Skip to content

O Mundo Fantástico de Rubra

17/11/2016

Como entusiasta da boa ficção, tenho me impressionado bastante com o trabalho de artistas nacionais neste campo nestes últimos tempos. Uma prova disso eu compartilhei com vocês, ao divulgar o financiamento coletivo de Mare Rosso (que conseguiu alcançar impressionantes 200% de arrecadação).

Hoje, apresento a vocês o que considero desde já uma pérola da literatura fantástica nacional: Rubra, a Guerreira Carmesim, escrito por Gaby Firmo de Freitas e publicado pela Editora Pandorga.

rubra-capa

O livro em si já impressiona, pela fenomenal arte de capa – também criada pela Gaby. Só a partir dela, já podemos esperar por um conteúdo impactante, não é mesmo?

Se você pensou dessa forma, digo que acertou em cheio. Bebendo das fontes mais clássicas da literatura fantástica (como Tolkien, por exemplo), a autora nos transporta para um mundo muito distinto do nosso, dividido pela intolerância. De um lado, os Humanos tentam tomar as rédeas do mundo com sua arrogância interminável; do outro, os Selvagens, uma raça de metamorfos, tenta resistir bravamente. Muitos destes já foram condenados à escravidão, servindo os Homens para todo tipo de finalidade…

Para libertar seus parentes puros, os Meias-Orelhas (povo resultante do cruzamento entre Homens e Selvagens) marcham de seus desertos rumo ao imponente reino de Duine, que já enfrenta seus próprios problemas, para declarar guerra. E, no meio disso tudo, está Rubra – uma Selvagem inocente, escondida da opressão comum a seu povo e com um dom que a difere dos demais…

akkikana___the_fantasy_world_of_dragons_by_kinan666-d93k7f4

Akkikana, o mundo de Rubra

É impressionante notar o trabalho da Gaby em construir este mundo, em todos os seus detalhes: costumes, religiões, costumes… tudo é descrito com riqueza ímpar, como se realmente estivéssemos visitando uma cultura realmente consolidada em nosso mundo.

Detalhes estes, inclusive, que conquistam o leitor à medida que a leitura avança: personagens cativantes, alto nível descritivo nas cenas, histórias paralelas se desenvolvendo (a jornada pessoal de Rubra, e a marcha dos Meias-Orelhas de Karesh até Duine), ilustrações de encher os olhos, mistérios a ser desvendados…enfim, Rubra – a Guerreira Carmesim é um livro para encher os olhos, e a imaginação, principalmente pra quem já se aventura neste tipo de mundo pelo RPG…

“Então, já que você falou de RPG… existe uma chance de jogar no mundo de Rubra?”

Eu imaginei que você perguntaria, meu caro leitor. E o que posso lhe dizer por ora é: aguarde, e confie. ;)

Então, se você aprecia uma boa história de fantasia medieval, não perca tempo e procure por Rubra na livraria mais próxima de você! Eu ouvi dizer que a Saraiva ainda tem alguns volumes, então é melhor correr atrás do seu antes que a ira dos dragões desperte com a sua insolência…

 

Que Luna os ilumine, e até a próxima!

“Welcome. Come freely. Come safely; and leave something of the happiness you bring”

11/11/2016

Esse post tem caráter mais reflexivo, e, dentre outros coisas, também contém certa dose de agradecimento. Dessa forma, ele será retratado primeiramente em inglês. Se você deseja lê-lo em português, peço que você arraste a barra do seu navegador e pule para o final.

I really believe that there are many ways to be satisfied with our hobby. As I have previously mentioned, one of the best aspects of the RolePlayingGames is the ability to provide a “joint experience” with your friends. Characters are just characters, but, still, we are the ones which use their clothes and costumes.

As a Storyteller/Dungeon Master, there is another great way to be satisfied, and it’s definitely presenting the RPG to other people. I had the opportunity to do that a few times, and, for me, besides the big responsibility on my shoulders, it represented really gratifying moments. I still remember with a smile on my face one reaction I heard, of a newbie friend I had at that time: “Wow, I felt like I was in a movie”.

Tickles in the soul.

 

Last but not least, there is some sort of pleasure in showing something you created. Influenced by several weirdos from all over Brazil, I’m going on the game designing way, and, finally, I’m finishing my own RPG. I have already mentioned it a few times in the blog before, but so far it was still in my drawer, waiting to be shaped. I can gladly say it’s almost ready now :)

Well, last week I had the opportunity and honor to reunite all the factors I mentioned above: I presented my own roleplaying game to very good friends of mine, who were new to this world.  The icing on the cake was the fact that it was the first time I was going to be the Storyteller using English. In some way, it was the first time for all of us that day.

Ágora, my RPG, is situated in the Ancient Greece. Players are poets who tell the stories of their heroes, reunited by a Host, a poet which works as… well, a host. I had this last role, and we told the stories of Ulisses, Demostenes and Johannes, heroes of Hidropolis.

The three players dove right away in the game, and, already at the beginning, I was surprised by one thing: two of them knew ancient Greek! A pleasant surprise which resulted in astonishment when I took a look at their character sheets:

 

p1050971

Real business.

Since the beginning, while we were creating the city of Hidropolis together, players/poets already understood that, differently for board and electronic games, the Ágora creation boundaries were veeeeery unusual. After all, Hidropolis were entirelly created by ourselves!

p1050973

Hidropolis with its main features: The Hill of the Gods, the caves/dungeons which might lead to the Underworld, the temple of Poseidon, market and “Gods Inn”

The heroes had very different personalities (influenced by their platonic elements), and we had one very interesting rivalry among Ulisses and Johannes.

When I introduce RPG for new players, as a veteran, I always have some sort of anxiety before the game starts: “How will be the game immersion? Will they clearly understand how the game works?”

In addition, the Ágora game is based on the contribution of each poet to the history. The Host is nothing more than another poet in this shared storytelling. This process is not centralized…

Without any exception, I’ve always gotten surprised when doing the playtests for Ágora, with veterans or freshers in RPG. As my dear friend Eduardo Caetano would say: storytelling is one activity that is part of the essence of humanity.

What an amazing experience.
Players got so used to the game, that, at some point, after one event with the Hidropolis mayor, one of them claimed he would run for the next election “to took back their city”.

Hahahahaha

(Trump kept repeating that on their campaign, and, last week, we could still laugh at this. Not anymore, I guess).

The adventure had a bunch of very unexpected events (but, as I’ve learned playing this game, it is completely impossible to prepare something in advance for Ágora), and I had a lot of fun. Satisfaction, proud, joy.

I would like here to deeply thank my dear friends Frederico, Thierry and Derek for this opportunity. Be welcome to the RPG world: “Come freely. Come safely; and leave something of the happiness you bring”.

Lastly, I leave here Demostenes’ testimonial about his game experience:

I have always been a huge fan of fantasy novels, but it was my first time with role playing games. The experience was a total discovery. At first, I was a bit uneasy because in Chico’s game, we, the players, are responsible for a big part of the story and world building. And I was not used to be on that side of the storytelling. However, it turned out to be easier than expected and the result was worth it. While we had the opportunity to influence the story, our influence was still limited. Other players’ actions or Chico’s interventions made it so that we had to adapt to unforeseen events. This is why it was so easy to immerse ourselves in the story, even more than when reading a novel or playing a boardgame for example. At one point, we were so taken by the game, that we spent ten minutes arguing between us about the best way to place the troups on the battlefield!

Merci beaucoup mon amie,

:)

Roll the bones,

Chico Lobo Leal

 

——————————- [Portugese version]————————-

 

Acredito que há diversas maneiras de se sentir realizado com o nosso hobby. Como já mencionei em outro momento, um dos grandes trunfos do RPG é proporcionar uma experiência conjunta, com seus amigos. Personagens são personagens, mas, no fundo, somos nós que estamos ali dentro.

Como Narrador, outra maneira de se sentir satisfeito é apresentar o RPG para as pessoas. Tive essa oportunidade uma ou outra vez, e pra mim, à parte da responsabilidade nas minhas costas, foram momentos muito gratificantes. Até hoje lembro com um sorriso algo que ouvi de uma amiga neófita, hoje esposa de um grande amigo meu: “Puxa, me senti dentro de um filme”.

Cócegas na alma.

Por último, mas definitivamente não menos importante, há certo prazer de mostrar algo “seu”. Influenciado por doidões de todos os cantos do Brasil, engatinho no longo trajeto de game designing e, finalmente, estou na reta final do meu próprio jogo. Aqui e acolá já falei algo dele aqui no blog, mas até então ele sempre estava na geladeira, aguardando pra ser lapidado. Não mais.

Pois bem, semana passada tive a grande honra de unir esses três fatores: apresentei o RPG, e o meu próprio jogo, para bons amigos. Pra coroar o momento, ainda fiz isso tudo em inglês. De certa forma, era a primeira vez de todo mundo.

Meu RPG, o Ágora, se passa na Grécia antiga. Os jogadores são poetas que contam a história de seus heróis, reunidos pelo Anfitrião, o poeta que “organiza” a reunião. Na pele deste, dei chance para os poetas contarem a história de seus personagens: Ulisses, Demostenes e Johannes, heróis de Hidrópolis.

Os três jogadores mergulharam no jogo, e, logo de cara, fiquei surpreso com uma coisa: dois deles sabiam grego antigo!  Uma grata surpresa que me rendeu espanto ao dar uma batida de olho na ficha deles:

p1050971

O negócio era pra valer.

Começando o jogo criando a cidade de Hidrópolis juntos, os jogadores/poetas já perceberam que diferente dos jogos eletrônicos e de tabuleiro que estavam acostumados, os limites dentro do Ágora era beeeeeeem mais elásticos. Afinal, Hidrópolis foi totalmente construída por nós mesmos!

p1050973

Hidropolis e seus principais locais: A Colina dos Deuses, As cavernas/masmorras que (talvez) levam para o Submundo, o templo de Poseidon, o mercado e a “Taverna dos Deuses”

A aventura se desenrolou principalmente na diferença de personalidade dos heróis (influenciada pelos seus elementos platônicos regentes), e em cima da rivalidade de Ulisses e Johannes.

Como veterano, nas ocasiões que introduzi o jogo para os neófitos, sempre fico um pouco ansioso antes do jogo começar, criando certa expectativa: “Será que os jogadores vão conseguir ‘entrar’ no jogo? Vão entender o conceito do negócio?”.

Amplificando isso, o Ágora se baseia na contribuição de cada poeta para a história. O Anfitrião é mais um poeta nessa narrativa compartilhada, a contação de histórias não é centralizada…

Sem exceção, me surpreendi todas às vezes que joguei o Ágora, com velhos e novos jogadores. Como diria meu querido amigo Eduardo Caetano: contar histórias é uma atividade essencial da nossa humanidade.

Que incrível que foi.
Os jogadores estavam tão à vontade, que em certo momento do jogo, após um evento com o prefeito de Hidropolis, um deles me diz que se lançaria como candidato “to took back their city”.

Hahahahaha

(O Trump ficava repetindo isso nos discursos dele, e semana passada, antes do maluco virar presidente, ainda ríamos disso).

A aventura se desenrolou numa narrativa muito inesperada (por experiência própria, é virtualmente impossível planejar algo pra esse jogo), e me diverti muito. Satisfação, orgulho, alegria.

Gostaria aqui de agradecer meus amigos Frederico, Thierry e Derek por essa oportunidade. Sejam bem-vindos ao mundo do RPG: “Venham de boa vontade. Venham em paz; e deixem parte da felicidade que os traz”.

Pra finalizar, deixo o gentil depoimento do Demostenes sobre a experiência dele de jogo:

Eu sempre fui um grande fã de livros de fantasia, mas essa foi minha primeira vez com jogos de RPG, a experiência foi uma grande descoberta. No começo confesso que não foi muito fácil, porque no jogo do Chico nós, os jogadores, somos responsáveis por grande parte da história e da própria criação de mundo, e eu não estava acostumado a estar nessa posição. No entanto, o negócio foi mais fácil do que eu esperava, e o resultado valeu a pena. Por mais que nós tivessemos a oportunidade de influenciar a história, nossa influência ainda era limitada. As ações dos outros jogadores, ou as intervenções do Chico, resultavam na necessidade de nos adaptarmos aos eventos inesperados. E isso explica o porque a imersão na história foi tão fácil, mais ainda do que quando lemos um livro ou jogamos um jogo de tabuleiro, por exemplo. Em certo momento do jogo, a imersão foi tão grande que nós ficamos dez minutos discutindo entre nós pra decidir a melhor maneira de inserir nossas tropas no campo de batalha! – T.S

Merci beaucoup mon amie,

:)

Roll the bones,

Chico Lobo Leal

 

Leeeeeeeeeeeroy Truuuuuuump!

10/11/2016

Sigo os quadrinhos do Scandinavia and the world desde que vivi no polo norte em 2012. Além de terem um humor que compartilho, eles mostram uns aspectos culturais dos povos escandinavos, nórdicos e europeus que são super interessantes.

Ontem, no despertar de um dia… hm… “unusual”, com a eleição do Donald Trump pra presidência dos norte-americanos, o mundo virtual (e o físico) foi a loucura, com mil posts, charges, vídeos e sei lá mais o que.

O SatW não foi diferente, mas o que me surpreendeu foi a referência usada. Achei brilhante!

No Scandinavia and the World cada país é representado por um personagem, que utiliza suas cores e normalmente é bem estereotipado.

Pois bem:

Olha que legal a referência a um “clássico” dos games! hahahaha

O quê? Você não pegou a dica?

Te apresento então, nosso garoto Leroy: Leeeeeeeroy Mmmmmjeeeenkinssssss
Dá pra ver o vídeo a partir do 1 minuto.

Roll the bones,

Chico Lobo Leal

 

 

Campanha em Rokugan -Cena Dezessete

23/10/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Passado o furor e tensão instalados em Ninkatoshi, nossos heróis se recuperam das mazelas que sofreram. Kaori precisou enfrentar um inimigo do passado – o malicioso Bayushi Terada – para se manter viva, com o apoio de Takashi. Este, por sua vez, precisou lidar não apenas com o desafeto de sua aliada, mas também com Doji Sasuke – aquele a quem a jovem fora prometida…

O Caranguejo, por sua vez, precisou enfrentar Miya Tetsuo (possuído pela entidade Ganryu) e Matsu Koji (também vítima de seus encantamentos), quse morrendo por isso. Mais do que isso, ele agora enfrenta a culpa de ter assassinado brutalmente o amado de Kaori…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

出発 (Partida)

Takashi ajudou Doji-sama em sua breve caminhada. Nos portões do imponente Kyuden da Cidade da Permissão, um homem esguio e bem asseado os esperava.

“Peço-lhe desculpas pela descortesia, Doji-dono.”

O sujeito se curva respeitosamente, pouco antes de retomar suas palavras.

“Sou Ikoma Dewanosuke, o daimyo desta cidade, e como tal assumo total responsabilidade por tudo que aconteceu nestes últimos dias.”

A peculiar arrogância do cortesão aflorou em sua postura, e breves palavras.

“É bom saber disso. Afinal, este caos quase me tomou a vida”.

Takashi apenas observou àquilo, em silêncio absoluto. Percebera o declinar dos olhos do anfitrião.

“Enfim, leve-nos ao seu prisioneiro.”

Na mente do peregrino, as palavras de Sasuke pairavam, sem nada entender. Logo, Dewanosuke os conduzia palácio adentro, sem nada dizer.

“Soube por meus vassalos de que capturaste aquele que tentou me matar. E acho justo que me leves até o bastardo, para que eu conheça seu rosto.”

“Irei levá-lo até lá, Doji-dono. Mas antes, gostaria que me acompanhassem…”

Juntos, contornaram a torre por seus jardins – que Takashi conhecera, há pouco tempo atrás, em seu confronto contra as irmãs Megumi. Chegando aos fundos do palácio, o jovem duelista não pôde deixar de reparar nas lápides que lá estavam, lado a lado.

M        M

a        a

t        t

s         s

u        u

H       K

i        o

b       j

i       i

k

i

Os serviçais que ajeitavam as lápides estavam terminando seu trabalho, deram lugar aos visitantes. Entregaram ao daimyo uma urna bem trabalhada, que antes estava sob sua proteção.

“Sei que não sou digno de fazê-lo. Mas, em nome dos Leões que vocês defenderam em vida, peço que as Fortunas velem o seu descanso”.

Abriu a urna, despejando sobre as lápides as cinzas de pai e filha, juntos em vida e morte.

“Que seus feitos jamais sejam esquecidos, mesmo pelas gerações que ainda virão”.

Se Takashi expressava todo o respeito pela cerimônia, Sasuke assistia àquilo com a clara expressão de enfado no rosto.

Tão logo a cerimônia se encerrou, o trio caminhava novamente pelos arredores do Kyuden. À sua volta, muitos etas empenhavam-se em limpar as marcas de sangue nas paredes e muros, inclusive dentro do palácio. Dewanosuke guiou seus visitantes pela escadaria, até parar subitamente em um dos aposentos no caminho, vigiado por um sentinela dos Leões.

Em seu interior, Bayushi Terada estava confortável em seu leito. O tórax desnudo mostrava bandagens e curativos, provavelmente recebidos na noite anterior.

“Mas que surpresa agradável!”

L5R-Crane Mon

Após uma hora na barraca de takoyaki, Lishida e Kaori caminharam juntos pela cidade (algo que não conseguiram fazer desde sua chegada). Procuravam por um lugar calmo, para que pudessem harmonizar consigo mesmos.

O único lugar que não lhes remetia aos acontecimentos dos últimos dias era, ironicamente, um santuário dedicado à Bishamon, a Fortuna da Força. Em volta de sua estátua, um campo aberto e sem jardim – provavelmente usado para duelos, ou quaisquer outras demonstrações de força.

Sentando-se aos pés do monumento, Kaori trouxe consigo um odre de chá que comprara no passeio. Servindo a si própria e ao guerreiro, deu início a uma cerimônia do chá (tradição bastante comum entre os rokugani, mas desconhecida para os membros do clã Caranguejo).

Com mesuras e movimentos exuberantes, o ato de servir chá mais parecia um instante de louvor aos espíritos. E tudo isso contribuía para expandir a consciência e sentidos daquele casal. Assim, ao sorver os primeiros goles, o mundo se desabrochava para eles: uma torrente de sabores, aromas e sons os dominou, tão logo fecharam seus olhos.

Lishida percebia o sussurro dos Kami ressoar pelo vento, como uma árvore se deixando levar pelo balançar de seus galhos. Era uma sensação maravilhosa e indescritível, como apenas o êxtase da vida poderia ser, e que aquela dama compartilhou com ele.

O abrir dos olhos aconteceu apenas ao anoitecer, com a satisfação de novos ares e perspectivas sobre o mundo que os cerca. Foi nesta hora que o Caranguejo se levantou, para saudar a Fortuna da Força.

Com um odre largo de sake, derramou parte da bebida aos pés da estátua e bebeu – não apenas em honra à Bishamon, mas também àqueles que viu utar e morrer naquela cidade: Matsu Hibiki e seu pai, Matsu Koji.

Ao brindar pelos falecidos, tanto ele quanto Kaori sentiram a súbita mudança nos ventos, que sopravam agora das costas do monumento, por alguns segundos. A jovem Samurai-ko, que registrava tal paisagem em seu caderninho, sentiu-se tocada por aquilo, provavelmente encarando-o como uma resposta divina.

L5R-Crab Mon

“Então, esse é o seu suposto assassino?”

Sasuke deixava sua insatisfação soar com inquietante clareza; Terada, no entanto, parecia se divertir com tudo aquilo, encarando Takashi com desdém.

“Você o conhece, Doji-dono?”

As palavras de Sasuke tornaram-se pesadas, como uma reprimenda a um servo.

“Claro que conheço! Este é Bayushi terada, cortesão e mensageiro de Bayushi Nitoshi, campeão do clã Escorpião. Pela palavra de Nitoshi-san, esse homem está incumbido de procurar por minha noiva fugitiva…”

Matreiro como uma raposa, o Bayushi aproveitou tal ensejo para atacar o até então quieto Takashi.

“Inclusive, foi a providência divina que o trouxe até mim na companhia desta homem, Doji-sama“.

Os olhos cansados do veterano Doji se estreitaram.

“Por que dizes isso, Terada-san?”

“Porque o homem ao seu lado sabe onde Kaori-san está”.

Os olhos do velho Garça se agigantaram sobre seu acompanhante, ávidos pela verdade. Este último, no entanto, se justificou com sinceridade ímpar.

“Não sei onde ela se esconde, Doji-sama. Eu apenas a protegi do ataque traiçoeiro deste que me acusa”.

Ignorando as palavras de seu acusado, o cortesão ferido continuou.

“Estava prestes a entregá-la para o senhor, quando esse espadachim intrometido apareceu para ‘defendê-la’. Inclusive, me feriu com a sua katana – sem demonstrar o menor respeito e consideração para comigo”.

Sasuke permaneceu indiferente, mantendo seus olhos brilhantes sobre o yorei-ke.

Takashi-san, eu lhe peço: ajude-me a encontrar Kaori-san; nosso casamento é vital para manter a paz no Império…”

O jovem Kakita, se antecipando como em um duelo, se desvencilhou do idoso nobre.

“Perdoe-me, Doji-sama… mas não posso fazer isso. Como estou cumprindo meu Musha Shugyo, não devo nenhuma responsabilidade perante o Clã Garça”.

Com o olhar endurecido pelo ressentimento, o Daimyo Doji passou a enxergá-lo como um reles vassalo; talvez, até menos que isso.

“Neste caso, não temos o que conversar”.

Acenou com a mão para Terada, como se o convocasse para acompanhá-lo. Encarava o andarilho com frieza mortal nos olhos, enquanto que o Bayushi ria com escárnio de sua cara.

“Se nos cruzarmos de novo, você irá se arrepender!”

Em silêncio, Dewanosuke chamou Takashi para seguir outro caminho…

L5R-Scorpion Mon

Kaori e Lishida chegaram caminhando até a enfermaria. Junto com as primeiras marcas da noite, encontraram-se também com Takashi e Dewanosuke, que também chegavam ao local.

“Gostaria de levá-los comigo, para jantar”.

Todos consentiram, e o daimyo da cidade os levou para um modesto restaurante nos arredores, em um local intocado pela rebelião da noite passada. Pediu para si um generoso prato de lamen, acompanhado pelos demais – com exceção do Hida, que optou pelo seu prato preferido.

Takoyaki, por favor”.

Dewanosuke riu com bastante descontração, em uma postura bem distinta do esperado dentre os Leões. Seus olhos não desgrudavam de Kaori.

“Então, esta é a noiva prometida de Doji Sasuke”.

Kaori, até então imersa em calma e tranquilidade, acabou regressando à realidade com as palavras de Takashi:

“Precisamos tomar cuidado, porque Bayushi Terada se aliou a Doji-dono“.

O suspiro dela expressou a insatisfação dos últimos dias.

“Isso quer dizer que não teremos paz alguma aqui…”

A troca de olhares despertou Lishida para o assunto.

Ikoma-sama… você pode me conseguir algum documento real que possa me permitir a entrada em Toshi Ranbo, ou que me aproxime da Imperatriz?”

Quando questionado, Dewanosuke ponderou por alguns instantes.

“Hum… pelo jeito, irão partir esta noite… posso conseguir sim, se me derem algumas horas para isso”.

Ele agradeceu, meneando a cabeça pouco antes de voltar a comer.

O grupo estava se divertindo na presença daquele homem, como se passasse séculos sem fazê-lo. Comeram e beberam, até que a satisfação os tomasse por completo.

“Bem… já é tarde, e preciso me retirar. Mas não se preocupem com nada: deixarei os sentinelas de sobreaviso, para permitir a sua passagem”.

Dewanosuke cumprimentou a todos com discrição, pouco antes de permitir que os Bushis tomassem o seu caminho.

L5R-Lion Mon

つづく (“Continua”…)

A contribuição dos cenários nos RPGs

18/10/2016

Seis anos atrás eu escrevi um post sobre a diferença de Sistemas e Cenários aqui no blog. Pra mim é curioso ver como minha própria concepção sobre o RPG mudou, de acordo com minha trajetória no hobby. Não quero jogar fora o que foi escrito antes, mas acho digno dar uma atualizada no tema, que é bem importante. Desta vez, no entanto, falarei sobre Sistema e Cenário em posts diferentes. Hoje, especialmente, o segundo vai receber minha atenção.

O cenário

cenario-sr-brasil

Na TV, no teatro ou no RPG: o cenário pode ter diferentes graus de relevância (na imagem: cenário do Sr. Brasil, [maravilhoso] programa da TV Cultura)

Tenho certeza que não chocarei o mundo ao dizer que o cenário, ou a ambientação, se preferir o termo, traz um elemento crucial para o jogo. Ele vai ser um dos imãs que atrairão os jogadores à história. É pela riqueza de detalhes, embasamento e cor que a imaginação coletiva vai ser construída e toda a magia realizada.

Pra mim, que venho de uma escola mais “artesanal” de RPG (comecei a jogar sem saber da existência de sistemas), o cenário sempre foi muito importante. Talvez até pelo meu gosto em literatura: Senhor dos Anéis, Crônicas de Dragonlance, todos os livros de Discworld…

Na realidade, já joguei vários RPGs que possuem um sistema que eu abomino, ou, sendo menos dramático, desgosto em algum nível, mas, devido ao cenário cativante, acabei gostando e até jogando mais vezes. É o caso de Pendragon, situado na Camelot do Rei Arthur; CODA, na Terra Média de Tolkien; ou mesmo o Burning Wheel, de Mouse Guard.

O cenário, inclusive, é uma ótima maneira de adicionar camadas à um RPG, ou à um sistema em específico. Os diversos “hacks” de Apocalypse World (que incluem ligeiras alterações nas mecânicas), ou os cenários de Dungeons & Dragons, ilustram muito bem isso. A experiência de se jogar Sertão Bravio ou Night Witches (AW) é tão diferente quanto jogar Darksun ou Dragonlance (D20). Esses exemplos, inclusive, numa opinião bem pessoal, ilustram uma situação em que o cenário “atropela” o sistema.

hobbiton-movie-set-tour-new-zealand-9

Dispensa apresentações. Só digo uma coisa: é possível visitar Hobbiton na Nova Zelândia!! *_*

Voltando ao já mencionado Senhor dos Anéis, tá aí um ótimo exemplo onde o cenário é um ator por si só: A Terra Média pulsa. Tantos nos livros quanto nos filmes,  a TM se mostra como um elemento no mínimo tão importante quanto os personagens (senão mais). Esse efeito, maximizado pela riqueza de detalhes e história, é capturado muito bem pela trilha sonora nos filmes: o gatilho.

Pra mim um cenário bem trabalhado, aliado à uma boa história e bons jogadores, exclui a necessidade de um mestre, ou até de um sistema. Pronto, falei! haha

Sobre o sistema, entendido aqui como um conjunto de regras, falarei em outro post, que linkarei à este.

Grande abraço, e roll the bones,

 

Chico Lobo Leal

Apresentando… Campanha em Mouse Guard

11/10/2016

Saudações, rolistas e amigos do blog! Hoje, nós trazemos uma novidade para vocês…

Uma campanha no sensacional mundo de Mouse Guard!

Para quem não conhece, este RPG bebe da fonte do também sensacional Burning Wheel, de Luke Crane – uma versão simplificada desse sistema, para falar a verdade. Ambientado nos quadrinhos homônimos de David Petersen, ele transporta os jogadores para um mundo de ratos selvagens, organizados em um cenário muito similar à nossa Idade Média.

card-back

Nesse contexto, os personagens serão representantes da Guarda – o grupo responsável por defender as cidades e cidadãos de tudo que os cerca. Cobras, Raposas, Corujas… por estarem na base da cadeia alimentar, todo animal é um perigo potencial. E, para enfrentar tais adversidades, é preciso contar com suas habilidades e (claro) com seus parceiros de função.

Enfim, sem mais delongas, vamos deixar que vocês acompanhem a campanha por si próprios. É isso mesmo: essa campanha não será posta em prosa, mas em vídeo. Assim, você aompanhará tudo que acontece na íntegra durante as sessões.

E hoje, vocês ficarão com a playlist completa da Campanha, com tudo que aconteceu até agora (as sessões gravadas na íntegra). Basta apenas dar o play no link abaixo, e se divertir conosco!

Ficou com curiosidade de ler mais sobre o Mouse Guard?
Leia o post do Chico Lobo Leal sobre o tema!

Que Luna os ilumine, e até a próxima!

 

Épico RPG, um genérico brasileiro em construção

05/09/2016

Desde que o Aventurando-se foi criado, há seis anos, tivemos uma trajetória mais ou menos constante na divulgação de RPGs alternativos (começando pelo ótimo Classroom Deathmatch, inspiração pro blog), e compartilhando o pensamento e as aventuras dos nossos autores no nosso querido hobby.

Nesse meio, sempre é um prazer incentivar a produção nacional de RPGs, mas, como já é esperado, sou influenciado pelos jogos que tenho contato. Ou seja, meu círculo doidão de amizades nesse mundo direciona muito do que experimento. Sendo amigo do ciborgue do Arroio do Silva então, fica difícil conseguir testar tudo que é produzido (se você não sabe do que eu estou falando, tome vergonha na cara e clique no Jogos a Lá Carte!!).

No entanto, vira e mexe surgem algumas coisas diferentes no horizonte, e é com prazer que o Aventurando-se apoio essas iniciativas. Sem demoras, lhes apresente o Épico RPG.

Épico RPG

Nas palavras do autor, Rafael Lopes Vivian:

Épico RPG usa um sistema original brasileiro para jogos de interpretação em qualquer cenário que a imaginação conceber.

Ok, um sistema genérico. Mas, e aí?

Fácil de aprender: diferente da maioria dos sistemas de RPG avançados, o Sistema Épico parte de uma base simples, com poucas regras para decorar e palavras familiares para qualquer um. Cada jogador só precisa de dois ou três dados comuns de seis faces.

Muito flexível: qualquer tipo de história ou cenário funciona no Épico RPG. Alta aventura, fantasia mágica, ficção científica, drama, terror, sobrenatural, super-heróis…

Mecânica realista: uma raridade hoje em dia, o Épico RPG busca um equilíbrio que a maioria dos jogos nem tenta ter. Mas não precisa ter medo de regras complicadas porque não tem: o mestre usa o nível de complexidade que desejar. Quer que o combate acabe rápido com menos roladas de dados e consultas ao livro? Vai firme. Mas se quiser abrir fogo de supressão contra um batalhão ou dar um chute no saco do inimigo, a regra está lá. Buscamos um realismo de ação, não de documentário.

Beta aberto grátis: o manual com todas as regras está disponível gratuitamente e é 100% jogável. Nesta etapa queremos que o máximo de pessoas possível comente e se envolva no desenvolvimento. Qualquer um que quiser pode até ser co-autor do projeto.

Ambicioso!
Gostou da proposta?

Cheque o próprio site do jogo:

Site do projeto: epicorpg.com.br
Download grátis do beta aberto completo: epicorpg.com.br/download
logo e camelot spire

Arte por Michael Richards, publicada sob licença Creative Commons Atribuição 3.0. Arte editada: recorte, brilho, saturação

 

Roll the bones,

Chico Lobo Leal