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A “Distância” dos Jogos Narrativos

09/07/2019

Já faz algum (na verdade, um longo) tempo que me “ausentei” da cena de jogos/jogadores presente nas redes sociais; preferi ficar na “moita”, observando novidades e, parafraseando um amigo da cena, entrando num “período sabático”.

E nisso eu percebi uma questão incômoda de minha parte, não apenas entre os jogadores mas também nos jogos que permanecem em voga: o “escapismo”. Tanto em contexto quanto em comportamentos, os jogos narrativos promovem uma distração disruptiva, uma fuga (sem as aspas, desta vez) do mundo que os cerca.

E isso me leva a uma questão…

Por Que?

Passamos por um processo eleitoral conturbado, e repleto de problemas ano passado. Vi muitas páginas assumindo abertamente seu posicionamento (afinal, as páginas são feitas de pessoas – e a isenção é algo inadmissível neste processo).

E a resposta geral do público foi, em geral, evasiva. “Ain, se vai falar de política, não te sigo mais”, “Ain, a página era melhor quando não falava desse assunto”, “Ain, descurti porque você não concorda comigo”…

Mais que isso: vi essa postura se refletir, muitas vezes (e não apenas recentemente) em mesas de jogo. Jogadores viciados no “heroísmo” e protagonismo, agindo de forma egocêntrica e inconsequente – muitas vezes, ignorando os contextos políticos e sociais que existem em volta.

Eu concordo, em parte, com o que o Chico (bom amigo e burgo-mestre deste espaço) colocou neste artigo aqui. Contudo, meu ponto de discordância está em esperar essa iniciativa (de abordar aspectos políticos) do Mestre. Deveria partir de todo o grupo, e ser abraçado pelos jogadores.

E digo mais: os próprios jogos poderiam trazer isso de forma mais aberta, e evidente. Pois os jogos narrativos são compostos por pessoas, e estas pertencem a um contexto indissociável de suas vidas. A sociedade, sua cultura e minúcias.

“Ah, Jairo… mas temos jogos no mercado que abordam essas questões de modo bem claro”. Isso é verdade; temos jogos lindos, que trabalham com aspectos sociais e políticos de forma bem inclusiva aos jogadores, e muitos são bem acessíveis. Mas que são deixados de lado pela segurança dada pelo escapismo.

Onde Quero Chegar?

Com tudo que coloquei acima, quero dizer que os anos passam, mas a ingenuidade dos jogadores permanece a mesma. O mesmo tipo de ingenuidade que permeia obras como Tolkien, C.S. Lewis, George Lucas e J. K. Rowling, tão populares entre o público “nerd”. O mesmo tipo de ingenuidade que fundamenta a fuga dos “problemas da vida” para uma fantasia heróica, descompromissada e centrada no protagonismo.

Existe muito a se discutir sobre o mundo, a vida e tudo o que nos cerca. E o ambiente dado pelos jogos é seguro e imersivo o suficiente para trazer interesse ao público, para transformar um debate que poderia ser acalorado e rançoso em uma história que cause impacto – que instigue reflexão aos jogadores, que os envolva de fato.

Então, fica o convite: que tal deixar de lado as masmorras para vivenciar uma crise política, ou econômica no seu reino? Deixar de caçar monstros para deflagrar a corrupção e maldade humanas, frente a posições de poder? Descobrir que nem tudo pode se resolver com bolas de fogo e armas em punho, ao desvendar algo novo e presente entre as pessoas que te consideram um “herói”…

Enfim, o princípio de uma reflexão fica com vocês a partir de agora.

Que Luna os ilumine, e até a próxima.

10 Comentários leave one →
  1. 09/07/2019 17:01

    Voltou puxando orelhas! Será sempre bem-vindo, caro ciborgue!

    • m4lk1e permalink
      14/07/2019 20:57

      Que moral tenho para isso, caro Mago… mas é bom estar de volta.

  2. 09/07/2019 17:54

    Meu amigo, que surpresa boa ver um post seu aqui no blog!
    Coincidência ou não, o tive na minha mente esses dias (por onde anda o ciborgue?).

    Ótimo você ter falado da importância do papel dos jogadores.
    Concordo totalmente!

    Acho que tal tipo de abordagem, que evita o escapismo, ou, nas minhas próprias palavras, foge da zona de conforto – https://aventurandose.wordpress.com/2019/06/23/saindo-da-zona-de-conforto-no-rpg/ – pode partir tanto do próprio jogo (enquanto proposta), do Narrador ou dos jogadores.

    Confesso que os jogadores que costumo jogar RPG usualmente preferem os clássicos de capa e espada, então normalmente sou eu (enquanto Narrador) que insiro as reflexões no jogo.

    • m4lk1e permalink
      14/07/2019 21:01

      Foi justamente esse seu artigo que me motivou a escrever, Chico. Quis atribuir ao comportamento escapista porque, por mais de uma vez, vi esse tipo de argumento fluir em discussões – seja sobre diversão, design ou qualquer outro tópico.

      E, francamente, essa desculpa me irrita. Até porque, no fundo, é impossível virar as costas para o mundo que vivemos. Jogos são linguagem, e como tal possuem o dever de incitar uma sensação e/ou convite à reflexão.

  3. 10/07/2019 01:45

    Você falar de problemas sociais e políticos me remeteu a Lankhmar, uma cidade de corrupção, onde heroísmo acaba ficando em segundo plano, e trapaça, chantagem e controle político por medo e poder faz a diferença. Jogos como Savage Worlds tem esse cenário, mesmo que sempre acabe tendo batalhas pelo estilo de jogo furioso, sempre os personas são jogados em intrigas e as vezes chantageado, e jogados na miséria por não ter poder político. Mas tudo depende também de um bom mestre saber interpretar esse tipo de cenário.

    • 10/07/2019 11:47

      Oi Lamarc,

      É um bom exemplo de como o cenário pode influenciar o caminho da história!
      Acho que a mistura ideal é ter Jogo + Jogadores + Narrador (caso exista um) em sintonia pra trabalhar essa pegada.

    • m4lk1e permalink
      14/07/2019 21:04

      Lankhmar é um bom exemplo (principalmente se você teve acesso às HQs de antemão), mas é um entre tantos jogos que exploram esse viés. Blodd & Honor, Mouse Guard, Sétimo Mar, Delóyal, Falkenstein são outras pedidas, entre tantos outros que poderia mencionar aqui.

      No entanto, nenhum destes possui o destaque que DnD possui, por colocar os jogadores em conflitos mais complexos que empunhar uma espada.

  4. gerbur12 permalink
    11/07/2019 11:04

    Oh mestre Jairo! Que alegria vê-lo por aqui!

    Na verdade a corrupção sempre existiu na Fantasia. Mesmo na fantasia romântica de Tokien (Saruman, Grima, Boromir, Denethor, Gollum).

    E na Fantasia de Game of Thrones que aborda bastante política também tem muita corrupção….

    Mas as coisas são resolvidas sempre da mesma forma. Espadas e bolas de fogo. rsrsrrss

    • m4lk1e permalink
      14/07/2019 21:07

      É bom estar de volta, Mestre Anão.

      Claro que empunhar espadas e preparar Bolas de Fogo são parte da fantasia, e do “fantasiar” constante dos jogadores.

      Mas, em tempos de ódio e intolerância, não seria melhor convidar os jogadores a buscar outros conflitos, outras resoluções, outras formas de pensar? A entender o jogo de outra forma (muito provavelmente, mais fluida e proveitosa)?

      • gerbur12 permalink
        15/07/2019 12:34

        Sem dúvida! É um bom desafio.

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