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Campanha em Fortuna – Cena 7 – Os três sábios

18/10/2019

Cena anterior: Fortuna

Aproveitando a oportunidade de descansar em local seguro, todos os companheiros dormiam que nem pedra na capital maia, Calakmul. Com o sol subindo o horizonte, os metadílios iniciavam seus afazeres, mas ainda assim o ronco de Ignis podia ser ouvido por aqueles que passavam perto das casas de hóspedes.

Curiosamente, no entanto, não fora o piromante que mais chamara atenção dos metadílios. A posição de destaque ficou para Cassius, que tivera a brilhante ideia de passar a noite em cima de uma árvore, “para ficar mais próximo da deusa”.

Se ele esteve mais próximo de Ísis ninguém sabe, mas o fato é que a história do “macaco de lata” tornou-se o conto favorito das crianças metadílias por muitas gerações em Calakmul.

Com os estômagos roncando, os aventureiros começaram a acordar. Enquanto o paladino descobria os efeitos do sol tropical em uma pele com pouca melanina, Ysolde e Ignis observavam uma espécie de quarto comunitário, com diversas camas de palha.

Em pouco tempo, um metadílio gorducho foi até eles, fazendo gestos para que o acompanhassem. Seguindo seus passos, os mágicos se deparam com seu amigo Cassius, e uma turba de crianças à sua volta, dando risadinhas.

“Minha nossa!” – exclamaram o piromante e a maga em uníssono. “O que aconteceu com seu rosto? Parece que jogaram água fervente nele”.

Antes que pudesse responder, Aranhanawr apareceu detrás das crianças, fazendo seus comentários sacanas: “Então você meditar com coco no sol? Tsc tsc… quanto maior a perna, menos cabeça funciona, né?”

Felizmente a gurizada não falava a língua de Érebo, pois, do contrário, o vocabulário de palavrões deles seria expandido em, pelo menos, 20 verbetes. Todavia, a expressão de Cassius era inteligível o suficiente, e todos correram antes que o macaco de lata resolvesse arremessar cocô neles. O metadílio que guiou Ysolde e Ignis aproveitou o embalo, deixando os quatro sozinhos.

“Vamos ver druidisa. Ela ajudar queimadura”, falou rapidamente o ranger (que se esforçava para memorizar os novos palavrões).

Caminhando à luz do dia, os humanos puderam reparar mais na estranha cidade dos metadílios. Acostumados com ruas estreitas cheias de esterco de cavalos de carga, além de, ocasionalmente, fezes humanas, Calakmul surpreendia os forasteiros não só pela limpeza, mas também por suas dimensões: haviam grandes espaços vazios entre as construções, o que valorizava suas dimensões. De fato, não demorou muito para que monumentais construções de pedra em formato piramidal chamassem a atenção dos humanos.

Mayan planning

Calakmul. Autor desconhecido. Fonte: Pinterest.

“O que são aquelas pirâmides, Aranhanawr?” – perguntou a curiosa Ysolde.

“Rei. E sábios. Depois. Agora, druidisa, Erva-Dourada” – respondeu o ranger.

Caminhando em direção a um riacho (limpo!), os companheiros viram um pequeno morro esverdeado a sua frente, distinguindo-se das construções ao redor. Ao se aproximarem, observaram que, na verdade, era uma casa com paredes e telhados verdes. Diversos pássaros utilizavam o telhado como suporte aos seus ninhos, e alguns macaquinhos rondavam as imediações, carregando alguns objetos estranhos.

Ignis segurou bem suas calças, olhando desconfiado para os símios.

Com um sinal para esperarem, Aranhanawr adentrou a casa, deixando-os do lado de fora. Após ouvirem algumas frases na língua metadília, foram chamados para dentro.

“Eita!” – exclamou o sincero Ignis.

De fato, o “dentro” não era tão diferente do “fora”, ou pelo menos não era tão diferente do “dentro da floresta”. O interior da casa da druidisa era bem úmido, e havia tantas plantas, raízes, flores e frutas pelas paredes, que Ysolde se perguntou se a construção utilizava alguma estrutura de madeira ou pedra, ou se era a própria natureza que fornecia a habitação à druidisa.

No entanto, a casa tinha dimensões metadílias, e logo Cassius teve que sentar no chão para não correr o perigo de destruir o telhado com sua cabeça. Após um breve exame na face do paladino, Erva-Dourada começou a quebrar umas folhas espinhentas, extraindo uma espécie de líquido que aliviou suas dores.

“Muito obrigado, senhora” – agradeceu o seguidor de Ísis.

Guarda maia

Guarda maia. Autor: Daniel Parada.

 

Aos pés da pirâmide central estavam diversos guardas segurando lanças, macuahuitls e arcos, mas, diferentemente das vestimentas e armas simples que os outros metadílios portavam, estes guardas vestiam roupas com cores que faziam alusão à guerra: vermelho e preto. Além disso, suas armas continham diversas marcas e ornamentos, possivelmente mostrando os feitos de seus portadores.

Liderados por Aranhanawr, os três humanos foram subindo as escadas de pedra da pirâmide, ficando impressionados com a própria construção, que parecia ter sido talhada na rocha bruta. Ao pensar nos casarões e castelos decadentes de Érebo, os amigos começaram a refletir quem de fato era selvagem…

Guarda de elite maia

Guarda de elite maia: Autor: Daniel Parada.

Quando chegaram ao topo da pirâmide, finalmente se renderam à magnificência dos maias, compreendendo o porquê do continente ter sido batizado de Fortuna. Seis guardas ladeavam um portal de entrada, e, mais tarde, Ignis não soube dizer o que mais chamava atenção neles: se a roupa feita na mais pura prata, ou se as armas banhadas em ouro, que reluziam à luz do sol.

Havia ali um tesouro que poucos nobres de Érebo poderiam fazer frente com suas riquezas.

Ao adentrar a pirâmide, mais surpresas: o piso interno era desenhado, formando padrões ilustrados ao longo de todo o corredor, que terminava em um grande trono de rocha vítrea negra (obsidiana). Nela estava sentado o líder de Calakmul, exibindo um manto decorado em ouro, e uma grande máscara colorida. Sua mera presença emanava majestade, embora seus braços e pernas expostos revelassem sua idade avançada.

Rapidamente, todos se apresentaram: Ysolde com uma saudação elegante e educada, Cassius com uma reverência simples e sincera, e Ignis com a tentativa de um “hi-five”, que, para sua decepção, não foi correspondido.

Com a ajuda de Aranhanawr , um resumo das aventuras dos quatro é relatada ao rei, além de breves apresentações individuais a respeito do propósito de cada um deles. Enquanto esperavam a tradução do ranger, os olhos dos humanos passeavam pelo cômodo, até que Cassius percebeu a presença da druidisa.

Como diabos ela poderia ter chego ali antes deles, se eles foram direto de sua casa à pirâmide?

No entanto, não havia como solucionar esse mistério agora, mas o paladino fez um lembrete mental de perguntar à Nhãnhã se as druidisas usavam magia.

Para alegria de todos, o rei logo bateu as palmas, convocando seus servos para trazer comida. Segundo Aranhanawr, após a refeição eles visitariam os sábios de Calakmul, o que poderia demorar, e, com certeza, requereria uma barriga cheia.

Colocando vasilhas e cestas no chão, todos foram convidados a sentar de pernas cruzadas, hábito que surpreendeu Ysolde, Ignis e Cassius (os metadílios não tinham mesas ou cadeiras!). Em compensação, a comida estava maravilhosa: cada vasilha continha um sabor novo para os humanos, e a refeição foi quase uma viagem por si só.

Enquanto se deliciavam, a druidisa aproximou-se de Cassius, e, com a ajuda de Aranhanawr, perguntou: “onde você conseguiu essa arma, guerreiro?”.

“De um metadílio que tombou. Perdi a minha na travessia do oceano”, respondeu Cassius.

Sem dizer mais nada, a druidisa foi ter com o rei, começando uma conversa privada.

Quando a barriga de Ignis já não conseguia mais alocar um peixe ou uma espiga de milho colorido, os amigos finalmente se dirigiram aos sábios, seguindo os passos do ranger. As sombras já se alongavam com o sol a caminho da linha do horizonte, mas descansados e com a barriga cheia, os quatro conversavam animadamente.

A pirâmide dos sábios era… diferente.

Enquanto a pirâmide do rei passava uma sensação de resistência, essa passava a sensação de… antiguidade. Havia diversas plantas espalhadas nela, e suas raízes faziam rachaduras nos degraus e paredes.

Não havia guardas ali, mas logo Ysolde sentiu uma sensação familiar: havia magia muito poderosa naquele local.

Ao adentrarem a pirâmide, perceberam que a mesma era praticamente uma ruína, com muitas entradas de luz revelavando os buracos das paredes e teto. Como não poderia ser diferente num ambiente tropical, tal entrada de luz impactava o interior da construção, que tinha seu próprio ecossistema: lagartos banhavam-se nas áreas iluminadas, enquanto dezenas de insetos se alimentavam das plantas.

“Aqui ter nossa história. Importante”, falou Aranhanawr, de forma estranhamente séria.

De fato, enquanto a pirâmide real possuía um piso ricamente desenhado, nessa eram as paredes que possuíam desenhos, embora muitos estivessem gastos e com trepadeiras. Também diferente dos aposentos reais, não havia corredores ou portas ali dentro, apenas paredes, por todos os lados.

“Onde estão os sábios, Nhãnhã?”, indagou Cassius, manifestando a dúvida de todos.

“Por aqui”, respondeu o pequeno, caminhando reto em uma parede e a atravessando como se a mesma fosse feita de fumaça! Pronto, agora o paladino tinha certeza que havia magia em Calakmul.

Seguindo os passos do metadílio, os humanos adentraram um corredor escuro, iluminado parcialmente por tochas de chamas verdes (!). Após passarem por algumas salas com estátuas, os quatro avistam uma sala em formato oval, com uma grande rocha vítrea em seu centro. Ao seu redor havia três silhuetas paradas, figuras esguias e – para surpresa de todos – altas, muito maiores que metadílios.

Já próximos, os aventureiros reparam que um dos anciões mantinha uma venda em seus olhos, o outro não possuía orelhas e o terceiro tinha seus lábios costurados por uma linha fina. Mas, mais do que o tamanho, ou o clichê utilizado pelo Mestre, o que mais surpreendeu todos foram as palavras do sábio cego, no idioma comum:

“Sejam bem-vindos à Calakmul, Cassius Lux, Ysolde Rath e Ignis. Por gentileza, coloquem suas mãos sobre o altar”.

Após balbuciar alguns comentários surpresos, a maga fez o que lhe foi pedido. Com as mãos em cima da rocha uma grande luz dourada emergiu do altar, iluminando a sala. Semelhantemente, Ignis causou um efeito parecido, embora a luz possuísse uma cor avermelhada e menos brilhante.

Na vez de Cassius, no entanto, uma luz roxa e agourenta foi emitida, e, assim que a luz se espalhou pelo ambiente, a arma do paladino também brilhou.

“Você está amaldiçoado, parente. Você não conseguirá se livrar dessa arma até dá-la seu destino correto ou morrer na mão de outro guerreiro”, falou de forma sombria o sábio que não possuía orelhas.

“Merda! Como me livro dela? E, peraí, parente? Quem são vocês?”, exclamou o seguidor de Ísis, conforme os pensamentos surgiam em sua cabeça.

Foi o sábio vendado que respondeu: “As respostas que você procura estão longe daqui. Mas não se preocupe, nós vamos ajuda-los em seus caminhos”.

“Onde encontramos essas respostas, ó venerável mestre?” perguntou Ysolde, fazendo uma reverência forçada. A notícia pegou todos de surpresa.

“Dirijam-se à cadeia de montanhas. Mas, antes disso, falem com Erva-Dourada. O xamã de Calakmul morrerá essa noite, o povo maia precisará dum substituto”.

Sem perder tempo, o sábio sem boca fez um sinal para que o seguissem, guiando-se de volta à parede ilusória. No caminho, Cassius reparou que o ancião possuía orelhas muito mais pontudas do que as suas…

Como previsto pelos sábios, o idoso xamã de Calakmul de fato morrera naquela noite, causando uma grande comoção entre os metadílios. O funeral do líder espiritual seria na próxima lua cheia, mas os companheiros não tinham perspectivas de participar na cerimônia. Foi o ranger que trouxe as notícias:

“Falei com Erva-Dourada sobre conversa sábios. Se vamos Montanhas, vamos vila inca. Com sorte, lá conseguimos xamã”, resumiu Aranhanawr.

“Por que vocês não escolhem um xamã entre vocês mesmos?”, indagou Ignis.

“Burro, não se escolhe xamã. Poucos. Povo inca dá xamã, nós dá comida e ferramentas”, respondeu o metadílio, falando o que, para ele, era óbvio.

Naquela noite, todos dormiram sob uma cobertura: Aranhanawr em sua própria casa, Ignis e Ysolde nas casas dos hóspedes, e Cassius sob uma árvore com diversos galhos e folhas. Mas, além disso, houve outra semelhança: todos os humanos sonharam com os sábios.

Nestes sonhos, Ysolde, Cassius e Ignis foram desafiados a resolver alguns enigmas colocados pelos anciões, quebrando a cabeça para entender a lógica necessária à solução dos desafios. A força de Cassius, a magia de Ysolde e a pirotecnia de Ignis eram inúteis ali.

Mais um sinal de que Quijêm (Fortuna) tinha muito a ensinar aos humanos.

Jogadores/Autores: Chico, Álvaro, Karina, Thomaz, Belota

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