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A Cobra vai fumar! – Narrando um RPG Histórico

30/04/2016

Semana passada eu e meus amigos adentramos caminhos nunca antes explorados por nós, se aventurando numa temática diferente, histórica. Faziam meses (anos?) que eu não tinha tempo para preparar nada, narrando sempre no improviso, mas esta ocasião fugiu a regra, e fiz uma pesquisa extensa. O projeto consistiu na narração de uma sessão na 2a Guerra Mundial, com os jogadores interpretando um grupo frequentemente esquecido: os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira.

FEB no inverno italiano

F.E.B. no inverno italiano.  Fonte: História Ilustrada

Sim senhores, pra quem não sabe, o Brasil foi o único país sulamericano a lutar na Grande Guerra, e por mais que numericamente pouco expressivo (comparando com os principais atores), nossos 25.000 combatentes lutaram contra os nazistas no norte da Itália, enfrentando a neve dos Apeninos e o fogo das metralhadoras alemãs.

O cenário era promissor, mas como efetivamente realizar a tarefa? Eu nunca havia narrado, nem ao menos jogado, qualquer RPG de Guerra, então não tinha referencia nenhuma para seguir, teria que começar do zero. Dessa forma, parti de uma pergunta: O que eu quero que os jogadores experienciem?

Pensei nos filmes de guerra que assisti, e nos relatos de combatentes que eu havia lido na minha pesquisa. Cheguei rapidamente a uma conclusão: eu queria que os jogadores sentissem o horror do confronto bélico, o desalento de estar sob a égide da guerra, que eles se deparassem com a penúria de tempos sombrios. E, claro, queria também que eles descobrissem a camaradagem, a bravura, e o papel que um soldado pode representar na lutra contra um exército opressor.

Pronto, eu havia construído meu ponto de partida!

Minha pesquisa foi crucial pra colorir o cenário proposto. Não só li sobre as batalhas que a FEB participou, mas também o contexto de guerra e de cada país destes conflitos  (Brasil, EUA, Itália e Alemanha, no caso em questão). Aprendi muito, e, mais importante, me senti a vontade pra trabalhar em cima dessas informações. Eu não almejava fazer algo estritamente preciso em termos históricos, mas queria ter uma base sólida que fosse representativa. Reuni jornais de época, fotos dos eventos e personagens, além de músicas contemporâneas ao período.

Antes mesmo de começarmos a participação dos jogadores fiz uma longa introdução sobre os navios mercantes brasileiros torpedeados por submarinos alemães, pela pressão da UNE e da sociedade civil para o Brasil declarar guerra ao Eixo, bem como o esforço norte-americano para colocar o gigante tupiniquim do seu lado. O vídeo “Brazil at War“, original de época, foi riquíssimo para nossa imersão no jogo.

As marchinhas de carnaval do Brasil, as músicas saudosas italianas e as marchinhas militares alemãs deram o toque musical perfeito, e cada vez que os personagens entravam na cidade ocupada pelos asseclas de Hitler, a Westerwald Lied tocava.

Além de toda a pesquisa, meus amigos e eu trabalhamos a construção os personagens de forma bem direcionada. Aproveitei a liberdade dum sistema próprio (fiz uma versão caseira do FUDGE), e pedi pros jogadores usarem sua imaginação na hora de construir seus personagens. O resultado foi um gaúcho descendente de alemães, criador de porcos e um paulista filho de italianos, morador da Moóca e jogador do Juventus, meu! Afinal, porque não abusar dos estereótipos pra termos um jogo com toque de humor? haha.

Guilherme “Wilhelm” Orestein e Domingos “Domenico” Decocco eram novatos do exército, e após um treinamento básico, foram selecionados para a Divisão de Infantaria Expedicionária, por suas habilidades linguísticas. Pode até parecer simplista, mas me baseei num fato real, que li na entrevista do Major John Buyers, mineiro e filho de norte-americanos, que serviu como “oficial de ligação” entre os exércitos norte-americano e brasileiro.

montecastelo

FEB no Monte Castello. Fonte: História Ilustrada

Para otimizar nosso tempo de jogo, mesclei a batalha do Monte Castello e de Montese, unificando dois locais importantes, concentrando tudo num cenário que possuía uma cidade e um monte de importância estratégica na geografia da região. Os personagens agiram como “espiões”, adentrando território inimigo e coletando informações que pudessem ajudar os generais Zenóbio e Mascarenhas de Moraes a construírem suas táticas de guerra.

Foi muito legal ver os personagens interagindo com os italianos e com os germânicos, e ouvir as exclamações e surpresas deles com o que eles se deparavam, só me empolgavam a continuar enriquecendo o cenário. Enquanto Domingos conseguiu um contato com os partigiani (resistencia italiana), e arriscou seu pescoço para proteger o padre de Montese, Guilherme teve menos sorte e acabou preso pelos nazistas.

Tive a oportunidade de interpretar um general da S.S. a la Hans Landa, de Bastardos Inglórios, que fez o inferno na terra com o jovem Wilhelm, de sangue impuro. Este tentou enganar o nazista dizendo que era “gaúcho, e não brasileiro”, mas foi na hora do vamos ver que as coisas ficaram claras. O general nazista Franz trouxe quatro crianças italianas na frente do gaúcho preso, e disse que só confiaria nele se elas fossem degoladas na sua frente, saudando o führer. Sem exagero, posso dizer que me deparei com uma das cenas mais legais da minha trajetória RPGística:

O Flávio, meu amigo que interpretava Guilherme, ficou visivelmente incomodado. Pensou por alguns minutos e então, de súbito, levantou da mesa e segurou uma faca imaginária. Olhou nos meus olhos e gritou “Senta a pua!” e passou-a no seu pescoço, emulando um suicídio.

O soldado da FEB preferiu se matar do que privar a vida dos infantes, mostrando a pressão e dificuldade de se tornar decisões em situação de guerra. Animal!!

Nisso Domingos voltou pro acampamento da FEB com as informações e contatos que conseguiu, e fizemos um “fast-forward”, onde narrei a dificuldade de invasões a cidade e ao Monte Castello. Fiz isso emolundo a história (só na 4a tentativa que o Monte Castello foi tomado, depois do inverno), e também mostrando que mesmo que Domingos tenha tido sucesso na sua missão, a guerra fazia parte dum contexto muito maior, que fugia do controle dos personagens.

Após o inverno Domingos e Asdrúbal (novo personagem do Flávio) voltaram a cidade. Os próprios jogadores estavam sem ideias de como fazer o ataque ter sucesso, e foi legal (para mim, como Narrador) imaginar um desalento semelhante dos próprios combatentes, vivendo uma guerra que não acabava, vendo seus companheiros perderem suas vidas. Enquanto eles estavam lá, vendo alguns italianos sendo enforcados por terem ajudado os brasileiros e se escondendo dos nazistas, tomei certa liberdade poética e narrei a chegada da Força Aérea Brasileira, bombardeando o Monte Castello e abrindo caminho pra FEB e pro grupo montanhista norte-americano, que após meses de atraso, finalmente chegara para ajudar os brasucas.

Foi realmente emocionante narrar aquela situação, e os jogadores responderam com baita empolgação – “Agora a cobra vai fumar!!!”.

Terminamos o jogo depois da meia-noite, batendo um papo sobre a experiência que tivemos e sobre a história real. As fotos que chegaram até os dias de hoje são super interessantes, e compartilhei com eles vários depoimentos que li e até a realidade que meu avô viveu, quando veio para o Brasil depois de participar da Resistência Italiana. Foi massa demais. Terminei a noite ouvindo um “Me senti numa aula de história”.

Missão cumprida.

Grande abraço,

Chico Lobo Leal

A título de esclarecimento, conto aqui um causo bem interessante da atuação da FAB na 2a GM. Dizia-se aqui no Brasil que era mais fácil “uma cobra fumar do que o Brasil entrar em guerra”, devido ao perfil do nosso presidente, Getulio Vargas (que, ideologicamente, tinha muito mais em comum com os fascistas do que com os Aliados).

Pois bem, o Brasil saiu de cima do muro uma hora, e, num toque bem brasileiro, nosso exército ganhou um lema: “A Cobra vai fumar!”.

A cobra vai fumar

Não, a assinatura não está errada! Foi realmente o Walt Disney que fez essa caricatura, como homenagem aos pracinhas.

Outro lema bem brasileiro, diz respeito à FAB, quando treinava nos Estados Unidos. Os pilotos diziam que precisavam ter “estômagos de avestruz” pra dar conta de comer a comida gringa. Ninguém merecia feijão com açúcar no almoço… Foi nesse contexto que os pilotos desenharam seu símbolo e adotaram uma frase recorrente de um dos comandantes nordestinos: “Senta a pua!”

senta a pua

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6 Comentários leave one →
  1. Vitor permalink
    01/05/2016 12:42

    Essa sessão foi muito legal, senti frio, fome e desespero junto com meu personagem… A imersão foi incrível! Achei também que o sistema (FUDGE?) funciona perfeitamente com cenários extremos, como o de guerra… O jogador não tem tempo nem possibilidade de tentar fazer “combos” com suas habilidades, então suas vantagens e desvantagens são circunstanciais… como tudo num tiroteio num morro coberto de neve!

    • 03/05/2016 21:48

      Grande Vazor, foi um prazer jogar esse RPG com vocês!
      Sem você e o Flavião, seria uma sessão chata e sem-graça. Curti pra cacete você, católico, ter se colocado contra o nazi pra proteger o padre. Massa d+!

      Vocês foram muito pé-no-chão, deixando o jogo bem mais realista do que fantasioso. Realmente se colocaram no lugar dos pracinhas, sem pretensões de criarem heróis de guerra e tudo o mais.

      Mandaram muito bem!!

  2. m4lk1e permalink
    02/05/2016 21:21

    Rapaz, que experiência foda!

    Só a título de informação, mas foram três pracinhas brasileiros que realizaram um dos maiores feitos da Segunda Guerra Mundial. Confira qual foi esse feito na história dos “Cobras Fumantes”: http://www.descolados.com/assuntos/historia/item/225-tr%C3%AAs-cobras-fumantes.html

    A propósito… você já ouviu falar num RPG da Segunda Guerra chamado “Night Witches”? Aconselho muito a procurá-lo! :)

    • 03/05/2016 21:54

      Lembro de ouvir a música do Sabaton a respeito desses caras.
      Simplesmente fenomenal, verdadeiros mártires! Não sabia que a identidade deles era conhecida.

      Cara, o Night Witches parece incrível!
      Nunca vi esse tipo de perspectiva sendo tratada no RPG.
      Jairo e seu repertório…

      Valeu pela dica, com certeza vou conferir!

  3. gerbur12 permalink
    20/05/2016 20:40

    Cara, que sensacional!

    Você transmitiu bem o que foi a experiência dos pracinhas com esse relato.

    O Coronel Hans Landa, personagem incrível, continua sendo O algoz nazista!

    Muito bacana essas experiências aqui no Aventurando-se.

    Saudades de jogar RPG.

    Esse relato me lembrou o episódio de Massa Crítica que jogamos, lembra?

    Grande abraço!

    • 22/05/2016 21:43

      Grande Gonça,

      Agradeço o comentário.
      Tenho certeza que vc curtiria essa sessão também.
      Foi diabolicamente prazeroso interpretar um general da estirpe do Hans Landa. Sensação terrível, mas deixa o jogo super interessante.

      Claro que lembro!
      Também foi uma experiência super enriquecedora. Acho que acabei não escrevendo um relato sobre o MC, mas com certeza merece.

      Abração :D

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