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Um comum entre heróis

22/07/2018

(English below)

Há algumas semanas combinei de jogar RPG com alguns amigos na Holanda. Eram minhas últimas semanas no país, e há tempos eu queria rolar uns dados com meus camaradas. Com exceção de um deles, todos os outros nunca haviam jogado meu hobby favorito, e era nossa oportunidade de criarmos algumas histórias juntos.

Nosso amigo veterano se propôs a narrar Dungeons e Dragons pra gente, logo eu e meus outros colegas assumimos o papel de jogadores. No entanto, no dia que nos reunímos pra criar nossas fichas, o que poderia ser mais uma mini-campanha transformou-se em um desafio inesperado. Nosso mestre pediu pra rolarmos os dados para os atributos, e eu, fazendo jus às minhas características inatas de pé-frio, obtive a seguinte rolagem:

5; 7; 8; 9; 9 e 10.

Para aqueles que não estão familiarizados com o D&D, o valor padrão de um humano comum é 10. Um 12 representaria alguém treinado para algo, 14 alguém MUITO bom em algo, 16 um mestre nesse algo, 18 alguém sobre-humano, e 20 algo único. Mas não, entre todos meus atributos, o meu melhor era um 10. Ou seja: o melhor do meu personagem equivaleria ao humano mais ordinário e medíocre.

Após o natural acesso de riso entre todos nós (eu incluso), olhei para o mestre e ele respondeu: “Good luck with that”.

E assim começou uma das campanhas mais incomuns que já joguei, que compartilharei aqui com vocês, em 2 posts.

Um comum entre heróis

Uma das premissas básicas que sempre tive ao analisar Dungeons & Dragons, fora a importância de ter um equilibrio entre os personagens dos jogadores. Uma diferença entre níveis de poder é quase que inevitável, mas todo personagem deveria ser capaz de contribuir no resultado final – várias engrenagens que rodam uma máquina.

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Dito isso, como lidar com um personagem que era EXCEPCIONALMENTE mais fraco que todos os outros? Meus amigos, não sendo marcados pela marca da má sorte como eu, obtiveram rolagens entre 10 e 18, criando os típicos heróis em que o jogo se sustenta. A pergunta era: como que meu personagem poderia participar de um grupo desses?

Meu primeiro pensamento foi de como burlar esse problema. Pedi ajuda aos meus amigos brasileiros que estão habituados a jogar D&D, e recebi alguns conselhos úteis: “Jogue de druida da Lua, a forma animal vai te possibilitar usar os atributos das bestas, e não os seus, que são ridículos”, e também: “Jogue como clérigo, fique dando bônus e curando seus aliados, pelo menos você vai ser útil e vai ganhar a simpatia deles”.

Por outro lado, apesar de de estatisticamente muito valiosos, esses conselhos iam contra o que eu havia pensado pros meu personagem. Nas 2 únicas campanhas de D&D 5.0 que joguei, meus personagens eram justamente clérigo (grande Terjon) e druida (querido Freixo), e eu não queria repetir essas escolhas. Além disso, fazia sentido eu escolher uma classe simplesmente pensando em como otimizar meu personagem? Não seria essa uma atitude Munchkin que orgulhasamente criticamos?

Sim, meu caminho deveria ser outro. Matematicamente suicida, romanticamente improvável, mas “jogadoramente” promissor. Resolvi seguir o conselho de outro amigo meu: “Olha, com essa rolagem seu personagem daria um ótimo cara comum: provavelmente um mendigo, com sorte um fazendeiro”.

Realmente. E porque não?

Daí nasceu o conceito de Norman, meu personagem cozinheiro. Sua classe era justamente um “commoner”, ou seja, “sem classe”, alinhado à uma das piadas que ouvi quando rolei os dados: “Hey, you could be a NPC (Non-Player Character)”.

De fato, o nome completo de meu personagem era Norman Peewie Chariott. Mestre Cuca. Mestre NPC.

Esse foi só o começo. Empolgados com a ideia, meu amigo Quinten e eu começamos a pensar juntos no porquê meu personagem resolveria seguir a vida de aventura. Considerando 5 de inteligência, não precisava ser nenhum motivo muito brilhante…

Após muitas risadas, decidimos que Norman era um cozinheiro que viu sua esposa fugir com seus 2 filhos para viver com o duque do reino. Traído e abandonado, Mestre NPC queria provar ao mundo (e a si mesmo) que era capaz de grandes feitos, com sorte convencendo aqueles que o deixaram pra trás à voltar ao seu lado. Acompanhado de Jack, um burro teimoso; e sua taverna mágica (inspirada no item Daern’s Instant Fortress), Norman acabou conhecendo um grupo de aventureiros, e, por graça do destino, juntou-se a eles.

Jogamos 4 sessões juntos. Imagino que minhas impressões seriam diferentes em uma campanha longa, mas mesmo assim acho pertinente compartilhar minha vivência aqui:

Eu nunca me senti tão tranquilo jogando Dungeons e Dragons. Jogar D&D até então sempre teve pra mim uma carga de cálculos de quantos goblins eu poderia derrubar; de como eu poderia ajudar meus companheiros; ou até de como eu poderia atrapalhar meus companheiros… resumindo: de como eu poderia ser útil.

Não dessa vez.

Peasant RPG

O cara errado, na hora errada, e no lugar errado. Mas… é realmente só isso?

Em nenhum momento tive essa preocupação jogando com o Norman. Eu sabia que ele era inútil, e simplesmente lidei com isso. Era como ser um Doutor em Física num baile funk. Você até pode participar de alguma forma, mas sua contribuição vai ser frequentemente alvo de escárnio, e você invariavelmente vai estar deslocado.

E Norman Peewie Chariott sempre foi um estranho fora do ninho. Enquanto o bárbaro Jakar conseguiu dar 30 pontos de dano no nosso primeiro combate, matando um homem-lagarto que ameaçava Adrian, o ranger da equipe, Norman se esforçava ao máximo para estocar a cabeça de um dos lagartos menores com sua peixeira, defendendo o ranger com a tampa de uma panela (seu escudo). Enquanto Gavmav, o mago da equipe, era capaz de remendar objetos quebrados com o estalar dos dedos, e alterar sua aparência ao seu bel prazer, Norman era capaz de fazer um guisado saboroso.

Apesar dessa diferença brutal de capacidades, Norman sempre ganhava os holofotes quando ele conseguia fazer algo. Afinal, a falha era o padrão desse personagem (lembrando que meu melhor atributo era + 0). De fato, talvez poucas vezes eu tenha me sentido tão orgulhoso quanto senti na ocasião que Norman conseguiu manipular um contato do duque, arranjando uma oportunidade do cozinheiro encontrar o atual consorte de sua ex-mulher.

“Mas como?”, você pode se perguntar, muito razoavelmente. O fato é que Mestre NPC possuía bônus quando realizava uma interação social com um personagem que comeu sua comida, e após oferecer uma janta a esse contato em específico, consegui convencê-lo a fazer esse favor à Norman, usando esse bônus e o talento “Lucky” para alcançar o feito.

Todos na mesa vibraram como se fosse a queda de um dragão.

Nossa última sessão de RPG foi bem especial. À parte a toda a emoção da despedida real entre Chico e seus amigos de mestrado (e deixo à imaginação de vocês o que essa carga emocional representa), também era a despedida entre Norman e seus companheiros de aventuras.

Quando finalmente chegou o dia da audiência do duque com o cozinheiro, todos na mesa estavam ansiosos e curiosos pra ver o que aconteceria. Antes do encontro tive a consideração de deixar Jack (o burrico) aos cuidados de meus amigos, me despedindo de cada um deles. Jogador e personagem se misturavam ali.

Caminhei até o círculo mágico que levaria Norman até o castelo, e fui surpreendido quando um de meus amigos falou: “Eu vou também”.

Era Adrian, o ranger da equipe.

Norman tentara dissiduádi-lo da ideia, afinal a terrível reputação do duque era conhecida por todo reino. No entanto, o elfo não esquecera a bravura (inútil, mas ainda assim insistente) do cozinheiro ao defendê-lo dos lagartos, e nem a suas diversas tentativas de ajudá-lo (também sem sucesso, como não poderia ser diferente) na sua missão de liberar os elfos que eram escravos no reino.

Aquilo foi tão inesperado, que confesso que fiquei sem palavras por um tempo. Aquele era o momento ideal para Norman se despedir, tanto na narrativa quanto na história pessoal do personagem.

“Você me ajudou antes, é minha vez de retribuir”.

Havia algo mais ali, além do que os olhos podiam ver…
Meu amigo estava me lembrando do Por que eu Jogo RPG.

Convido-os a aguardarem o próximo post da série, que será a história de Norman Peewie Chariott, novo tomo da Biblioteca de Heróis do Aventurando-se.

Roll the bones,

Chico Lobo Leal

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“Dados brancos com números pretos: tão comum quanto Norman era. Achei que seria um presente de despedida apropriado” – Obrigado Quinten :)

Some weeks ago I finally managed to gather some friends to play RPG in the Netherlands. It was the ending of my period in the country, and for already quite some time I was willing to roll some dice with my mates. All but one were newbies in the RPG world, and it was our opportunity to create and live a story together.

Our veteran friend agreed to be the Dungeon Masters in a D&D campaing, thus everyone else, including me, would take the role of players. In the day we met to create our character sheets though, what could be only one more short experience turned to be an unexpected challenge. Our DM asked us to roll the dice for attributes, and I, honouring my renowned lack of luck, got the following values:

5; 7; 8; 9; 9 e 10.

For those who are not familiar with D&D, the average value of a common human is 10. A 12 would represent someone who has been trained in something, 14 someone who is VERY good in this something, 16 a master, 18 someone above the human level and 20 something unique. But no, not with me. Among all my attributes, my best result was 10. Therefore, the best of my character would match the most average and colourless human.

After we all laughed our asses off (me included), I looked to the DM and he said: “Good luck with that”.

And then one of the most uncommon campaigns I’ve played started, which I will share with you guys, in 2 posts.

A commoner among heroes

One of the foundation stones I’ve always considered when analysing Dungeons & Dragons, was the importance of a balance between players’ characters. A power difference is almost unevitable, but all characters should be able to contribute in the final result – cogs and gear which run a machine.

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That said, how should I deal with a character who was EXCEPTIONNALY weaker than all the others? My friends, not being cursed with the mark of bad luck (like I’ve been), got normal values for their attributes, ranging between 10 and 18: typical heroes in which the game is based upon. Here is the issue: How could my character participate in such a grup?

My first thought was how to overcome this. I right away asked my Brazilian friends who are D&D enthusiasts, and got the following advices: “Play as a Druid of the circle of the Moon, the wildshape ability will allow you to use the attributes of the beasts, and not the ones you rolled, since they are ridiculous”, and also: “Play as a cleric, keep buffing and healing your allies, at least you will be useful and will get their sympathy”.

On the other hand, although statiscally valuable, these advices went against what I have earlier thought for my character. In the 2 opportunities I’ve been part of a D&D 5.0 campaign, I was exactly a cleric (all hail Terjon) and druid (dear Freixo), and I didn’t want to play with the same classes again. Besides, did it make sense to choose a class just taking into account how to optimize my character? Wasn’t that a Munchkin attitude that we are proudly against in the blog?

Yes, I wanted something different. Even if it was suicidal in mathematical thinking, and a lost cause in a romantic perspective, I pursued something that excited me. I decided to follow an advice of a friend of mine: “Well, with these rolls your character would be a great commoner: probably a beggar, with luck a farmer”.

Indeed. And why not?

The concept of Norman was drafted on that. He was actually a classless character, a commoner. A chef, to be precise. As my friends joked after they saw my dice results: “Hey, you could be a NPC (Non-Player Character)”.

Yep. My character’s name was Norman Peewie Chariot. Master chef. Master NPC.

This was just the beginning, of course. Excited about the idea, my friend Quinten and I started to think together on the reason my character would pursue an adventure life. Considering he had 5 of intelligence, it didn’t need a very smart motive…

After laughing a lot, we decided Norman was a chef who saw his wife ran away with their 2 children to live with the duke who ran the kingdom. Betrayed and left alone, Master NPC wanted to prove the world (and himself) that he was capable of great deeds, luckily also convincing those who left him behind to return to his side. Followed by Jack, a stubborn donkey; and his magic tavern (inspired by the Daern’s Instant Fortress item), Norman ended up meeting a group of adventurers, and, by chance, joined them.

We played 4 sessions togheter. I believe my impressions would be different in a longer campaign, but still I think is significant to share my experience here:

I’ve never felt so at ease playing Dungeons and Dragons. Playing D&D always meant to me a bunch of math on how many goblins I could kill; on how I could help my group; or even how I could mess with them… but still, I always wanted to be useful.

Not this time.

Peasant RPG

The wrong guy, at the wrong time and the wrong place. But… is this all?

I haven’t had this goal at all while playing with Norman. I knew he was useless, and I simply accepted that. It was like being a British PhD student in a carnival party in Brazil. You don’t know how to dance, your pale skin basically reflects all the sunlight and the locals just keep staring at you.

Norman Peewie Chariott was always an odd man out. While Jakar the barbarian managed to deal 30 fucking points of damage in our first combat, killing the lizardman who was threatning Adrian, the ranger of the group, Norman was doing his best to stab the head of one of the minor lizards with his meat cleaver, defending the ranger with a pan’s lid (his shield). Whilst Gavmav, the wizard of the group was able to mend broken objects by just snatching his fingers, and also change his appearence as he wished, Norman was able to make a tasty soup.

Despite all these striking power differences, Norman was always at the spotlight when he managed to do something. After all, everyone was used to him failing (just to remember – my higher attribute provided me with + 0 in my dice rolls). In fact, I’ve rarely felt as proud as I had felt when Norman managed to manipulate on of the duke’s contact in a city to arrange a meeting between them. “But how?”, you may ask, very reasonably. The fact is that Master NPC had a bonus when carrying out a social interaction with people whom had tried his food, and after offering a dinner for this important guy, I managed to convince him to make a favour to Norman, using this bonus and the Lucky feat to succeed.

Everyone at the table cheered as if they were watching a dragon being slayed.

Our last RPG session was very special. Despite the emotions beneath the real farewell between Chico and his friends (and you are invited to figure what this means by yourself), it was also the farewell between Norman and his adventuring mates.

When the day of the meeting between the duke and the chef finally arrived, everyone in the table was ansious and curious to see what would happen. Before the meeting I left Jack (the donkey) with my friends, saying goodbye to each one of them. The borders between player and character were blurred at that moment.

I walked in the direction of the magic circle which would take Norman to the castle, and suddenly I was surprised to hear one of my friends shouting: “I’m going too”.

It was Adrian, the ranger.

Norman tried to change his mind, after all the duke’s terrible reputation was renowned all over the kingdom. Yet, the elf didn’t forget the chef’s bravery (useless, but still there) when defending him of the lizards, and also the several times Norman tried to help him on his quest to free some elvish slaves (also without success – as it couldn’t be different).

That was so unexpected to me, that I admit I was speechless for some time. It was the ideal moment to Norman to say goodbye, considering not only the storyline, but also the background of the character.

“You helped me before, now it’s my time to aid you”.

There was something else there, beyond what the naked eye could see…

My friend was reminding me Why I Play RPG.

I invite you to wait for the next post of the this series, in which I will tell the story of Norman Peewie Chariott, making a new tome for the Library of Heroes, here at the Aventurando-se blog.

Roll the bones,

Chico Lobo Leal

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“White and black dice: as common as Norman ever was. I thought it would be an appropriate farewell gift” – Thanks a lot Quinten :)

 

 

2 Comentários leave one →
  1. 23/07/2018 05:58

    Excelente relato! Um tom de nostalgia e surpresa demonstrando a sensitividade do momento. Quero conhecer o Norman!

    • 24/07/2018 19:51

      Brigadão Ju!
      Realmente, essas sessões foram um misto de emoções, e o Norman capturou isso muito bem. Quem sabe ele aparece em outros reinos e paragens… tenho certeza que há muitos cozinheiros, ferreiros e ceramistas por aí só esperando pra terem suas histórias contadas.

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