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Campanha em Rokugan – Cena Treze

29/05/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Após o inglório confronto com Kamui, Kaori foi deixada com suas mágoas por Takashi e Lishida, que tinham um julgamento a cumprir. Por suas vidas, lutariam contra as Irmãs Megumi – servas valorosas de Matsu Hibiki – para provar sua inocência perante as acusações de um assassinato.

Mais uma vez, sangue precisou ser derramado para corroborar a verdade. Desta vez, foram as Leoas que entregaram suas vidas neste caminho. A jornada de um inimigo previamente revelado ao andarilho Garça, como a “Dama da Vingança” Ganryu…

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi)

再会 (Reencontro)

Dois dias se passaram desde a honrosa derrota de Matsu Hibiki. Para os Leões instalados na cidade, tornou-se uma perda considerável a ponto de restaurar sua postura e controle; para os Garças que anseavam novamente por Ninkatoshi, foi o momento para renovar os ânimos por um novo confronto.

Absolvidos de quaisquer acusações, Lishida e Takashi honraram o duelo ao se deparar com o pai da capitã, o endurecido Matsu Koji. Com o olho que lhe restava, fitou os dois visitantes com rancor – em especial, aquele que fora prometido para sua agora falecida herdeira.

O Caranguejo trazia em mãos o daisho de Hibiki, que lhe fora prometido caso vencesse o duelo; já o yorei-ke entregou sua própria Wakizashi, símbolo de sua alma, junto com uma carta, escrita em próprio punho, que traduzia seus verdadeiros sentimentos:

Quiseram as Fortunas que o caminho de Matsu Hibiki-sama cruzasse com o meu em situações desafortunadas. Após acusações de assassinato, meu companheiro de viagens Hida Lishida-san e eu fomos confrontados pelas Irmãs Megumi.

Tanto elas quanto Matsu Hibiki-sama foram honradas até o fim. Auxiliei-as nos rituais de Seppuku. 

Não estou pronto para ser um bom Daimyo, nem um bom marido… encontro-me em uma busca pessoal por aperfeiçoamento. Sentiria-me honrado em juntar nossas famílias pelo matrimônio quando chegar ao fim da jornada, e envio-lhe minha Wakizashi junto a esta carta para selar esta promessa.

Se me julgar indigno, peço que envie esta carta junto com a lâmina ao Kyuden de meu pai.

– Kakita Takashi

Entregaram, juntos, as peças ao veterano, sem olhar para a horrível cicatriz que cobre seu olho direito, e sem proferir palavra.

“Não posso esconder a ira que me acomete neste momento”, rosnou.

Entre dentes, esforçava-se muito para evitar alguma atitude descortês.

“No entanto, posso lhes garantir que este não será nosso último encontro…”

Takashi permaneceu em silêncio, mas era difícil descobrir por qual motivo o fez: se por respeito, ou se apenas pelo temor de uma represália. Ainda que os costumes defendessem sua postura, aquele homem poderia desafiá-lo no futuro. E, pelas marcas que ostenta, era possível perceber que nem a morte pôde vencê-lo em seu desafio…

Para Kaori, esses dias sequer passaram. Permaneceu instalada no templo de Benten, ajudando a cuidar dos arredores e, ao mesmo tempo, tentando curar suas feridas. A dor mostrava-se maior que sua perseverança, e as últimas palavras de Kamui ressoavam constantemente na sua consciência:

“Por favor, irmã… faça valer sua escolha”.

Ao pensar nisso, tornava-se doloroso pensar em Tetsuo; afinal, não bastasse ficar longe dele por tanto tempo, saber que o mesmo corria grande perigo apertava seu coração ainda mais.

Isso a fez ignorar alguns detalhes do dia anterior, como a presença de uma gravura em carvão de seu rosto, em um papel guardado na bainha da Katana de seu irmão – ou, tampouco, a presença de um pedinte solitário, vestido de farrapos e com o rosto oculto por uma máscara de Karasu-tengu.

“Senhorita, por acaso há um abrigo para um peregrino sem sorte, como eu?”

A voz grave e, ao mesmo tempo, familiar, a fez retornar de seus devaneios.

“Eu… tenho que falar com o monge para saber se isso é possível, ainda mais a esta hora…”

“Persistes nisso até mesmo para mim, cara dama?”

Os modos daquele sujeito a deixavam corada, até o momento em que retirou a sua máscara, e a fez perder o ar em um longo suspiro.

“T-Tetsuo!”

Miya Tetsuo

O sorriso dele iluminava a penumbra, como o cruzeiro do sul guia um viajante perdido.

“É você mesmo?”

Kaori mal podia acreditar no que seus olhos viam, depois de tudo que se passou.

“Finalmente, nos encontramos outra vez”, ele sussurrou.

Seu rosto ainda era manchado pelas agressões que sofreu, algumas noites atrás; mas a expressão serena de outrora parecia diferente, como se tomada por um crescente desconforto.

“Eu… estava lhe procurando desde Ravina Serena”.

Kaori manteve a cabeça baixa, para que o seu enrubescimento não fosse notado por ele.

“Eu a esperei lá, mas parece que acabamos nos desencontrando…”

Sua voz, outrora límpida como cristal, estava embargada por algo indecifrável.

“As Fortunas me trapacearam, pelo menos até esta noite”.

Os olhos inquietos da Samurai-ko passeavam pelas marcas e cicatrizes que agora delineavam Tetsuo, silenciosamente.

“Como você pode ver, Kaori, acabei até agredido no caminho a Ninkatoshi”.

“Eu… conheço as pessoas que o resgataram, Tetsuo-san…”

“Ora, Kaori!”

Os olhos do visitante permaneceram baixos, como se perseguissem o olhar de sua acompanhante… Em resposta, ela o fitou com o triste tom acinzentado da mágoa.

“Precisei matar meu irmão, Kamui… por você”.

Olhou novamente para suas mãos, vendo-as em vermelho-sangue. Sequer notou a inexpressiva atenção de Tetsuo.

“Essa definição de honra não leva a lugar algum, como eu sempre disse. Deve ter sido doloroso para você, Kaori…”

Afagou o queixo da jovem com leveza, erguendo aos poucos o seu rosto para dizer-lhe algo. As lágrimas se assemelhavam a pérolas, deslizando por sua tez de seda.

“Neste momento, eu preciso de você. Junte suas coisas, e venha comigo”.

Miya Tetsuo 2

Caminhando calmamente por entre os agitados destacamentos do clã Leão, Lishida e Takashi sentiam-se prontos para deixar a cidade. Sua maior preocupação ficara em Kaori, pela desgraça que teve de enfrentar. O Caranguejo tinha pressa em seguir viagem, por sua missão e pelo golpe sujo que os Bayushi estão tramando contra o Império; o jovem Kakita, por outro lado, carregava consigo a Wakizashi de Munisai e se preocupava com os planos de Ganryu e seu servo, Mirumoto Manji.

A meio caminho do agora agitado templo de Benten, encontraram sua amiga em peculiar companhia: Miya Tetsuo. Como se isso não bastasse para despertar a desconfiança no gigantesco Bushi, a suspeita de evidências “sombrias” o fez alcançá-los a todo fôlego – seguido calmamente pelos passos leves do amigo peregrino.

“Ora, mas que enconto fortuito!”

As palavras daquele sujeito destoavam da escuridão que desceu em sua face.

“Queria mesmo ter a chance de agradecê-los, por salvarem a minha vida. Do contrário, jamais teria encontrado Kaori novamente…”

A despeito do rubor intenso que tomou sua companheira de jornada, Takashi resolveu explorar a perspicácia daquele sujeito.

“E você conseguiu conversar com o monge que curou suas feridas?”

Pela demora de Tetsuo em responder, parece que o jovem espadachim soube como atingi-lo em cheio.

“Ora… infelizmente, não tive essa chance…”

“Então, tenho certeza de que ele ficará satisfeito em vê-lo, forte e bem recuperado. Inclusive, gostaria de acompanhá-lo neste momento…”

Tetsuo silenciosamente assentiu, ajustando sua máscara enquanto caminhava lado a lado com o jovem Garça. Sem pensar duas vezes, Lishida puxou Kaori pelo braço, com sua ímpar aspereza. Levou-a consigo até uma tenda próxima, que se distinguia pelo aroma de Takoyaki frescos.

Manji Mirumoto

A caminhada de Tetsuo e Takashi prosseguiu no silêncio quase absoluto da cidade. O primeiro virava-se para contemplar os arredores, obviamente desinteressado em falar; já o segundo manteve-se afiado, percebendo cada movimento e postura de seu acompanhante.

às portas do jardim do templo, eles encontraram alguém saindo do santuário. A palidez de seus longos cabelos dançava ao ritmo dos ventos, à exceção de algumas mechas que repousavam sobre o surrado Kimono verde-oliva de seu dono.

“Mirumoto Manji, eu presumo”.

O sujeito se vira para enfrentar os recém-chegados, com um irônico sorriso. As mãos espreguiçavam-se sobre as bainhas de seu daisho.

“Não pensei que o templo recebesse visitas a esta hora”.

A fagulha em seus olhos crescia, como uma fogueira bem alimentada, quando fitou Takashi.

“Você deve ser ele…”

O andarilho Kakita deixou que o homem falasse, sem entender direito a que se referia.

“Soube que, algumas noites atrás, um duelista Gaki matou minha esposa e aprendiz em uma luta justa. Estava mesmo curioso para conhecê-lo”.

Claro que lembrava-se do duelo, e do quão injusto ele foi. Não por sua desafiante, Lady Ganryu, mas pela postura dos Budoka que tentaram protegê-la.

“Também esperava conhecê-lo, depois de tudo que Munisai-dono me disse a seu respeito. Você tem planos que não podem acontecer, e vou lutar por isso”.

“Então, ‘Lorde Kotoko‘ foi ter com você. E as palavras de um tolo inquieto e derrotista o tocaram, a ponto de lutar por ele… que patético”.

Takashi estava farto de bravatas, e assumiu a postura em que costuma duelar para resolver logo essa situação. Manji, por outro lado, apenas caminhou em direção ao torii.

“Nossas espadas irão se cruzar, com certeza; mas não nesta noite”.

Dirigindo seu olhar para o então calado Tetsuo, finalmente suspirou:

“Além do mais, você já tem um desafio para enfrentar agora…”

Malk Kakita se virava para trás, deparou-se com a perversa expressão de seu acompanhante, que se lançou em sua direção. O duelista ficou prostrado, graças à discrepante força daquele homem.

“Finalmente, irei me divertir um pouco”.

Monster Tetsuo

つづく (“Continua”…)

P.S: Você pode acessar a Cena seguinte pelo seguinte link.

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3 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    29/05/2016 22:34

    Glossário:

    Wakizashi: Espada de lâmina curta que, junto com a Katana, compõe o conjunto (daisho) de um Samurai.

    Yorei-ke: Em uma tradução livre, “Cabelos fantasmas”.

    -sama: Forma honorífica de tratamento, dirigida a pessoas mais velhas e/ou de posição superior na hierarquia.

    Seppuku: O ritual de purificação da honra, realizado a partir do suicídio vagaroso e silencioso do desonrado.

    Daimyo: Posição política, como o governador de uma província ou de uma Família.

    Kyuden: Em uma tradução livre, “palácio”.

    Katana: Espada de Lâmina longa, que compõe o Daisho junto com a Wakizashi (lâmina curta).

    Karasu-Tengu: Demônio lendário da mitologia rokugani – misto de homem e corvo, de nariz alongado e formidáveis poderes mágicos.

    -san: Forma honorífica de tratamento, atribuída a pessoas de igual papel hierárquico e/ou posição social.

    Samurai-ko: Termo atribuído a mulheres que seguem o caminho dos Samurais.

    Bushi: Em uma tradução livre, “guerreiro”.

    Takoyaki: Bolinhos de polvo fritos – uma iguaria bem estimada entre os Rokugani.

    Kimono: Indumentária comum da cultura Rokugani.

    Daisho: Conjunto de espadas que caracteriza o Samurai, composta pela Wakizashi e Katana.

    Budoka: Homens de infantaria – aldeões treinados no manejo de armas, sem o refinamento dos Samurais.

    Kotoko: Em uma tradução livre, “Inútil”.

    Ganryu: Em uma tradução livre, “dragão da praga”.

    Gaki: Espírito rancoroso e corrompido pela Mácula, que espreita a humanidade em busca do seu sangue.

  2. Monseha permalink
    01/06/2016 01:15

    Sério… Sinto falta de Rokugan… E ficou melhor do que eu lembrava. Isso ainda vai virar um livro, ou fará parte de algum livro de contos de Rokugan. :)

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