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Campanha em Rokugan – Cena Dezesseis

01/08/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

O caos se instaura mais uma vez no caminho de nossos heróis. Dos cantos mais escuros da cidade, uma legião de homens armados emergiu sob o estandarte da Garça. Lutando contra os despreparados servos do Leão, eles conseguiram atear fogo na Cidade da Permissão.

Os caminhos se separam no meio deste tormento. Takashi e Kaori perseguem Sasuke-dono, que acaba ferido traiçoeiramente. A ama Bayushi tem o mesmo destino, e descobre quem foi o responsável por este incidente: Bayushi Terada, seu primo.

Já Lishida, acompanhando o veterano Matsu Koji, usaram de força para abrir caminho até o Kyuden de Ninkatoshi. E lá, encontraram o que parece ser o verdadeiro inimigo…

 

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

死 (Morte)

Kaori lutava contra seu próprio corpo para ficar de pé, e enfrentar seu detestável parente de igual para igual. Este, por sua vez, parecia entretido com toda aquela situação.

 

“Ora, então vai ser assim?”

De suas longas mangas, surgiram dois Kama. De suas lâminas, escorria um líquido escuro, que quase se mesclava ao véu noturno.

“Ou você virá comigo por bem, Kaori-chan, ou virá por mal!

 Ao lançar suas armas contra a Samurai-ko, Takashi aparou o golpe; aproveitou o embalo para retribui-lo, atingindo Terada com força reduzida para não matá-lo.

O arrogante Bayushi permaneceu no chão, queixando-se da dor enquanto era amarrado por aqueles a quem desafiou. Lançava palavras e ameaças ao vento da noite, destilando todo o seu veneno…

“Vocês vão se arrepender pelo que estão fazendo!”

Ajudou Kaori a se levantar, pouco antes de levar o guerreiro cativo até as autoridades competentes. Percebeu também que o caos já estava se dissipando aos poucos: parece que os Budokas não tinham o mesmo fervor de outrora, e se rendiam após perceberem o crescente número de baixas entre os seus…

Deixando Kaori em um lugar seguro, Takashi retornou ao refúgio de Doji Sasuke, para garantir àquele senhor um tratamento adequado para suas mazelas – assim como para seus Yojimbo.

Kakita's_Sword

“Ora, boa noite. Não esperava vê-lo por aqui, Cria dos Caranguejos”.

Ao reconhecer o brilho malicioso nos olhos de Tetsuo, Lishida não proferiu palavra; tinha certeza de que era o mesmo homem de Ravina Serena.

O sujeito que o reduziu a pouco mais que um verme.

Não pensou duas vezes quando avançou sobre o franzino espadachim, manejando o tetsubo com toda sua ira. Não pensou sequer no homem prostrado à sua frente, que aproveitou-se da hora para engatinhar até as pernas de Koji.

Tetsuo não teve como evitar um golpe tão brutal quanto aquele, e acabou arremessado para fora do Kyuden. Na mente do Bushi que o golpeou, apenas o olhar triste daquele sujeito perdurou; os olhos descrentes, de alguém que não entendia o que estava acontecendo…

A satisfação por assassinar aquele feiticeiro acalmou seu corpo e reacendeu sua consciência, apenas para ser surpreendido por um ataque tão feroz quanto o seu último. O tetsubo de Matsu Koji atingiu-lhe o flanco esquerdo, arruinando seu braço em uma fratura exposta.

Caído e tomado pela dor generalizada, Lishida tentou se manter de pé. Em cada esforço, seu corpo sangrava dos hematomas que o veterano lhe provocou, e foi nessa hora que viu o semblante daquele homem- seu único olho injetado, sua postura grosseira e furiosa, e as veias enrijecidas pelo ódio. Uma faceta bem distante daquela que conhecera, do pai da finada Hibiki…

Lishida precisava manter o foco e as forças para enfrentar seu novo oponente, talvez escapando dele para levar aquele outro homem para um lugar seguro. Mas o corpo não acompanhou o pensamento, parando na mão vigorosa do veterano Matsu. Erguido pelo pescoço, o jovem Hida tecia seus agradecimentos à Bishamon, desejando uma morte rápida, e indolor…

…quando ouviu o engasgar dominando a garganta daquele guerreiro enfurecido, e sua queda veio logo em seguida. Antes que seus olhos se fechassem pelo cansaço, viu o velho Koji afogar-se no próprio sangue, e a lâmina tingida de carmim nas mãos do homem que tentou salvar.

Hida_Kuon_1

O amanhecer trouxe à Ninkatoshi uma promessa de recomeço, eliminando qualquer cicatriz da noite passada. Os soldados que permaneceram de pé recolhiam armas e prisioneiros, heimins uniam-se para reconstruir casas e reparar danos, e os etas recolhiam os cadáveres, limpando as ruas do imundo tom de sangue.

Foi nesta triste atmosfera que duas distintas figuras chegaram à cidade, cansadas de suas peregrinações. A primeira era, notoriamente, a mais velha e serena; seus olhos negros tinham o brilho das constelações em seu íntimo, como se guardassem um cosmo de conhecimentos sobre a vida.

A segunda, uma criança quando comparada a seu acompanhante, tinha o olhar atento e insatisfeito, desejando saborear toda a sapiência que o mundo podia lhe oferecer.

Ambos vestiam-se com roupas simples e chapéus de abas largas, para proteger-lhes do sol intenso. Caminhavam apoiados em seus bo, em ritmo calmo e contemplativo.

“Veja, Hitagi-san. Este é o reflexo bom de uma guerra: ela traz a morte, ao mesmo tempo que une mais os vivos”.

A jovem ficou impressionada com o que viu em seu caminho.

“Verdade, Fubuki-sensei.Foi isto que manteve nosso Império de pé, e por isso continuamos lembrando aos rokugani as palavras de Mestre Shinsei”.

Fubuki assentiu, antes que suas atenções se prendessem nas crianças que brincavam com armas jogadas no chão. Hitagi, por outro lado, foi abordada por um rígido servo do Leão, que tentou subjugá-la em um interrogatório, até ver o seu mestre se aproximando.

Desconcertado, o soldado guia os viajantes até a enfermaria mais próxima, um barracão montado às pressas em um ponto central da cidade. Um abrigo para os feridos no conflito da noite passada. à porta, foram surpreendidos pela saída abrupta de uma jovem, cujos olhos estavam preenchidos com lágrimas que manchavam seu rosto maquiado.

O velho monge, contudo, não pôde deixar de notá-la.

“Há quanto tempo, Kaori-san“.

Ela se deixou notar, rapidamente limpando seu rosto.

“Fu…Fubuki-sensei! Que honra vê-lo aqui. Espero ter a chance de conversar com o senhor em breve, pois preciso resolver um assunto pessoal agora…”

Hitagi percebeu prontamente a dor nos olhos da jovem, e tentou alcançá-la. Fubuki a deteve, com um gesto suave.

“Talvez, não seja este o momento, Hitagi-san. Cuide dos corpos feridos, enquanto busco saber o que aconteceu aqui”.

Ruins_of_Yotsu_Dojo

Desde a hora em que Lishida abriu seus olhos, Takashi ficou impressionado. Ouviu cada palavra do amigo sobre a morte de Tetsuo, que tinha se revelado como o Maho-tsukai de Ravina Serena, e sobre como havia ficado naquele estado deplorável. Viu o esmorecer de Kaori mais uma vez, que os deixou sozinhos até que pudesse compreender as circunstâncias de tudo aquilo.

Deixou o Caranguejo se recuperar, indo de encontro à Samurai-ko. Cumprimentou rapidamente a recém-chegada monja, sem prestar nela a devida atenção.

Kaori-san, espere”.

Ela não proferiu palavra, ou se virou para ver quem a chamava. Apenas parou de andar.

“Você… não pode culpar Hida-san pelo que aconteceu”.

A voz dela estava muito fraca, e ao mesmo tempo arranhada pela mágoa.

Tetsuo-san… está morto agora. É como se tudo que fiz fosse levado pelo vento”.

O andarilho de cabelos brancos se aproximou dela; na tentativa de confortá-la, colocou a mão sobre seu ombro.

“Eu não posso dizer que compreendo sua dor, mas… te digo com clareza que o culpado de tudo isso é o maldito Maho-tsukai. Guarde a mágoa para ele, em vez de marcá-la em Hida-san“…

Para Kaori, ele tinha razão: o Caranguejo cumpriu com o seu dever, no fim das contas. Mas ainda era inacreditável saber que o seu amado – aquele que sequer podia empunhar uma espada, pelo desgosto que nutria pelos combates – podia se portar da forma como lhe contaram.

No momento em que retornaria com a jovem amiga até a enfermaria, Takashi recebeu o chamado da Yojimbo que acompanhava Doji Sasuke.

“Enfim, o encontrei. Meu senhor deseja vê-lo imediatamente, se possível”.

Consentindo com a cabeça, ele se despediu de Kaori pouco antes de tomar o rumo. Caminhou calmamente, apreciando o empenho das pessoas em reconstruir seus lares.

Chegou a um dos imponentes casarões que cercam o Kyuden de Ninkatoshi, sendo prontamente recepcionado pelos demais servos do daimyo Garça. O jovem Kakita teve todo o cuidado para com as normas de etiqueta, deixando suas armas na entrada e reverenciando humildemente cada um dos servos.

Doji Sasuke estava sentado em seu leito, sorvendo um copo de chá. O lado esquerdo de seu corpo estava nu, com exceção do ombro, coberto por ataduras um pouco tingidas de sangue.

“É bom vê-lo, Kakita-san. Sente-se, por favor”.

“Fico feliz em ver que passa bem, Doji-dono“.

O riso contido de Sasuke mais se assemelha a um engasgo.

“Bem? Ah, não… é mais difícil e doloroso do que parece. Mas não é sobre isso que desejo falar com você. Na verdade, quero lhe pedir um favor…”

AftermathArtCrane

Retornando à enfermaria, Kaori encontra um Lishida mais disposto, diferente do envergonhado Bushi que confessara seus atos, minutos atrás. A cor parecia ter retornado ao seu rosto, e nem o braço fraturado parecia incomodá-lo.

Percebeu que alguém lhe fizera companhia: a jovem que acompanhava o mestre Fubuki. Os olhos dela guardavam conhecimento sobre o mundo, o que a tornava bem parecida com o seu sensei, e isso explicava como conseguiu dobrar alguém tão duro quanto aquele Caranguejo.

“Podemos conversar, Lishida-san?”

Suas palavras serviram de aviso para a monja, que prontamente foi cuidar de outros feridos. Já o herdeiro Hida, contrariando ordens médicas, levantou-se – sugerindo a Kaori para que fossem a um lugar mais tranquilo.

Caminhavam lado a lado pela rua, até que se deparassem com a primeira barraca de takoyaki nos arredores. Sentaram-se, e fizeram seus pedidos.

Kaori-san… perdoe-me pelo que fiz. Quando vi a frieza naqueles olhos, perdi a razão e o controle dos meus atos”.

Ela colocou a mão no ombro de seu acompanhante, de forma gentil.

“A culpa não foi sua, no fim das contas. Aquele feiticeiro dominou Tetsuo, assim como dominou outros que já encontramos no caminho. Preciso que você se recupere bem rápido, para que possamos derrotá-lo de uma vez por todas. Entendeu?”

Como resposta, ele voltou a comer. Olhou para o alto, repensando no princípio dessa missão – mais exatamente, sobre como enxergava tudo naqueles dias, agora tão distantes.

“Acho que seria mais útil ficando na Muralha…”

L5R-Crab Mon

つづく (“Continua”…)

P.S: Você pode conferir a Cena seguinte, clicando neste link aqui.

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2 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    01/08/2016 22:31

    Glossário:

    Kama: Foice curta.

    -chan: Forma honorífica de tratamento, atribuída em caráter íntimo (ou, no caso do Terada, irônico…)

    Samurai-ko: Termo designado a mulheres que optaram pelo ofício de Samurai.

    Budoka: Camponês armado e com pouco treino, normalmente usado como infantaria em batalhas de grande porte.

    Yojimbo: Guarda-costas de um nobre, como um daimyo.

    Tetsubo: Grande maça de ferro, coberta de cravos – uma das armas preferidas do clã Caranguejo.

    Kyuden: Em uma tradução livre, “castelo”.

    Bushi: Em uma tradução livre, “guerreiro”.

    Heimin: Povo de baixa casta de Rokugan, equivalente à maioria dos servos do Império.

    Eta: Pessoas maculadas pelo seu ofício, trabalhando com carne morta (como açougueiros ou funerários). São considerados a casta mais baixa do Império, pela sua impureza.

    -san: Forma honorífica de tratamento, normalmente atribuída a pessoas de igual classe social.

    -sensei: Forma horífica de tratamento, normalmente atribuída a um aluno perante seu mentor, ou mestre.

    Rokugani: Nome atribuído à população do Império Esmeralda, Rokugan.

    Maho-tsukai: Nome que virou tabu na sociedade Rokugani, é utilizado para mencionar praticantes de “Maho” (a Magia do Sangue).

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