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Campanha em Erebor – Cena 20 – Qhorin, O Retorno para Casa

14/11/2014

Cena anterior: Cena 19 – Vir, homem de Valle

Eu ainda usava o elmo de Ágrapo quando a vi novamente, depois de mais de 1 ano, a Montanha Solitária. Um pico que se ergue, sozinho, em meio a vasta planície que o circunda, austeramente da terra contra o céu como num desacato, um dedo inquisidor que aponta e discrimina os deuses no céu que nos abandonaram nas poeiras da terra.

Retirei o elmo para vê-la melhor, meus poucos cabelos estavam ensopados de suor e amassados contra o couro de minha careca. Eu estava voltando para casa depois de muito tempo, com minha missão cumprida. Mas se estava cumprida, porque o ar estava tão pesado? Talvez porque parti da Montanha com uma comitiva de muitos amigos para encontrar meu filho, mas estava retornando com Ágrapo e nenhuma comitiva.

A medida que nos aproximávamos de Erebor, ela ganhava forma, crescia, imponente desafiadora, concreta, pesada, fatídica… Uma montanha não pode ser ignorada, você pode desviar dela, dar a volta, escalá-la, entrar nela, mas não pode ignorá-la. Ela se faz presente de uma forma que nenhum outro elemento da criação se faz. Ela está lá, ou não está. Não existe meio termo. É um lembrete de Mahal que existem coisas imutáveis no mundo, coisas que sempre existiram e sempre existirão, coisas fiéis e verdadeiras. Talvez seja por isso que nós anões escrevemos nossas leis nas rochas, os ossos da montanha. Para que elas existam enquanto o mundo existir, imutáveis e absolutas. A Montanha é a verdade.

Mapa Erebor_Cansado, pai? – Ágrapo me resgatou de meus pensamentos.

_ Hã? Sim, só estou com um pouco de falta de ar. – Paramos de andar, apoei-me em meus joelhos e procurei tomar fôlego.

_ Engraçado, está com mais falta de ar agora, que quando estava com o elmo. – Ágrapo sorriu com uma alegria jovial, que eu não o via manifestar desde quando saiu de Erebor para fazer a entrega no Condado, muito antes de tudo isso. Ele retirou a gaita que fiz para ele e começou a soprar uma melodia que inventada enquanto soprava.

Quando ele era tão pequeno que cabia nas palmas de minhas mãos eu assoprava seu rosto, refrescando-o do calor da minha forja, mas também enviando-lhe os bons fluídos dos ventos, a alegria, a jovialidade, o poder criativo. O sopro anima o barro do nosso ser. É a essência do vento, do espírito, do som. É o choro forte do recém-nascido, a breve respiração da iminência do perigo, o soluço que o pânico desperta, demasiado profundo para que seja colocado em palavras. Através do sopro ouvi as críticas duras de meu pai quando errava algum trabalho, e foi através dele também que senti pela primeira vez, o aroma de minha esposa, Agnes. Tudo sopra. As árvores ao nosso redor sussurravam a suas próprias melodias, enquanto Ágrapo soprava a dele. E logo, eu irei sentir o sopro do Rei-sob-a-Montanha e espero estar de pé quando ele terminar.

_ Tudo é matéria. – Disse para a Montanha à minha frente. – Tudo é sopro. – Disse enfim, levantei-me e terminei a caminhada até Erebor.

Ao entrar na Montanha eu percebi, como nossos experiências se materializam em nossa carne. Quando sai de Erebor em busca de meu filho, era chamado ‘Maestro’, conhecido em todo o reino, muito respeitável como cada Martelo-e-Tenaz, assim como meu pai e o pai dele antes dele. Voltava agora quase como um mendigo, sem anéis em minhas barbas, sem braceletes ornando meus pulsos, sem arma mágica posando em meu ombro. As pessoas me olhavam e não me reconheciam, fui ignorado por completo. Talvez só tenha conseguido entrar na Montanha por ser um anão. Fui direto para minha oficina, pois era lá que eu morava com Agnes, antes de tudo.

Quando ela me viu, me deu um abraço forte e caloroso demais, comecei a duvidar que eu o merecia. Mas quando ela viu o menino, rejuvenesceu 20 anos! E sua alegria foi tamanha que rivalizou com a que teve na data do nascimento de Ágrapo. Faltou-lhe forças nas pernas e foi preciso segurá-la e coloca-la em um sofá. Produziu um sonho estranho, resultado de uma mistura de risada com choro desenfreado. Não pode conter nenhum dos dois. Abraçou Ágrapo com tamanha força que o fez tossir. A alegria de uma mãe que depois de muito tempo recuperou seu filho. Era algo único. Eu sabia que algo mágico havia acontecido ali, fui testemunha de tudo. Se não estivesse tão cansado, nem tivesse ainda que prestar declarações ao Rei, seria um bom dia para fabricar brinquedos. Mas eu ainda tinha deveres para com meu rei, e esta realidade estava longe de se concretizar, por enquanto.

Tomei um bom banho, coloquei minhas antigas roupas e ornamentos. Percebi que a aventura me emagreceu 4 furos no cinto. Bem como fortaleceu de ferro a minha vontade. Eu já não era mais o mesmo, mas estava torcendo para que o Rei fosse. Segui então para os seus salões. Mãe e filho tinham muito o que conversar, e eu não podia espera-los.

Quando cheguei, na Câmara das Audiências, as portas estavam fechadas. Dois guardas me disseram que o Rei tinha acabado de autorizar a entrada do Forjas de Anaoúltimo pedinte. Eu disse meu nome e os guardas se entreolharam. Um deles deu algumas batidas não muito rítmicas no grosso portão de aço, um código que ecoou pelo minério até o guarda do outro lado da porta. Logo veio os ecos de suas batidas, o guarda do lado de fora bateu mais uma vez e então, depois de alguns minutos, os portões se abriram.

O salão era comprido, mas largo. No centro uma fogueira que nunca se apagava, nas laterais tapetes ilustrando a saga de Thror, Thrain e Thorin. No alto, suspensa por cabos que davam a impressão de que ela flutuava aterrorizadora, estava a caveira de Smaug, o verme. Uma réplica, na verdade, a original permanecia submersa no lago, dormindo seu eterno sono. E no fundo do salão, depois de toda a corte, estava as escadas, o trono, e o Rei.

Agachei-me dizendo:

_ Salve Dain-Pé-de-Ferro, Rei-sob-a-Montanha, que suas barbas nunca caiam.

_ Salve Maestro Qhorin Martelo-e-Tenaz, que sua estrada seja firme.

Não era.

Antes de mais nada, contei a ele sobre a mensagem de Tharkûn, ou Gandalf como é conhecido no norte. Falei sobre a eminência da guerra, a concentração de orcs em Dol Guldur, as escaramuças que tanto Thranduil, quanto Galadriel estavam rechaçando por toda a floresta em seus reinos, a migração de orientais para Valle, enfim. Por ora, Erebor era um pico alto numa maré rebelde, logo uma onda mais forte chegaria. Tharkûn me devolveu a luz aos olhos, mas pediu que eu fizesse o mesmo com Dáin e abrisse seus olhos para a guerra que se aproxima.

Quando acabei de falar, ele agradeceu as informações e disse que ponderaria sobre elas com o Conselho da Montanha e também com a Ordem dos Druidas. Depois pediu que eu contasse minha aventura, se eu consegui meu objetivo e como Thraurin havia se saído, pois seu pai, Dwalin, estava ansioso por revê-lo.

Engoli seco e comecei a contar. Finalmente havia chegado o momento, fiz o melhor que pude para ser verdadeiro e ao mesmo tempo não colocar tudo a perder. Quando acabei de falar, fui interrompido:

_ PERJURO! – A voz grave de Dwalin ecoou por todo o salão, ganhou peso e volume. Havia centenas de anões ali num silêncio absoluto, de modo que só podia-se escutar o velho herói, antigo guerreiro, com sua voz poderosa e magoada. – EU O ACUSO DE PERJÚRIA!!! – Vociferou ele apontando o dedo para mim enquanto o eco de sua fúria ainda vibrava nas paredes da Erebor, como se a própria montanha falasse.

_ Fale baixo Dwalin, este ainda é o meu reino – Disse o Rei.

Dwalin se aproximou das escadarias de seu trono e moderou seu tom, mais ainda reverberava.

_ Ele me prometeu! Qhorin pegou meu filho sob seus cuidados para que encontrasse o seu, em troca, ele acompanharia Thraurin até Khazâd-Dûm e ambos resgatariam Balin, meu irmão. Agora não tenho irmão, nem filho. Mas vejo que Qhorin recuperou o seu.

O olhar do Rei-sob-a-Montanha caiu sobre mim, eu não podia mentir ao rei:

_ É verdade que fez tal promessa? – Ele me perguntou.

_ Eu disse… – Fraquejei, estava com falta de ar novamente – Eu posso ter sido mal interpretado.

_ Ahhh! – A corte toda começou a se manifestar, ao passo que Dáin levantou a mão e todos se calaram novamente até o mais profundo silêncio. Tive a impressão que todos puderam ouvir-me engolir seco antes de continuar a falar.

_ Quando saí em minha busca, Dwalin estava enlouquecido, se afogando em seu próprio desespero. A única coisa que fiz foi jogar uma corda para alguém que se afogava. Há maldade nisso? – Perguntei.

_ É crime JURAR e não CUMPRIR! – Sentenciou Dwalin – Se não podia fazer, não devia falar.

_ Eu não disse isso. – Respondi e um murmúrio entre os anões começou e terminou em seguida – Como pode um fabricante de brinquedos jurar ir à Moria… – fui traído por minhas palavras – à Khazâd-Dûm e retornar? Eu precisava de um herói de verdade em minha comitiva e quando falei com Dwalin, pensei que ele próprio se animaria em sair da montanha e ir comigo. E talvez, se fosse o meu destino, eu o acompanharia até a Colônia de Balin, depois de resgatar meu próprio filho. Mas Dwalin não quis isso, ele preferiu que seu filho fosse em seu lugar.

_ Então eu sou o culpado? – Perguntou Dwalin.

_ Seu filho era maior de idade. Ele sabia dos riscos de tal missão. Não sei se o perdemos, mas perdemos outros heróis na jornada. Perdemos um troca-peles da aldeia do próprio Beorn, nas trevas de Dol Guldur. Lá eu também perdi minha visão. Thaurin, perdeu um amuleto importante que ele ganhou do mago castanho. Muito foi perdido, mas talvez não Thaurin.

_ Você o deixou ir sozinho até Khazâd-Dûm e acha que ele não está… – A voz faltou a Dwalin.

_ Ele cobrou minha promessa depois de Dol Guldur. Mas eu ainda não tinha cumprido minha missão, eu ainda precisava levar Ágrapo até os braços de sua mãe, caso contrário não seria honesto comigo mesmo. Mesmo assim, paguei minha promessa a Thraurin. Comprei um filho ao preço de outro. Pois entreguei a Thraurin, Bagnir, a Justiça Paterna, meu martelo de batalha, minha maior obra. Meu filho com a forja. Por esse trabalho serei lembrado. Por esse trabalho serei imortal. Essa seria a herança de Ágrapo, era o meu legado, trabalho como esse eu nunca mais serei capaz de fazer. Se Thraurin está perdido, e nunca voltarmos a vê-lo, então Bagnir também está e eu serei esquecido e de fato morrerei, para o desgosto de meus antepassados. Mesmo assim, o fiz por Ágrapo e por Thraurin. Pois com tal arma eu salvei o próprio Thraurin dos wargs na floresta perto de Rhosgobel. Quebrei o esquife amaldiçoado que aprisionou a elfa Rowenna. E abri caminho no meio de todos os orcs de Dol Guldur até meu filho! Se existe uma arma em toda a Terra-Média capaz de cruzar todos os orcs de Khazâd-Dûm de Thraurin até Balin, essa é Bagnir. Este foi meu pagamento a Thraurin para que pudesse trazer meu filho de volta para casa. Diga-me, se cometi algum crime, Rei-sob-a-Montanha e caminharei de bom grado até as suas masmorras.

Dáin suspirou por alguns segundos e olhou de mim para Dwalin diversas vezes então se pronunciou:

_ Sua prisão não é necessária – Disse por fim – Mas para recuperar seu filho, você privou Dwalin do dele e isso deve ser remediado. A partir de hoje, Ágrapo será filho de Dwalin. Irá morar com ele, cear com ele, herdar seu nome e legado. Agnes poderá visitar Ágrapo aos finais de semana.

O soco na boca do estômago foi duro, comecei a sentir o sangue na boca, mal podia acreditar no que eu acabara de ouvir.

_ Mas… meu Senhor… – Tentei argumentar.

Então Dáin levantou a mão e me interrompeu, pronunciando sua sentença:

_ É a vontade do Rei.

– É A VONTADE DO REI! – O Conselho dos Anões disseram em uníssono, e eu sabia que estava tudo acabado. Dwalin me deu um último olhar de reprovação e a Câmara das Audiências começou a se esvaziar. O sopro do Rei fora forte demais, e agora eu estava sem chão.

Reis dos Anões

Próxima Cena: Cena 21 – Rowenna, flor solitária

 

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3 Comentários leave one →
  1. Fernando Leal Reis permalink
    17/12/2014 02:07

    Estava inspirado ao compor este relato cheio de poesia, nobre anão da Casa Forja-Quente!

    “Um pico que se ergue, sozinho, em meio a vasta planície que o circunda, austeramente da terra contra o céu como num desacato, um dedo inquisidor que aponta e discrimina os deuses no céu que nos abandonaram nas poeiras da terra.”
    (…)
    “O sopro anima o barro do nosso ser. É a essência do vento, do espírito, do som. É o choro forte do recém-nascido, a breve respiração da iminência do perigo, o soluço que o pânico desperta, demasiado profundo para que seja colocado em palavras.”

    A cada relato, resenha e ensaio que aqui leio, sinto pulsante a paixão pela Terra-Média, pelo universo maravilhoso de Tolkien e isso é fantástico e contagiante! Que seja eterno o legado das palavras.

    Duro julgamento, firme sentença.
    Eu mesmo fiquei com um nó na garganta enquanto lia. Depois de toda uma jornada, depois de tantos perigos, de tantas perdas, viver a angustia de estar perto, mas ao mesmo tempo longe de seu filho recém-resgatado será um grande pesar ao Maestro. Espero que Thraurin retorne bem-aventurado de sua campanha à Moria. (Sim, eu gosto de finais felizes! hahahahahaaha)

    Forte abraço, meus amigos!
    Que seja firme nossa estrada.

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