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Biblioteca de Heróis – Norman Peewie Chariott

24/08/2018

Um pouco de alho amassado, sal, e… por que não? Pimenta.
Afinal, aquele dia era uma data especial. 8 anos juntos, 2 crianças saudáveis, uma casinha de sapê… o que mais Norman podia querer?

Enquanto terminava de temperar o frango, e começava a cortar o quiabo, Norman pensava na sua vida nos últimos anos. Ele trabalhava como cozinheiro na taverna local, e seus guisados e assados (especialmente frango com quiabo), já eram conhecidos em toda região de Trás-dos-Montes. Nada mal para o filho do moleiro, agora conhecido como “Mestre NPC”.

No entanto, e Norman Peewie Chariott não suspeitava disso, sua esposa havia acabado de deixar sua casa, junto com seus dois filhos. Rosalinda partiu ainda de madrugada, enquanto seu marido dormia o sono dos justos. Ela sabia que se continuasse ali sua vida nunca mudaria, e seus filhos teriam, provavelmente, o mesmo padrão de vida dos pais.

E eles teriam que continuar dormindo sobre a palha no chão.

E ela nunca conseguiria ter seus próprios brincos, como a Senhora de Trás-dos-Montes tinha.

E ela teria que continuar fingindo que gostava de frango com quiabo.

Seria difícil explicar sua decisão pra Norman. Na verdade, quase tudo era difícil explicar pra ele…

(…)

Já faziam 6 semanas.

Quando a irmã de Rosalinda contou para Norman que sua esposa o deixara para fazer parte do harém do Duque, tudo o que NPC sentiu foi um vazio.

Por que ela fez isso? A vida deles era tão boa, tão tranquila. Ele não conseguia entender.

Outra coisa que ele não conseguiu entender foi quando um velho viajante lhe deu uma pequena miniatura, no seu último dia na taverna. O ancião de vestes roxas adorou o seu frango com quiabo, e quando NPC contou que ele partiria em viagem para rever seus filhos, o viajante o presenteara com uma pequena casinha, toda colorida: “Isso vai lhe servir mais do que você imagina, filho”.

Como uma minúscula casa de bonecas poderia lhe servir?

Foi somente quando Norman derrubou, sem querer, um pouco de sopa na casinha que ele percebeu.

Até ele conseguia entender o que era magia.

(…)

Barba Branca era o nome dele. Todas as grandes cidades eram administradas por um mago naquele ducado, e Termenite era a cidade mais próxima de Trás-dos-Montes. Norman sabia que ele precisava da ajuda de um mago para poder ter acesso ao castelo do Duque, e era lá que ele tentaria sua sorte.

No entanto, sem ao menos ter a chance de solicitar algum favor à Barba Branca, Mestre NPC pisou nos calos (literalmente) do mago, e, como punição, recebeu a pena de trabalhar na taverna de Termenite até o fim de suas vida. Vendo isso como uma oportunidade de cair nas graças do chefe da cidade, Mestre NPC seguiu à risca o que era esperado dele.

E trabalhou, e temperou, e cozinhou, e trabalhou mais e mais.

Mas o vazio continuava. Norman ainda sonhava com seus filhos: com a risada doce de Macy e o sorriso travesso de Tom. O mestre cuca tinha poucas posses ou bens, e quase tudo que ele produzia era voltado aos seus clientes. Mas seus filhos eram seus filhos, e Rosalinda estava enganada se ela achava que Norman não lutaria para tê-los de volta.

(…)

Foi em uma noite sem luar que um grupo de encrenqueiros apareceu na cidade. Eles bagunçaram toda a taverna, e até invadiram a cozinha – o santuário de Norman. Depois de alguns gritos, cutelos voadores e uma porradaria sem sentido, a trupe pediu ajuda à Mestre NPC. Eles eram prisioneiros de Barba Branca e queriam sair daquela ditadura, de preferência com os elfos que eram utilizados como escravos na cidade (um dos baderneiros, Adrian, também tinha orelhas pontudas).

Era a primeira vez que alguém pedia ajuda à Norman. Normalmente as pessoas o viam como um reles elemento da paisagem, uma espécie de mobília que era tão útil quanto uma cadeira confortável. No entanto, aqueles baderneiros olhavam para NPC de outro jeito: eles esperavam algo dele.

E Norman não iria decepcioná-los.

O cozinheiro uniu-se aos bandoleiros, e, com a ajuda de um gladiador famoso que visitou Termenite, conseguiram fugir do território de Barba Branca (mas, infelizmente, deixando os escravos para trás).

Por indicação do pugilista foram parar em Builassa, cidade de Barba Negra, mago muito mais razoável. Lá os aventureiros (nome que os baderneiros ricos recebiam – os baderneiros pobres eram só baderneiros mesmo) logo caíram na graça do mago, que viu a possibilidade de ter um grupo de capangas fazendo diferentes serviços para ele: cobaias para experiências mágicas; colheita de ervas mágicas em cavernas profundas; coleta de ovos de salamandra.

Nessa última empreitada Norman se viu numa das situações mais bizarras de sua vida: acuado por lagartas que cuspiam fogo, o cozinheiro usava sua tampa de panela para empurrar as criaturas pra longe, enquanto tentava, em vão, espetar a lagartona (que delicioso assado ela daria!) que abocanhava seu amigo elfo. Sangue de animais era algo que o cozinheiro estava acostumado a lidar, mas o sangue de humanos o assustara, e por pouco o seu próprio não se juntou ao de seus colegas, muito mais fortes que eles.

O plano deu certo, no entanto. Mais rápido do que esperavam, os bader… aventureiros caíram nas graças de Barba Negra. Norman, inclusive, ofereceu um jantar pra ele dentro de sua taverna mágica, usando algumas das ervas especiais que eles encontraram nas cavernas.

O resultado?
Barba Negra agora era Barba Verde, assim como todos os cabelos e barbas de seus colegas. Com o clima descontraído, o cozinheiro finalmente deu sua cartada final, e pediu o favor ao mago. Com um misto de insistência, bons argumentos e uma dose caprichada de boa sorte, Norman conseguiu o salvo conduto para uma visita, de 1 hora, ao Duque.

Seria o suficiente.

(…)

Norman planejava uma despedida curta com seus colegas, afinal ele suspeitava que não voltaria a vê-los. Afinal, tudo era passageiro na vida de Norman: seus cozidos, seus clientes, seu (pouco) dinheiro, e, pasmém, até sua família.

No entanto, e Mestre NPC não estava preparado para isso, Adrian, o ranger do grupo, disse que iria ao castelo junto com o cozinheiro: “Você me ajudou antes, é minha vez de retribuir”.

Era a primeira vez que Norman encontrava um amigo em sua vida. Até Jack, o burrico, teimava com NPC, mas o elfo, sem ao menos ser solicitado, estendia a mão para o cozinheiro quando ele mais precisava.

Os dois foram com Barba Verde para um círculo mágico, sendo teletransportados para o grande salão do castelo do Duque, que já o aguardava.

Ah sim, o cozinheiro. Pois bem, o que posso fazer por você?”.

Sua voz era monótona, beirando a impaciência. O descaso recheava as palavras, e os olhos estavam salpicados com desprezo.

Vim aqui para ter meus filhos de volta”.

Risos.

Quem?”

E ali estava ela, Macy. A jovem Macy, a Macy de Norman. A pequena vestia um avental sujo, limpando o chão. A voz de seu pai a atraiu, interrompendo seu trabalho. Um tapa de um dos guardas a colocou de volta à realidade.

O sangua de Norman começou a ferver.

Ah, a faxineira é sua filha? Vai me dizer que você é o ex-marido da rameira que trouxe os fedelhos? Se os quer, pague o preço: Mil peças de ouro cada”.

Preço. Aquele imbecil que permitia escravidão em seu ducado também dava preço às pessoas. A seus filhos.

Preço? Como ousa?” – a paciência de NPC estava entrando no ponto de ebulição.

Claro, todos tem seus preço. Outros mais, outros menos – como sua ex-mulher, que foi bem barata”.

Foi o suficiente. Em um movimento rápido, Norman pegou uma de suas facas no avental e a arremessou em direção ao Duque.

Errou por metros.

Os guardas sacaram as espadas e foram na direção do cozinheiro, mas o Duque os interrompeu. Haviam duas pessoas com raiva naquele momento.

Como ousa atacar o Duque?”, bradou.

Sou cozinheiro, sei lidar com animais que merecem ser abatidos. Duque? Você não passa de um porco que escapou de entrar no forno”.

Cordas das bestas se retesaram, mas o fidalgo orgulhoso viu a oportunidade de se divertir naquela tarde:

Quer brigar, cozinheiro? Pois bem, eu e você então, pela liberdade de seus filhos”.

Não precisou falar duas vezes. Enquanto o Duque desembainhava sua longa espada, cravejada de jóias e outros rococós que provavelmente custavam mais que toda Trás-dos-Montes (com Senhora e brincos inclusos), Norman partiu para cima do tirano com tudo o que tinha: um cutelo, uma tampa de panela e muita, mas muita raiva.

Surpreso, o porco mal teve tempo de evitar uma cutelada, que quase arrancou sua cabeça. A resposta, no entanto, veio de alguém que havia treinado esgrima com os melhores espadachins da região: a lâmina atravessou tampa de panela, avental e carne, perfurando órgãos de um cozinheiro que movia por puro ódio.

Gritos de Macy, flechas de Adrian.

E agora, cozinheiro?”

Puxando a lâmina pra dentro de seu corpo, Norman trouxe o Duque perto o suficiente. Dessa vez seu cutelo foi de baixo pra cima, arrancando um pedaço da orelha do fidalgo, que, pela expressão em sua cara, não via seus próprio sangue há tempos.

Ahhhhhhhhhhhhhhhhh!!”.

Enquanto Norman caía, envolto em dor e sem forças para manter seus olhos abertos, ele ouvia passos a todo seu redor. O tempo passava vagoroso, e seu corpo te passava um misto de sensações: dor, pequenas mãos o tocando, dor, alguém o carregando, dor, gritos, som de teletransporte, dor, mais gritos.

E escuridão.

(…)

Hoje qualquer viajante que vá até Builassa vê uma lápide do lado de fora da cidade. Não há nenhum nome ou escrito na pedra, mas sim uma panela, entalhada na superfície – símbolo incomum em objetos do tipo.

Se o viajante ficar na área tempo o suficiente, ele verá que um burrico sempre pasta por aquele local, tentando morder qualquer um que aparente não respeitar o monumento.

Orcha CC

Artist: Nobuteru Yūki

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