Pular para o conteúdo

Campanha em Fortuna – Cena 5 – Mistério e Poder

23/07/2019

Cena Anterior: A Travessia

Background Ysolde – Mistério e Poder

O velho zelador Uri finalizava a limpeza rotineira das últimas salas de aula, reclamando, para quem quisesse ouvir, das suas agudas dores nos joelhos que pioravam no tempo frio. Com o trabalho feito, seria mais uma noite sozinho em sua casinha no jardim, aquecendo-se próximo à lareira enquanto fazia carinho no seu gato.

Porém, desta vez, um acontecimento mudou os planos de Uri para aquela noite, assim como os de seu gato, Bolotas, que não recebeu sua costumeira atenção.

Ao abrir a grande porta adornada de metais brilhantes da academia de magia, Uri deparou-se com um cesto na soleira do hall. Um pano branco de linho rendado cobria parcialmente um pequeno bebê, que adormecia, mesmo naquele tempo frio. Ao erguer o cesto, a criaturinha abriu seus olhos, de um tom escuro de azul, com um leve brilho lilás.

Esperando um choro ensurdecedor, típico das crianças ranhentas que às vezes acompanhavam os nobres que visitavam a Academia, o zelador se surpreendeu com um sorriso puro de um bebê, daqueles que até os olhos sorriem junto.

Era o destino tecendo suas tapeçarias misteriosas.

O bebê foi batizado de Ysolde, em homenagem à falecida mãe de Uri, que realmente cuidou da infante como se fosse de sua própria família. O velho era tão protetor com a menina, que até sua pequena casa passara por reformas, para dar mais conforto à nova moradora.

Mesmo Bolotas ficou encantado com a menina, que era capaz de explorar toda a casa, derrubando todos os potes de comida. O gato ficou maravilhado com o fato que, ao invés de brigar com ela, o velho Uri dava risada e limpava o estrago, jogando os restos ao felino. Comida humana sem esforço! A pequena Ysolde definitivamente estava dentro do coração de todos os habitantes da casinha do zelador.

Com 6 anos de idade, Ysolde começou a acompanhar Uri em suas tarefas, carregando alguns panos e ajudando-o a lembrar dos afazeres do dia. Era uma grande oportunidade pra criança explorar a Academia e seus numerosos corredores e objetos curiosos, que atiçavam a imaginação da pequena. Ao mesmo tempo, era notável a todos que a garotinha fazia bem ao velho Uri, que sempre esbanjava alegria e calor quando estava com ela. Nem de seus joelhos o zelador reclamava mais.

Em um desses dias de trabalho, no entanto, algo de diferente aconteceu. Uri chamou a menina para ir com ele limpar uma sala de aula vazia, mas, quando Ysolde entrou, ela disse que eles deviam esperar o estudante sair da sala. “Que estudante?” perguntou o velho Uri, já acostumado com as peças que sua protegida pregava.

“Aquele ali, agachado atrás da mesa!”.

Foi com um estrondo que a mesa foi empurrada pra frente, e por mais que Uri não conseguisse enxergar muito bem, seus braços ainda funcionavam direito. Com uma vassourada na direção da mesa, um estudante apareceu com um grande “POP”.

Era mais um aluno que usava invisibilidade para fugir dos exames, acontecimento incomum na maior parte do tempo, mas demasiado frequente naquela época do ano. O que não era comum, no entanto, era uma criança de 6 anos poder ver alguém invisível sem auxílio de magia.

A partir daquele dia, Ysolde foi inscrita na Academia, enchendo o coração de seu pai de orgulho. Ela não compreendeu muito bem o que estava acontecendo, mas ela gostava da ideia de poder aprender a ler, podia ser útil na sua vida de adulta.

Os anos passaram, e mais do que ser alfabetizada, Ysolde aprendeu os princípios e aplicações da magia. Sua dedicação era elogiada por todos os professores, e cada nota 10 era pendurada na parede da casa de Uri, que frequentemente dizia a todos que logo precisaria de um cômodo novo para poder manter a exibição.

O carinho entre os dois se manteve ao longo dos anos, principalmente quando Uri se aposentou e requereu cuidados. Todos podiam ver à noite o brilho de uma vela na janela da casa do zelador, indicando que Ysolde estava estudando e cuidando de seu pai de criação.

Mas, infelizmente, nem tudo é eterno, e aos 63 anos de idade, o velho Uri partiu deste mundo para um lugar que nem a magia podia alcançar. Bolotas já havia desencarnado alguns anos antes, provavelmente para preparar o terreno para o zelador, que teria seu merecido descanso aonde quer que as almas vão depois da morte.

Ysolde ficou uma semana em luto, sendo provavelmente os primeiros dias nos últimos anos em que ela não estudara magia. A maga refletiu sobre o seu passado, presente e futuro, decidindo que os muros da academia de magia não deviam mais limitar seu aprendizado.

No final daquele ano letivo, que marcou o término do módulo intermediário de magia, Ysolde foi até a diretoria manifestar sua gratidão pelo que a Academia proporcionou a ela e seu pai, e também comunicar que, diferente do esperado, ela não seguiria carreira acadêmica. Seu caminho devia ser para fora dali, longe das lembranças de Uri e Bolotas.

Com pesar, o diretor, César, anuiu com o pedido. De fato, estranhamente, parecia que ele já esperava tal solicitação. Ele apenas pediu para que ela atendesse a formatura, para que seu ciclo terminasse de forma correta.

Neste grande dia, em que todos os formandos de magia recebiam seus cajados, símbolos de seu poder, Ysolde recebeu algo mais, algo que só alguns poucos estudantes eram agraciados: a tatuagem do poder. Esta foi aplicada na bochecha de Ysolde, na forma de símbolos alquímicos cruzados em tinta mágica azul.

A única de sua turma a conseguir tal façanha.

As lágrimas caíam da maga, enquanto seu coração apertava. Ela tinha certeza que Uri e Bolotas celebravam juntos, onde quer que estivessem.

Era noite de festa. As celebrações pós-formatura eram famosas na Academia de Magia, e mesmo os professores mais caxias exageravam na bebedeira. Um deles, no entanto, não bebeu aquela noite.

César, o diretor, estava sério e sóbrio, recusando-se a acompanhar seus colegas docentes. Ao ver que Ysolde também havia sido comedida nas celebrações, ele pediu para a mesma acompanha-lo até sua sala. “Há algo que quero conversar com você”.

Quadros dos antigos diretores e diretoras enfeitavam a sala de César, que também mantinha seu cajado pendurado na parede, mostrando a todos que ele não precisava de ampliadores para dar vazão a seu poder mágico. O turquesa do cristal na ponta de seu cajado combinava com a tatuagem também turquesa em sua testa.

“Ysolde, querida, primeiramente quero parabenizá-la mais uma vez pelos seus feitos na academia. Fazia anos que não tínhamos um/uma estudante tão aplicados. Estou orgulho de você. Mas, não te chamei aqui para elogios, mas para uma tarefa: nós precisamos que alguém da Academia explore Fortuna”.

Espantada, a maga respondeu: “O novo continente?”.

“Sim. Há relatos de viajantes que apontam que os habitantes de lá possuem outros tipos de magia, além de artefatos mágicos poderosos. É imperativo que investiguemos essas informações, antes que outros com intenções menos científicas utilizem-nas para o bem… ou para o mal”.

Fortuna…
Ysolde nunca havia parado pra pensar no novo continente, mas a ideia não era má. De fato, ela parecia ser perfeita!

“Leve estes livros contigo, eles podem ser úteis na sua jornada.
Agora, tem algo mais que quero conversar com você, um aviso importante sobre um ex-aluno da Academia…”

‘BRAAAAAUMMMM’

O céu da noite se iluminou, e mesmo os mais alcóolatras sentiram a sobriedade se aproximando. O barulho vinha da ala da biblioteca.

Sem nem pensar duas vezes, César pulou de sua cadeira e começou a correr.

“Conversaremos numa próxima oportunidade. Siga seu caminho, Ysolde!”.

Confusa, Ysolde reuniu seus pertences, incluindo os novos livros e foi para os estábulos. Muitos corriam em direção à biblioteca, mas, para Ysolde, sua direção era oposta: a cidade portuária de Solana.

Ysolde com tattoo

Ysolde Rath. Autor desconhecido.

Autores: Karina e Chico.

Próxima Cena: Fortuna

No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: