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Campanha em Fortuna – Cena 2 – Sangue e fogo

01/04/2019

Cena Anterior: O Encontro

Background Ignis – Sangue e Fogo

Gar era permeado por casas simples de barro, pau-a-pique e palha, com algumas poucas moradias de pedra, que normalmente contavam com cercados com animais. A vila sobrevivia à base das pequenas plantações de repolho e couve, e uma grande plantação de trigo, da qual seus habitantes tiravam seu sustento, vendendo pão para as cidades vizinhas.

Como não poderia ser diferente, o povo de Gar era um daqueles povos típicos de pequenas vilas, que gostam de fofocar e cuidar da vida alheia, avessos às agitações e surpresas. Ou, como os jovens dali gostavam de dizer: entediante!

Mas isso estava prestes a mudar. Em um belo dia de outono, um jovem mago foi à Gar para pedir a mão de uma das camponesas em casamento, criando, assim, um marco na história da vila, algo que poderia ser discutido, relembrado e fofocado na taverna local por anos a fio.

Mal sabiam eles o que os aguardava…

Numa noite chuvosa de lua cheia, o vento uivava e agitava as plantações, somando-se ao rugir dos trovões que rimbombavam no céu. Subitamente, um som ainda mais alto se destaca na noite, acordando todos com o que parecia ser um grito, ou talvez um uivo, ou mesmo um lamento… algo que não parecia humano, um som de arrepiar a espinha.

Poderia ser só o vento pregando peças ou poderia ser algo mais?
Não, não poderia ser o vento…

Segue-se um momento de silêncio, onde somente se ouvia o som do farfalhar das folhas das plantações, como se até os trovões estivessem apreensivos. A vila acordada pelo uivo-grito mantinha os ouvidos atentos, sentados em suas camas, tentando entender o que acabaram de ouvir, quando, de repente, uma grande explosão sacode todos com um estrondo, seguida de um clarão que ilumina o breu da noite.

A perturbação veio de uma das casas de pedra, uma das maiores. Os temerosos (porém, curiosos) camponeses foram checar o local, fonte do tal clarão. Certa aglomeração já se formava na porta, que jazia arrebentada no chão com as dobradiças estouradas, como se empurrada com muita força de dentro para fora. Ninguém tinha coragem de entrar na casa, de onde saia uma estranha fumaça preta.

Algumas pessoas faziam sinais com as mãos e sussurravam: “Que Thud nos proteja”.

Após certa hesitação, uma senhora decide entrar na casa. Todos prendem a respiração, logo ouvindo um grito da velha chocada com a cena, que volta e se apoia no batente arrebentado da porta, enquanto mantém a mão no peito para ajudar a recuperar o fôlego.

Conta-se que ela viu o seguinte: vários símbolos e runas desenhados no chão com sangue, alguns ossos e crânios humanos em volta de um circulo maior, e, no centro de tudo, Iris, a camponesa que casara com o mago. Esta estava morta, com os braços amarrados nas vigas laterais de modo a ficarem abertos como num abraço, enquanto prostrava-se de joelhos, a cabeça caída sobre o peito.

O sangue aparentemente não vinha dela, pois ela estava sem cortes, mas sua aparência era pálida e magra, como se de alguma forma, toda sua energia tivesse sido sugada.

Os moradores se perguntavam: quem poderia ter feito algo tão terrível? A suspeita de todos, é claro, caía sobre Robertus, o mago estrangeiro (ou seja, de fora da vila). Afinal, ele não estava por ali, e aqueles símbolos cheiravam ao sobrenatural…

Foi nesse momento que o choro de um bebê quebra o silêncio pesado do ambiente, e, próximo ao sangue no chão, um volume cheio de trapos se sacode e um bracinho emerge. O infante é resgatado, e uma criatura cheia de fuligem, com nariz escorrendo e uma cicatriz de queimadura no braço, como se algo muito quente tivesse derretido ali, aparece.

“Ignis?” Gritou a senhora que adentrarao lugar pela primeira vez. Ninguém sabia como ela poderia conhecer o nome do bebê, ou mesmo quem era ela, mas, naquele momento, aquele detalhe não importava.

E esse é o começo da história de Ignis, que nascera na antes pacata vila de Gar, no interior do país Auskel. Um rapazola de cabelos pretos e pele clara, filho da união de uma camponesa com um mago da academia. Uma união controversa, que resultara no maior acontecimento da história de Gar.

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Nosso personagem tem pesadelos a respeito desse dia, mas, como a memória de alguém tão novo não costuma ser muito clara, esses sonhos não passam de flashes recheados de chuva, gritos, sangue… e FOGO!

O tempo passou. Ignis fora criado pelo ausente tio que mal fazia parte de sua vida, possivelmente por medo do menino, vivendo sua infância mais com os amigos e camponeses de Gar do que com o que restara de sua família. Sua relação com a vila era um pouco estranha, uma mistura de dó e medo, como uma aceitação relutante, distanciamento que é bem impactante para uma criança. Ninguém comentava o ocorrido, claro. Era um grande tabu em Gar, como se mencionar o fato pudesse atrair o que quer que tenha acontecido naquela noite a acontecer mais uma vez…

Era notório que Ignis desde cedo tinha uma paixão peculiar pelo fogo, brincando com as chamas e pulando fogueiras sempre que podia. Tal hábito demonstrava sua falta de cautela e responsabilidade, associado à sua animação e energia que contagiava (ou irritava) as pessoas à sua volta.

Ao atingir certa idade, Ignis recebou a visita de um mago da Grande Academia de Érebo. Ele havia sido selecionado para ser um aprendiz na Academia, trilhando o caminho de seu pai. Para a vila, seria uma despedida de uma memória ruim e um perigo potencial. Para Ignis, fora a primeira vez que tinha ouvido falar de seu pai, descobrindo que ele havia sido um mago.

Entre plantar couve e ir à Academia de Magia, Ignis preferiu a segunda opção. Com o tempo, apesar de suas dificuldades em aprender a magia clássica, sua aptidão ao fogo mostrou seu valor, e foi nessa área que o jovem desenvolveu sua mágica, aprendendo a controlar, e mesmo conjurar, o elemento. Tal vocação espantava seus tutores: afinal, como alguém tão jovem poderia usar magia daquela maneira?

Era evidente que havia uma afinidade particular entre Ignis e as chamas. Um vínculo que era também alimentado por um desejo oculto: descobrir o que realmente acontecera no dia de seu nascimento, e o paradeiro de seu pai…

Foi então que numa bela noite, após ter trabalhado como barman numa festa da Academia, Ignis ouve a conversa de uns professores bêbados, que mencionam uma sessão reservada da biblioteca, com os registros dos antigos alunos. Sem pensar duas vezes (como é de seu costume), o órfão invadiu a biblioteca durante a noite, encontrando a tal sessão. Porém, como nem tudo são flores, aquela parte da biblioteca era barrada por um grande bloco de ferro, com um cadeado triangular que emitia uma estranha luz. Por mais que tentasse, nada que ele fizesse parecia abalar, ou mesmo riscar o cadeado mágico.

“Bom, vamos combater magia com magia”, pensou Ignis, partindo pra sua solução preferida, conjurando uma arma de fogo e atacando o cadeado com todas as forças, resultando em uma imensa explosão que ricocheteou para todos os lados, atingindo e queimando grande parte da biblioteca, com livros e itens mágicos de alto valor…

Recuperando os sentidos que perdeu por alguns segundos, e com os ouvidos ainda apitando, Ignis se levanta do chão, um pouco chamuscado, mas inteiro. No entanto, para seu desespero, ele ouve vozes e gritos alarmados se aproximando. Com medo das represálias que poderia sofrer, sem contar a real possibilidade de ir pra masmorra, Ignis corre com a adrenalina pulsando nas veias, fugindo pela janela sem ser visto.

O fugitivo pegou então a primeira carroça para fora dali, indo parar na grande cidade portuária de Solana. “Menos mal”, pensou ele. Ali seria mais fácil arranjar outro caminho para seguir.

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Ignis. Autor desconhecido.

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