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Campanha em Fortuna – Cena 6 – Fortuna

13/09/2019

Cena anterior: Mistério e Poder

Foi com espanto que os aventureiros se depararam com o litoral de Fortuna. Ao contrário de Érebo, que possuía uma costa rochosa, cinza e sem graça, o continente dos metadílios recepcionou os viajantes com uma areia amarelo-clara, repleta de conchas com formatos e cores distintas.

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Fortuna, ou Quijêm (língua dos metadílios). Foto: Wikimedia commons

Mais adiante, uma “muralha” de árvores surgia, com tonalidades de verde que os humanos não sabiam antes existir na natureza.

Natureza…

A palavra parecia ter um significado diferente naquele lugar.

Cassius, paladino de Ísis (deusa da natureza), sorria.

Sentados sob a sombra de algumas árvores para escapar do sol quente, Cassius, Ignis e Ysolde aguardavam o ranger tirar a pele dos animais caçados.  Seriam só 4 bocas para alimentar, já que Palo achou melhor ir à Itióca, entreposto dos humanos em Fortuna, para buscar informações e fazer os primeiros contatos locais. Laranawr ficou de guia-lo até lá.

Sendo assim, os outros quatro companheiros se preparavam para ir à cidade do povo de Aranhanawr. Com a barriga cheia, o grupo reuniu seus poucos pertences, e adentrou a mata.

A mudança na percepção dos humanos foi rápida: a brisa que antes os refrescava sumiu, dando lugar a um ambiente mais ameno e úmido. Os três estrangeiros se trombavam ao andar e olhar ao redor, reparando nos muitos detalhes diferentes que desafiavam sua percepção. Pássaros coloridos de todos os tipos e tamanhos voavam acima da copa das árvores, emitindo sons exóticos a seus ouvidos, mais acostumados com o arrulhar dos pombos.

“O que são essas coisas verdes penduradas nas árvores, Nhãnhã?”, indagou Ignis.

“Nós chamamos cipós. Mas tenham olhos grandes, às vezes cobras ”.

O piromante não se preocupou. A última cobra que ele viu em Érebo cabia dentro da sua bota.

Evidentemente, havia muito a ser aprendido pelos viajantes.

Após algum tempo andando na mata, os aventureiros começaram a ouvir um barulho de corredeira. Logo depois, os quatro chegaram a um riacho que corria entre as árvores, provavelmente no seu caminho para o oceano.

Aproximando-se da água, Ysolde repara em algo estranho, que confunde sua cabeça.

“É seguro beber essa água, Aranhanawr? Tem algo errado com ela, ela não tem cor nem cheiro!”.

O metadílio então começou a rir, irritando seus companheiros.

“Vocês pobres. Sejam ricos e felizes!”.

Sem explicar nada, o ranger então tirou suas roupas, pulando no rio com uma graciosidade que mostrava o costume de alguém que cresceu entre a floresta e seus rios. Sem esperar outro convite, Cassius também se jogou no rio (com armadura e tudo), provavelmente assustando todos os peixes daquela bacia hidrográfica.

Enquanto a maga apoiava seu cajado e capa (dobrada) numa árvore, Ignis não se mexia. Por alguma razão um medo súbito tomou conta dele. Aquele monte de água correndo não parecia ser algo seguro.

Enquanto os três banhavam-se e se divertiam jogando água uns nos outros, o piromante tirou suas roupas e sentou na beira do rio, pegando água com as mãos e esfregando sua pele.

“Entra Ignis, depois de um tempo não fica tão gelada”, disse Cassius, rindo.

“Estou bem aqui”, resmungou o incinerador de bibliotecas.

Após alguns minutos os quatro deitaram juntos na beira do rio, deixando o sol secar suas roupas sobre o corpo (Cassius e Ysolde) ou seu próprio corpo (Aranhanawr e Ignis). Depois de passar dias e dias remando em alto mar, aquele descanso de barriga cheia e corpo limpo parecia uma amostra do paraíso.

“Que barulho é esse?”, disse Cassius, sentando rapidamente.

Olhando ao redor, o seguidor de Ísis viu algumas criaturas peludas pulando de árvore em árvore, emitindo certos guinchos. Suas mãos, automaticamente, dirigiram-se às suas costas para pegar sua alabarda, mas ela jazia no fundo do oceano.

“Chimpanzé. Não problema”, respondeu o metadílio, sem se mexer.

“Eles também usam roupas?”, começou a rir Ysolde.

Aparentemente sim, e de piromante. Para desespero de Ignis, um dos símios resolvera colocar sua calça na cabeça, como um chapéu.

“Ei, devolve isso, panzé!”, ralhou Ignis.

Para delírio e diversão de todos, chimpanzés, humanos e metadílio, Ignis começou a correr atrás do chapéu-de-calça. Antes que o piromante conjurasse sua arma de fogo, no entanto, a calça enroscou num galho e o animal continuou correndo, acompanhado de sua trupe.

Suado e mal humorado, Ignis colocou suas calças e se sentou junto aos colegas, que ainda riam. O piromante resmungou algumas palavras “educação”, e “selvagens”, mas depois de um tempo riu também.

A trilha entre as árvores trouxe outras surpresas para os forasteiros. Durante a caminhada Aranhanawr pegou algumas frutas para o grupo, ensinando-os sobre “mangas” e “bananas”.

Cassius parecia estar em êxtase, e, se não fosse pelo aviso do metadílio, ele teria comido a manga com semente e tudo.

“Se nós selvagem, vocês bárbaro. Sem eu não sabem andar sem passar mão em urtiga ou pisar na casa das saúvas”.

Com orgulho ferido, Ignis diz conseguir muito bem se virar com “tigas e uvas”.

“Vou mostrar pra vocês! Vou eu mesmo pegar umas frutas pra gente comer. Me esperem aqui”.

Sob protestos do grupo, avisando-o do perigo que corria, o piromante começou a trilhar um caminho aleatório para mostrar seu valor a todos. “Eles vão ver só”, pensava o incauto aventureiro.

Mas depois de poucos metros andando sozinho, ficou claro até para o teimoso piromante que ele não tinha a menor ideia como achar frutas naquele lugar. Pensando no que fazer pra não “perder sua moral”, Ignis vê um movimento entre as árvores e vai investigar. Afinal, uma caça não seria nada mal.

Esgueirando-se pelas árvores, o humano avistou um animal amarelado, com manchas pretas pelo corpo. Um estranho fedor a rodeava.

“Eita, isso aí não vale a pena comer, tá podre!” pensou Ignis. Como se tivesse ouvido os pensamentos dele, a criatura levantou do chão, ficando na altura de um metadílio. Na verdade, de fato, era um metadílio, com a pele de um animal caindo nas costas.

“Epa!”, gritou Ignis.

Com uma folha de bananeira na mão, o metadílio aparentemente também se assustou com alguém do tamanho de um humano assistindo ele fazer suas necessidades.

“Ozo, ozomahtli?”, perguntou o pequeno, pegando uma espécie de porrete na mão.

“S-O-U  I-G-N-I-S”, gritou o humano, usando o princípio universal que qualquer pessoa deveria entender alguém que falasse mais alto e devagar.

No entanto, para Ignis, era evidente que o povo de Fortuna não era tão inteligente quanto Aranhanawr dizia ser. Mesmo com seu esforço diplomático, o “selvagem” continuou balbuciando palavras desconhecidas para o piromante, girando seu porrete na mão.

Em um momento de genialidade, o piromante então fala: “Aranhanawr, Aranhanawr”, o que faz o cagão parar de girar a arma. Para Ignis, como ambos eram baixinhos e feios, provavelmente eram parentes.

O fato é que o metadílio estava curioso com aquela criatura estranha que avistava, e resolveu seguir Ignis, que o chamava por mímica.

Chegando onde seus companheiros estavam, Ignis dá um sorriso de deboche, clamando:

“Ei Nhãnhã, achei mais um primo seu!”.

Para surpresa do ranger, um metadílio do povo além da montanha, também conhecido como azteca, surge atrás de Ignis. Sem nem pensar duas vezes, o caçador maia pega a coisa mais próxima da sua mão (a semente de uma manga) e arremessa na cabeça do outro metadílio.

Sem entender nada, os humanos vêem os baixinhos começarem a gritar palavras nas suas línguas, quebrando o pau. Pelo princípio da amizade, Cassius dá um soco no metadílio com a pele de animal, e Ysolde solta um de seus feixes de luz azul.

Após ser derrubado por Ignis, o azteca caiu de bruços no chão, sem ver Aranhanawr e sua faca, que é cravada nas costas do cagão, atravessando a pele do animal e do metadílio.

Era o fim da luta.

“Que porra foi essa?”, falou Cassius, manifestando a dúvida de todos.

“Ele azteca, inimigo. Eu maia. Briga”, respondeu o ranger, que complementa: “Aztecas outro lado montanha. Estranho”.

Ficou claro para os humanos então que o paraíso também tinha suas periculosidades, e, a partir de então, eles começaram, inclusive Ignis (!) a serem mais cautelosos.

Com Aranhanawr seguindo à frente, o grupo continuou seu trajeto até a cidade dos maias, agora um pouco ansiosos por chegar lá. No caminho Cassius foi admirando sua arma nova, retirada do falecido azteca. “Qual é o nome disso, Nhãnhã?”.

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Macuahuitl. Foto: Wikipedia

“Macuahuitl. Arma azteca”.

“Mac quem?”, falou/cuspiu Cassius.

“Macuahuitl”.

“Macu, beleza”, simplificou o paladino.

E aí começou uma longa história de relação entre o paladino e a macuahuitl azteca…

Dois dias se passaram desde a chegada dos aventureiros à Fortuna.

Com exceção de Aranhanawr, todos os outros tiveram dificuldade de dormir à noite em meio a tantos barulhos e luzes noturnas. Ignis dizia que até de dia ele conseguir ouvir o ranger daqueles insetos desgraçados: “crik crak criik crak crak”.

A privação de sono deixava tanto Ignis quanto Ysolde mal-humorados (Cassius não parecia se sentir incomodado), aumentando a expectativa de chegar à cidade dos maias, conhecida como Calakmul. O guia também não ajudava a situação, aproveitando cada oportunidade para tirar sarro dos humanos, e fazendo questão de dizer a todos que Axirimbinha (seu falcão) era mais inteligente que todos os perna-longas.

A possibilidade real de uma rusga entre os companheiros era latente, mas, no raiar do 3º dia, após mais uma noite mal dormida, Aranhanawr disse que eles chegariam na manhã seguinte em Calakmul, encorajando todos.

Com pausas curtas para refeições, os aventureiros faziam um esforço grande para caminhar mais rápido, almejando chegar à cidade maia ainda naquele dia. No entanto, o trajeto definitivamente não ajudava, aquela região da floresta era mais fechada que o normal, com diversos galhos espinhosos no caminho.

Quando a noite escura (lua nova) caiu, os companheiros pararam para conversar.

“Temos que seguir adiante, Nhãnhã. Sem condição de passar mais uma noite com os insetos” , clamou Cassius, sendo apoiado por Ysolde e Ignis.

“Perigoso. Vocês fazem muito barulho, assustar animais”, afirmou o metadílio, receoso com a caminhada noturna.

“Eu vou é matar qualquer bicho que eu ver nessa merda de floresta! A gente vai andar à noite, com ou sem você, seu tampinha de merda!”, gritou Ignis.

Espantados, todos olharam para ele. As olheiras no rosto do piromante eram assustadoras, escurecendo a órbita de seus olhos. Sua aparência era terrível.

“Então vamos, mas se problema, vou deixar vocês pra trás”, sentenciou o ranger.

A contragosto, todos acenderam tochas com ajuda de Ignis, que se alegrava cada vez que botava fogo em algo. No entanto, a felicidade durou pouco. Após apenas alguns passos, o grupo ouviu uma voz rouca e grave vindo do negrume à frente:

“Ggggrrraaaaaaaaaawwwwwwwwrrrrrrrrrrrr”.

Com o coração palpitando, todos sacaram suas armas, dando passos tímidos à frente.

Sem mais nem menos, uma explosão acontece ao lado de Aranhanawr, e diversas lascas de rocha batem nos aventureiros.

“Ba’te’el che’!”, gritou o metadílio, jogando terra na chama de sua tocha.

Tarde demais. As luzes das tochas delineavam uma imensa sombra de árvore à frente, com os galhos sacudindo. Todavia, não havia vento.

A segunda rocha arremessada pegou de raspão em Cassius, que cai sentado no chão com o impacto. Em resposta, Ysolde soltou seus feixes de luz azul na criatura, arrancando alguns pedaços da casca do animal, enquanto Ignis conjurava um arco de fogo em suas mãos.

“Sem fogo, Ignis, sem fogo!”, gritou o desesperado metadílio, mas Ignis, puto de raiva, não o ouvia.

Os três humanos começaram a se espalhar, tornando-se alvos mais difíceis para o monstro, enquanto Aranhanawr continuava gritando. O fogo das tochas que caíram no chão já se espalhava pelos galhos secos da mata, facilmente inflamáveis.

“Ggggrrraaaaaaaaaawwwwwwwwrrrrrrrrrrrr”.

Com um salto corajoso (ou imprudente) na direção da criatura, Cassius conseguira estrear sua arma, decepando uma das raízes da árvore monstruosa. No entanto, como se em represália, um dos galhos prendeu o braço da arma do paladino, erguendo-o do chão.

Simultaneamente, os feixes azuis da maga continuavam arrancando pedaços da criatura, e o metadílio finalmente começou a ajudar, embora suas flechas parecessem surtir pouco efeito.

No entanto, para deleite do piromante, sua primeira flecha de fogo cravou-se no tronco da criatura, que urrara e começara a se sacudir mais fortemente, soltando Cassius.

“Correeeeeeeeeeeee”, gritou Aranhanawr, e dessa vez ele foi ouvido por todos, que correram sem nem olhar pra trás, tropeçando e se cortando pelo caminho espinhento.

A corrida desenfreada durou aproximadamente uma hora, até que todos caíram exaustos em uma clareira, parando pra respirar.

“O. Que. Foi. Aquilo?”, perguntou Ysolde, mal conseguindo formular sua pergunta.

“Árvore perigosa. Não gosta fogo. Eu avisei!”, respondeu bravo o metadílio.

“Cassius, que brilho é esse?”, perguntou Ignis, apontando para a arma de Cassius, que emitia uma leve aura roxa.

“Eita! Será que…”.

Mas eles nunca souberam qual seria a constatação de Cassius. Sem dar tempo para respirarem, diversos uivos foram ouvidos na escuridão:

“Auuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu”

“Auuuuuuuuuuuuu Au Au Auuuuu”

“Cães da noite” – gritou Aranhanawr, já sacando o arco.

O barulho se multiplicava no negrume, e dessa vez o metadílio os aconselhou a acender tochas. Sem esperar a iniciativa dos companheiros, Ignis fez um círculo de fogo com seus poderes, iluminando parcialmente a matilha que se aproximava.

Com Ignis e Ysolde exaustos pela falta de sono, e com todos cansados/doloridos da corrida, o grupo duvidava que pudesse enfrentar mais uma batalha. Ysolde tentou conjurar uma ilusão tentando atrair as criaturas para longe, e Cassius até conseguiu atingir um cão que ousou pular uma parte das chamas, mas as forças de todos estavam abaladas.

Subitamente, no entanto, alguns dos animais soltaram guinchos, caindo com flechas nas costas. Um assobio longo veio da escuridão, e Aranhanawr, feliz, assobiou de volta.

“Meu povo veio nos salvar!”, gritou, aliviado.

De fato, não precisou de muito tempo para que os animais se dispersassem. O resgaste chegou logo depois, na figura de seis metadílios empunhando arcos e lanças.

Olhando curiosos para os humanos e conversando com Aranhanawr em sua própria língua, eles escoltaram os companheiros até Calakmul.

Arrastando-se pelo caminho, todos conseguiram chegar até a cidade dos metadílios, capital do povo maia.

Missão cumprida!

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Calakmul. Foto: BBC.

Jogadores/Autores: Chico, Álvaro, Karina, Thomaz, Thiago

Próxima cena: Os três sábios

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