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Sistemas e Cenários – Blood & Honor

03/09/2014

De maneira simples, descrevo Blood & Honor como um RPG sobre samurais e o mundo em que eles vivem. Criado por John Wick, o jogo explora a riqueza de detalhes que envolvem esses guerreiros japoneses, tão exóticos para nós criaturas do Ocidente. Em B&H você é incentivado à pensar nos milhões de elementos que caracterizam os lendários guerreiros, como seu código de honra e o significado de sua espada.

O autor, de uma forma muito inteligente, estabelece logo a princípio o clã (famiglia) como o mais importante no jogo. Mais importante até do que seu personagem, o que, na minha opinião, condiz fielmente com o senso de dever dos samurais. Um samurai sem clã é um ronin, tratado como lixo e covarde pelo resto da sociedade.

Cada jogador cria o clã conjuntamente, nomeando as construções nele inseridas, como santuário xintoísta, casa de geishas, estábulos… tudo com reflexos mecânicos no jogo (o santuário xintoísta por exemplo provê bênçãos aos personagens, enquanto a casa de geishas dá rumores aos jogadores).

Todo personagem possui uma posição de destaque na estrutura do clã, indo desde o guarda-costas do daymio até seu mestre de segredos. Aliás, o próprio daymio tem seu comportamento definido pelos jogadores – engenhoso, astuto, louco… entre outros!

Garantindo a imersão dos jogadores na história, temos um cenário muito bem trabalhado por John Wick (não por acaso também autor do renomado Houses of the Blooded), que esbanja conhecimento da cultura japonesa.

Bom, à partir disso, já poderíamos ter um RPG muito bom aqui. Mas, Blood & Honor tem mais. A mecânica do jogo é muito inovadora e, na minha opinião, muito massa!

Cada rolagem de dados é baseado na soma de características pertinentes de cada personagem, envolvendo nome, atributo do clã, perícia…

Vou exemplificar como um exemplo da partida que joguei com meus amigos Flávio e Vazora. Nesta ocasião, Matsumoto Motonari e seu companheiro Takeda Shingen foram emboscados próximos ao rio de uma vila numa província inimiga de seu próprio clã. Quando a luta começou, começamos a elaborar a parada de dados de Matsumoto. Somamos sua Proeza (habilidade em armas), o aspecto do clã “juntos-somos-mais-fortes” (já que os dois lutavam juntos), e, para felicidade do Vazora, também o significado de seu nome.

Hã?

Takeda Shingen

Sr. Flávio Rodrigues aceita contato para ilustrações freelances de samurais. O Aventurando-se recomenda!

Pois é, quando o Vazora criou o nome de seu personagem, ele decidiu que o mesmo significaria “cobra do rio”, por mais que isso não tivesse nenhuma relação real com um possível significado em japonês. Mas quem se importa? O personagem foi emboscado no rio, e agora a cobra do rio mostraria seu valor! Haha

Sendo assim, Matsumoto ficou com a soma total de 7 dados, onde 2 foram escolhidos para apostas, e 5 para a parada. Estes 5 seriam somados para alcançar o número-alvo (dez, sempre dez), e, caso o número fosse maior que o do oponente, o direito de narração iria para o Vazora, acrescentado pelas apostas.

Dessa forma, num resultado de 17 do Matsumoto e 15 do mascarado que o atacava (que ainda ganhou 2 dados por ter apontado Vazora antes dele ter feito o mesmo, mimetizando um saque rápido – não há “iniciativa” no jogo), Vazora conseguiu o direito de narração. Aqui ele poderia dizer qualquer coisa, até mesmo que seu personagem perdeu a luta.

Mas não foi o caso.

O Mestre Espião do clã Nankatsu dizimou seu atacante com apenas um movimento. Porém, o mascarado também teve duas apostas, reduzida à uma, já que perdera a prioridade (sempre metade para aqueles que perdem a parada de dados disputada). Com essa uma aposta, eu narrador afirmei que Matsumoto também sofreu um ataque. O Vazora então usou sua aposta pra afirmar que a antiga bainha de sua espada milenar foi destruída, despertando a ira dos Motonari, surgindo a possibilidade para uma vendeta.

Olha que massa!

Essa abertura de narração aos jogadores é muito interessante, pois serve como engrenagem para o desenvolvimento conjunto da história. John Wick até afirmou que diversas vezes ele narrou B&H sem preparação prévia, apenas utilizando os elementos que os jogadores traziam à trama.

Este é, definitivamente, meu tipo de jogo!

Os comentários do autor e os capítulos dedicados à reflexão sobre o RPG são um tesouro à parte no livro. Me surpreendi muito com o material riquíssimo presente na obra, importante não só para o Blood & Honor mas para qualquer RPG.

Para finalizar, gostaria de apontar o ótimo trabalho da Red Box, que traduziu e lançou o jogo aqui no Brasil. Por mais que tenha faltado um trabalho de revisão mais extenso para corrigir uma expressiva quantidade de erros de digitação no produto final, o aspecto visual do livro é primoroso, com ótima qualidade de papel e diagramação. As ilustrações escolhidas pelo autor são lindíssimas, combinando perfeitamente com o conteúdo. Se faltou algo, foi um mapa das províncias do Japão, elemento presentes à parte apenas na edição de luxo oferecida pela editora. Até onde sei, fato ausente até na versão original gringa!

Felizmente meu jogo de tabuleiro Shogun me serviu bem nesse caso, com seu ótimo mapa do Japão feudal. Pra quem não tem nem uma opção nem outra, aqui vai um ótimo mapa pra ser usado nos jogos: Feudal Map of Japan

Blood & Honor foi um dos jogos mais interessantes que já joguei e, principalmente lí nos últimos anos. Agradeço muito ao Jairo que indicou o livro pra mim. Brigadão amigo ciborgue!

Roll the bones,

Chico Lobo Leal

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5 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    04/09/2014 00:29

    Só faltou citar que o mesmo John Wick foi também autor do aclamado Legend of Five Rings, e que optou por uma linguagem mais simplista ao escrever este jogo mais “histórico” – da mesma forma que fez na relação Houses of Blooded/Shotgun Diaries.

    No mais, saiba que fiquei com inveja pois ainda quero jogá-lo um dia… :D

    Forte abraço, meu chapa!

  2. 04/09/2014 08:49

    Que massa, Chico! Blood and Honor é realmente um jogão. Um ótimo exemplo como o sistema do jogo determina a experiência você jogando. Eu fui tão absorvido pela cultura Japão Feudal que eu me orgulho da morte do meu personagem!

  3. 04/09/2014 09:37

    Ótima colocação Jairo!
    Detalhe importante do processo de criação do Blood & Honor.

    E você tá certo Jão, acho que o maior trunfo do B&H é realmente te fazer sentir no Japão, através dum cenário muito bem trabalhado e mecânicas muito coerentes com sua proposta.

    Jogaço!

  4. Vazora permalink
    04/09/2014 10:01

    Realmente, jogo muito bom, facilita muito a inserção do jogador na cultura japonesa. Após uma confusão inicial, fica fácil ao longo do jogo pensar como um samurai com deveres junto ao clã. O sistema de batalhas ser “mortal” incentiva o personagem a agir de forma mais realista (o mestre da espionagem pensa duas vezes antes de gritar banzai e brigar com todo mundo). Também recomendo!

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