Pular para o conteúdo

Campanha em Fortuna – Cena 1 – O Encontro

25/03/2019

Um paladino-clérigo que não sente fome, sede ou vontade de dormir; um cara pelado coberto somente com uma capa de viagem segurando uma lança de fogo; uma maga simpática e elegante que acorda gritando GRIMÓRIO e adora atirar bolas de fogo em todos; um ladino bipolar que ora rouba, ora salva o grupo; um ranger de nome impronunciável que se preocupa mais com seu falcão do que seus colegas; e um pobre xamã-druida tentando em vão trazer juízo para o grupo…

Mas, espera aí! Esse não é um bom momento pra começar nossa história. Vamos começar do começo….

O Encontro

Ao entardecer, o mar é banhado pelos últimos raios de sol, formando manchas alaranjadas nas normalmente escuras águas que ficam ao redor da cidade de Solana, trazendo um pouco de cor àquela paisagem cinza.

Solana… a única cidade costeira de Érebo que nunca foi tomada por piratas.

Medieval_town_view_by_wilgefortis-d30o1zr

A cidade de Solana. Autora: wilgefortis

Como um polvo, a cidade estende seus tentáculos por grande parte da costa, tomada por ruas, casas, fumaça, gente, comida… e o que a comida se torna depois de ser consumida pela gente. Desde longe é possível ver, ouvir, e, infelizmente, cheirar, as atividades em Solana. Os marujos mais experientes e sarristas costumavam dizer que o farol da cidade portuária era desnecessário: bastava um vento vindo do continente, e mesmo um timoneiro cego conseguiria localizar a cidade.

No entanto, mesmo que há muito o verde tenha sido extinto de Solana (bem como de quase toda Érebo), ainda havia certo tipo de beleza que poderia ser vista pelo observador atento, manifestada nas águas alaranjadas do mar, e na fina névoa prateada que reluzia o laranja onde o choque das águas encontravam os paredões rochosos da cidade.

<>

Um guarda grita da ameia fazendo o último anúncio antes dos portões fecharem ao anoitecer.

Dentre a multidão de pessoas correndo para entrar na cidade, no meio da praça principal que recebe os visitantes de Solana, estão três jovens aventureiros, surpresos com a quantidade de pessoas que veem, cheiros que sentem, e idiomas que ouvem.

O destino (ou o Mestre) calhara de colocá-los juntos naquele momento, ao lado de uma estátua que é atentamente observada por um deles – um homem alto, de cabelo comprido amarrado numa espécie de rabo de cavalo, vestindo uma túnica que parecia esconder uma grande armadura. Uma cobertura quase que desnecessária: a alabarda gigante nas suas costas já era suficiente pra espantar os mal intencionados e chamar a atenção dos curiosos.

Cassius Lux é o nome do armário… homem, que examina a estátua. Esta, feita de uma rocha já esverdeada pelo tempo, representa uma mulher que mantém seu indicador esticado à frente, como se apontasse, inquisitorialmente, o dedo para cada pessoa que entrava na cidade. O artista realizou seu ofício de forma magistral, esculpindo cada traço delicado daquela dama.

Aliás, de certa forma, apesar do tamanho, o gigante também possuí traços delicados, curiosa coincidência…

Após poucos minutos, um jovem chamado Ignis, de cabelos rebeldes, a barba por fazer e um robe chamuscado, aproxima-se da figura do paladino. A diferença nas aparências dos dois só não é tão gritante quanto à da aventureira – Ysolde – que possuí uma túnica azul que combina com a cor da tatuagem em sua bochecha e do cristal que engasta o topo de seu cajado. Sim, ela é uma maga.

Como não poderia ser diferente, tal grupo tão seleto começa a conversar, comentando sobre a estátua. Segundo Cassius, a cidade é batizada em homenagem à mulher representada na obra de arte: Solana, a elfa que conseguira conter a última grande invasão pirata.

Os elfos não existiam mais em Érebo, assim como os piratas, extintos há décadas. Porém, a estátua relembrava a todos de tempos passados, e do papel que aquela heroína teve.

Ysolde demonstrou sua satisfação em aprender sobre essa história, pois era uma maga muito curiosa, sempre sedenta por descobrir novas informações do mundo, enquanto Ignis respondeu com um “dá hora”, pois é assim que Ignis se comporta.

E foi nesse dia que Ignis, Ysolde e Cassius se encontraram pela primeira vez, sem saber que nos próximos meses se tornariam grandes amigos, salvando a vida um dos outros diversas vezes (e, claro, colocando a vida um dos outros em risco mais vezes ainda).

Após o breve bate papo e algumas apresentações, Ignis pergunta onde é a taverna local, pois está muito cansado de sua viagem feita às pressas, e uma cerveja cairia bem, “lubrificando a garganta”. Nisso, os jovens são interrompidos por um ancião já curvado, dizendo que estava espantado por forasteiros conhecerem a história da heroína Solana, oferecendo-se a leva-los até a taverna da cidade, pois sentia que teria boas conversas com pessoas tão distintas.

O velho, chamado de Tamoio, fez questão de apertar a mão de cada um, demorando-se mais com Ignis e Ysolde, reconhecendo-os como mágicos, o que surpreende ambos (não tanto por Ysolde, que, vamos combinar, não é muito discreta). No caminho à taverna, o velho é questionado a respeito de seu conhecimento em magia, respondendo enigmaticamente que, depois de uma certa idade, aprende-se a observar melhor.

E os aventureiros não duvidaram disso, pois, ao passar por um beco escuro (haviam muitos em Solana), o velho chamou um ser que estava ali quase invisível aos olhos. Era Palo, um rapaz de poucas palavras, que vestia roupas largas e totalmente escuras, que poderiam muito bem estar escondendo algumas armas, mercadorias ou até um pequeno animal.

Com o grupo completo, todos chegam à taverna Ouriço do Mar, iluminada por tochas nas suas paredes, e uma pequena lareira na sua lateral esquerda. A Ouriço tinha um ar abafado, cheirando à bebida, suor, cigarro e gases. Uma típica taverna, com direito também a muito barulho de conversas, risadas, gritos e bater de copos e pratos.

Surpreendentemente pra tal ambiente, um sanfoneiro tocava em um palco improvisado, recebendo ocasionais palmas e moedas.

Os quatro jovens e o velhinho sentam-se então em uma mesa vazia, sendo prontamente atendidos pela garçonete do local, que já lhes traz a cerveja da casa. Esta é aceita por todos, com exceção de Cassius, que pede vinho. A garçonete ri e deixa a cerveja, que depois é apossada por Ignis, que diz ser contra “desfeitas”.

Junto com a bebida, a conversa também flui, e algumas informações esparsas começam a aparecer.

Ysolde conta que é uma estudante de magia, que resolvou aproveitar as férias forçadas da Academia (aparentemente houve um incidente na biblioteca que paralisou as aulas) para explorar o mundo. Os olhos da jovem brilhavam enquanto discorria a respeito dos mil mistérios do continente Fortuna, perdendo a oportunidade de reparar em Ignis engasgando com sua cerveja ao ouvir a respeito do evento da biblioteca.

Cassius, por sua vez, fala que está procurando saber mais sobre seus ancestrais, comentando que a heroína Solana, na verdade, era também da família Lux. No que Tamoio acena com a cabeça, como se aquele fato fizesse sentido para ele.

Ignis apenas afirma que estava procurando novas aventuras, após um período intenso de estudos na Academia da Magia. Felizmente para ele, Ysolde nunca tinha reparado nele por lá.

Quanto a Palo, poucas informações são compartilhadas. O jovem apenas afirma que nascera e crescera em Solana, tendo começado a trabalhar para Tamoio (diferentes serviços, digamos assim) no ano passado.

Desconfiado, o paladino retira-se para “tirar uma água do joelho”, aproveitando o distanciamento para consultar sua deusa Ísis, perguntando se há algo maligno naquele local. A informação que recebera, no entanto, fora de pouca utilidade: havia ali todo tipo de pessoas: boas, más, indiferentes… Frustrado, Cassius volta à mesa a tempo de ouvir a ideia de Ysolde e Ignis de apresentarem um pequeno show de magia na taverna para conseguir algumas moedas.

Palo chama a atendente do bar e arranja para que eles se apresentem. Aparentemente não há muitos mágicos mesmo em uma cidade grande como Solana (ou, mais provável, eles evitam estabelecimentos como o Ouriço), então logo os dois recebem autorização.

Smoke Dancer

O incrível que só a magia pode criar… Autor desconhecido. Fonte: Scribd

Em um piscar de olhos, Ysolde começa a mexer os braços ritmicamente, gesticulando com as mãos e falando algumas palavras em uma língua estranha. De repente, a fumaça dos cigarros converge para o palco onde antes estivera o sanfoneiro, assumindo a forma gasosa de uma mulher, que começa a dançar na frente de todos. Todos ficam em choque com a surpresa, extasiados com o que viam. Nesse momento, Ignis faz um movimento amplo e agressivo de baixo para cima com os braços, apagando as tochas da taverna, deixando o ambiente sinistro por um momento. Quando as vozes começam a se levantar, as chamas das tochas reaparecem, dessa vez delineando os contornos da dançarina de fumaça, mexendo-se com ela.

A plateia então levanta e aplaude enfaticamente, ficando de boca aberta com o espetáculo que viam (muitos viam magia pela primeira vez na vida). Dezenas de moedas são, generosamente, ofertadas aos artistas, e, no caso de Ysolde, além das moedas, um colar com um cisne lhe é dado, acompanhado de um convite para passar a noite na casa de um dos mercadores de tapetes da cidade, o qual ela educadamente recusa.

De volta à mesa, agora abastecida com mais cerveja comprada com as novas moedas, Tamoio conta que haverá uma apresentação de animais exóticos de Fortuna na praça de Solana no dia seguinte, despertando a atenção de todos, e reavivando a conversa a respeito do novo continente, que havia sido descoberto há pouco mais de uma década.

Ysolde começa a pular de agitação, pois era justamente naquele continente desconhecido que ela imaginava que os maiores mistérios poderiam estar, sugerindo a todos que eles arranjassem um jeito de ir para lá.

Ignis gosta da ideia, pois ir para o “fim do mundo” seria uma ótima rota para fugir de seus problemas, e, de quebra, talvez achar algo valioso na terra nova que poderia ser dado em compensação pelo estrago realizado na biblioteca. Além do mais, como “fortuna” poderia ser entendido também como sorte, quem sabe ele não descobriria informações do seu pai? De repente ele também resolvera fugir para o fim do mundo…

Cassius também gosta da ideia, pois sua deusa Ísis é ligada à natureza, e, enquanto o continente de Érebo já quase não possui mais o verde das florestas ou o azul dos rios limpos, Fortuna parecia ser o lugar perfeito para estar em harmonia com sua divindade.

Sem surpreender ninguém, Palo solta um “eu topo”, com um sorriso na boca, e os olhos fixos na parede. Quem poderia dizer as riquezas que ele visualizava? O fato é que Tamoio pagava mal para o risco que seus “serviços” exigiam, e, se fosse para arriscar a vida, que fosse em um lugar que poderia torná-lo rico.

Enfim, todos, por seus próprios motivos, acabam gostando da ideia de ir ao novo continente. O primeiro passo seria ir à exposição no dia seguinte, aproveitando para conhecer os tipos de criaturas que poderiam encontrar por lá, e já perguntando a respeito da travessia.

Ignis então questiona sobre acomodações na taverna, mas a garçonete diz que, em razão da exposição, a casa está totalmente lotada.

Palo então indica um conhecido que possui uma pousada na cidade, acompanhando Ignis e Ysolde até lá, e despedindo-se de Tamoio, que permanece na taverna, e de Cassius, que afirma que prefere dormir junto às árvores.

A “pousada”, no entanto, parece mais uma casa invadida por um dos comparsas de Palo, e os mágicos preferem então se abrigar no templo local de Thud, que, em toda Érebo, acolhe os viajantes.

Quando se despedem do ladino, Ignis percebe que seu bolso está mais leve, não se sabe por obra do “amigo de Palo”, ou se pelo próprio Palo, o novo “amigo” deles.

Felizmente, os templos de Thud nunca exigem moeda dos viajantes.

Enquanto Ignis e Ysolde caminhavam pelos paralelepípedos da cidade, passando pelas casas amontoadas e sujas, deparam-se com Cassius, que, cabisbaixo, também se dirigia ao templo – “não encontrei nenhuma árvore”.

Cômico, se não fosse triste.

É então no grande templo de Thud que os três se refugiam, atravessando as grandes portas de madeira e adentrando um amplo espaço, iluminado por algumas velas e braseiros, que revelavam diversas camas improvisadas encostadas na parede. Assim como as tavernas de Solana, o templo estava cheio. Embora alguns clérigos andassem de lá para cá dando atenção e conforto aos mais necessitados, o silêncio era apenas quebrado ocasionalmente por alguns roncos e eventuais tosses.

Sem nem pensar (como lhe é de costume), Ignis adormece imediatamente na primeira cama que encontra, sendo tomado pelo cansaço e cerveja acumulados no dia. Para seu azar, o dono da cama não era dos mais compreensivos, logo chutando o folgado, que rola no chão e dorme em um pano estendido.

Enquanto Ysolde buscava uma cama nos fundos do templo, Cassius vai até um dos clérigos, que lhe questiona se ele pode ser de alguma ajuda.

“Eu ordeno que você me avise caso haja algum problema durante a noite”.

As palavras saíram de forma firme e imponente, como se tivessem sido faladas por uma autoridade divina.

O clérigo então faz uma reverência, e diz que avisará o nobre paladino caso haja o menor dos incidentes.

As horas passam, e mal os primeiros raios de sol tocam os muros de pedra da cidade, o seguidor de Thud corre para acordar Cassius.

“Meu senhor, as criaturas fugiram!”.

O paladino ainda estava confuso por ter seu estado meditativo interrompido, mas logo os sinos do templo começam a soar, chamando-o a realidade. “O que você disse?”

AS CRIATURAS DE FORTUNA ESTÃO SOLTAS NA CIDADE!!

Próximo post: Sangue e Fogo

One Comment leave one →
  1. Álvaro permalink
    25/03/2019 14:53

    👏👏👏👏 mto bom! Ansioso para as próximas aventuras

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: