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Campanha em Rokugan – Cena Doze

03/05/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Fugindo de tudo e de todos, Kaori reúne-se com seus amigos, Lishida e Takashi, para comprtilhar informações sobre a situação atual – e sobre como lidar com ela. Foi nesta hora que Bayushi Kamui, o persistente irmão de Kaori, apareceu para levá-la de volta a seus compromissos. A discordância da jovem os levou a um duelo, seguido da brutal justiça que os duelos exigem.

Após a sua derrota, Kamui reclamou o direito de morrer, e não restou escolha para Kaori senão cumpri-lo…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

決闘 (Duelo)

Kaori sequer percebeu o cair da noite, tamanho foi o seu choque. Durante a cerimônia funerária que o monge preparou para Kamui, ela permaneceu em silêncio. Lishida assumiu a responsabilidade perante os ascetas que ali estavam, os acalmando e afastando das acomodações do templo. Takashi, por outro lado, ajudou nos preparativos da cerimônia. No fundo, eles prestavam seu respeito perante a dignidade daquele homem, que preferiu a morte perante a desonra, e suas possíveis consequências…

Com o término da solenidade, os dois Bushi despediram-se da inconsolável Samurai-ko. Confiaram-na ao monge que, também comovido com os acontecimentos, ofereceu abrigo a ela – no lugar mais calmo de Ninkatoshi, para que seus pensamentos possam ser organizados.

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Com o propósito de descansar e diminuir as tensões para o duelo de suas vidas, os jovens Hida e Kakita voltaram ao dormitório dos Leões, atravessando pelos olhares hostis de boa parte dos soldados.

Vencido pelo cansaço, Lishida se deixa levar pelo sono pesado. Já Takashi não teve a mesma paz; adormeceu, e logo se viu acordado pelo aroma ímpar de fumo que dominou o seu quarto.

“Ah… não desejava lhe acordar, meu jovem”, pigarreou Munisai, antes de tragar novamente de seu cachimbo.

“Não se incomode, Munisai-dono. Sinto-me honrado pela sua presença, depois de devolver-me o presente que lhe dei antes…”

Da longa pausa, alguns anéis de fumaça emergiram no ambiente.

“Presente, você diz? Eu tomaria isso mais como um dever, meu caro”.

Da manga vazia de seu kimono, Munisai retira sua wakizashi e a oferece para Takashi, como um mestre faria para seu pupilo.

“Na verdade, por ela eu continuo existindo, sem a paz que os mortos merecem. E a entrego a você, para que suas mãos possam me conceder o sono eterno”.

“Então, diga-me o que devo fazer”. O jovem espadachim mostrava-se solidário, por entender um pouco mais da frustração de seu estranho visitante.

O velho, é claro, engoliu em seco.

“Preciso que você derrote meu filho, Mirumoto Manji. Ele respeita somente a língua do Kenjutsu, e pode ser dissuadido de seus planos se vencido em combate”.

Na mente de Takashi, o relance do homem que encontrou no mercado veio a seus olhos. Sem dúvidas, era ele.

“Você… já ouviu falar de Ganryu, meu jovem?”

Yorei-ke se lembrou da jovem que o desafiou, em Ravina Serena. Afinal, sua maturidade e apreço às regras era comparável aos membros de sua própria família.

“Tive a honra de enfrentá-la em um duelo, alguns dias atrás. Inclusive, foi com ela que encontrei a sua lâmina”.

Munisai pigarreou, contrariado.

“Estou falando do espírito Gaki da vingança, a dama Ganryu. Alimentando-se do mais puro ódio, ela se apossa de mentes fracas para semear o caos entre os seres vivos”.

Após uma nova tragada, ele continuou.

“Meu filho tem um pacto com essa entidade, que vaga pelo Império em inúmeros rostos. Você precisa impedir a sua vingança – não apenas por mim, mas por toda Rokugan!”

Antes que pudesse responder aos apelos do velho, batidas secas na porta de seu quarto trazem o sonhador Takashi à realidade, junto com uma voz grave e familiar:

“Chegou a hora”.

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À luz da lua cheia, Lishida e Takashi são recepcionados em um exuberante jardim, no entorno do Kyuden local. Conduzidos por uma das duelistas desta noite, os Bushi encontraram Matsu Hibiki, que trazia seus respectivos daisho à mão.

“Bem-vindos ao seu julgamento”, saudou. Agora que as fiéis Irmãs Megumi estavam novamente reunidas, cada uma delas assumiu sua postura favorita de combate – entre o Kenjutsu, a postura defensva e o Iaijutsu.

Enquanto entregava as armas para os julgados, a capitã explicou as normas do duelo:

“Vocês enfrentarão as três Irmãs Megumi, orgulhosas Samurai-ko e leais seguidoras da família Matsu. Eu serei testemunha do confronto, responsabilizando-me pelo veredito assim que a luta se encerrar. A morte, ou rendição, das partes assegura o fim do duelo e, aos derrotados, restará somente o Seppuku. Fui clara?”

Acenando positivamente, os desafiados se preparam para lutar. Takashi encarou prontamente a Megumi duelista, pouco antes de assumir a postura do Iaijutsu. Todo um combate se desenrolou nesta troca de olhares, e o seu desfecho resultaria no golpe decisivo do herdeiro Kakita, que forçou a rendição da guerreira pelo desarme.

Lishida, por outro lado, encontrara dificuldades em lutar com a combativa Megumi – a mesma que o constrangeu ao lhe acusar de assassino. A Katana que ganhou de seu clã quase se perdia em suas mãos, de tão pequena e leve (pelo menos, em relação ao seu fiel “companheiro de lutas”). Frente a uma feroz adversária, capaz de equilibrar ataque e defesa em momentos excepcionais, ele precisou libertar a ira e descontrole que o discerniam entre seus irmãos – e nem mesmo a elevada perícia de esgrima da oponente a salvou da morte certa.

Consternada com a rápida derrota de suas irmãs, a Megumi restante avançou com a espada sobre Takashi, em uma previsível investida. Sua navalha trespassou o tórax exposto com relativa facilidade, quase tingindo de sangue todo o jardim.

O julgamento tinha se encerrado, e Hibiki honrou sua palavra naquele momento, junto com a Megumi sobrevivente. Ambas tinham suas Wakizashi em punho.

Bishamon os honrou com a verdade, e agora vocês são homens livres. No entanto, peço que fiquem para que possamos honrar nossa promessa”.

Aproximaram-se de Lishida, que logo se pôs a falar:

Matsu-san… vocês não precisam passar por isso. Podem servir conosco na Muralha Kaiu, em vez de entregar suas vidas dessa forma”.

O rosto antes emoldurado de Hibiki em ira se dissolveu, aos poucos, em um discreto sorriso.

“Suas palavras são tolas, Caranguejo; mas reconheço seu valor. Estarei servindo minha família, provavelmente como nunca fiz antes. Só queria dizer que foi uma honra lutar com você, verdadeiro filho de Hida”.

Voltou-se para Takashi, a quem entregou um sorriso sincero e, qo mesmo tempo, inverossímil.

“Queria ter duelado com você, Takashi-dono. Ou, pelo menos, ter desvendado o enigma por trás desses olhos…”

Tanto ela quanto Megumi entregaram suas Katana para ele, pouco antes de iniciarem a tradição. Ajoelharam-se, o brilho das lâminas curtas ante a luz da lua.

No princípio do corte, via-se o esforço delas em não apenas tolerar a dor em silêncio, mas em se colocar naquela posição – no pesado fardo de provar sua pureza, em troca de sua vida…

Hitomi's_Seppuku

つづく (“Continua”…)

 

 

A Cobra vai fumar! – Narrando um RPG Histórico

30/04/2016

Semana passada eu e meus amigos adentramos caminhos nunca antes explorados por nós, se aventurando numa temática diferente, histórica. Faziam meses (anos?) que eu não tinha tempo para preparar nada, narrando sempre no improviso, mas esta ocasião fugiu a regra, e fiz uma pesquisa extensa. O projeto consistiu na narração de uma sessão na 2a Guerra Mundial, com os jogadores interpretando um grupo frequentemente esquecido: os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira.

FEB no inverno italiano

F.E.B. no inverno italiano.  Fonte: História Ilustrada

Sim senhores, pra quem não sabe, o Brasil foi o único país sulamericano a lutar na Grande Guerra, e por mais que numericamente pouco expressivo (comparando com os principais atores), nossos 25.000 combatentes lutaram contra os nazistas no norte da Itália, enfrentando a neve dos Apeninos e o fogo das metralhadoras alemãs.

O cenário era promissor, mas como efetivamente realizar a tarefa? Eu nunca havia narrado, nem ao menos jogado, qualquer RPG de Guerra, então não tinha referencia nenhuma para seguir, teria que começar do zero. Dessa forma, parti de uma pergunta: O que eu quero que os jogadores experienciem?

Pensei nos filmes de guerra que assisti, e nos relatos de combatentes que eu havia lido na minha pesquisa. Cheguei rapidamente a uma conclusão: eu queria que os jogadores sentissem o horror do confronto bélico, o desalento de estar sob a égide da guerra, que eles se deparassem com a penúria de tempos sombrios. E, claro, queria também que eles descobrissem a camaradagem, a bravura, e o papel que um soldado pode representar na lutra contra um exército opressor.

Pronto, eu havia construído meu ponto de partida!

Minha pesquisa foi crucial pra colorir o cenário proposto. Não só li sobre as batalhas que a FEB participou, mas também o contexto de guerra e de cada país destes conflitos  (Brasil, EUA, Itália e Alemanha, no caso em questão). Aprendi muito, e, mais importante, me senti a vontade pra trabalhar em cima dessas informações. Eu não almejava fazer algo estritamente preciso em termos históricos, mas queria ter uma base sólida que fosse representativa. Reuni jornais de época, fotos dos eventos e personagens, além de músicas contemporâneas ao período.

Antes mesmo de começarmos a participação dos jogadores fiz uma longa introdução sobre os navios mercantes brasileiros torpedeados por submarinos alemães, pela pressão da UNE e da sociedade civil para o Brasil declarar guerra ao Eixo, bem como o esforço norte-americano para colocar o gigante tupiniquim do seu lado. O vídeo “Brazil at War“, original de época, foi riquíssimo para nossa imersão no jogo.

As marchinhas de carnaval do Brasil, as músicas saudosas italianas e as marchinhas militares alemãs deram o toque musical perfeito, e cada vez que os personagens entravam na cidade ocupada pelos asseclas de Hitler, a Westerwald Lied tocava.

Além de toda a pesquisa, meus amigos e eu trabalhamos a construção os personagens de forma bem direcionada. Aproveitei a liberdade dum sistema próprio (fiz uma versão caseira do FUDGE), e pedi pros jogadores usarem sua imaginação na hora de construir seus personagens. O resultado foi um gaúcho descendente de alemães, criador de porcos e um paulista filho de italianos, morador da Moóca e jogador do Juventus, meu! Afinal, porque não abusar dos estereótipos pra termos um jogo com toque de humor? haha.

Guilherme “Wilhelm” Orestein e Domingos “Domenico” Decocco eram novatos do exército, e após um treinamento básico, foram selecionados para a Divisão de Infantaria Expedicionária, por suas habilidades linguísticas. Pode até parecer simplista, mas me baseei num fato real, que li na entrevista do Major John Buyers, mineiro e filho de norte-americanos, que serviu como “oficial de ligação” entre os exércitos norte-americano e brasileiro.

montecastelo

FEB no Monte Castello. Fonte: História Ilustrada

Para otimizar nosso tempo de jogo, mesclei a batalha do Monte Castello e de Montese, unificando dois locais importantes, concentrando tudo num cenário que possuía uma cidade e um monte de importância estratégica na geografia da região. Os personagens agiram como “espiões”, adentrando território inimigo e coletando informações que pudessem ajudar os generais Zenóbio e Mascarenhas de Moraes a construírem suas táticas de guerra.

Foi muito legal ver os personagens interagindo com os italianos e com os germânicos, e ouvir as exclamações e surpresas deles com o que eles se deparavam, só me empolgavam a continuar enriquecendo o cenário. Enquanto Domingos conseguiu um contato com os partigiani (resistencia italiana), e arriscou seu pescoço para proteger o padre de Montese, Guilherme teve menos sorte e acabou preso pelos nazistas.

Tive a oportunidade de interpretar um general da S.S. a la Hans Landa, de Bastardos Inglórios, que fez o inferno na terra com o jovem Wilhelm, de sangue impuro. Este tentou enganar o nazista dizendo que era “gaúcho, e não brasileiro”, mas foi na hora do vamos ver que as coisas ficaram claras. O general nazista Franz trouxe quatro crianças italianas na frente do gaúcho preso, e disse que só confiaria nele se elas fossem degoladas na sua frente, saudando o führer. Sem exagero, posso dizer que me deparei com uma das cenas mais legais da minha trajetória RPGística:

O Flávio, meu amigo que interpretava Guilherme, ficou visivelmente incomodado. Pensou por alguns minutos e então, de súbito, levantou da mesa e segurou uma faca imaginária. Olhou nos meus olhos e gritou “Senta a pua!” e passou-a no seu pescoço, emulando um suicídio.

O soldado da FEB preferiu se matar do que privar a vida dos infantes, mostrando a pressão e dificuldade de se tornar decisões em situação de guerra. Animal!!

Nisso Domingos voltou pro acampamento da FEB com as informações e contatos que conseguiu, e fizemos um “fast-forward”, onde narrei a dificuldade de invasões a cidade e ao Monte Castello. Fiz isso emolundo a história (só na 4a tentativa que o Monte Castello foi tomado, depois do inverno), e também mostrando que mesmo que Domingos tenha tido sucesso na sua missão, a guerra fazia parte dum contexto muito maior, que fugia do controle dos personagens.

Após o inverno Domingos e Asdrúbal (novo personagem do Flávio) voltaram a cidade. Os próprios jogadores estavam sem ideias de como fazer o ataque ter sucesso, e foi legal (para mim, como Narrador) imaginar um desalento semelhante dos próprios combatentes, vivendo uma guerra que não acabava, vendo seus companheiros perderem suas vidas. Enquanto eles estavam lá, vendo alguns italianos sendo enforcados por terem ajudado os brasileiros e se escondendo dos nazistas, tomei certa liberdade poética e narrei a chegada da Força Aérea Brasileira, bombardeando o Monte Castello e abrindo caminho pra FEB e pro grupo montanhista norte-americano, que após meses de atraso, finalmente chegara para ajudar os brasucas.

Foi realmente emocionante narrar aquela situação, e os jogadores responderam com baita empolgação – “Agora a cobra vai fumar!!!”.

Terminamos o jogo depois da meia-noite, batendo um papo sobre a experiência que tivemos e sobre a história real. As fotos que chegaram até os dias de hoje são super interessantes, e compartilhei com eles vários depoimentos que li e até a realidade que meu avô viveu, quando veio para o Brasil depois de participar da Resistência Italiana. Foi massa demais. Terminei a noite ouvindo um “Me senti numa aula de história”.

Missão cumprida.

Grande abraço,

Chico Lobo Leal

A título de esclarecimento, conto aqui um causo bem interessante da atuação da FAB na 2a GM. Dizia-se aqui no Brasil que era mais fácil “uma cobra fumar do que o Brasil entrar em guerra”, devido ao perfil do nosso presidente, Getulio Vargas (que, ideologicamente, tinha muito mais em comum com os fascistas do que com os Aliados).

Pois bem, o Brasil saiu de cima do muro uma hora, e, num toque bem brasileiro, nosso exército ganhou um lema: “A Cobra vai fumar!”.

A cobra vai fumar

Não, a assinatura não está errada! Foi realmente o Walt Disney que fez essa caricatura, como homenagem aos pracinhas.

Outro lema bem brasileiro, diz respeito à FAB, quando treinava nos Estados Unidos. Os pilotos diziam que precisavam ter “estômagos de avestruz” pra dar conta de comer a comida gringa. Ninguém merecia feijão com açúcar no almoço… Foi nesse contexto que os pilotos desenharam seu símbolo e adotaram uma frase recorrente de um dos comandantes nordestinos: “Senta a pua!”

senta a pua

Campanha em Rokugan – Cena Onze

13/04/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Nas muralhas da Cidade da Permissão, o perigo vem a nossos heróis pela mão da lei. Kaori escapa de seu cativeiro, ao perceber que seu temido “noivo”, Doji Sasuke, chegou ao seu encalço. Neste meio tempo, Hida Lishida foi julgado em uma corte Matsu por um crime que não cometeu. Takashi, em inestimável ato de lealdade, assume o mesmo fardo, e ambos são condenados a um duelo para limparem sua honra.

Agora, os três estavam reunidose buscavam um refúgio para refazer seus planos…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

敗北 (Derrota)

A meio caminho do templo, o monge pede uma pausa, para recuperar seu fôlego.

“M-muito obrigado, p-peregrina”.

Livrando-se do inconveniente véu branco, Kaori tenta controlar as palavras, e seu coração.

“Eu… estava lhe procurando. Pois soube que tens cuidado de alguém no seu templo…”

Foi nesta hora que as luzes da razão acenderam no fundo dos olhos dele.

“Ah, então você deve ser a Kaoru… não, a Kaworu… Kawari…”

“Kaori”.

A razão brilhou mais forte.

“Isso! Então, é você mesma… ele passou a noite toda perguntando por você, ou talvez a estivesse vendo em seus sonhos.”

Os olhos da Samurai-ko se preencheram com a mesma luz, como uma estrela cadente a preencher o firmamento.

“E onde posso vê-lo?”

As palavras fogem da garganta do bonzo, antecipando a decepção em sua face.

“Eu infelizmente não sei. Depois de cuidar de suas feridas e febre por toda a noite, acabei adormecendo aos pés do seu leito. Acordei com o sol quase no alto, e o rapaz não estava lá – somente suas ataduras.”

A consternação veio, como uma praga voraz. Seria ela amaldiçoada por não conseguir um novo encontro com o amor de sua vida?

Seus pensamentos se perdiam na ruidosa multidão de ascetas, que os recepcionou na chegada do templo de Benten. A maré de súplicas e pedidos engoliu o jovem sacerdote, isolando a disfarçada Kaori no modesto jardim sagrado.

Pelo menos, até a chegada de seus companheiros…

Monastery

Tão logo o anfitrião abria as portas do templo para acolher seus ávidos visitantes, Lishida e Takashi adentram o local. O gigante abriu caminho entre os pedintes, ignorando tanto aqueles que o questionavam quanto aqueles que o reconheciam como um samurai (mesmo vestindo apenas a porção inferio de sua fiel armadura). Aproximou-se do monge, com pouquíssima sutileza.

“Precisamos de um lugar calmo, para conversarmos”.

O monge assentiu com a cabeça, conduzindo a massa de visitantes para o interior do santuário, e deixando seus três salvadores a sós no jardim.

“Preciso lhes explicar uma coisa”, pontuou Kaori. Enquanto falava, deixava os andrajos mais pesados para trás. “Meu noivo está em Ninkatoshi.”

“E nós o conhecemos?” Takashi parecia preparado para o pior quando fez esta pergunta.

“Presumo que você o conheça, Takashi-san. Seu nome é Doji Sasuke”.

O peregrino de cabelos brancos o reconheceu de imediato: um talentoso shugenja de seu clã, porém mais velho e intolerante com aqueles que julga inferiores a si próprio.

“Não posso deixar que Doji me alcance”, prosseguiu. “Se isso acontecer, provavelmente serei morta”.

Quando questionada, a herdeira da família Bayushi explica tudo que sabe: do casamento arranjado, até o golpe planejado contra a Imperatriz por seu pai, em conjunto com os Doji. Em cada gesto e palavra, existe a clareza de impedir tal movimento – não apenas por si própria, mas por toda Rokugan.

Os três planejavam suas ações, sem perceber a chegada de um viajante que, de tão satisfeito, livrava-se de seu chapéu e manto.

“Finalmente a encontrei, Imouto-chan!”

Shosuro_Aroru

“Kamui!”

mempo daquele homem parecia mais arreganhado, como se tomado pela malícia.

“É hora de irmos, Kaori. Deixe as brincadeiras de lado e vamos cumprir o seu destino”.

O ninja estende sua mão, ignorando a postura defensiva das testemunhas em cena.

“Não vamos permitir que a leve consigo”, explodiu Takashi, em determinação ímpar.

“Tolos!” A voz rouca de Kamui ressoava como um trovão. “Não ousem interferir em um assunto de família. Do contrário, terei que puni-los por tamanha petulância!”

Sem suas armas, tanto o Garça quanto o Caranguejo nada podiam fazer, senão ficar em silêncio absoluto. A Bayushi, por outro lado, deixou sua lâmina visível.

“Esta é sua última chance, Bayushi Kaori”; desta vez, a voz daquele assassino emergiu em tom baixo e soturno. “Venha comigo, ou terei que matá-la por traição”.

Decidida, Kaori encarou Lishida e Takashi, dizendo a eles o que vai acontecer. Em seguida, virou-se para o irmão mais velho e disse:

“Não irei com você, aniki. Não posso concordar com o que está acontecendo. E nada me convencerá do contrário”.

Bainha

A determinação da Samurai-ko foi posta à prova por Lishida, que tentou levá-la dali em uma investida feroz e mal calculada – o bastante para ser evitada. Takashi, por sua vez, permaneceu quieto; reconhecia o direito da jovem a um confronto por sua honra, e sentia-se satisfeito em testemunhar aquilo.

“Vamos procurar um lugar digno para lutarmos”, ela sugeriu. “O templo de Benten não é lugar para derramarmos sangue…”

A frieza nos gestos de Kamui o distanciava do irmão sereno que a jovem teve durante a infância. E isso a machucava intensamente.

“Pouco importa para mim, já que posso matar aqui o amor estúpido que a colocou contra seus irmãos de sangue!”

Katanas ao ar, cada um assumiu sua postura de combate. O pôr-do-sol inundava o jardim com a mais pura tristeza. Tomando para si a responsabilidade dos árbitros, o yorei-ke esperou o cair da primeira folha de bambu naquele instante para dar o sinal:

“Lutem!”

Os reflexos bem treinados de Kamui o favoreceram no arranque, com sua espada arrancando sangue de sua antes amada irmã em um corte preciso, na coxa direita.

Entretanto, este ataque abriu a guarda para sua adversária que, com impressionante técnica, girou a espada para o ataque certeiro.

O duelo terminou ali, com a lâmina do ninja alçando vôo, até cravar no solo, aos pés do árbitro. Kaori rendera seu inimigo em um único, e esplêndido, golpe.

“Pare com isto, irmão. Esta luta está terminada”.

Tudo que Kamui fez foi aproximar a lâmina de sua oponente ao pomo-de-adão, com os dedos.

“Neste caso, termine o que começou”.

O peso da mágoa tomou-lhe a garganta, fazendo suas mãos tremerem. As lembranças de sua vida envolvendo aquele homem passavam por sua cabeça, como se vivesse tudo aquilo outra vez – dissuadindo-a do que deveria fazer.

“Eu… não posso fazer isso. Você é meu irmão, e não quero ter o sangue em minhas mãos”.

O amargor em suas palavras atingiu Takashi e Lishida, que a tudo aquilo assistiam. O Caranguejo permaneceu no torii, para garantir que ningué interferisse na contenda; já o Garça ficou mais próximo, para intervir caso aquele homem colocasse Kaori em perigo.

“Venha comigo”. Desta vez, foi o momento dela estender a mão. “Em vez de se entregar a uma morte sem propósito, venha viver ao meu lado, aniki“.

O gelo nos olhos de Kamui se desmanchava em lágrimas. Baixou o mempo, revelando seu rosto fino e bem talhado para todos.

“Você diz que me ama, mas não me honra com uma morte digna? Prefere me manter vivo, como um fantasma sem lar e descanso, por um desejo egoísta?”

O silêncio não poderia soar mais triste, se ele não constinuasse a falar.

“Você quer transformar esse amor em vingança, me fazendo caçar você como um animal selvagem, apenas para se divertir com o meu sofrimento?”

Desta vez, quem chorou foi Kaori, mal percebendo que o ninja aproximou a lâmina um pouco mais, no seu pescoço.

“Por favor, imouto-chan… faça valer a sua escolha”.

Ela fechou os olhos, e fez valer o anseio de seu irmão mais velho. Moveu a lâmina em um arco perfeito, terminando apenas com o baque do mempo tocando o solo.

Aos pés de Takashi, jazia a cabeça de Bayushi Kamui.

L5R-Scorpion Mon

つづく (“Continua”…)

P.S: Acesse a ena seguinte por este link aqui.

Campanha em Rokugan – Origens: O Escorpião (Parte Final)

22/03/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

No entanto, a história de hoje se passa algum tempo antes do contexto atual, já iniciada anteriormente. E assim lhe daremos prosseguimento…

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汚すこと (Mácula)

Kaori nunca acreditou muito quando contavam sobre os danos de enfrentar Oni. Na verdade, era até um pouco cética quanto à existência desses últimos. Ouvia histórias dos Caranguejos, guerreiros brutos que protegiam Rokugan de demônios malignos.

Ou, como Kaori gostava de pensar, invasores de outras terras, ávidos por guerrear e tomar o poder do Império Esmeralda.

Numa manhã cinzenta, no entanto, um acontecimento fez com que suas convicções fossem abaladas. Terada duelava com um homem de aparência estranha, numa ruela próxima dos muros negros dos Escorpiões. Seu rosto parecia deformado, e os olhos davam a impressão de estarem tingidos com a tinta das lulas e polvos que usava para pintar.

Após uma luta de forças e técnicas, o Bayushi finalmente machucou o oponente, o deixando desacordado. Encarou Kaori com os olhos vermelhos, inflamados de ira, e com uma velocidade impressionante, a segurou pela cintura, tentando tomar-lhe a boca numa luxúria cega. Kaori empurrava o rapaz, mas com a surpresa, foi pega de forma a não conseguir se mexer com facilidade.

Ele mordia seu queixo e pescoço, lambendo a pele alva como um animal.

“Kaori, seja minha… olhe para mim! Diga meu nome! Diga que também me quer… Não aguento mais me segurar quando te vejo…”

Sua mão serpenteou até seus seios, e nesse momento os braços de Kaori saíram do aperto, empurrando Terada com força e o jogando no chão. Por um instante, ela pôde contemplar um olhar demoníaco em seu primo, que com vergonha, cobriu o rosto com as mãos.

Mesmo em agonia, sibilou pelas frestas dos dedos com a voz embargada.

“Você pode fugir agora, Kaori, mas ainda será minha… Basta esperar!”

Kaori seguiu seu rumo, lembrando das palavras do monge Fubuki: “A Mácula intensifica os sentimentos dos homens. Traz o mal à superfície, priorizando os instintos e só parando quando saciado. É a mais sincera das maldades…”

Os Oni podem ser reais, afinal.

ねこ (Neko)

“Vamos logo, Kaori!”

Um Kamui irritado gritava, de cima do telhado, para sua pequena irmã de 11 anos. Kaori tentava escalar a construção colocando seus pés e mãos nos sulcos das pedras, e sempre caindo na neve. Olhava seu irmão impaciente, se movendo para lá e para cá com a agilidade de um felino.

“Coloque mais força nesse braço… Quando estiver com as mãos firmes, prenda seus pés, e depois as mãos de novo. Não é difícil.” Kamui explicava, com rara paciência.

“Eu vou conseguir! Eu posso ser melhor que um gato!”

Uma grande força de vontade invadiu a menina, que com toda a força que conseguia reunir em seus braços finos, subiu pedra por pedra até chegar ao topo do telhado, onde o rapaz a esperava. Kamui se agachou e afagou o cabelo da irmã, no momento que começava a nevar suavemente.

“Estou orgulhoso de você, neko-chan. Sempre tente, nunca desista. Sempre termine o que começar, entendeu?”

Kaori sorriu para seu irmão, levantando os braços para cima, brincando com os flocos gelados que caíam do céu, tirando gargalhadas de Kamui.

オラクル (Oráculo)

Fubuki sentou-se à mesa de seus aposentos, com a xícara de chá em suas mãos, enquanto se lembrava de quando Kaori apareceu. Naquele mesmo dia, a jovem tinha vindo à sua presença, questionando a origem de seu nome.

Não podia deixar de ficar nostálgico depois disso. O dia do aparecimento da menina foi uma data memorável para a liderança da família – daimyo Nitoshi e sua esposa, Bayushi Kanihime. A Lua cheia brilhava forte no céu, clareando o cômodo onde uma bela mulher ferida trazia nos braços uma jovem vida.

Quando a peregrina, que se apresentou como Nadeshiko, finalmente deu seu último suspiro, a criança chorou com vigor. Alguns dizem que puderam ver a alma da dama abandonar seu corpo, sorrindo. Outros dizem que puderam ver o corpinho do bebê brilhar com a intensidade de uma joia sob a luz do luar. Mas quando a criança abriu seus olhos, a reação de todos foi unânime.

Olharam para Fubuki, esperando que ele pudesse dar respostas, como o oráculo que era. A menina tinha os olhos lilases, com pequenos pontos esmeraldas. Tal característica era semelhante à lenda de Taketori Monogatari, a Princesa da Lua que viria à Rokugan para realizar um grande feito, para mudar o destino de todos.

Ainda podia lembrar de Kanihime-sama pegando o bebê nos braços e, com Nitoshi ao seu lado, sussurrando para a pequena…

“A partir de agora, serás uma Bayushi! Contemple teu pai e tua mãe! Obedecerás e usará seu dom para a glória de sua nova família!”

Uma chegada, vinda de uma partida. Uma noite com um novo bebê, sem festa, uma morte de uma dama, sem choro. Foi assim naquela noite e, a partir dos outros dias, a história de Kaori passou a ser escrita com a pena de ouro dos Bayushi, sob seu nome e proteção.

Fubuki-sensei

関係 (Parentesco)

Havia momentos em que Kaori se sentia uma estranha em sua própria casa. Seu pai, o “máscara venenosa”, Bayushi Nitoshi, quase não lhe dirigia a palavra. Kanihime, sua mãe, por outro lado, dava mais atenção à Kaiko, sua filha mais velha do que à ela.

Claro que a menina era chamada em suas presenças, mas suas relações eram de dever e obrigação com a família. Apesar de ser tratada como uma princesa dentro do clã, Kaori nunca teve a ternura de seus pais, nem de Kaiko.

Apenas de Kamui, que, por muito tempo, ficava ausente. Ela brincava e corria por todo o Kyuden quando criança, sempre solitária ou com alguns servos. Aprendeu a se divertir naquele ambiente, construindo bonecos de neve, se escondendo dos serviçais ou desenhando terras distantes que imaginava com seus sonhos infantis.

Certa vez, a jovem acelerava pelos corredores, com suas vestes leves de verão quando, ao se virar despreocupadamente, tropeçou e bateu num paredão maciço, que logo reconheceu como seu pai. Nitoshi a olhou com olhos frios e Kaori sentiu sua espinha gelar. Abaixou a cabeça pedindo desculpas àquele que a encarava, saindo dali com mais pressa do que chegou.

A verdade era única: Kaori tinha medo de escorpiões. Mas será que era somente do animal?

  (Quadro)

Ao saber dos talentos de Kaori com os pincéis, Bayushi Nitoshi ordenou que pintasse um quadro – para presentear a Imperatriz Iweko no dia de sua coroação. Não foi imposto um motivo, dificultando o trabalho da jovem. O que ela poderia pintar que agradasse a soberana e não envergonhasse seu pai?

Adentrou seu jardim secreto e, com seu cavalete suportando a grande tela, sentou-se fechando os olhos, deixando a mente vagar sem rumo. A respiração era leve e compassada,  como se estivesse em outro mundo, e assim começou a misturar tintas e riscar sobre o tecido.

Depois de muitas horas presa àquele desenho, deu um passo pra trás, contemplando sua criação. Estava pronto! Assinou e levou para o salão Bayushi, com cuidado para não manchar a tinta fresca. Fez uma mesura à seu pai, que dava ordens aos seus comandados. O monge Fubuki também estava presente no salão, e quando viu a obra de Kaori, deixou escapar um pergaminho de suas mãos, ficando chocado com a gravura.

Em um fundo estrelado, sobre uma enorme obsidiana, o Ki-rin se apoiava nas patas traseiras, sacudindo as patas dianteiras no ar. Ao seu redor, várias crianças representadas por cores vibrantes, que mais pareciam os respeitáveis Kami.

Nitoshi levantou-se de sua cadeira, batendo as mãos.

“Está digno de um presente Bayushi! Assim que estiver seco, levem imediatamente à presença da Imperatriz, com os cumprimentos de nosso clã. Kaori, está dispensada.”

Dois dias depois, a pequena comitiva que levava o presente foi abordada por um grupo mascarado, e o quadro desapareceu desde então. Nunca se soube do paradeiro, mas muito foi dito em toda Rokugan sobre a obra-prima roubada destinada à Imperatriz.

Crianças de Ki-Rin

聖遺物箱 (Relicário)

Kaori sentou-se ao pé de uma árvore, para descansar da longa caminhada. Abriu sua mochila e retirou um estojo de couro com entalhos de flores.

Seu interior, revestido de seda amarela, guardava suas pequenas relíquias: alguns pincéis, tintas, broches delicados, pequenos enfeites de cabelo, alguns pergaminhos e demais regalos singelos.

Desde que fugiu do território de seu clã, Kaori adquiriu o hábito de coletar algumas lembranças por onde passava. Flores secas, pequenos artesanatos, presentes… tudo era precioso para a jovem exploradora. Pequenas vilas e construções se transformavam em riscos que permaneceriam vivos por muitos anos.

Kaori conheceu pessoas simples, comuns, que abriam sua casa para abrigar um estranho. Também conheceu pessoas cheias de si que, sem reconhecer o alto nascimento por baixo do disfarce heimin, a enxotaram como a um cão.

Como não conhecia seu futuro, cuidou de levar consigo alguns pertences sentimentais. Presentes que ganhou nos dias de seu nome, poesias e memórias de criança. Todas essas experiências e objetos foram gravados e guardados em seu relicário.

Kaori fechou o estojo, enfiando o material no fundo da mochila, recorrendo ao mapa novamente. Em algumas horas, a oeste, chegaria ao vilarejo Ravina Serena. Levantou e se espreguiçou como um felino, pondo-se a caminhar mais uma vez…

感覚 (Sentidos)

Kaori costumava se sentar no deck de madeira polida que contornava seus aposentos. A brisa noturna e o som das cigarras era muito agradável no verão. Em uma dessas ocasiões, uma forte chuva sacudia as cerejeiras e clareava o céu com seus relâmpagos.

Lembrou-se imediatamente de outra noite semelhante, em que Kaname, sua antiga preceptora, lhe ensinara a tradicional cerimônia do chá. A senhora explicou, paciente, que era necessária concentração plena e movimentos suaves.

“Nunca sozinha!”, ela dizia. A cerimônia foi criada para ser compartilhada entre pessoas queridas, a fim de estreitar as relações, resgatar elos, dividir a paz interior e momentos importantes.

Kaname serviu a xícara com o desenho voltado para si, instruindo Kaori que virasse o vasilhame ao beber.

“Cuidado com os movimentos… deve ser graciosa, encantadora. Sinta o aroma, abra sua mente. Deixe o resto do mundo lá fora e se concentre no agora.”

Todos os sentidos de Kaori ficaram alertas. O paladar estava sensível aos sabores. A doçura da erva brincava em sua boca, deixando um leve picor ao fundo. Conseguia distinguir cada mudança no líquido, relaxando suas papilas. O olfato estava em festa. Os aromas distintos que sentia do chá, contrastando com o cheiro da terra molhada dava a Kaori a sensação de correr na chuva, livre em um campo esverdeado.

O contato dos lábios rosados com o líquido morno deixava o tato de Kaori dormente. Sua pele oscilava entre o quente da xícara e o frio do vento que vinha com a chuva. Os fios soltos de seu cabelo dançavam em sua nuca alva, como se fossem um beijo suave de um amante.

Ternura encheu o peito da jovem naquele momento. A audição estava muito sensível. Conseguia ouvir o farfalhar da seda de seu pien-fu contra a madeira, ao mesmo tempo que decifrava as plantas que sacudiam e caíam com as grossas gotas de chuva. Pequenos insetos noturnos eram distinguíveis por seu canto feliz em meio ao tempo úmido.

Quando Kaori finalmente abriu seus olhos, notou que sua visão também tinha modificado. Era capaz de enxergar além de sua própria alma, e viu um mundo diferente daquele que achava conhecer. As cores eram mais nítidas, mais brilhantes. A vida em meio àquela chuva saltava aos olhos, demonstrando como força e fragilidade caminhavam juntas na natureza, tal como a essência humana. A cerimônia do chá, para Kaori, passou a ser mais que compartilhar uma bebida.

Era compartilhada a alma.

テツオ (Tetsuo)

Kaori não se lembrava quando foi a primeira vez que viu Tetsuo, mas com certeza se lembrava de quando o coração bateu mais forte.

Sempre frequentava os domínios da família imperial quando a comitiva Bayushi se dirigia à Toshi Ranbo e, inevitavelmente, mantinha relações com os membros da realeza. Tetsuo era um rapaz franzino, de beleza ímpar, com olhos negros e apáticos. Sua expressão de indiferença lhe dava um ar de superioridade, que era contestado apenas quando atuava (ou quando seus irmãos e primos o chamavam de chikinreggu, ou seja, “coxa de frango”).

Era brilhante. Seus poemas e interpretações kabuki eram extremamente respeitados e ovacionados. Miya Tetsuo era, sem dúvida, um astro em Rokugan. Não é para menos que Kaori sentiu suas pernas bambas e o coração a mil naquele festival da Família Miya.

As palavras recitadas pelo jovem tocaram fundo na menina de 16 anos, ruborizando tanto seu rosto que, se Kamui não tivesse lhe avisado para usar o leque, outras pessoas teriam percebido. Desde então, Tetsuo e Kaori mantiveram contato. Seja uma breve troca de olhares ou encontros na biblioteca da capital.

Tetsuo lhe disse que daria o mundo. Disse que lutaria por eles, mesmo não sabendo lidar com armas. Fez promessas de amor eterno e divino, sempre procurando os olhos lilases de Kaori, como se eles lhe dessem força e coragem.

Quando sumiu, Kaori prometeu a si mesma que moveria céus e terras para encontrá-lo, fugindo do Kyuden Bayushi naquela noite sem lua. Seria livre pela primeira vez.

Miya Tetsuo

ユニコーン (Unicórnio)

Em uma de suas passagens por Toshi Ranbo, Kaori parecia extremamente desanimada. Tinha catorze anos, e muita vontade de sair pela cidade para usufruir o que ela podia lhe oferecer.

No entanto, foi obrigada a permanecer no salão imperial, servindo como bibelô enquanto seu pai se reunia com vários daimyo de outros Clãs. Vez ou outra, um daqueles homens lhe dirigia um olhar rápido, deixando-a extremamente desconfortável.

Sua atenção mudou de foco, no momento em que uma jovem um pouco mais velha veio em sua direção. A cor roxa de suas veztes denunciavam sua linhagem, antes mesmo de seu mon entrar no campo de visão de Kaori.

“Olá”, disse a moça, educadamente.

“Olá!” Kaori respondera com satisfação, por ter alguém com quem conversar em um ambiente hostil como aquele.

“Você não me parece muito à vontade. Aliás, me chamo Shizuka. Shinjo Shizuka.”

“Ba-Bayushi Kaori. O que um Unicórnio faz por aqui? Er… me desculpe… se me permite perguntar, é claro”.

“Ah, não se preocupe. Venho com minha família.” Shizuka tinha uma forma de falar totalmente despreendida, e diferente de tudo que Kaori tinha visto. “Apesar de detestar essas convenções, ainda fazemos parte do Império, não é mesmo?”

A empatia foi automática. Depois desse primeiro contato, as duas meninas se tornaram amigas naquele mês que passaram em Toshi Ranbo.

De imediato, ela ficou encantada com as histórias que Shizuka lhe contara: as terras Gaijin que visitou, as pessoas de tez escura que conheceu e os animais mais intrigantes que já tocou. Se pegou vivenciando as palavras que sua amiga pronunciava, apertando o peito quando se lembrou da gaiola de ouro na qual vivia.

Quando o tempo de voltar para casa chegou, as duas se despediram com muito pesar.

Kaori-san, se precisar de alguma coisa, podes contar comigo. Sei como a vida pode ser cruel, e tenho certeza de que podemos sempre dar um jeito em tudo”.

Domo arigatouShizuka-san… Esteja certa de que farei o mesmo para você”.

Até hoje, Kaori se perguntava como estaria Shizuka. Bem… algum dia, elas se encontrariam novamente, e teriam muitas coisas para contar…

毒 (Veneno)

Depois de um dia intenso no dojo, Kaori passou pela estufa que ficava no meio do caminho de seus aposentos. Imediatamente se lembrou das aulas que sua preceptora lhe dera sobre venenos.

“E, com umas gotas de Oleandro no chá, o coração bate mais rápido… a qualquer momento, ele pode parar. Claro, se colocar bem pouquinho, também pode elevar o paciente quando o mesmo estiver apático”.

Kaori pensava que era muito mais fácil envenenar que curar. Quase todas as plantas e ervas tinham alguma função, mas as doses excessivas normalmente tornam-se fatais, ou causam algum tipo de reação colateral.

Obviamente, é muito mais fácil jogar um punhado na água, que dosá-lo com perfeição.

A estufa era bem generosa: vegetais de toda espécie eram cultivados, para estudo e uso farmacêutico. Os aromas se misturavam, causando leve enjôo a seus visitantes.

“Essa é a noz-vômica. Com trinta miligramas dessa semente, um adulto pode ter dores insuportáveis e convulsões, até a sua morte. Ah, é claro: ela pode combater a paralisia.”

Kaori fazia questão de guardar anotadas todas essas informações.

“E aqui, temos o teixo. Apesar de sua fruta ser saborosa, a planta em si é o que nos interessa – a não ser que sirva essa fruta com… algo mais. O teixo causa dificuldades na respiração, tremores musculares, convulsões, desmaios e paradas cardíacas. Se a dose for severa, a pessoa morrerá tão rápido que nem haverá tempo de ver as coisas acontecendo…”

O sorriso de Kaname-sama tornava tudo tão natural, como se estivesse ensinando a preparar lamen.

As mamórias dissiparam em sua mente quando um abusado Terada passou, aproximando-se de seu ouvido sem qualquer decoro.

Kon-ban-wa, bela Kaori-chan…”

Ela se esquivou, e continuou o seu caminho. Pensava que, no fundo, Kaname não lhe ensinara tudo. Afinal, tinha se esquecido do pior dos venenos… uma língua peçonhenta.

脇差 (Wakizashi)

A lâmina retinia à fraca luz de vela no quarto, sua frieza constrastando com a calorosa pele de Kaori. Há algum tempo, recebera sua wakizashi, por reconhecimento ao seu esforço. Treinou duro todos os dias no dojo, até que bolhas e calos surgissem em suas mãos (desenhadas por sua bokken), e sentiu-se incrível quando a desembainhou pela primeira vez.

Com nostalgia, a jovem olhou o aço cuidadosamente, prestando atenção em cada detalhe gravado às margens de seu fio. As linhas tinham perfeita sintonia, criando ondas prateadas, e combinando com sua empunhadura verde-musgo, adornada por arabescos. Na mesma cor, a bainha sustentava tão agradável combinação, a denunciando como uma arma fina, que cabia somente em suas mãos. A tomou como a extensão de seus braços finos.

Na silenciosa solidão do ambiente, se permitiu abdicar de suas vestes, rasgando o ar em alguns golpes. Ao duelar com sua própria sombra, os olhos lilases da Kaori permaneciam atentos a cada movimento.

A pele, nua e úmida, brilhava em toda a sua glória. Gotículas de suor transitavam de sua nuca, até a curva de suas nádegas. Algumas madeixas molhadas colavam em seu rosto e, ao longo de seu comprimento, cobriam seus seios – com pequenos montes saltando entre os fios. A respiração mantinha-se compassada, entrando e saindo de seus lábios avermelhados.

Cada novo movimento a tornava mais etérea, como uma das heroínas das lendas que tanto ouvira, empunhando sua arma contra seres místicos e nefastos. Era uma guerreira nua, e entregue ao mais puro êxtase.

Um ruído a tirou do transe. Rapidamente, se virou para a fonte do som – vendo nada mais que um vulto sorrateiro, fugindo noite adentro. No impulso, Kaori seguiria o intruso, se não percebesse o quão inadequada estava para sair…

Nunca teve pista sequer do invasor, que habilmente entrou no seu quarto, em um momento de intimidade. Por isso, aquela foi a única vez que dançou de corpo e alma com sua wakizashi.

No entanto, ela não desejava que fosse a última…

Bayushi Kaori 4

カップ (Xícara)

Kaori não conseguia engolir.

Sua garganta estava apertada, e o líquido esverdeado naquela requintada xícara de cerâmica já havia esfriado há tempos. Apesar de ser uma Samurai-ko e ter orgulho de suas funções, ela sabia da injustiça do mundo.

As pessoas comuns não carregavam as difíceis decisões das grandes famílias, e eram livres para escolher os seus. Suas preocupações eram os preços das mercadorias e as colheitas das estações. Mas, uma vez que não tinham um sobrenome, também não tinham opinião. Nem opinião, nem direito à resposta.

Enquanto caminhava de sua residência na cidade de Toshi Ranbo até a casa de chá, acompanhada de Hiroshi (seu “capataz”, quando Kamui estava em alguma missão), foi testemunha da barbárie do ser humano dito civilizado. Uma criança corria apressada com um peixe nas mãos, no meio do tráfego. Algo a fez desviar do caminho e perdendo o equilíbrio, esbarrou em um pomposo Cortesão Dragão, que foi ao chão com o impulso.

Uma pequena parte do tecido verde brilhoso se misturou ao peixe e à terra, fazendo o sangue dos nobres esquentar. Claro que a situação era por si desagradável, mas as atitudes tomadas eram, para Kaori, radicais em demasia. O Yojimbo do Dragão agarrou a criança pelos cabelos e a fez se ajoelhar diante seu amo, arruinando o rosto no chão batido.

O povo parou com medo, ouvindo o sermão que aquele samurai proferia ao réu. Por estar “benevolente” naquele dia, não o mataria, e sim o ajudaria a nunca mais perder o equilíbrio. Cortou-lhe as duas pernas. As pessoas ao redor nada podiam fazer, a não ser recolher a criança, que agonizava em dor até desmaiar.

Kaori assistiu com dor no coração, mas seus olhos de escorpião permaneceram sem emoção alguma. Continuou seu caminho, como se aquilo não lhe tivesse afetado, e até mesmo trocou um olhar educado com o nobre, como a etiqueta mandava. Assim que entrou em seu destino, pediu para Hiroshi ficar um pouco distante, para sorver o chá em harmonia consigo mesma, mas infelizmente, era a última coisa que sentia.

Aquilo tinha mexido com ela. Se eles treinavam para proteger o Império, porque machucar àqueles que faziam parte do mesmo? Uma lágrima discreta caiu naquele líquido esverdeado, frio e intocado, dentro daquela xícara refinada, feita de porcelana mais branca que o leite, criando círculos perfeitos em um mundo imperfeito.

陰陽 (Yin Yang)

É o princípio de tudo: macho e fêmea, luz e escuridão, alegria e tristeza, ódio e amor.

O yin yang é a base da criação, presente em tudo que é vivo. Duas metades perfeitas formando um único ser. Para alguém passional e emotiva, foi difícil permanecer indiferente ao acontecido em Toshi Ranbo, quando por dentro chorava sangue pela crueldade com aquela criança.

Um dos maiores obstáculos para Kaori era esconder um sentimento, enaltecendo outro. Como uma Bayushi, ela tinha consciência que deveria mascarar suas emoções, permanecendo impassível aos acontecimentos, agindo de acordo com seus interesses.

Era imperativo que aprendesse a controlar o próprio corpo, para que não traísse a si mesma diante dos outros. Rokugan era, sem dúvidas, um mundo de aparências, cuja maldade vivia de mãos dadas com a “bondade”, que sorria sem dentes para os transeuntes.

吹管 (Zarabatana)

O gasto boneco de palha parecia olhar com ironia para Kaori.
A jovem de 15 anos resolvera fazer uma visita ao irmão e ao primo, enquanto eles treinavam com a arma de sopro. Naquela tarde ela descobriu o quão inapta era com a zarabatana.
Terada a puxou pela mão, e com dois passos, se moveu atrás de Kaori, a ajudando a se posicionar.
“Seu cabelo é cheiroso, Kaori-chan…”
Terada dizia sussurrando em seu ouvido. Kaori se sentiu intimidada, e antes que pudesse fazer algo, Kamui o pegou pelo braço e parou ao lado da jovem, claramente irritado com a proximidade do primo. Os dois trocaram olhares ameaçadores, e Kaori teve que intervir para que não acabasse em uma luta séria.
Não era segredo que os dois não interagiam muito bem, e ela não queria ser o motivo de mais uma briga. O clima entre eles era estranho, e parecia que cada um tentava obter mais da atenção dela. Kaori decidiu encerrar essa situação, se despedindo dos dois se virando para ir embora.
Porém, antes que saísse do local, conseguiu ouvir Kamui dizendo à Terada:
“Não encoste em Kaori, ela nunca será sua. Nem que eu precise te matar”.
A jovem olhou para trás com olhos arregalados, a tempo de ver, pela primeira vez, um sorriso sádico no rosto de seu primo. Apressou seu passo, a impedindo de ouvir a enigmática resposta:
“Nem sua…”
Bayushi Kaori 3
末尾 (Fim).
 P.S: Segue um agradecimento especial à jogadora Ludmila Selvatici Faiolli Borges, que deu a luz à dama Bayushi Kaori – e a tudo que a envolve – bem como as ilustrações aqui utilizadas.

Campanha em Rokugan – Cena Dez

07/03/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Mantidos em Ninkatoshi por ordens da Leoa Matsu Hibiki, nossos heróis foram encontrados pelo perigo. O Caranguejo Lishida enfrenta um julgamento desleal por um crime que não cometeu, enquanto que Kaori e Takashi permanecem observados pela Capitã e seus subordinados, como cúmplices do mesmo crime. E isso seria somente o princípio…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

検索 (Busca)

Os primeiros raios de sol tateavam o horizonte, e Kaori já podia ver a vida se manifestando vagarosamente em Ninkatoshi: hospedarias abrindo, pessoas caminhando rumo ao trabalho e o aroma de várias especiarias e guloseimas impregnando o ar antes fresco.

Entretanto, o raiar do dia também trouxe a ela um mau presságio. No corredor, ouviu a chegada de uma voz, desagradável e familiar ao mesmo tempo.

“Vamos, meus serviçais. Procurem pela minha Kaori-chan!”

Não acreditando no que estava para acontecer, reuniu alguns andrajos e fugiu pela janela, procurando por um esconderijo desesperadamente. Estava bastante assustada, e não podia deixar que aquele nobre decrépito a alcançasse – para ela, seria o fim da vida.

Já estava nas ruas da Cidade da Permissão quando se cobriu com aqueles trapos para se misturar entre os heimin. Procurava por um lugar seguro e imporvável para se esconder daquele homem, até se deparar com um modesto templo, dedicado a Benten.

Não encontrou viva alma nas redondezas, até porque nem se preocupou em procurar. Contornou o santuário até chegar nos aposentos dos monges – o único lugar distante dos olhos curiosos de viajantes e soldados (pelo menos, por algum tempo).

Emmeio aos móveis, Kaori encontrou algo que conhecia bem: um estojo de laca polida, em tom escuro. No seu interior, cremes e pós para maquiagem, utilizada em dramatizações e performances teatrais.

O mesmo estojo que dera a Tetsuo, em seu décimo-oitavo aniversário…

Além dele, algumas ataduras pintadas a sangue pendiam sobre a mesa, confirmando as palavras de Takashi sobre os ferimentos de seu amado.

Apressou-se para adentrar o santuário, com a esperança de revê-lo – mas apenas encontrou outros vestígios de seu tratamento: novas bandagens, compressas úmidas em uma vasilha com água fresca e um leito improvisado, aos pés da estátua de Benten.

Novamente, não tinha pistas sobre o paradeiro de Tetsuo. E, com o princípio de um burburinho lá fora, também não tinha muito tempo para pensar…

Temple2

“Ordem!”

A voz retumbante de Matsu Hibiki perfurou os ânimos da multidão como uma lança bem afiada, abafando seus gritos.

“Agora que voê deu o seu nome, sabemos que você é um Hida. E isso me deixa profundamente triste por Lorde Oboro, que certamente ficaria decepcionado em ter um assassino em sua família…”

Tais palavras pesaram na cabeça de Lishida, como um golpe de seu próprio tetsubo.

“No entanto, ainda lhe darei uma chance para inocentar-se das acusações, em um duelo de kenjutsu“.

Em cada palavra, a Taisa dos Leões não deixava e perceber as reações do andarilho Kakita, que permaneceu afastado – pelo menos, até agora.

Caminhando até o seu aliado, a encarou nos olhos; e, ao perceber que suas feições pouco normais a incomodavam, permaneceu ao lado dele.

Hibiki-san, devo lembrar-lhe que a sua postura desonraria profundamente o mentor de seu clã, Akodo-sama. Não apenas por nos tirar de nosso caminho, nos puxando para o seu covil; mas pelo seu péssimo exemplo de hospitalidade prestado a nós, que trazíamos conosco um ferido, notoriamente reconhecido na linhagem Imperial!”

O cenho da capitã se franziu lentamente, à medida que o burburinho se dividia em opiniões opostas.

“E o pior de tudo: ainda nos acusa por tal atrocidade, sem qualquer prova ou testemunho viável? Francamente!”

Para Matsu Hibiki, esta foi a gota d’água.

“E você acha filhote de Garça, que vou tolerar a presença e voz  de cúmplices, de um canalha como Miya Tetsuo? Ele teve o azar de sobreviver à nossa punição, por todas as inverdades que proferiu sobre a minha família!”

O punho seco da samurai-ko esmurrou a pancada com força,”Ele terá a punição que merece, sem exceções. E quanto a vocês, outro processo terá início – onde apenas o mais forte será inocentado!”

“Neste caso”, rugiu Lishida, “quero desafiar aquelas Samurai-ko“.

Apontou para as guerreiras que o escoltaram até o templo, fortemente armadas e bem protegidas por suas armaduras pesadas.

Hibiki mal pôde conter o sorriso afetado pela excitação.

“Interessante… e pretendes enfrentá-las por conta própria?”

“Eu lutarei ao lado dele”, assumiu Takashi. Retirava de seu obidaisho para entregar às desafiadas. “Se sou visto como cúmplice, exijo meu direito de lutar neste confronto”.

A excitação da Taisa contagiou, aos poucos, a platéia que a cercava. E isso elevou a sua confiança notoriamente.

“Então, está feito: aos olhos de Onotangu, teremos um duelo entre os culpados e as Irmãs Megumi, notórias representantes de nosso clã. Até lá, não ousem nos enganar, ou serei obrigada a puni-los com a morte certa!”

O jovem Hida, contudo, parecia insatisfeito.

“Caso eu seja derrotado, entregarei a você o meu daisho“.

Matsu

Kaori olhou para fora, silenciosamente. Temia ver alguma das brutas mulheres a serviço do Leão, ou os serviçais do homem que a persegue. Encontrou apenas um bando de ascetas, pedintes e andarilhos se assentando nos arredores – visitantes comuns a todo templo, em busca de bons presságios e da boa vontde dos monges em lhes servir.

Agarrando-se aos trapos com força, caminhou por entre os visitantes, misturando-se a eles como um camaleão. Percebeu que um sujeito, de roupas largas e chapéu baixo, caminhava atentamente, como se procurando por alguma coisa.

Acompanhando alguns pedintes frustrados, a dama Bayushi saiu do templo, agora determinada em encontrar Takashi e Lishida. Não demorou muito até que se deparesse com o grande Mercado de Ninkatoshi – um local onde aromas e sabores se misturavam.

Sua espinha gelou ao perceber algumas figuras conhecidas nos arredores. À sua esquerda, o deplorável lorde Doji Sasuke  passeava com seus fieis serviçais; à sua direita, um homem caminhava, com a cabeça envolta por um capuz e véu, acompanhado por alguns homens truculentos e mal-encarados. Julgando pelas roupas, o identificou rapidamente como o homem que encontrou naquele dojo abandonado, recentemente.

Percebeu o sorriso da sorte se abrindo quando viu seus companheiros, servindo-se em uma das várias tendas locais. Caminhou sorrateiramente pelo Caranguejo, que focava-se em preencher o seu estômago, e aproximou-se do Garça, que analisava os arredores com cautela.

“Com licença… por acaso, vocês podem alimentar uma pobre peregrina?”

A voz disfarçada da jovem passou despercebida pelos dois, a deixou um pouco surpresa.

“Puxa… em outros tempos,  vocês costumavam ser mais educados comigo…”

Sentando-se com eles (que agora a reconheceram), Kaori fica a par de tudo: o julgamento deles, e a chegada de Tetsuo à cidade. Da mesma forma, ela lhes conta pelo que passou até chegar ali.

Percebendo os olhares atentos dos Leões em suas costas, os três se levantam para procurar algum lugar mais reservado. E foi nesta hora que viram um homem esbaforido lutar por sua vida…

Marketplace

Nos estreitos corredores do Mercado, um monge lutava contra seu próprio fôlego para continuar correndo. Atrás dele, dois brutamontes mantinham o ritmo, prontos para pegá-lo. Na cintura, carregavam espadas ninja-to e seus torsos eram tatuados – facilitando para Kaori o reconhecimento: ela os vira junto com aquele outro homem, agora pouco.

Assim que o monge passou pelos três, Lishida se colocou à frente dos perseguidores, confiante em seu tamanho e força naturais. Takashi ficou ao seu lado, embora estivesse mais satisfeito se o seu daisho estivesse em suas mãos…

Para ela, este foi o sinal: puxou o esbaforido sacerdote pelo braço, e se enfiou na multidão que circundava seus amigos.

“O que pensam que estão fazendo, Budokas?”

“Deixando que alguém fique longe das suas mãos sujas”, cuspiu o andarilho Garça. Confirmando suas palavras, o Caranguejo escarrou aos pés dos bandoleiros. Algo que os deixou, sem dúvida, bastante irritados.

“Saia da nossa frente agora mesmo”, as mãos passeando pelas espadas ainda embainhadas, “antes que precisem sofrer as consequências!”

Ao perceberem que tanto Kaori quanto o monge estavam a salvo, eles abriram caminho. Com a rua limpa à sua frente, os vândalos não assassinaram Lishida e Takashi graças à presença constante dos guardas, que agora dispersavam a multidão com brados de ordem.

“Vocês vão pagar por isto!” Vociferou um deles, pouco antes de voltar pela ruela de onde vieram. Mais à frente, viram o sujeito de roupas verdes e véu, as mãos repousando sobre o seu Obi despreocupadamente.

Deu as costas para a dupla, enquanto punia seus seguidores com murros e ofensas. Tal movimento fez os cabelos brancos surgirem sob as abas do chapéu.

“Mirumoto Manji, provavelmente”. A conclusão reflexiva do yorei-ke foi breve o suficiente para captar as palavras de seu grande aliado.

Kaori-san deve estar nos esperando. Vamos!”

Insulto

つづく (“Continua”…)

P.S: Para ter acesso à Cena seguinte, acesse o seguinte link.

Quando a sorte te abandona…

16/02/2016

… ou quando a zica te abraça, os dados riem de você…

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Há vários nomes praquele momento. Você conhece ele, você sabe do que eu estou falando. Aqui eu não me refiro àquela rolagem de dado falha num combate:

Preciso de um 14 ou mais…
<rola o dado>
– Putz, não deu! Chama o mago!

Não meus amigos, isso não é azar. Acreditem, quem vos escreve é um especialista:

“O guardião está finalmente caído, todo seu preparo e artimanha para evitar o combate com ele aparentemente funcionou. Você só precisa caminhar ao lado do seu corpo adormecido, para finalmente alcançar a relíquia e ter sucesso na sua missão. Ele está dormindo, você está descalço, role o D20. Com 3 ou + você tem sucesso”.

Esse sou eu suando frio. “Com 3 ou + você tem sucesso”. No D20. Pra mim, e praqueles que jogam comigo, o desfecho é iminente. As chances de eu NÃO tirar 1 ou 2 são próximas de zero. É mais fácil o Fred fazer um gol de pé pela seleção brasileira do que eu superar essa situação num dado.

– Querido Mestre, não há necessidade disso. Jogue você o dado se achar pertinente. Meu personagem já fez tudo o que devia.

Esse é meu verde. Minhas palmas já formigam e meus amigos do grupo estão com a respiração presa. Se estamos num evento, e o Narrador não me conhece, ele dará de ombros e rolará o dado. Falhará em ouvir meu personagem e todos comemorarão.

Agora, se o Narrador já me conhece…

O Narrador sorri. Não por felicidade, mas por antecipação do que está por vir. Puro riso contido.

“Eu insisto”

Eu pego o D20, olho para os outros jogadores, como dizendo “eu tentei”, e rolo o dado. Ele gira, quica e cai da mesa. Eu pego ele novamente e o jogo para o centro do altar. Ele rola novamente, rola, rola e rola… O número 15 fica pra cima por uma fração de segundo, o suficiente para disparar uma fagulha de esperança. Mas o destino meus amigos, é inexorável.

2.
O resultado final é 2.

As risadas começam, os tapas nas costas, os “Eu já sabia, rolei Esconder antes mesmo de você tentar”.

probabilidade-jogos

Os dados não gostam de mim. Nem as cartas, nem os búzios, roletas e quaisquer outros elementos ligados à sorte.

Vou confessar algo aqui: há um motivo de força maior que me impele à defender a interpretação de personagem, os elementos narrativos e o drama como mecânica nos RPGs: a zica me adora.

Não que a Senhora Sorte, aquela dama de vestido branco com enfeites dourados tenha algo contra mim. Ela não tem, tenho certeza disso. Nós apenas nunca fomos apresentados um ao outro.

Meu primeiro D20 foi apelidado carinhosamente de “uruca” pelos meus amigos, e não me recordo de uma só vez que algum deles o tenha usado pra algum teste. “Você tá louco? Prefiro jogar um D12. Pelo menos vai ter chance de eu tirar mais que 10!”

Quando eu li Blood & Honor, de John Wick, e ele relata sua total ausência de sorte, me senti em campo conhecido. O Sr. Wick é meu autor favorito de RPG, e ler essa revelação dele me fez entender porque nos damos tão bem: seus jogos sempre dão um jeito de desviar da sorte. John Wick me entende.

Antes que eu seja interpretado como um velho reclamção, é importante mencionar que minha relação com a zica acabou me provendo muitas coisas boas. Na necessidade de evitar rolagens de dados em RPG, eu acabei desenvolvendo uma certa facilidade para disputas sociais, na conversa. Num grupo de RPG, sou normalmente eu que vou interpretar o FACE (interlocutor, negociador, arauto) do grupo. E também sou eu que vou interpretar o bardo, aquele que ninguém vai exigir muita coisa num combate ou numa perícia…

Essa perspectiva de ausência de sucesso numa disputa de sorte é muito interessante, porque acaba moldando muito meu próprio jeito de narrar. Quando eu narro, são poucos os momentos de rolagem de dado. Normalmente dou preferências a sistemas em que as mecânicas são mais ligadas às escolhas e diálogos. Eu gosto do elemento sorte, ele dá um friozinho na barriga que torna as coisas muito divertidas. Mas, sinceramente, um jogo que se baseia majoritariamente nele me traz pouco desafios.

Num contexto de jogos de tabuleiro, um War nunca será um Game of Thrones.

E vocês leitores, já tiveram muitas experiências de zica brava?

[Don’t] Roll the bones,

 
Chico Lobo Leal

Campanha em Rokugan – Origens: O Escorpião (Parte Um)

16/02/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

No entanto, a história de hoje se passa algum tempo antes do contexto atual, nas entranhas de uma entre tantas Cortes que compõem o Império…

Seria muito fácil contar a história de alguém como Bayushi Kaori, se a tomássemos apenas por sua aparência ou nome. No entanto, algo diferente será feito aqui: a contaremos a partir de palavras a princípio comuns, mas que possuem significado particular para ela. Que remontam, uma a uma, o desenrolar de sua vida…

Kyuden_Bayushi_3

代替案 (Alternativa)

Hime-Sama! Hime-Sama !!!”

O jovem servo correu pelos corredores atrás da pequena Bayushi de nove anos, que sempre escapava de suas obrigações. Qual sua surpresa quando um minúsculo raio dourado passou por sua visão lateral, parando em suas costas com a bokken empunhada?

“Renda-se, malfeitor!”

“Hime-sama… isso não é muito honroso de sua parte, me atacando pelas costas”, choramingou o rapaz. “E o senhor seu pai quer ter com a senhorita.”

O sorriso de Kaori morreu com as palavras do serviçal. Seu pai, o grande Bayushi Nitoshi, lhe aguardava no salão principal. O ambiente amplo e sério, com seus estandartes predominantemente amarelos com infinitos escorpiões, sufocava a menina, que respeitosamente se portava na frente do pai.

“Lhe darei uma alternativa, Kaori, que é mais do que tem a maioria. Será treinada e receberá a boa educação que uma mulher Bayushi de sua importância deve ter, e depois irá para uma de nossas escolas, para que exerça sua função e sirva sua família. Escolha qual escola frequentará.”

A voz grave de seu pai retumbou em seu corpo. Seu coraçãozinho acelerado, imaginando o fim de suas brincadeiras e sonhos infantis.

“Tem até amanhã para decidir. Caso não o faça, eu decidirei por você. Está dispensada!”

Já era hora de crescer, afinal.

武士 (Bushi)

“Você não é um Escorpião, é um Tanuki!”

Seu irmão falava entre uma mastigada e outra. Seu mempo recém-adquirido descansava ao seu lado.

“Só sabe fugir! Depois de seus anos tomando lições de etiqueta com sua preceptora e virar gente, que tal vir comigo ter umas aulas na minha escola? Quem sabe não sirva para algo útil…”

Kaori absorveu as primeiras palavras, lembrando de um dos contos que o Velho monge Fubuki havia lhe contado: O Bushi Tanuki – valente e esperto, como ela queria ser. Olhou para a bokken ainda em suas mãozinhas, com um novo brilho nos olhos.

“Não vê, irmão? Sempre foi óbvio! Sou a melhor Samurai do reino!”

Kamui botou a mão sobre o rosto, com uma expressão de enfado – mas sorrindo internamente.

犬 (Cachorro)

Kaori adora cães. Desde pequena se perguntava porque escorpiões, e não cachorros. São bonitos, quentinhos, divertidos e adoráveis, além de proteger seus donos em horas de necessidade.

O que ela faria com o aracnídeo? Jogaria em cima das pessoas? Levaria para passear? Riu diante dos pensamentos bobos e despreocupados, e se surpreendeu quando, no meio do brasão amarelado, pintou um enorme cão felpudo com a língua para fora e olhos pidões.

Entre gargalhadas solitárias, guardou sua “obra de arte” e voltou para o dojo, onde treinou imaginando um enorme cão de caça com o pescoço de uma garça entre os dentes. O treino nunca fora tão divertido…

悪魔 (Demônio)

“Sou bonita demais para usar um hannya!” Kaori exclamou.

“Talvez seja por isso que deva usar um. Veja meu mempo: assusta os oponentes! Fora que ter essa carinha bonita pode ser um problema para você, minha irmã!”

“Mas se eu usar, meu rosto ficará escondido. Não preciso colocar um Oni sobre minha pele”, Kaori rebateu.

“Verdade. É bem capaz que um Oni já esteja morando dentro dela mesmo…”

Kamui continuou limpando sua máscara, e Kaori sentiu o ar sair de seus pulmões, como se tivesse levado um soco na boca do estômago.

Hannya

演歌 (Enka)

Uma das melhores coisas da vida, para Kaori, era a arte. Principalmente quando em boa companhia.

Em um pequeno festival nas redondezas de Toshi Ranbo, um casal ouvia a apresentação, lado a lado, com seus braços levemente encostados, fazendo a moça corar (culpa dos tons agudos, claro).

As roupas simples escondiam seus sangues nobres, misturados na multidão. Miya Tetsuo explicava o sentimento na melodia, olhando diretamente nos olhos de Kaori.

“Está na hora de voltarmos, Miya-dono. Logo sentirão nossa falta!”

Tetsuo pareceu se decepcionar, mas, ouvindo a razão nas palavras de Kaori, concordou e seguiram de volta à Capital. Ao se despedirem, seus dedos se tocaram, e Kaori pensou que Enka era realmente uma excelente forma de arte.

刺します (Ferroada)

Naquela manhã, Kaori acordou com algo se mexendo em seu futon. Algo gelado ia andando por suas pernas com várias patinhas tamborilando em sua pele.

Foi levantando seu manto devagar, revelando aos poucos aquele animal de carapaça e pinças mais negras que o próprio breu. Seu coração parou de bater, e um suor gélido foi brotando em sua coluna.

“Preciso manter a calma, preciso manter a calma…” Kaori entoava como um mantra. Com leveza, foi movendo a perna até que o aracnídeo andou para o futon, sendo perfurado fatalmente pela wakizashi de Kaori.

“Bastardo!”

Sem pensar duas vezes, levou o animal empalado até seu primo Terada, cujos avanços insolentes foram rechaçados em todas as tentativas.

“Foi você?”

Kaori-chan, como vai? Vejo que está segurando o símbolo da família! Te digo, prima… nunca se esqueça de quem é.”

O sorriso de Terada era sádico.

“E nunca se esqueça de quem posso ser…” Os dentes brancos à mostra e a língua sobre os lábios eram a forma mais grotesca de provocação, enquanto encarava uma Bayushi furiosa.

“Cuidado para não se picar por aí!” Disse, dando a volta e sumindo da visão de Kaori.

“Ainda vou matar você, Terada-chan…” – Sussurrando para si mesma, gravou essa promessa em sua carne como uma ferroada venenosa.

巨人 (Gigante)

Hiroshi era enorme. Tão grande que, para uma menina de doze anos, parecia um gigante.

Sempre que Kaori treinava com ele, era jogada no chão como uma boneca de trapos, se machucando. Parecia impossível derrotar aquele aspirante a espadachim.

Suas pernas e braços eram permanentemente manchados de um roxo esverdeado, e não importava o quão inspirada Kaori ficava, sempre terminava caída aos pés do adversário. A raiva borbulhava na jovem Bayushi, e as engrenagens trabalhavam a todo vapor em sua cabeça.

Tantos anos de aprendizado deveriam servir para algo. “Só umas gotinhas, e tudo resolvido”, Kaori festejava consigo mesma, enquanto dava novo sabor ao líquido à sua frente.

Naquela mesma tarde, Hiroshi sentiu dores abdominais, e com apenas um golpe de Kaori, caiu de joelhos com a mão na barriga.

“Até mesmo um gigante acaba se curvando diante de mim”, pensou em êxtase! Afinal, é na escola que se aprende a vencer uma luta, de uma forma ou de outra…

名誉 (Honra)

Por toda sua vida, Kaori nunca entendeu muito bem o conceito da palavra honra. Guerreiros magníficos cometiam atos estúpidos em seu nome. Escondiam seus sentimentos, dores, alegrias, amores e aflições.

Para uma menina de treze anos, era inconcebível o fato de alguém preferir cometer o seppukku ao consertar o erro, apenas para se manter honrado junto com sua família. Como um morto pode recuperar o respeito alheio?

“Mantenha-se honrada! Honre sua família!” As palavras eram unânimes.

Honra, honra, honra… tantas formas diferentes de honra, com apenas um propósito: fazer aquilo que os outros esperam que você faça. No entanto, como Bayushi, ela viu coisas que a fez pensar ainda mais.

Como era possível ter honra fazendo jogos e maquinações nem um pouco honrosas? No fim, não importa qual bicho leva nas costas.. a honra é apenas uma questão de ponto de vista (grossa).

Bayushi Kaori Olhos

インポテンス (Impotência)

Doji Sasuke era invasivo, infame, interesseiro e impertinente. Seus olhos percorriam todo o corpo de Kaori, que prostrada no meio do salão da Corte Imperial, se sentia nua, mesmo vestindo seu pien fu.

Nem mesmo seu primo Terada a olhara de forma tão grotesca e faminta. Com seus dezesseis anos recém formados, a jovem foi, contra sua vontade, oficialmente concedida ao matrimônio com o Daimyo da Família Doji, trinta e quatro anos mais velho.

A boca abria e fechava, como se estivesse mastigando seu corpo, sua língua se remexia como se lambesse sua pele, suas mãos se moviam como se apalpassem sua carne e suas perguntas soavam como se perfurassem sua alma. Kaori sentia náuseas.

Os homens olhavam com desejo, enquanto Doji Sasuke se vangloriava por, em breve, poder colocar as mãos na “beldade Bayushi”, assim como em todos os benefícios que viriam junto com os arranjos. Bayushi Nitoshi apenas aprovava o silêncio e obediência de Kaori, que respondia somente ao que lhe era questionado.

Todas as regras de etiqueta que aprendera foram impostas e estavam sendo postas à prova, demonstrando que, pelo menos por fora, Kaori era a dama perfeita para um casamento de conveniências, tão comum em Rokugan.

Por dentro, ela não passava de uma boneca quebrada, saudosa por seu amado desaparecido, desesperançosa e totalmente impotente. Por um momento, ela deixou de ser um Escorpião e virou um coelho, de frente para não mais um Garça, mas um falcão.

庭 (Jardim)

Uma das coisas que Kaori mais gostava de fazer era se afastar do mundo com seu cavalete e caminhar até o jardim, para refletir e pintar as plantas e animais que passavam por ali. Tinha verdadeira adoração pelas cores e texturas que criava com suas tintas e pincéis.

Aquele era seu refúgio, seu lugar secreto, seu santuário. A solidão a transportava para mundos distintos, onde, não existiam Garças, Escorpiões, Leões, nem nenhum tipo de Clã ou interesse que poderiam prejudicá-la.

A brisa fresca e o primeiro sol da manhã iluminava docemente a lanterna acinzentada entre as folhagens, dando à Kaori uma visão refrescante. O sino dos ventos balançava gentilmente, trazendo paz e calmaria ao ambiente. Naquele momento, a jovem se sentou na grama, e de olhos fechados, imaginou os pequenos insetos caminhando para lá e para cá, entretidos em suas minúsculas obrigações.

Imaginou sementes brotando, ervas crescendo com seus aromas inebriantes.  Quando reabriu os olhos, sentia-se completa, com suas energias reabastecidas. O jardim, aquele lugar tão mágico, era o ambiente preferido de Kaori para meditar.

かおり (Kaori)

Kaori entrou no templo dentro das muralhas escorpianas e tão logo encontrou o conhecido monge, podando alguns bonsai.

Ohayo, Fubuki-sensei!”

Ohayo, Hime-sama! Posso te ajudar em alguma coisa?”

“Hum…Estava pensando… como posso dizer…” Kaori parecia incomodada ao abordar o assunto.

“Pode perguntar, criança.” Gentil, o monge limpou as mãos e voltou sua atenção à jovem que encontrava palavras para seu questionamento.

 “Sensei… Por quê Kaori? Digo… Não foi o senhor que escolheu meu nome?”

O monge idoso sorriu para a jovem de quinze anos, enquanto sentava-se no degrau de madeira polida na frente do templo.

Hai, Hime-sama… Se olhar no espelho, encontrará a resposta.” Disse, coçando a longa barba prateada, olhando a jovem sentar-se na relva. “Quando Hime-sama nasceu, nos presenteou com a cor dos seus olhos… Muito foi dito sobre isso, mas o que esse servo já sabia, era que sua mãe ficaria muito feliz.”

“Não entendo, Fubuki-sensei…”

“O lilás com verde é a representação das flores que sua mãe mais ama. Ela costumava cultivar peônias, lavandas, hortensias… Certamente hime-sama é a mais preciosa delas, para sua mãe. Kaori significa ‘perfumada como uma linda flor”.

Após alguns minutos de um silêncio confortável, Kaori levantou da grama e se curvou diante do idoso, sorrido com alegria.

Sensei, domo arigatou gozaimashita!”

自由 (Liberdade)

De todas as coisas que Kaori desejava, a liberdade era a única que ela realmente não poderia ter.

Salvo as idas ao seu jardim, sempre estava acompanhada, seja pelos seus ou por seus servos. As muralhas do clã eram como grades de uma gaiola. Suas idas e vindas à Capital eram regradas e em ocasiões especiais, com familiares e lacaios. Sua segurança era prioridade, e em muitas vezes, intimidadora.

Lembrou, ainda maravilhada com a sensação do vento frio e noturno no rosto corado, da fuga com Tetsuo para um festival nos arredores. Sem adulações, sem cuidados extremos, e principalmente, sem barreiras.

Um pássaro voou para além de onde sua visão alcançava, cruzando o céu azulado da manhã, e imediatamente sentiu inveja. Voar para lugares distantes, desbravar florestas, correr em campos abertos, visitar templos, conhecer povos diferentes… sem rumo, sem pressa.

Percebeu que a pequena fuga com Tetsuo naquela noite não era suficiente. Queria explorar o mundo. Queria, do fundo do coração, ser livre.

Bayushi Kaori 6

つづく (“Continua”…)

P.S: Um agradecimento especial para Ludmila Selvatici Faiolli Borges (a jogadora que interpreta Bayushi Kaori) pelo texto, e pelas ilustrações. :)

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