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Caravana do Mago Manco no World RPG Fest 2012 – O Último Debate

27/07/2012

Este post é a sequência da Caravana do Mago Manco no World RPG Fest 2012 – Muitos Encontros

Eram 10 da matina e havia um mago manco se esforçando para acordar o que tinha sobrado de nós da noite anterior. Poucas horas de sono e uma coberta quentinha é uma combinação terrível para os preguiçosos, mas a possibilidade de perder o café-da-manhã era mais aterrorizadora que o despertar para os gulosos, então com esforço levantei e fiz meu desjejum.

Os membros da Caravana acordavam aos poucos (dizem que os Freakzoids tem um regime de sono diferente dos humanos normais), e quando todos levantaram conversamos e resolvemos dividir o grupo. O jovem Nimbus não estava se sentindo muito bem e iria preparar seu próprio almoço, então aqueles que gostariam de almoçar e ir para o evento foram até o Subway, enquanto o resto iria aguardar o almoço do Nimbus e iria direto do hostel para a FIEP.

O Último Debate

Depois de algum stress para conseguir um taxi no domingo na hora do almoço, chegamos ao evento  e nos juntamos ao Du, Jão e Mozart. Pegamos boa parte da palestra do Matheus Vieira sobre o RPG na educação, e gostei muito do que o autor apresentou ali. O Matheus nos contou sobre a experiência que ele e outros professores tiveram com o RPG em sala de aula, abordando três esferas de agentes – o aluno, o professor e o coordenador pedagógico. O educador nos contou as transformações que cada agente passou através do jogo, seja o aluno que expandiu sua habilidade de comunicação e expressão, o professor que inovou suas aulas e as deixou mais agradáveis e a coordenadora pedagógica que passou a encaminhar os mals alunos para o cluble do RPG – “O aluno tá com problema? Então ele precisa jogar RPG”.

Dá pra acreditar?
Com certeza o livro será uma fonte rica para os trabalhos vindouros dos educadores ou mesmo outros profissionais. Força para o RPG e para a educação! Ambos precisam.

Saindo da palestra fui atrás de uma mesa para narrar o playtest do meu próprio sistema (Quintessência), coisa que só consegui com a ajuda dos organizadores da WRF. Não havia mesas livres num raio de milhas!

Com tudo pronto enfrentei um dilema: toda a Caravana queria experimentar o jogo (com excessão do Du, que é estrela d+ para poder se dar ao luxo de jogar um RPG no evento), e eu queria mestrá-lo pra eles, mas ao mesmo tempo gostaria de conhecer outros jogadores e divulgar o jogo pra outras pessoas. O que fazer?

Olhei meu relógio de sol e vi que já eram mais de 15 horas. O tempo infelizmente era nosso inimigo (maldito Cronos!), pois era o último dia do evento e ele já havia passado da metade. Refleti um pouco e lembrei duma questão que abordei num post há alguns meses… Porque eu jogo RPG?

Por causa dos meus amigos! E estes estavam me oferecendo a companhia e atenção no meu RPG – que nem está pronto, enquanto poderiam estar fazendo qualquer outra das mil coisas que o evento oferecia. Eu tinha os melhores amigos que alguém poderia querer, e eu não iria decepcioná-los!

Após uma breve explicação do sistema – que é elementarmente simples (olha o trocadilho!), apresentei a aventura para os jogadores. A primeira cena da história ocorria na cidade de Argos, local em que cada personagem morava e possuía um cargo importante: O Jão era o tesoureiro do rei,  o Gonçalo era um guarda real, o Mozart era um músico famoso, o Nimbus era o caçador real e o Jairo era a sacerdotisa de Atena.

Os personagens se encontravam numa festa da cidade, e cada um estava cumprindo a sua função no local.  O ápice da celebreção era um sacrifício à Atena, e ninguém menos que o caçador e a sacerdotisa realizariam o ritual.

Eu sou suspeito pra falar, mas confesso que me arrepiei ao ouvir a minha narração conjunta com o Nimbus e o Jairo. O caçador havia alvejado de flechas o maior javali da região, mas tal era sua habilidade, que o animal apesar de muito ferido ainda encontrava-se vivo. O arqueiro carregou o animal até a estátua de Atena, passando por uma multidão que jogava rosas e gritava o nome do herói: “- Nimbulus! Nimbulus! Nimbulus!”. Sangue pingava do animal que grunhia, transformando a cena num misto de beleza e brutalidade (quer algo mais grego que isso?). Quando a sacerdotisa finalmente sacrificou o animal e o ofereceu à deusa, a população gritou em júbilo, e os músicos iniciaram uma melodia alegre para cativar os ouvintes.

Parecia que nada poderia ser melhor naquela manhã, até que Acúrcio, o irmão do rei de Argos apareceu. Conhecido como o “escolhido de Ares” pela sua habilidade em batalha, o irmão de Hirônides trouxe seu próprio sacrifício ao seu deus – um touro varão, símbolo supremo de poder. Carregando sozinho o animal, que despejava rios de sangue pelos salões reais, Acúrcio ofereceu sua presa à Ares, e fez questão de ridicularizar o ritual inexpressivo de Deanera, a sacerdotisa, bem como a caça “frágil” de Nimbulus.

Quando o clima começou a ficar tenso e os músicos começaram a tocar instrumentos de percurssão ao invés de flautas , o próprio rei Hirônides apareceu e acalmou seu povo. Ele forçou um pedido de desculpas de Acúrcio à Deanera, e evitou que sangue humano se juntasse ao dos animais no seu palácio. Mas o campeão de Ares ainda não estava satisfeito, e aproveitou para debochar do músico inepto e do tesoureiro que só servia para beber vinho e soltar gases. Sem falar no guarda real que escondia-se entre paredes para evitar ser morto em batalha.

Sem dúvida uma pessoa muito agradável este Acúrcio!

Quando os personagens se reúniram na casa de Epídalos, o tesoureiro, no final da noite após a festa, não foram poucos os xingamentos que o irmão do rei recebeu. Mas mal sabiam os personagens do que iria acontecer…

Na manhã seguinte o arauto de Argos chamou toda a população ao anfiteatro, pois havia uma notíca triste e uma alegre que todos deveriam ter conhecimento. O rei Hirônides fora encontrado morto nos seus aposentos na manhã após a festa. Sem qualquer vestígio de violência no seu corpo ou no quarto em que fora encontrado, o velho rei fora descansar em paz nos reinos de Hades. Mas, apesar da tristeza da perda, a população tinha algo para comemorar (ou será que não?): o campeão Acúrcio seria o novo rei enquanto os filhos de Hirônides não alcançavam a maioridade. Ares abençoaria Argos, e faria os inimigos da cidade tremerem diante do exército que marcharia pelos seus portões!

Imediatamente o grupo começou a investigar tudo e todos, desde os cidadãos pobres que adoravam a idéia de glória e canções para Argos, quanto os nobres que apoiavam a rainha e os princípes. Os personagens começaram a analisar toda a situação da cidade, e criaram uma clima de conflito político MUITO LOUCO! Afinal, os mercadores de escravos e mercadorias adoravam a idéia de guerra e seus consequentes espólios, mas os latinfundiários repudiavam os altos impostos e a grande quantidade de comida que deveria ser destinada aos soldados. Alianças começaram a ser estudadas, e Epídalos elaborou um plano para esconder metade do tesouro real no templo de Atena, antes que Acúrcio esvaziasse os cofres da cidade.

Apesar de toda a investigação, pouco fora descoberto sobre a morte do rei,  até que os personagens conseguiram se infiltrar na prisão do próprio palácio e entraram em contato com Térion, o antigo conselheiro real e um dos centauros mais sábio de toda a Grécia. Lá eles foram informados que a única pessoa que poderia dizer sobre a sua morte seria o próprio Hirônides. E a (antiga) rainha sabia como conseguir essa informação.

Os personagens então se esgueiraram pelos aposentos reais (fortemente vigiados pelos comparsas de Acúrcio) e entraram no quarto da rainha, que os aguardava. Lá eles conseguiram examinar o corpo de Hirônides, e Nimbulus, usando seu conhecimento forense (C.S.I. Argos) conseguiu encontrar um vestígio estranho debaixo da língua do rei, uma espécie de borrão azul, que possivelmente indicaria um envenenamento, mas que ainda era muito vago para uma acusação formal… As palavras do antigo rei deveriam ser ouvidas, mas como?

Foi neste momento que a rainha tomou a palavra, e contou para eles o que Térion havia ensinado para ela, muitos anos antes. Havia um ritual que poderia abrir um portal para o mundo inferior, mas que cobrava um alto preço: Para abrir uma passagem que os vivos pudessem usar, Hades cobrava um sacrifício humano. E não de um escravo ou de um prisioneiro de guerra, mas de um familiar do próprio morto que se desejava encontrar no mundo inferior.

PAN PAN PAAAAAAAAN!!!

Os personagens aturdidos começaram a persuadir a rainha a desistir do plano, e mesmo a idéia de sacrificar um de seus filhos fora levantada, fato que só serviu para despertar uma fúria na rainha, devota de Hera. Neste momento de indecisões e medo dos personagens, um acontecimento muito legal marcou o RPG: o Jão resolveu usar um ponto narrativo que tinha recebido anteriormente.

Com o direito de narrar o que iria acontecer, meu amigo belorizontino fez com que Acúrcio descobrisse a presença dos “traidores” no quarto real, e imediatamente todos os guardas do castelo e o próprio campeão de Ares começaram a socar a porta do quarto, para entrar e prender seus ocupantes.

TUM, TUM, a porta vibrava com os golpes. Os personagens se desesperaram e começaram a discutir entre si se deveriam se entregar ou fazer o ritual. TUM, TUM, a porta começava a ceder. A rainha puxou uma adaga e começou a cortar seu pulso, espirrando sangue nos seus ricos tecidos.

“- Vocês ajudarão o povo de Argos a descobrir a verdade sobre seu rei, ou ficarão estáticos enquanto Acúrcio estabelece um domínio de medo por toda a Grécia?”

TUM, TUM

E então eles se decidiram. Deanera sacou sua adaga de ritual e fez uma reverência para a rainha. Mas esta ainda tinha algo a dizer:

“- Meu marido não os escolheu à toa como homens de confiança, e saiba que ele os tinha em alta conta. Eu irei me unir à ele neste momento, e saibam que irei contente encontrá-lo. Mas peço algo para vocês, que ainda voltarão para o mundo dos vivos: protejam meus filhos. Pois se Argos era o maior tesouro de Hirônides, eles são o meu. Até logo!”

E a sacerdotisa realizou o sacrifício, com lágrimas no rosto e determinação no punho. A porta para Hades tinha sido aberta, e a verdade enfim seria descoberta!

Em outra ocasião.

Eram 18h e 30, e esse era o horário limite que tínhamos combinado de jogar. Embora todos da mesma estivessem mais do que empolgados com a aventura (confesso que tive que segurar minha emoção ao dizer as últimas palavras da rainha), decidimos parar por aí, aproveitar o final do evento e terminar a história no hostel, de preferência com a participação do Du.

Corremos para a sessão de boardgames à procura do jogo de Game of Thrones e Battlestar Galactica que havíamos visto antes, mas ambos estavam sendo usados por outros jogadores (Éris maldita!). Então, agora acompanhados do Alex, o jogador de “O Um Anel” do dia anterior que acabamos encontrando acidentalmente perto da lanchonete, pegamos um jogo chamado Carcassone e passamos o resto do evento construindo fazendas, estradas, mosteiros e cidades num jogo simples e ao mesmo tempo muito interessante!

Segundão!!

O evento acabou às 20h nesse dia, e saímos da FIEP com aquele aperto no peito que todo RPGista que frequenta esse tipo de evento conhece muito bem. O Jão, Du e o Gonçalo ainda se animaram à ir numa pizzaria com uma galera do evento, mas o resto da Caravana estava cansado ou pobre demais para mais uma saída, então voltamos ao hostel.

Lá jantamos e jogamos Summoners Wars (que por sinal é bem divertido) enquanto os três não chegavam.

Quando eles voltaram já era próximo da meia noite, e ao que tudo indicava, não terminaríamos a aventura… Mas o Du foi gentil o suficiente para perguntar como foi o jogo, e eu então comecei a contar a sessão, auxiliado pelo Jão e o Jairo. Nosso ouvinte começou a se empolgar com a história e então começamos a conversar sobre o processo de criação de sistemas. E conversamos. Muito. Todos começaram a dar suas idéias no que o RPG podia melhorar. E todos começaram a falar ao mesmo tempo. Às vezes sobre o Quintessência, às vezes sobre sobre a Colônia de Férias do Mago Manco, e às vezes sobre num sei o que, num sei quê, num sei que lá…

“Estamos fritando a cabeça do Chico” (Caetano:2012)

E estavam mesmo. Do melhor jeito possível!
Fizemos um brainstorm incrível, e eu tenho certeza que o RPG melhorará 300% por causa dessa conversa que tivemos. Sou muito grato a todos da Caravana por compartilharem tanta criatividade e conhecimento comigo. Muito obrigado!

Mas já eram 3h30 da manhã (e coincidentamente é o mesmo horário em que escrevo o post agora) e na segunda-feira teríamos um longo dia turístico pela frente. O sono  enfim chegou, e dormimos o sono dos justos e dos nerds.

Boa noite!

Continuação: Caravana do Mago Manco no World RPG Fest 2012 – Muitas Despedidas

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9 Comentários leave one →
  1. 27/07/2012 04:44

    Muito show. Toda vez que vejo esse post’s, morro de inveja por não ter ido!

  2. 27/07/2012 11:56

    Então creio que a intenção dele foi alcançada… hehehe
    Use a inveja como incentivo pra você ir nos próximos eventos Fábio, é uma experiência muito interessante.

    Abraços

  3. 27/07/2012 12:55

    O nome dele era Nimbulus!?!

  4. 27/07/2012 14:11

    Sim!!
    A gente discutiu isso na mesa lembra?

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