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Por que LARP? (texto de Luiz Prado)

19/09/2019

Olá queridos leitores do Aventurando-se,

Com autorização do estimado amigo Luiz Prado, venho aqui compartilhar com vocês um texto de sua autoria, em uma leitura madura e poética do porquê se jogar LARP (live-action roleplaying game). Além de ficar encantado com seu conteúdo, consegui traçar diversos paralelos com o RPG (roleplaying game – mas você já sabe, certo?).

Sem mais delongas, aqui vai:

Larp é um jogo. Algumas pessoas se reúnem e vivem personagens numa história. Não há um roteiro com falas determinadas e o final dessa história não está dado logo de cara: ele acontece a partir das ações das pessoas durante o larp. É como se vocês tivessem a sinopse de um filme, peça de teatro ou livro, dizendo como a ação começa e quais são os personagens, e daí encarnassem esses personagens e fizessem a história acontecer do jeito que vocês querem. Basicamente, isso é larp.

Larp é um tipo de arte. Falei de cinema, teatro e literatura deliberadamente, porque o larp compartilha com eles a capacidade de criar emoções estéticas, de fazer pensar, de colocar a nós mesmos e a sociedade em questão. Vocês elaboram e reelaboram o mundo numa chave artística durante um larp. E digo vocês porque, aqui, os artistas são exatamente as pessoas que participam do larp. A arte acontece exatamente no momento em que o larp se realiza. Um dos grandes baratos do larp é que ele não distingue artista/público. O público é o artista. É uma arte participativa, colaborativa.

Larp é uma arma política. Vocês criam e vivem histórias durante um larp. Com essas histórias, vocês pensam e questionam vocês mesmos e o mundo. Essas histórias não são escapismo ou entretenimento mistificador, mas reflexões e comentários sobre toda a sorte de coisas que um larp pode encerrar. E ainda mais. O larp nos retira da posição de consumidor passivo de produtos culturais, de narrativas que cada vez mais surgem em série e padronizadas (20 filmes da marvel, precisamos mesmo disso?) . O larp nos permite, nos instiga, nos obriga a criar nossas próprias narrativas. E um de seus aspectos mais assustadores, desafiadores e maravilhosos: nós precisamos fazer isso em grupo. Não se joga sozinho. A narrativa, a vivência de um larp é fruto da atuação de todos. O larp desafia a passividade e o individualismo como uma forma estética que se sustenta na atividade, na colaboração e no cara a cara.

Larp é uma revolução. Ativamente e em conjunto, criamos narrativas e personagens num larp. Mas narrativa e personagem são termos imprecisos. O que criamos durante um larp é uma revolução na realidade. Tempo, espaço e identidade são transformados de maneira consciente e ativa, seja você um sobrevivente no futuro distópico, um cavaleiro medieval ou um sujeito em crise conjugal. O larp dá de ombros para a realidade cotidiana – quem somos todo dia, como nossos corpos são todos os dias, como nossa biografia se arrasta dia após dia, como a cidade é a mesma todo dia – e anuncia que as coisas podem ser diferentes. O maior comentário do larp consiste em jogar na sua cara que você, do jeito que é hoje, é apenas UMA das suas próprias possibilidades. E, por consequência, o larp anuncia que o mundo, do jeito que é hoje, é apenas UMA das possibilidades. Mas o larp não é uma promessa. Ele É a revolução. Sigilosa, silenciosa, atuando na mente, transformando não os meios de produção, mas a forma de conceber a própria realidade. Cada larp é um portal que faz a vida acontecer na maravilha das suas possibilidades, que afasta a mediocridade do emprego de todo dia, do trânsito de todo dia, da série de todo dia, da comida de todo dia. O larp não é um contraponto à realidade. Ele se afirma como realidade.

Roll the bones,

Chico Lobo Leal

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