas.

“Não posso dizer o mesmo por você, Bayushi Terada”.

Mesmo com a máscara a ocultar seu rosto, ela viu um sorriso demoníaco se formar em sua face.

“Mas que falta de modos, Kaori-chan. Não é assim que se trata um parente próximo…”

Ela tentava se manter de pé, percebendo o fim da paralisia aos poucos. No entanto, seus braços e pernas pareciam amarrados ao chão.

“Se o incompetente do Kamui não fosse tão tolerante com seus caprichos, talvez você não desrespeitasse nossa família como tens feito nos últimos dias”.

Foi neste momento que Kaori sentiu o amargar do ódio em sua garganta. Com que direito um ser desprezível como Terada podia falar do seu irmão?

“Vai… pagar caro… por suas palavras… Terada”.

No lugar da Katana, desembainhou aquela que considerava sua “arma secreta”: o Kusari-gama. Com uma das mãos, balançava a corrente para os lados; com a outra, manteve a foice afiada em riste.

Terada riu novamente.

“Você acha que pode me deter, nesse estado? Não me faça rir!”

Ele aos poucos se aproximava da persistente Samurai-ko, quando a chegada de Takashi interrompeu sua intenção.

Bayushi

A corrida até o Kyuden foi breve e calma. Matsu Koji mostrava sua força, correndo por entre as contendas com a velocidade dos bons ventos. Mesmo sendo mais jovem, Lishida não conseguia manter o ritmo para acompanhar aquele veterano.

Chegando aos jardins, cujo ar bucólico lembrava o jovem Bushi de seu julgamento, defrontaram-se com um grupo de invasores colocando o portão do castelo abaixo.

“Afastem-se!”

O aviso veio logo depois do primeiro ataque; o tetsubo do Caranguejo ergueu-se no céu, após retirar de seu caminho um corpo que mal lhe ofereceu resistência. Ao perceber a retaliação dos demais, Koji os subjugou em um único e impressionante movimento.

Em seguida, virou-se para o rapaz que o acompanhava.

“Você é forte, filho do Caranguejo. Mas ainda precisa aprender a respeitar seu oponente”.

Voltou-se para a porta semi-destruída, derrubando-a sem resistências. O subir das escadas se acelerava, conforme eles ficavam próximos do topo da torre. No caminho, marcas sutis de sangue ilustravam o que aconteceu até agora…

No último cômodo do Kyuden, as preocupações do Leão se agigantaram ao ver as silhuetas desenhadas no biombo: uma sombra de pé, apontando uma lâmina para outra, prostrada no chão.

Aguardaram o momento em que o assassino se aproximaria, antes de irromperem porta adentro – e, ao mesmo tempo, se surpreenderem com a identidade do espadachim.

Miya Tetsuo.

Miya Tetsuo

つづく (“Continua”…)

 

Campanha em Erebor – Cena 24 – Heruwyn

13/06/2016

Cena anterior: Cena 23 – Falco

Após o julgamento de Lilith, e o sucesso de Vir para unir o povo de Valle
(bardings e orientais), uma nova etapa se iniciara.

Os problemas internos mais urgentes estavam, ao que tudo indicava, remediados, e
os olhos e ouvidos dos governantes voltavam-se para o exterior. A mensagem de
Ganfal fora clara, e Valle trabalhava em recuperar o tempo perdido. Cada homem
apto flexionava seus músculos e tirava a poeira de suas armas. Para minha
satisfação, muitas mulheres também.

Rohan flag

Meu povo, meu sangue, minha honra

Como Rohirrim eu fiquei encarregada de auxiliar o líder dos cavaleiros, que, para minha surpresa, era o herdeito mais jovem do Rei Bard: Bard II, seu bisneto. Os cavalos de Valle eram de uma linhagem mais selvagem, parentes distantes daqueles do povo de Éorl. Não eram poucos os cavaleiros que tinham dificuldade de conduzir suas montarias nas manobras que praticávamos. Minha experiência sobre a cela se mostrou útil ali, e logo tornei-me próxima de Bard Segundo.

E foi justamente por ele que descobri sobre a invasão da Casa de Bard, e a prisão de Berion. Meu povo sempre foi desconfiado a respeito dos filhos da floresta, mas eu não pudia ignorar que dois deles ajudaram a me salvar das mãos dos meus captores.

– Comandante, há algo errado nessa história. Qual foi a sentença de Bard?

– Meu bisavô está muito doente, e Bain é fez a decisão. Berion ficará preso por tempo indeterminado. Provavelmente seu julgamento virá apenas após o fim da guerra, se é que ela um dia terá fim…

Bard II estava triste, e eu o entendia. Não podíamos nos dar o luxo de dispediçar guerreiros, e nós tínhamos conhecimento do valor de um elfo em batalha.

Fui ter com Vir, que, como acontecia com frequência ultimamente, conferenciava com um outro oriental. Este eu reconhecia como o pai de Lilith, Jairo. Aguardei os dois terminarem, e enquanto esperava reparei na dupla.

Eu nunca antes imaginara que teria contato com os povos do deserto, e muito menos que um dia teria um deles como amigo. Seus trajes eram estranhos, e seus sotaques mais ainda, mas eles não eram tão mais diferentes dos Bardings quanto eu mesma, com minhas vestes do sul.

– Heruwyn! Boas nuvens te trazem! Falávamos jutamente de você e sua proximidade com o jovem Bard. Você acha que há alguma chance de conseguirmos atenuar o sofrimento de LIlith?

Olhei para o pai da garota e achei melhor não espalhar a notícia de Berion a quatro ventos.

– Talvez. Mas há outros que também demandam nossa atneção. Precisamos conversar a sós Vir, e rápido.

O semblante de meu amigo se alterou, e vi que a preocupação tocava seu rosto.

– É Rowenna?

A elfa havia sumido há alguns dias, e enão tínhamos notícias dela desde que chegamos à Valle.

– Não, mas outro ser de orelhas pontudas.

Vir e Jairo se entreolharam, e o último se despediu de nós, com uma mesura.
Quando estávamos a sós, sentei em um pufe e me pus a falar.

– Berion está preso. Bain diz que ele invadiu a Casa do Senhor durante a noite.

Aquilo pegou Vir de surpresa, o que me trouxe certo conforto. O povo de Rohan não está acostumado a mentir, e eu saberia se Vir estivesse me enganando. Mesmo extremamente em dívida para com aquelas pessoas, eu os conhecia há pouco tempo, e não pude deixar de desconfiar das intenções de tão estranho grupo quando ouvi sobre a suposta invasão.

Conversamos por algumas horas, onde houvi um relato completo sobre a missão de Berion e sua ligação com a Bruxa da Flo… Senhora Galadriel. Estávamos de acordo que precisávamos entender melhor a situação, para saber como proceder com Bain.

– A filha de Jairo será o caminho. tenho certeza que será mais fácil, ou pelo menos menos difícil, o acesso à ela. Heruwyn, por favor, converse com Bard II.

Assim o fiz. Felizmente o bisneto do matador de dragões não se opôs quando disse que fui requisitada, como mulher, para averiguar o conforto de Lilith na prisão.

***

Ela se encontrava abatida e mais magra do que eu lembrava, mas sua vontade de ferro era evidente. Aquela ali não se vurvaria à ninguém.

– Lilith, vim a pedido de seu pai, pra ver como você está. Mas também serei franca, tenho algo a te pedir.

Conversamos por um longo tempo, e cada vez que um guarda se aproximava, começávamos a discutir sobre higiene íntima e o sangue-da-lua, o que era suficiente para afastá-los rapidamente.

Por três dias a visitei. No segundo e terceiro levei óleos e panos limpos para ela, e no último voltei com algo importante: uma mensagem de Berion. Ela estava amassada e escrita com um pedaço de carvão, mas seu conteúdo era claro o suficiente. Bard estava morto, e Bain prendeu Berion para que a notícia não se espalhasse.

Aquilo me intrigava, e fiz questão de ouvir Bard II.

– Meu bisavô? Acredito que ele está muito doente, porque há dias apenas Bain o vê. Somente ontem meu avô foi acompanhado vê-lo. Acredito que alguma espécie de curandeiro, pois notei um amuleto feito de madeira em seu peito. Uma espécie de coração…

***

easterlings

Diferente, mas nem por isso pior… ou melhor

Cheguei para ter com Vir e me deparei com o pequeno Holbytla na sala. Ele estava esbaforido, pelo que parecia tinha vindo da Montanha Solitária correndo com suas pernas curtas.

– Heruwyn! Vir me contou de Berion! Isso é terrível, temos dois amigos presos!

Ouvi sobre Qhorin, e o encontro dos mensageiros com Dáin. Tive que sentar pra não cair pra trás. Desgraça pouca é bobagem.

Vir tremia, e lágrimas caíam de seus olhos.

– E pensar que minha cabeça poderia estar ali, do lado de Thraurin, dentro do baú. Pobre companheiro, a Sombra era forte demais…

– E vir… eles tem o Coração-de-Rhosgobel. Eu mesmo vi o amuleto no peito de um dos malvados.

Aquilo, por algum motivo, me deixou irriquieta.

– Falco, como parece esse tal amuleto?

– É um coração, de freixo. Thraurin o conseguiu, por recompensa ao salvar Rada…

Meu sangue fervia.

– É Bain! Maldito!
Vejam essa mensagem de Berion! Vai de encontro também o que o que Bard II me falou. Um “curandeiro” visitou o velho Bard ontem à noite. Com um coração de madeira no pescoço.

Falco estava com os olhos arregalados e com as mãos na boca, em forma de O.
Vir já não vertia mais lágrimas, mas segurava o cabo de seu punhal com força.

– Filho da puta. Temos que matá-lo.

E foi assim que eu e meus amigos mudamos o destino do Reino de Valle.

Campanha em Rokugan – Cena Catorze

12/06/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

 

Guardando para si o luto, Kaori acabou surpreendida por um fortuito reencontro com Miya Tetsuo – seu amado, e também a razão de seus problemas. Sua postura estranha chamou bastante as atenções de Lishida e Takashi, que resolveram tirar a limpo suas conclusões.

Guiando o recém-chegado até o templo que cuidou de suas feridas, o andarilho de cabelos brancos acabou surpreendido pelo enigmático Mirumoto Manji, que parecia esperar a sua chegada. Não tocou em armas, no entanto; serviu apenas de distração para um perigo ainda mais próximo…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

フリーク (Aberração)

Nos primeiros instantes em que Kaori e Lishida ficaram juntos, o silêncio imperou soberano. Ela lhe devolveu a mensagem que o afastou de sua casa, o amarrando à sua missão. O próprio tinha deixado essa mensagem aos cuidados da dama, provando a mudança em sua relação nos últimos dias.

Até que a própria tomasse a iniciativa de falar, os estalos da chapa quente e os suspiros de satisfação do vendedor rompiam a quietude.

“Eu… acho que vamos tomar caminhos diferentes esta noite”.

Com a boca cheia de takoyaki, o Caranguejo a fitou com um olhar questionador.

“Agora que Tetsuo-san apareceu, recebi dele o convite para fugirmos daqui, para um lugar seguro…”

Em um piscar de olhos, as mãos nervosas de Kaori estavam cobertas pela do jovem Hida, e o seu aperto tentava lhe transmitir conforto. Seus olhos mantinham-se fixos no fundo da tenda, como se evitasse olhar para ela.

Kaori-san… peço para que confie em mim, e me acompanhe”.

O coração da Bayushi bateu mais forte naquele momento, enrubescendo seu rosto de imediato. Ao mesmo tempo, deixou-a confusa pela postura séria e distante. Estaria ele expressando algum sentimento real, ou a testando de alguma forma?

Um constrangedor silêncio se formou, até mesmo para o vendedor de comida ali próximo – que foi quebrado apenas por uma distante súplica:

“Socorro!”

 

Desvencilhando-se com destreza ímpar, Takashi retoma sua postura combativa. A bocarra de Tetsuo, que compunha um sorriso grotesco de presas serrilhadas, o identificava como algo além da humanidade – confirmando as suspeitas do espadachim.

“Foste dominado por Lady Ganryu. Eu sabia!”

A resposta se deu no avanço de suas recém-nascidas garras, que mancharam a terra com seu pus fumegante.

Tão logo se afastou, o duelista desembainhou sua Katana com um ataque rápido. Apenas para ver a carne da criatura rejeitando sua lâmina.

“Isso, continue resistindo”.

A criatura que antes era Tetsuo ignorou uma uma onda de ataques, sem verter uma gota de sangue sequer.

“O medo deixará sua carne mais saborosa!”

A confiança de Takashi foi renovada pela brutal chegada de Lishida, que ergueu com satisfação o seu Tetsubo para golpear o inimigo com toda a sua força – o jogando no chão em uma nuvem de poeira.

Atrás dele, Kaori serpenteou para o jardim, deperando-se com a deformada imagem de Tetsuo. Sua pele se assemelhava a trapos, rasgada em vários pontos e agora revelando membros monstruosos e desproporcionais.

“Pensa que isso vai me deter?”

Em franca retaliação, suas garras cortavam armadura e carne do Bushi Caranguejo como se fossem papel. Por muito pouco, o licor doentio de seus dedos não o tocou, para envenená-lo com a essência do mal.

Kaori-san… precisaremos de jade para derrotá-lo. Procure por essa pedra no templo!”

Deixando para trás o transe de incredulidade, ela corre até o santuário de Benten. A imagem do gentil monge, agora ferido e jogado em um dos cantos da câmara, clareou os seus impulsos.

“Ei, acorde. Preciso de sua ajuda, gentil bonzo. Onde posso encontrar jade?”

Embora cansado e coberto de ferimentos, ele conseguiu se levantar (com o apoio de Kaori) e apontou para seus aposentos pessoais.

“P-por… aqui”.

 Bayushi Kaori Olhos

Lá fora, o combate persistia sem sucesso. Cada golpe dos Bushis esgotava suas próprias forças, para o divertimento do monstruoso Tetsuo.

“Já estão se cansando? Pois eu nem comecei a lutar com vocês!”

Suas garras dançavam com furor, ávidas como serpentes famintas, beliscando a carne de seus oponentes. Pelo menos, até o retorno da herdeira Bayushi – que trazia consigo um pequeno prato de jade.

“Triture-o, Kaori-san, até que sobre o pó!”

Lishida se desdobrava para manter a posição e, ao mesmo tempo, instruir sua aliada. Em retribuição, a mesma se esforça para desmanchar a peça a tempo de salvá-los.

“Terminei!”

O sinal de Kaori acordou Takashi, que transformou seu fôlego em uma chuva de golpes contra o monstro. Com isto, abriu caminho para que o herdeiro Hida fosse preparar seu armamento para o golpe definitivo.

Em uma cena incomum, Caranguejo e Escorpião uniam forças para lutar: ela polvilhou o Tetsubo Hida como pôde, com o pó de jade que tinha nas mãos; ele o empunhou mais uma vez, com sua luz verde irrompendo no pôr-do-sol.

Tetsuo reagiu nervosamente àquilo, avançando no intuito de eliminar tal ameaça com rapidez. E, ao abrir sua guarda, acabou quase partido em dois pela força destruidora daquele guerreiro.

A dor se esvaía junto com o sangue, privando a criatura de sua vida, e voz. Takashi abriu caminho, impressionado com aquela imagem, e deixou que Lishida encerrasse de vez o confronto.

“Moooooooooorra!”

De um arco de luz esverdeada, ossos e carne malditos explodem com o ataque fatal. Tetsuo sequer pôde manifestar a sua dor, pois não restou nada além de uma polpa de sangue negro em seu lugar.

No mesmo jardim onde viu seu irmão morrer, Kaori via o mesmo desfecho se repetir àquele a quem dedicou o seu amor…

L5R-Crab Mon

Cientes do quão grave tornou-se a situação, Lishida e Takashi preparam uma mensagem para enviar até a Muralha Kaiu, no distante sul do Império. Endereçada a um dos comandantes do clã Caranguejo, Hida Oboro, tal carta serve como um chamado às armas, avisando da presença crescente de monstros existindo entre a população.

Indiferente a tudo isso, Kaori examina o cadáver devastado, para confirmar seus temores mais profundos. Aproximou-se do mesmo, e suspirou de alívio ao perceber a densa maquilagem que cobria a pele se desfazendo.

“Não era Tetsuo-san“.

Juntos novamente, planejavam enviar a mensagem no raiar do sol quando ouviram os primeiros gritos e clangores de armas. Não podiam ver o que acontecia graças aos muros do templo, mas o ruído crescente davam-lhes uma breve noção.

“Vamos ver!”

Ao comando do jovem Kakita, Lishida e Kaori correram até o torii do templo – onde puderam ver o estourar de um confronto. Das casas mais humildes, emergiram inúmeros homens, marchando e lutando contra os surpresos defensores do clã Leão.

Para espando do andarilho, eles vestiam Kimonos em azul e branco, as cores do seu clã. Em suas mãos, armas de todo tipo eram empunhadas. Em suas costas, o imponente mon da Garça.

“Sasuke. Ele deve estar por trás disso”.

Lishida permaneceu quieto, talvez concordando com aquela suposição.

“Impossível. Não é assim que o clã Garça lida com seus problemas. O caminho da diplomacia é nossa trilha”.

Ele prontamente reparou na falta de disciplina dos invasores.

“Mirumoto Manji deve estar por trás disso”.

Com a violência crescendo a olhos vistos, não havia tempo para discutir sobre o mentor de tudo aquilo. Deveriam agir logo, e cada um tomaria o seu próprio rumo neste confronto…

L5R-Crane Mon

つづく (“Continua”…)

P.S: Siga para a Cena seguinte acessando este link aqui.

Campanha em Rokugan – Cena Treze

29/05/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Após o inglório confronto com Kamui, Kaori foi deixada com suas mágoas por Takashi e Lishida, que tinham um julgamento a cumprir. Por suas vidas, lutariam contra as Irmãs Megumi – servas valorosas de Matsu Hibiki – para provar sua inocência perante as acusações de um assassinato.

Mais uma vez, sangue precisou ser derramado para corroborar a verdade. Desta vez, foram as Leoas que entregaram suas vidas neste caminho. A jornada de um inimigo previamente revelado ao andarilho Garça, como a “Dama da Vingança” Ganryu…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

再会 (Reencontro)

Dois dias se passaram desde a honrosa derrota de Matsu Hibiki. Para os Leões instalados na cidade, tornou-se uma perda considerável a ponto de restaurar sua postura e controle; para os Garças que anseavam novamente por Ninkatoshi, foi o momento para renovar os ânimos por um novo confronto.

Absolvidos de quaisquer acusações, Lishida e Takashi honraram o duelo ao se deparar com o pai da capitã, o endurecido Matsu Koji. Com o olho que lhe restava, fitou os dois visitantes com rancor – em especial, aquele que fora prometido para sua agora falecida herdeira.

O Caranguejo trazia em mãos o daisho de Hibiki, que lhe fora prometido caso vencesse o duelo; já o yorei-ke entregou sua própria Wakizashi, símbolo de sua alma, junto com uma carta, escrita em próprio punho, que traduzia seus verdadeiros sentimentos:

Quiseram as Fortunas que o caminho de Matsu Hibiki-sama cruzasse com o meu em situações desafortunadas. Após acusações de assassinato, meu companheiro de viagens Hida Lishida-san e eu fomos confrontados pelas Irmãs Megumi.

Tanto elas quanto Matsu Hibiki-sama foram honradas até o fim. Auxiliei-as nos rituais de Seppuku. 

Não estou pronto para ser um bom Daimyo, nem um bom marido… encontro-me em uma busca pessoal por aperfeiçoamento. Sentiria-me honrado em juntar nossas famílias pelo matrimônio quando chegar ao fim da jornada, e envio-lhe minha Wakizashi junto a esta carta para selar esta promessa.

Se me julgar indigno, peço que envie esta carta junto com a lâmina ao Kyuden de meu pai.

– Kakita Takashi

Entregaram, juntos, as peças ao veterano, sem olhar para a horrível cicatriz que cobre seu olho direito, e sem proferir palavra.

“Não posso esconder a ira que me acomete neste momento”, rosnou.

Entre dentes, esforçava-se muito para evitar alguma atitude descortês.

“No entanto, posso lhes garantir que este não será nosso último encontro…”

Takashi permaneceu em silêncio, mas era difícil descobrir por qual motivo o fez: se por respeito, ou se apenas pelo temor de uma represália. Ainda que os costumes defendessem sua postura, aquele homem poderia desafiá-lo no futuro. E, pelas marcas que ostenta, era possível perceber que nem a morte pôde vencê-lo em seu desafio…

Para Kaori, esses dias sequer passaram. Permaneceu instalada no templo de Benten, ajudando a cuidar dos arredores e, ao mesmo tempo, tentando curar suas feridas. A dor mostrava-se maior que sua perseverança, e as últimas palavras de Kamui ressoavam constantemente na sua consciência:

“Por favor, irmã… faça valer sua escolha”.

Ao pensar nisso, tornava-se doloroso pensar em Tetsuo; afinal, não bastasse ficar longe dele por tanto tempo, saber que o mesmo corria grande perigo apertava seu coração ainda mais.

Isso a fez ignorar alguns detalhes do dia anterior, como a presença de uma gravura em carvão de seu rosto, em um papel guardado na bainha da Katana de seu irmão – ou, tampouco, a presença de um pedinte solitário, vestido de farrapos e com o rosto oculto por uma máscara de Karasu-tengu.

“Senhorita, por acaso há um abrigo para um peregrino sem sorte, como eu?”

A voz grave e, ao mesmo tempo, familiar, a fez retornar de seus devaneios.

“Eu… tenho que falar com o monge para saber se isso é possível, ainda mais a esta hora…”

“Persistes nisso até mesmo para mim, cara dama?”

Os modos daquele sujeito a deixavam corada, até o momento em que retirou a sua máscara, e a fez perder o ar em um longo suspiro.

“T-Tetsuo!”

Miya Tetsuo

O sorriso dele iluminava a penumbra, como o cruzeiro do sul guia um viajante perdido.

“É você mesmo?”

Kaori mal podia acreditar no que seus olhos viam, depois de tudo que se passou.

“Finalmente, nos encontramos outra vez”, ele sussurrou.

Seu rosto ainda era manchado pelas agressões que sofreu, algumas noites atrás; mas a expressão serena de outrora parecia diferente, como se tomada por um crescente desconforto.

“Eu… estava lhe procurando desde Ravina Serena”.

Kaori manteve a cabeça baixa, para que o seu enrubescimento não fosse notado por ele.

“Eu a esperei lá, mas parece que acabamos nos desencontrando…”

Sua voz, outrora límpida como cristal, estava embargada por algo indecifrável.

“As Fortunas me trapacearam, pelo menos até esta noite”.

Os olhos inquietos da Samurai-ko passeavam pelas marcas e cicatrizes que agora delineavam Tetsuo, silenciosamente.

“Como você pode ver, Kaori, acabei até agredido no caminho a Ninkatoshi”.

“Eu… conheço as pessoas que o resgataram, Tetsuo-san…”

“Ora, Kaori!”

Os olhos do visitante permaneceram baixos, como se perseguissem o olhar de sua acompanhante… Em resposta, ela o fitou com o triste tom acinzentado da mágoa.

“Precisei matar meu irmão, Kamui… por você”.

Olhou novamente para suas mãos, vendo-as em vermelho-sangue. Sequer notou a inexpressiva atenção de Tetsuo.

“Essa definição de honra não leva a lugar algum, como eu sempre disse. Deve ter sido doloroso para você, Kaori…”

Afagou o queixo da jovem com leveza, erguendo aos poucos o seu rosto para dizer-lhe algo. As lágrimas se assemelhavam a pérolas, deslizando por sua tez de seda.

“Neste momento, eu preciso de você. Junte suas coisas, e venha comigo”.

Miya Tetsuo 2

Caminhando calmamente por entre os agitados destacamentos do clã Leão, Lishida e Takashi sentiam-se prontos para deixar a cidade. Sua maior preocupação ficara em Kaori, pela desgraça que teve de enfrentar. O Caranguejo tinha pressa em seguir viagem, por sua missão e pelo golpe sujo que os Bayushi estão tramando contra o Império; o jovem Kakita, por outro lado, carregava consigo a Wakizashi de Munisai e se preocupava com os planos de Ganryu e seu servo, Mirumoto Manji.

A meio caminho do agora agitado templo de Benten, encontraram sua amiga em peculiar companhia: Miya Tetsuo. Como se isso não bastasse para despertar a desconfiança no gigantesco Bushi, a suspeita de evidências “sombrias” o fez alcançá-los a todo fôlego – seguido calmamente pelos passos leves do amigo peregrino.

“Ora, mas que enconto fortuito!”

As palavras daquele sujeito destoavam da escuridão que desceu em sua face.

“Queria mesmo ter a chance de agradecê-los, por salvarem a minha vida. Do contrário, jamais teria encontrado Kaori novamente…”

A despeito do rubor intenso que tomou sua companheira de jornada, Takashi resolveu explorar a perspicácia daquele sujeito.

“E você conseguiu conversar com o monge que curou suas feridas?”

Pela demora de Tetsuo em responder, parece que o jovem espadachim soube como atingi-lo em cheio.

“Ora… infelizmente, não tive essa chance…”

“Então, tenho certeza de que ele ficará satisfeito em vê-lo, forte e bem recuperado. Inclusive, gostaria de acompanhá-lo neste momento…”

Tetsuo silenciosamente assentiu, ajustando sua máscara enquanto caminhava lado a lado com o jovem Garça. Sem pensar duas vezes, Lishida puxou Kaori pelo braço, com sua ímpar aspereza. Levou-a consigo até uma tenda próxima, que se distinguia pelo aroma de Takoyaki frescos.

Manji Mirumoto

A caminhada de Tetsuo e Takashi prosseguiu no silêncio quase absoluto da cidade. O primeiro virava-se para contemplar os arredores, obviamente desinteressado em falar; já o segundo manteve-se afiado, percebendo cada movimento e postura de seu acompanhante.

às portas do jardim do templo, eles encontraram alguém saindo do santuário. A palidez de seus longos cabelos dançava ao ritmo dos ventos, à exceção de algumas mechas que repousavam sobre o surrado Kimono verde-oliva de seu dono.

“Mirumoto Manji, eu presumo”.

O sujeito se vira para enfrentar os recém-chegados, com um irônico sorriso. As mãos espreguiçavam-se sobre as bainhas de seu daisho.

“Não pensei que o templo recebesse visitas a esta hora”.

A fagulha em seus olhos crescia, como uma fogueira bem alimentada, quando fitou Takashi.

“Você deve ser ele…”

O andarilho Kakita deixou que o homem falasse, sem entender direito a que se referia.

“Soube que, algumas noites atrás, um duelista Gaki matou minha esposa e aprendiz em uma luta justa. Estava mesmo curioso para conhecê-lo”.

Claro que lembrava-se do duelo, e do quão injusto ele foi. Não por sua desafiante, Lady Ganryu, mas pela postura dos Budoka que tentaram protegê-la.

“Também esperava conhecê-lo, depois de tudo que Munisai-dono me disse a seu respeito. Você tem planos que não podem acontecer, e vou lutar por isso”.

“Então, ‘Lorde Kotoko‘ foi ter com você. E as palavras de um tolo inquieto e derrotista o tocaram, a ponto de lutar por ele… que patético”.

Takashi estava farto de bravatas, e assumiu a postura em que costuma duelar para resolver logo essa situação. Manji, por outro lado, apenas caminhou em direção ao torii.

“Nossas espadas irão se cruzar, com certeza; mas não nesta noite”.

Dirigindo seu olhar para o então calado Tetsuo, finalmente suspirou:

“Além do mais, você já tem um desafio para enfrentar agora…”

Malk Kakita se virava para trás, deparou-se com a perversa expressão de seu acompanhante, que se lançou em sua direção. O duelista ficou prostrado, graças à discrepante força daquele homem.

“Finalmente, irei me divertir um pouco”.

Monster Tetsuo

つづく (“Continua”…)

P.S: Você pode acessar a Cena seguinte pelo seguinte link.

Campanha em Rokugan – Cena Doze

03/05/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Fugindo de tudo e de todos, Kaori reúne-se com seus amigos, Lishida e Takashi, para comprtilhar informações sobre a situação atual – e sobre como lidar com ela. Foi nesta hora que Bayushi Kamui, o persistente irmão de Kaori, apareceu para levá-la de volta a seus compromissos. A discordância da jovem os levou a um duelo, seguido da brutal justiça que os duelos exigem.

Após a sua derrota, Kamui reclamou o direito de morrer, e não restou escolha para Kaori senão cumpri-lo…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

決闘 (Duelo)

Kaori sequer percebeu o cair da noite, tamanho foi o seu choque. Durante a cerimônia funerária que o monge preparou para Kamui, ela permaneceu em silêncio. Lishida assumiu a responsabilidade perante os ascetas que ali estavam, os acalmando e afastando das acomodações do templo. Takashi, por outro lado, ajudou nos preparativos da cerimônia. No fundo, eles prestavam seu respeito perante a dignidade daquele homem, que preferiu a morte perante a desonra, e suas possíveis consequências…

Com o término da solenidade, os dois Bushi despediram-se da inconsolável Samurai-ko. Confiaram-na ao monge que, também comovido com os acontecimentos, ofereceu abrigo a ela – no lugar mais calmo de Ninkatoshi, para que seus pensamentos possam ser organizados.

L5A-yourempire-big

Com o propósito de descansar e diminuir as tensões para o duelo de suas vidas, os jovens Hida e Kakita voltaram ao dormitório dos Leões, atravessando pelos olhares hostis de boa parte dos soldados.

Vencido pelo cansaço, Lishida se deixa levar pelo sono pesado. Já Takashi não teve a mesma paz; adormeceu, e logo se viu acordado pelo aroma ímpar de fumo que dominou o seu quarto.

“Ah… não desejava lhe acordar, meu jovem”, pigarreou Munisai, antes de tragar novamente de seu cachimbo.

“Não se incomode, Munisai-dono. Sinto-me honrado pela sua presença, depois de devolver-me o presente que lhe dei antes…”

Da longa pausa, alguns anéis de fumaça emergiram no ambiente.

“Presente, você diz? Eu tomaria isso mais como um dever, meu caro”.

Da manga vazia de seu kimono, Munisai retira sua wakizashi e a oferece para Takashi, como um mestre faria para seu pupilo.

“Na verdade, por ela eu continuo existindo, sem a paz que os mortos merecem. E a entrego a você, para que suas mãos possam me conceder o sono eterno”.

“Então, diga-me o que devo fazer”. O jovem espadachim mostrava-se solidário, por entender um pouco mais da frustração de seu estranho visitante.

O velho, é claro, engoliu em seco.

“Preciso que você derrote meu filho, Mirumoto Manji. Ele respeita somente a língua do Kenjutsu, e pode ser dissuadido de seus planos se vencido em combate”.

Na mente de Takashi, o relance do homem que encontrou no mercado veio a seus olhos. Sem dúvidas, era ele.

“Você… já ouviu falar de Ganryu, meu jovem?”

Yorei-ke se lembrou da jovem que o desafiou, em Ravina Serena. Afinal, sua maturidade e apreço às regras era comparável aos membros de sua própria família.

“Tive a honra de enfrentá-la em um duelo, alguns dias atrás. Inclusive, foi com ela que encontrei a sua lâmina”.

Munisai pigarreou, contrariado.

“Estou falando do espírito Gaki da vingança, a dama Ganryu. Alimentando-se do mais puro ódio, ela se apossa de mentes fracas para semear o caos entre os seres vivos”.

Após uma nova tragada, ele continuou.

“Meu filho tem um pacto com essa entidade, que vaga pelo Império em inúmeros rostos. Você precisa impedir a sua vingança – não apenas por mim, mas por toda Rokugan!”

Antes que pudesse responder aos apelos do velho, batidas secas na porta de seu quarto trazem o sonhador Takashi à realidade, junto com uma voz grave e familiar:

“Chegou a hora”.

L5R-Lion Mon

À luz da lua cheia, Lishida e Takashi são recepcionados em um exuberante jardim, no entorno do Kyuden local. Conduzidos por uma das duelistas desta noite, os Bushi encontraram Matsu Hibiki, que trazia seus respectivos daisho à mão.

“Bem-vindos ao seu julgamento”, saudou. Agora que as fiéis Irmãs Megumi estavam novamente reunidas, cada uma delas assumiu sua postura favorita de combate – entre o Kenjutsu, a postura defensva e o Iaijutsu.

Enquanto entregava as armas para os julgados, a capitã explicou as normas do duelo:

“Vocês enfrentarão as três Irmãs Megumi, orgulhosas Samurai-ko e leais seguidoras da família Matsu. Eu serei testemunha do confronto, responsabilizando-me pelo veredito assim que a luta se encerrar. A morte, ou rendição, das partes assegura o fim do duelo e, aos derrotados, restará somente o Seppuku. Fui clara?”

Acenando positivamente, os desafiados se preparam para lutar. Takashi encarou prontamente a Megumi duelista, pouco antes de assumir a postura do Iaijutsu. Todo um combate se desenrolou nesta troca de olhares, e o seu desfecho resultaria no golpe decisivo do herdeiro Kakita, que forçou a rendição da guerreira pelo desarme.

Lishida, por outro lado, encontrara dificuldades em lutar com a combativa Megumi – a mesma que o constrangeu ao lhe acusar de assassino. A Katana que ganhou de seu clã quase se perdia em suas mãos, de tão pequena e leve (pelo menos, em relação ao seu fiel “companheiro de lutas”). Frente a uma feroz adversária, capaz de equilibrar ataque e defesa em momentos excepcionais, ele precisou libertar a ira e descontrole que o discerniam entre seus irmãos – e nem mesmo a elevada perícia de esgrima da oponente a salvou da morte certa.

Consternada com a rápida derrota de suas irmãs, a Megumi restante avançou com a espada sobre Takashi, em uma previsível investida. Sua navalha trespassou o tórax exposto com relativa facilidade, quase tingindo de sangue todo o jardim.

O julgamento tinha se encerrado, e Hibiki honrou sua palavra naquele momento, junto com a Megumi sobrevivente. Ambas tinham suas Wakizashi em punho.

Bishamon os honrou com a verdade, e agora vocês são homens livres. No entanto, peço que fiquem para que possamos honrar nossa promessa”.

Aproximaram-se de Lishida, que logo se pôs a falar:

Matsu-san… vocês não precisam passar por isso. Podem servir conosco na Muralha Kaiu, em vez de entregar suas vidas dessa forma”.

O rosto antes emoldurado de Hibiki em ira se dissolveu, aos poucos, em um discreto sorriso.

“Suas palavras são tolas, Caranguejo; mas reconheço seu valor. Estarei servindo minha família, provavelmente como nunca fiz antes. Só queria dizer que foi uma honra lutar com você, verdadeiro filho de Hida”.

Voltou-se para Takashi, a quem entregou um sorriso sincero e, qo mesmo tempo, inverossímil.

“Queria ter duelado com você, Takashi-dono. Ou, pelo menos, ter desvendado o enigma por trás desses olhos…”

Tanto ela quanto Megumi entregaram suas Katana para ele, pouco antes de iniciarem a tradição. Ajoelharam-se, o brilho das lâminas curtas ante a luz da lua.

No princípio do corte, via-se o esforço delas em não apenas tolerar a dor em silêncio, mas em se colocar naquela posição – no pesado fardo de provar sua pureza, em troca de sua vida…

Hitomi's_Seppuku

つづく (“Continua”…)

P.S: Tenha acesso à próxima Cena acessando este link aqui.

 

A Cobra vai fumar! – Narrando um RPG Histórico

30/04/2016

Semana passada eu e meus amigos adentramos caminhos nunca antes explorados por nós, se aventurando numa temática diferente, histórica. Faziam meses (anos?) que eu não tinha tempo para preparar nada, narrando sempre no improviso, mas esta ocasião fugiu a regra, e fiz uma pesquisa extensa. O projeto consistiu na narração de uma sessão na 2a Guerra Mundial, com os jogadores interpretando um grupo frequentemente esquecido: os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira.

FEB no inverno italiano

F.E.B. no inverno italiano.  Fonte: História Ilustrada

Sim senhores, pra quem não sabe, o Brasil foi o único país sulamericano a lutar na Grande Guerra, e por mais que numericamente pouco expressivo (comparando com os principais atores), nossos 25.000 combatentes lutaram contra os nazistas no norte da Itália, enfrentando a neve dos Apeninos e o fogo das metralhadoras alemãs.

O cenário era promissor, mas como efetivamente realizar a tarefa? Eu nunca havia narrado, nem ao menos jogado, qualquer RPG de Guerra, então não tinha referencia nenhuma para seguir, teria que começar do zero. Dessa forma, parti de uma pergunta: O que eu quero que os jogadores experienciem?

Pensei nos filmes de guerra que assisti, e nos relatos de combatentes que eu havia lido na minha pesquisa. Cheguei rapidamente a uma conclusão: eu queria que os jogadores sentissem o horror do confronto bélico, o desalento de estar sob a égide da guerra, que eles se deparassem com a penúria de tempos sombrios. E, claro, queria também que eles descobrissem a camaradagem, a bravura, e o papel que um soldado pode representar na lutra contra um exército opressor.

Pronto, eu havia construído meu ponto de partida!

Minha pesquisa foi crucial pra colorir o cenário proposto. Não só li sobre as batalhas que a FEB participou, mas também o contexto de guerra e de cada país destes conflitos  (Brasil, EUA, Itália e Alemanha, no caso em questão). Aprendi muito, e, mais importante, me senti a vontade pra trabalhar em cima dessas informações. Eu não almejava fazer algo estritamente preciso em termos históricos, mas queria ter uma base sólida que fosse representativa. Reuni jornais de época, fotos dos eventos e personagens, além de músicas contemporâneas ao período.

Antes mesmo de começarmos a participação dos jogadores fiz uma longa introdução sobre os navios mercantes brasileiros torpedeados por submarinos alemães, pela pressão da UNE e da sociedade civil para o Brasil declarar guerra ao Eixo, bem como o esforço norte-americano para colocar o gigante tupiniquim do seu lado. O vídeo “Brazil at War“, original de época, foi riquíssimo para nossa imersão no jogo.

As marchinhas de carnaval do Brasil, as músicas saudosas italianas e as marchinhas militares alemãs deram o toque musical perfeito, e cada vez que os personagens entravam na cidade ocupada pelos asseclas de Hitler, a Westerwald Lied tocava.

Além de toda a pesquisa, meus amigos e eu trabalhamos a construção os personagens de forma bem direcionada. Aproveitei a liberdade dum sistema próprio (fiz uma versão caseira do FUDGE), e pedi pros jogadores usarem sua imaginação na hora de construir seus personagens. O resultado foi um gaúcho descendente de alemães, criador de porcos e um paulista filho de italianos, morador da Moóca e jogador do Juventus, meu! Afinal, porque não abusar dos estereótipos pra termos um jogo com toque de humor? haha.

Guilherme “Wilhelm” Orestein e Domingos “Domenico” Decocco eram novatos do exército, e após um treinamento básico, foram selecionados para a Divisão de Infantaria Expedicionária, por suas habilidades linguísticas. Pode até parecer simplista, mas me baseei num fato real, que li na entrevista do Major John Buyers, mineiro e filho de norte-americanos, que serviu como “oficial de ligação” entre os exércitos norte-americano e brasileiro.

montecastelo

FEB no Monte Castello. Fonte: História Ilustrada

Para otimizar nosso tempo de jogo, mesclei a batalha do Monte Castello e de Montese, unificando dois locais importantes, concentrando tudo num cenário que possuía uma cidade e um monte de importância estratégica na geografia da região. Os personagens agiram como “espiões”, adentrando território inimigo e coletando informações que pudessem ajudar os generais Zenóbio e Mascarenhas de Moraes a construírem suas táticas de guerra.

Foi muito legal ver os personagens interagindo com os italianos e com os germânicos, e ouvir as exclamações e surpresas deles com o que eles se deparavam, só me empolgavam a continuar enriquecendo o cenário. Enquanto Domingos conseguiu um contato com os partigiani (resistencia italiana), e arriscou seu pescoço para proteger o padre de Montese, Guilherme teve menos sorte e acabou preso pelos nazistas.

Tive a oportunidade de interpretar um general da S.S. a la Hans Landa, de Bastardos Inglórios, que fez o inferno na terra com o jovem Wilhelm, de sangue impuro. Este tentou enganar o nazista dizendo que era “gaúcho, e não brasileiro”, mas foi na hora do vamos ver que as coisas ficaram claras. O general nazista Franz trouxe quatro crianças italianas na frente do gaúcho preso, e disse que só confiaria nele se elas fossem degoladas na sua frente, saudando o führer. Sem exagero, posso dizer que me deparei com uma das cenas mais legais da minha trajetória RPGística:

O Flávio, meu amigo que interpretava Guilherme, ficou visivelmente incomodado. Pensou por alguns minutos e então, de súbito, levantou da mesa e segurou uma faca imaginária. Olhou nos meus olhos e gritou “Senta a pua!” e passou-a no seu pescoço, emulando um suicídio.

O soldado da FEB preferiu se matar do que privar a vida dos infantes, mostrando a pressão e dificuldade de se tornar decisões em situação de guerra. Animal!!

Nisso Domingos voltou pro acampamento da FEB com as informações e contatos que conseguiu, e fizemos um “fast-forward”, onde narrei a dificuldade de invasões a cidade e ao Monte Castello. Fiz isso emolundo a história (só na 4a tentativa que o Monte Castello foi tomado, depois do inverno), e também mostrando que mesmo que Domingos tenha tido sucesso na sua missão, a guerra fazia parte dum contexto muito maior, que fugia do controle dos personagens.

Após o inverno Domingos e Asdrúbal (novo personagem do Flávio) voltaram a cidade. Os próprios jogadores estavam sem ideias de como fazer o ataque ter sucesso, e foi legal (para mim, como Narrador) imaginar um desalento semelhante dos próprios combatentes, vivendo uma guerra que não acabava, vendo seus companheiros perderem suas vidas. Enquanto eles estavam lá, vendo alguns italianos sendo enforcados por terem ajudado os brasileiros e se escondendo dos nazistas, tomei certa liberdade poética e narrei a chegada da Força Aérea Brasileira, bombardeando o Monte Castello e abrindo caminho pra FEB e pro grupo montanhista norte-americano, que após meses de atraso, finalmente chegara para ajudar os brasucas.

Foi realmente emocionante narrar aquela situação, e os jogadores responderam com baita empolgação – “Agora a cobra vai fumar!!!”.

Terminamos o jogo depois da meia-noite, batendo um papo sobre a experiência que tivemos e sobre a história real. As fotos que chegaram até os dias de hoje são super interessantes, e compartilhei com eles vários depoimentos que li e até a realidade que meu avô viveu, quando veio para o Brasil depois de participar da Resistência Italiana. Foi massa demais. Terminei a noite ouvindo um “Me senti numa aula de história”.

Missão cumprida.

Grande abraço,

Chico Lobo Leal

A título de esclarecimento, conto aqui um causo bem interessante da atuação da FAB na 2a GM. Dizia-se aqui no Brasil que era mais fácil “uma cobra fumar do que o Brasil entrar em guerra”, devido ao perfil do nosso presidente, Getulio Vargas (que, ideologicamente, tinha muito mais em comum com os fascistas do que com os Aliados).

Pois bem, o Brasil saiu de cima do muro uma hora, e, num toque bem brasileiro, nosso exército ganhou um lema: “A Cobra vai fumar!”.

A cobra vai fumar

Não, a assinatura não está errada! Foi realmente o Walt Disney que fez essa caricatura, como homenagem aos pracinhas.

Outro lema bem brasileiro, diz respeito à FAB, quando treinava nos Estados Unidos. Os pilotos diziam que precisavam ter “estômagos de avestruz” pra dar conta de comer a comida gringa. Ninguém merecia feijão com açúcar no almoço… Foi nesse contexto que os pilotos desenharam seu símbolo e adotaram uma frase recorrente de um dos comandantes nordestinos: “Senta a pua!”

senta a pua

Campanha em Rokugan – Cena Onze

13/04/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Nas muralhas da Cidade da Permissão, o perigo vem a nossos heróis pela mão da lei. Kaori escapa de seu cativeiro, ao perceber que seu temido “noivo”, Doji Sasuke, chegou ao seu encalço. Neste meio tempo, Hida Lishida foi julgado em uma corte Matsu por um crime que não cometeu. Takashi, em inestimável ato de lealdade, assume o mesmo fardo, e ambos são condenados a um duelo para limparem sua honra.

Agora, os três estavam reunidose buscavam um refúgio para refazer seus planos…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

敗北 (Derrota)

A meio caminho do templo, o monge pede uma pausa, para recuperar seu fôlego.

“M-muito obrigado, p-peregrina”.

Livrando-se do inconveniente véu branco, Kaori tenta controlar as palavras, e seu coração.

“Eu… estava lhe procurando. Pois soube que tens cuidado de alguém no seu templo…”

Foi nesta hora que as luzes da razão acenderam no fundo dos olhos dele.

“Ah, então você deve ser a Kaoru… não, a Kaworu… Kawari…”

“Kaori”.

A razão brilhou mais forte.

“Isso! Então, é você mesma… ele passou a noite toda perguntando por você, ou talvez a estivesse vendo em seus sonhos.”

Os olhos da Samurai-ko se preencheram com a mesma luz, como uma estrela cadente a preencher o firmamento.

“E onde posso vê-lo?”

As palavras fogem da garganta do bonzo, antecipando a decepção em sua face.

“Eu infelizmente não sei. Depois de cuidar de suas feridas e febre por toda a noite, acabei adormecendo aos pés do seu leito. Acordei com o sol quase no alto, e o rapaz não estava lá – somente suas ataduras.”

A consternação veio, como uma praga voraz. Seria ela amaldiçoada por não conseguir um novo encontro com o amor de sua vida?

Seus pensamentos se perdiam na ruidosa multidão de ascetas, que os recepcionou na chegada do templo de Benten. A maré de súplicas e pedidos engoliu o jovem sacerdote, isolando a disfarçada Kaori no modesto jardim sagrado.

Pelo menos, até a chegada de seus companheiros…

Monastery

Tão logo o anfitrião abria as portas do templo para acolher seus ávidos visitantes, Lishida e Takashi adentram o local. O gigante abriu caminho entre os pedintes, ignorando tanto aqueles que o questionavam quanto aqueles que o reconheciam como um samurai (mesmo vestindo apenas a porção inferio de sua fiel armadura). Aproximou-se do monge, com pouquíssima sutileza.

“Precisamos de um lugar calmo, para conversarmos”.

O monge assentiu com a cabeça, conduzindo a massa de visitantes para o interior do santuário, e deixando seus três salvadores a sós no jardim.

“Preciso lhes explicar uma coisa”, pontuou Kaori. Enquanto falava, deixava os andrajos mais pesados para trás. “Meu noivo está em Ninkatoshi.”

“E nós o conhecemos?” Takashi parecia preparado para o pior quando fez esta pergunta.

“Presumo que você o conheça, Takashi-san. Seu nome é Doji Sasuke”.

O peregrino de cabelos brancos o reconheceu de imediato: um talentoso shugenja de seu clã, porém mais velho e intolerante com aqueles que julga inferiores a si próprio.

“Não posso deixar que Doji me alcance”, prosseguiu. “Se isso acontecer, provavelmente serei morta”.

Quando questionada, a herdeira da família Bayushi explica tudo que sabe: do casamento arranjado, até o golpe planejado contra a Imperatriz por seu pai, em conjunto com os Doji. Em cada gesto e palavra, existe a clareza de impedir tal movimento – não apenas por si própria, mas por toda Rokugan.

Os três planejavam suas ações, sem perceber a chegada de um viajante que, de tão satisfeito, livrava-se de seu chapéu e manto.

“Finalmente a encontrei, Imouto-chan!”

Shosuro_Aroru

“Kamui!”

mempo daquele homem parecia mais arreganhado, como se tomado pela malícia.

“É hora de irmos, Kaori. Deixe as brincadeiras de lado e vamos cumprir o seu destino”.

O ninja estende sua mão, ignorando a postura defensiva das testemunhas em cena.

“Não vamos permitir que a leve consigo”, explodiu Takashi, em determinação ímpar.

“Tolos!” A voz rouca de Kamui ressoava como um trovão. “Não ousem interferir em um assunto de família. Do contrário, terei que puni-los por tamanha petulância!”

Sem suas armas, tanto o Garça quanto o Caranguejo nada podiam fazer, senão ficar em silêncio absoluto. A Bayushi, por outro lado, deixou sua lâmina visível.

“Esta é sua última chance, Bayushi Kaori”; desta vez, a voz daquele assassino emergiu em tom baixo e soturno. “Venha comigo, ou terei que matá-la por traição”.

Decidida, Kaori encarou Lishida e Takashi, dizendo a eles o que vai acontecer. Em seguida, virou-se para o irmão mais velho e disse:

“Não irei com você, aniki. Não posso concordar com o que está acontecendo. E nada me convencerá do contrário”.

Bainha

A determinação da Samurai-ko foi posta à prova por Lishida, que tentou levá-la dali em uma investida feroz e mal calculada – o bastante para ser evitada. Takashi, por sua vez, permaneceu quieto; reconhecia o direito da jovem a um confronto por sua honra, e sentia-se satisfeito em testemunhar aquilo.

“Vamos procurar um lugar digno para lutarmos”, ela sugeriu. “O templo de Benten não é lugar para derramarmos sangue…”

A frieza nos gestos de Kamui o distanciava do irmão sereno que a jovem teve durante a infância. E isso a machucava intensamente.

“Pouco importa para mim, já que posso matar aqui o amor estúpido que a colocou contra seus irmãos de sangue!”

Katanas ao ar, cada um assumiu sua postura de combate. O pôr-do-sol inundava o jardim com a mais pura tristeza. Tomando para si a responsabilidade dos árbitros, o yorei-ke esperou o cair da primeira folha de bambu naquele instante para dar o sinal:

“Lutem!”

Os reflexos bem treinados de Kamui o favoreceram no arranque, com sua espada arrancando sangue de sua antes amada irmã em um corte preciso, na coxa direita.

Entretanto, este ataque abriu a guarda para sua adversária que, com impressionante técnica, girou a espada para o ataque certeiro.

O duelo terminou ali, com a lâmina do ninja alçando vôo, até cravar no solo, aos pés do árbitro. Kaori rendera seu inimigo em um único, e esplêndido, golpe.

“Pare com isto, irmão. Esta luta está terminada”.

Tudo que Kamui fez foi aproximar a lâmina de sua oponente ao pomo-de-adão, com os dedos.

“Neste caso, termine o que começou”.

O peso da mágoa tomou-lhe a garganta, fazendo suas mãos tremerem. As lembranças de sua vida envolvendo aquele homem passavam por sua cabeça, como se vivesse tudo aquilo outra vez – dissuadindo-a do que deveria fazer.

“Eu… não posso fazer isso. Você é meu irmão, e não quero ter o sangue em minhas mãos”.

O amargor em suas palavras atingiu Takashi e Lishida, que a tudo aquilo assistiam. O Caranguejo permaneceu no torii, para garantir que ningué interferisse na contenda; já o Garça ficou mais próximo, para intervir caso aquele homem colocasse Kaori em perigo.

“Venha comigo”. Desta vez, foi o momento dela estender a mão. “Em vez de se entregar a uma morte sem propósito, venha viver ao meu lado, aniki“.

O gelo nos olhos de Kamui se desmanchava em lágrimas. Baixou o mempo, revelando seu rosto fino e bem talhado para todos.

“Você diz que me ama, mas não me honra com uma morte digna? Prefere me manter vivo, como um fantasma sem lar e descanso, por um desejo egoísta?”

O silêncio não poderia soar mais triste, se ele não constinuasse a falar.

“Você quer transformar esse amor em vingança, me fazendo caçar você como um animal selvagem, apenas para se divertir com o meu sofrimento?”

Desta vez, quem chorou foi Kaori, mal percebendo que o ninja aproximou a lâmina um pouco mais, no seu pescoço.

“Por favor, imouto-chan… faça valer a sua escolha”.

Ela fechou os olhos, e fez valer o anseio de seu irmão mais velho. Moveu a lâmina em um arco perfeito, terminando apenas com o baque do mempo tocando o solo.

Aos pés de Takashi, jazia a cabeça de Bayushi Kamui.

L5R-Scorpion Mon

つづく (“Continua”…)

P.S: Acesse a ena seguinte por este link aqui.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 25 outros seguidores