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Campanha em Rokugan – Origens: O Escorpião (Parte Final)

22/03/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

No entanto, a história de hoje se passa algum tempo antes do contexto atual, já iniciada anteriormente. E assim lhe daremos prosseguimento…

Kyuden_Bayushi_3

汚すこと (Mácula)

Kaori nunca acreditou muito quando contavam sobre os danos de enfrentar Oni. Na verdade, era até um pouco cética quanto à existência desses últimos. Ouvia histórias dos Caranguejos, guerreiros brutos que protegiam Rokugan de demônios malignos.

Ou, como Kaori gostava de pensar, invasores de outras terras, ávidos por guerrear e tomar o poder do Império Esmeralda.

Numa manhã cinzenta, no entanto, um acontecimento fez com que suas convicções fossem abaladas. Terada duelava com um homem de aparência estranha, numa ruela próxima dos muros negros dos Escorpiões. Seu rosto parecia deformado, e os olhos davam a impressão de estarem tingidos com a tinta das lulas e polvos que usava para pintar.

Após uma luta de forças e técnicas, o Bayushi finalmente machucou o oponente, o deixando desacordado. Encarou Kaori com os olhos vermelhos, inflamados de ira, e com uma velocidade impressionante, a segurou pela cintura, tentando tomar-lhe a boca numa luxúria cega. Kaori empurrava o rapaz, mas com a surpresa, foi pega de forma a não conseguir se mexer com facilidade.

Ele mordia seu queixo e pescoço, lambendo a pele alva como um animal.

“Kaori, seja minha… olhe para mim! Diga meu nome! Diga que também me quer… Não aguento mais me segurar quando te vejo…”

Sua mão serpenteou até seus seios, e nesse momento os braços de Kaori saíram do aperto, empurrando Terada com força e o jogando no chão. Por um instante, ela pôde contemplar um olhar demoníaco em seu primo, que com vergonha, cobriu o rosto com as mãos.

Mesmo em agonia, sibilou pelas frestas dos dedos com a voz embargada.

“Você pode fugir agora, Kaori, mas ainda será minha… Basta esperar!”

Kaori seguiu seu rumo, lembrando das palavras do monge Fubuki: “A Mácula intensifica os sentimentos dos homens. Traz o mal à superfície, priorizando os instintos e só parando quando saciado. É a mais sincera das maldades…”

Os Oni podem ser reais, afinal.

ねこ (Neko)

“Vamos logo, Kaori!”

Um Kamui irritado gritava, de cima do telhado, para sua pequena irmã de 11 anos. Kaori tentava escalar a construção colocando seus pés e mãos nos sulcos das pedras, e sempre caindo na neve. Olhava seu irmão impaciente, se movendo para lá e para cá com a agilidade de um felino.

“Coloque mais força nesse braço… Quando estiver com as mãos firmes, prenda seus pés, e depois as mãos de novo. Não é difícil.” Kamui explicava, com rara paciência.

“Eu vou conseguir! Eu posso ser melhor que um gato!”

Uma grande força de vontade invadiu a menina, que com toda a força que conseguia reunir em seus braços finos, subiu pedra por pedra até chegar ao topo do telhado, onde o rapaz a esperava. Kamui se agachou e afagou o cabelo da irmã, no momento que começava a nevar suavemente.

“Estou orgulhoso de você, neko-chan. Sempre tente, nunca desista. Sempre termine o que começar, entendeu?”

Kaori sorriu para seu irmão, levantando os braços para cima, brincando com os flocos gelados que caíam do céu, tirando gargalhadas de Kamui.

オラクル (Oráculo)

Fubuki sentou-se à mesa de seus aposentos, com a xícara de chá em suas mãos, enquanto se lembrava de quando Kaori apareceu. Naquele mesmo dia, a jovem tinha vindo à sua presença, questionando a origem de seu nome.

Não podia deixar de ficar nostálgico depois disso. O dia do aparecimento da menina foi uma data memorável para a liderança da família – daimyo Nitoshi e sua esposa, Bayushi Kanihime. A Lua cheia brilhava forte no céu, clareando o cômodo onde uma bela mulher ferida trazia nos braços uma jovem vida.

Quando a peregrina, que se apresentou como Nadeshiko, finalmente deu seu último suspiro, a criança chorou com vigor. Alguns dizem que puderam ver a alma da dama abandonar seu corpo, sorrindo. Outros dizem que puderam ver o corpinho do bebê brilhar com a intensidade de uma joia sob a luz do luar. Mas quando a criança abriu seus olhos, a reação de todos foi unânime.

Olharam para Fubuki, esperando que ele pudesse dar respostas, como o oráculo que era. A menina tinha os olhos lilases, com pequenos pontos esmeraldas. Tal característica era semelhante à lenda de Taketori Monogatari, a Princesa da Lua que viria à Rokugan para realizar um grande feito, para mudar o destino de todos.

Ainda podia lembrar de Kanihime-sama pegando o bebê nos braços e, com Nitoshi ao seu lado, sussurrando para a pequena…

“A partir de agora, serás uma Bayushi! Contemple teu pai e tua mãe! Obedecerás e usará seu dom para a glória de sua nova família!”

Uma chegada, vinda de uma partida. Uma noite com um novo bebê, sem festa, uma morte de uma dama, sem choro. Foi assim naquela noite e, a partir dos outros dias, a história de Kaori passou a ser escrita com a pena de ouro dos Bayushi, sob seu nome e proteção.

Fubuki-sensei

関係 (Parentesco)

Havia momentos em que Kaori se sentia uma estranha em sua própria casa. Seu pai, o “máscara venenosa”, Bayushi Nitoshi, quase não lhe dirigia a palavra. Kanihime, sua mãe, por outro lado, dava mais atenção à Kaiko, sua filha mais velha do que à ela.

Claro que a menina era chamada em suas presenças, mas suas relações eram de dever e obrigação com a família. Apesar de ser tratada como uma princesa dentro do clã, Kaori nunca teve a ternura de seus pais, nem de Kaiko.

Apenas de Kamui, que, por muito tempo, ficava ausente. Ela brincava e corria por todo o Kyuden quando criança, sempre solitária ou com alguns servos. Aprendeu a se divertir naquele ambiente, construindo bonecos de neve, se escondendo dos serviçais ou desenhando terras distantes que imaginava com seus sonhos infantis.

Certa vez, a jovem acelerava pelos corredores, com suas vestes leves de verão quando, ao se virar despreocupadamente, tropeçou e bateu num paredão maciço, que logo reconheceu como seu pai. Nitoshi a olhou com olhos frios e Kaori sentiu sua espinha gelar. Abaixou a cabeça pedindo desculpas àquele que a encarava, saindo dali com mais pressa do que chegou.

A verdade era única: Kaori tinha medo de escorpiões. Mas será que era somente do animal?

  (Quadro)

Ao saber dos talentos de Kaori com os pincéis, Bayushi Nitoshi ordenou que pintasse um quadro – para presentear a Imperatriz Iweko no dia de sua coroação. Não foi imposto um motivo, dificultando o trabalho da jovem. O que ela poderia pintar que agradasse a soberana e não envergonhasse seu pai?

Adentrou seu jardim secreto e, com seu cavalete suportando a grande tela, sentou-se fechando os olhos, deixando a mente vagar sem rumo. A respiração era leve e compassada,  como se estivesse em outro mundo, e assim começou a misturar tintas e riscar sobre o tecido.

Depois de muitas horas presa àquele desenho, deu um passo pra trás, contemplando sua criação. Estava pronto! Assinou e levou para o salão Bayushi, com cuidado para não manchar a tinta fresca. Fez uma mesura à seu pai, que dava ordens aos seus comandados. O monge Fubuki também estava presente no salão, e quando viu a obra de Kaori, deixou escapar um pergaminho de suas mãos, ficando chocado com a gravura.

Em um fundo estrelado, sobre uma enorme obsidiana, o Ki-rin se apoiava nas patas traseiras, sacudindo as patas dianteiras no ar. Ao seu redor, várias crianças representadas por cores vibrantes, que mais pareciam os respeitáveis Kami.

Nitoshi levantou-se de sua cadeira, batendo as mãos.

“Está digno de um presente Bayushi! Assim que estiver seco, levem imediatamente à presença da Imperatriz, com os cumprimentos de nosso clã. Kaori, está dispensada.”

Dois dias depois, a pequena comitiva que levava o presente foi abordada por um grupo mascarado, e o quadro desapareceu desde então. Nunca se soube do paradeiro, mas muito foi dito em toda Rokugan sobre a obra-prima roubada destinada à Imperatriz.

Crianças de Ki-Rin

聖遺物箱 (Relicário)

Kaori sentou-se ao pé de uma árvore, para descansar da longa caminhada. Abriu sua mochila e retirou um estojo de couro com entalhos de flores.

Seu interior, revestido de seda amarela, guardava suas pequenas relíquias: alguns pincéis, tintas, broches delicados, pequenos enfeites de cabelo, alguns pergaminhos e demais regalos singelos.

Desde que fugiu do território de seu clã, Kaori adquiriu o hábito de coletar algumas lembranças por onde passava. Flores secas, pequenos artesanatos, presentes… tudo era precioso para a jovem exploradora. Pequenas vilas e construções se transformavam em riscos que permaneceriam vivos por muitos anos.

Kaori conheceu pessoas simples, comuns, que abriam sua casa para abrigar um estranho. Também conheceu pessoas cheias de si que, sem reconhecer o alto nascimento por baixo do disfarce heimin, a enxotaram como a um cão.

Como não conhecia seu futuro, cuidou de levar consigo alguns pertences sentimentais. Presentes que ganhou nos dias de seu nome, poesias e memórias de criança. Todas essas experiências e objetos foram gravados e guardados em seu relicário.

Kaori fechou o estojo, enfiando o material no fundo da mochila, recorrendo ao mapa novamente. Em algumas horas, a oeste, chegaria ao vilarejo Ravina Serena. Levantou e se espreguiçou como um felino, pondo-se a caminhar mais uma vez…

感覚 (Sentidos)

Kaori costumava se sentar no deck de madeira polida que contornava seus aposentos. A brisa noturna e o som das cigarras era muito agradável no verão. Em uma dessas ocasiões, uma forte chuva sacudia as cerejeiras e clareava o céu com seus relâmpagos.

Lembrou-se imediatamente de outra noite semelhante, em que Kaname, sua antiga preceptora, lhe ensinara a tradicional cerimônia do chá. A senhora explicou, paciente, que era necessária concentração plena e movimentos suaves.

“Nunca sozinha!”, ela dizia. A cerimônia foi criada para ser compartilhada entre pessoas queridas, a fim de estreitar as relações, resgatar elos, dividir a paz interior e momentos importantes.

Kaname serviu a xícara com o desenho voltado para si, instruindo Kaori que virasse o vasilhame ao beber.

“Cuidado com os movimentos… deve ser graciosa, encantadora. Sinta o aroma, abra sua mente. Deixe o resto do mundo lá fora e se concentre no agora.”

Todos os sentidos de Kaori ficaram alertas. O paladar estava sensível aos sabores. A doçura da erva brincava em sua boca, deixando um leve picor ao fundo. Conseguia distinguir cada mudança no líquido, relaxando suas papilas. O olfato estava em festa. Os aromas distintos que sentia do chá, contrastando com o cheiro da terra molhada dava a Kaori a sensação de correr na chuva, livre em um campo esverdeado.

O contato dos lábios rosados com o líquido morno deixava o tato de Kaori dormente. Sua pele oscilava entre o quente da xícara e o frio do vento que vinha com a chuva. Os fios soltos de seu cabelo dançavam em sua nuca alva, como se fossem um beijo suave de um amante.

Ternura encheu o peito da jovem naquele momento. A audição estava muito sensível. Conseguia ouvir o farfalhar da seda de seu pien-fu contra a madeira, ao mesmo tempo que decifrava as plantas que sacudiam e caíam com as grossas gotas de chuva. Pequenos insetos noturnos eram distinguíveis por seu canto feliz em meio ao tempo úmido.

Quando Kaori finalmente abriu seus olhos, notou que sua visão também tinha modificado. Era capaz de enxergar além de sua própria alma, e viu um mundo diferente daquele que achava conhecer. As cores eram mais nítidas, mais brilhantes. A vida em meio àquela chuva saltava aos olhos, demonstrando como força e fragilidade caminhavam juntas na natureza, tal como a essência humana. A cerimônia do chá, para Kaori, passou a ser mais que compartilhar uma bebida.

Era compartilhada a alma.

テツオ (Tetsuo)

Kaori não se lembrava quando foi a primeira vez que viu Tetsuo, mas com certeza se lembrava de quando o coração bateu mais forte.

Sempre frequentava os domínios da família imperial quando a comitiva Bayushi se dirigia à Toshi Ranbo e, inevitavelmente, mantinha relações com os membros da realeza. Tetsuo era um rapaz franzino, de beleza ímpar, com olhos negros e apáticos. Sua expressão de indiferença lhe dava um ar de superioridade, que era contestado apenas quando atuava (ou quando seus irmãos e primos o chamavam de chikinreggu, ou seja, “coxa de frango”).

Era brilhante. Seus poemas e interpretações kabuki eram extremamente respeitados e ovacionados. Miya Tetsuo era, sem dúvida, um astro em Rokugan. Não é para menos que Kaori sentiu suas pernas bambas e o coração a mil naquele festival da Família Miya.

As palavras recitadas pelo jovem tocaram fundo na menina de 16 anos, ruborizando tanto seu rosto que, se Kamui não tivesse lhe avisado para usar o leque, outras pessoas teriam percebido. Desde então, Tetsuo e Kaori mantiveram contato. Seja uma breve troca de olhares ou encontros na biblioteca da capital.

Tetsuo lhe disse que daria o mundo. Disse que lutaria por eles, mesmo não sabendo lidar com armas. Fez promessas de amor eterno e divino, sempre procurando os olhos lilases de Kaori, como se eles lhe dessem força e coragem.

Quando sumiu, Kaori prometeu a si mesma que moveria céus e terras para encontrá-lo, fugindo do Kyuden Bayushi naquela noite sem lua. Seria livre pela primeira vez.

Miya Tetsuo

ユニコーン (Unicórnio)

Em uma de suas passagens por Toshi Ranbo, Kaori parecia extremamente desanimada. Tinha catorze anos, e muita vontade de sair pela cidade para usufruir o que ela podia lhe oferecer.

No entanto, foi obrigada a permanecer no salão imperial, servindo como bibelô enquanto seu pai se reunia com vários daimyo de outros Clãs. Vez ou outra, um daqueles homens lhe dirigia um olhar rápido, deixando-a extremamente desconfortável.

Sua atenção mudou de foco, no momento em que uma jovem um pouco mais velha veio em sua direção. A cor roxa de suas veztes denunciavam sua linhagem, antes mesmo de seu mon entrar no campo de visão de Kaori.

“Olá”, disse a moça, educadamente.

“Olá!” Kaori respondera com satisfação, por ter alguém com quem conversar em um ambiente hostil como aquele.

“Você não me parece muito à vontade. Aliás, me chamo Shizuka. Shinjo Shizuka.”

“Ba-Bayushi Kaori. O que um Unicórnio faz por aqui? Er… me desculpe… se me permite perguntar, é claro”.

“Ah, não se preocupe. Venho com minha família.” Shizuka tinha uma forma de falar totalmente despreendida, e diferente de tudo que Kaori tinha visto. “Apesar de detestar essas convenções, ainda fazemos parte do Império, não é mesmo?”

A empatia foi automática. Depois desse primeiro contato, as duas meninas se tornaram amigas naquele mês que passaram em Toshi Ranbo.

De imediato, ela ficou encantada com as histórias que Shizuka lhe contara: as terras Gaijin que visitou, as pessoas de tez escura que conheceu e os animais mais intrigantes que já tocou. Se pegou vivenciando as palavras que sua amiga pronunciava, apertando o peito quando se lembrou da gaiola de ouro na qual vivia.

Quando o tempo de voltar para casa chegou, as duas se despediram com muito pesar.

Kaori-san, se precisar de alguma coisa, podes contar comigo. Sei como a vida pode ser cruel, e tenho certeza de que podemos sempre dar um jeito em tudo”.

Domo arigatouShizuka-san… Esteja certa de que farei o mesmo para você”.

Até hoje, Kaori se perguntava como estaria Shizuka. Bem… algum dia, elas se encontrariam novamente, e teriam muitas coisas para contar…

毒 (Veneno)

Depois de um dia intenso no dojo, Kaori passou pela estufa que ficava no meio do caminho de seus aposentos. Imediatamente se lembrou das aulas que sua preceptora lhe dera sobre venenos.

“E, com umas gotas de Oleandro no chá, o coração bate mais rápido… a qualquer momento, ele pode parar. Claro, se colocar bem pouquinho, também pode elevar o paciente quando o mesmo estiver apático”.

Kaori pensava que era muito mais fácil envenenar que curar. Quase todas as plantas e ervas tinham alguma função, mas as doses excessivas normalmente tornam-se fatais, ou causam algum tipo de reação colateral.

Obviamente, é muito mais fácil jogar um punhado na água, que dosá-lo com perfeição.

A estufa era bem generosa: vegetais de toda espécie eram cultivados, para estudo e uso farmacêutico. Os aromas se misturavam, causando leve enjôo a seus visitantes.

“Essa é a noz-vômica. Com trinta miligramas dessa semente, um adulto pode ter dores insuportáveis e convulsões, até a sua morte. Ah, é claro: ela pode combater a paralisia.”

Kaori fazia questão de guardar anotadas todas essas informações.

“E aqui, temos o teixo. Apesar de sua fruta ser saborosa, a planta em si é o que nos interessa – a não ser que sirva essa fruta com… algo mais. O teixo causa dificuldades na respiração, tremores musculares, convulsões, desmaios e paradas cardíacas. Se a dose for severa, a pessoa morrerá tão rápido que nem haverá tempo de ver as coisas acontecendo…”

O sorriso de Kaname-sama tornava tudo tão natural, como se estivesse ensinando a preparar lamen.

As mamórias dissiparam em sua mente quando um abusado Terada passou, aproximando-se de seu ouvido sem qualquer decoro.

Kon-ban-wa, bela Kaori-chan…”

Ela se esquivou, e continuou o seu caminho. Pensava que, no fundo, Kaname não lhe ensinara tudo. Afinal, tinha se esquecido do pior dos venenos… uma língua peçonhenta.

脇差 (Wakizashi)

A lâmina retinia à fraca luz de vela no quarto, sua frieza constrastando com a calorosa pele de Kaori. Há algum tempo, recebera sua wakizashi, por reconhecimento ao seu esforço. Treinou duro todos os dias no dojo, até que bolhas e calos surgissem em suas mãos (desenhadas por sua bokken), e sentiu-se incrível quando a desembainhou pela primeira vez.

Com nostalgia, a jovem olhou o aço cuidadosamente, prestando atenção em cada detalhe gravado às margens de seu fio. As linhas tinham perfeita sintonia, criando ondas prateadas, e combinando com sua empunhadura verde-musgo, adornada por arabescos. Na mesma cor, a bainha sustentava tão agradável combinação, a denunciando como uma arma fina, que cabia somente em suas mãos. A tomou como a extensão de seus braços finos.

Na silenciosa solidão do ambiente, se permitiu abdicar de suas vestes, rasgando o ar em alguns golpes. Ao duelar com sua própria sombra, os olhos lilases da Kaori permaneciam atentos a cada movimento.

A pele, nua e úmida, brilhava em toda a sua glória. Gotículas de suor transitavam de sua nuca, até a curva de suas nádegas. Algumas madeixas molhadas colavam em seu rosto e, ao longo de seu comprimento, cobriam seus seios – com pequenos montes saltando entre os fios. A respiração mantinha-se compassada, entrando e saindo de seus lábios avermelhados.

Cada novo movimento a tornava mais etérea, como uma das heroínas das lendas que tanto ouvira, empunhando sua arma contra seres místicos e nefastos. Era uma guerreira nua, e entregue ao mais puro êxtase.

Um ruído a tirou do transe. Rapidamente, se virou para a fonte do som – vendo nada mais que um vulto sorrateiro, fugindo noite adentro. No impulso, Kaori seguiria o intruso, se não percebesse o quão inadequada estava para sair…

Nunca teve pista sequer do invasor, que habilmente entrou no seu quarto, em um momento de intimidade. Por isso, aquela foi a única vez que dançou de corpo e alma com sua wakizashi.

No entanto, ela não desejava que fosse a última…

Bayushi Kaori 4

カップ (Xícara)

Kaori não conseguia engolir.

Sua garganta estava apertada, e o líquido esverdeado naquela requintada xícara de cerâmica já havia esfriado há tempos. Apesar de ser uma Samurai-ko e ter orgulho de suas funções, ela sabia da injustiça do mundo.

As pessoas comuns não carregavam as difíceis decisões das grandes famílias, e eram livres para escolher os seus. Suas preocupações eram os preços das mercadorias e as colheitas das estações. Mas, uma vez que não tinham um sobrenome, também não tinham opinião. Nem opinião, nem direito à resposta.

Enquanto caminhava de sua residência na cidade de Toshi Ranbo até a casa de chá, acompanhada de Hiroshi (seu “capataz”, quando Kamui estava em alguma missão), foi testemunha da barbárie do ser humano dito civilizado. Uma criança corria apressada com um peixe nas mãos, no meio do tráfego. Algo a fez desviar do caminho e perdendo o equilíbrio, esbarrou em um pomposo Cortesão Dragão, que foi ao chão com o impulso.

Uma pequena parte do tecido verde brilhoso se misturou ao peixe e à terra, fazendo o sangue dos nobres esquentar. Claro que a situação era por si desagradável, mas as atitudes tomadas eram, para Kaori, radicais em demasia. O Yojimbo do Dragão agarrou a criança pelos cabelos e a fez se ajoelhar diante seu amo, arruinando o rosto no chão batido.

O povo parou com medo, ouvindo o sermão que aquele samurai proferia ao réu. Por estar “benevolente” naquele dia, não o mataria, e sim o ajudaria a nunca mais perder o equilíbrio. Cortou-lhe as duas pernas. As pessoas ao redor nada podiam fazer, a não ser recolher a criança, que agonizava em dor até desmaiar.

Kaori assistiu com dor no coração, mas seus olhos de escorpião permaneceram sem emoção alguma. Continuou seu caminho, como se aquilo não lhe tivesse afetado, e até mesmo trocou um olhar educado com o nobre, como a etiqueta mandava. Assim que entrou em seu destino, pediu para Hiroshi ficar um pouco distante, para sorver o chá em harmonia consigo mesma, mas infelizmente, era a última coisa que sentia.

Aquilo tinha mexido com ela. Se eles treinavam para proteger o Império, porque machucar àqueles que faziam parte do mesmo? Uma lágrima discreta caiu naquele líquido esverdeado, frio e intocado, dentro daquela xícara refinada, feita de porcelana mais branca que o leite, criando círculos perfeitos em um mundo imperfeito.

陰陽 (Yin Yang)

É o princípio de tudo: macho e fêmea, luz e escuridão, alegria e tristeza, ódio e amor.

O yin yang é a base da criação, presente em tudo que é vivo. Duas metades perfeitas formando um único ser. Para alguém passional e emotiva, foi difícil permanecer indiferente ao acontecido em Toshi Ranbo, quando por dentro chorava sangue pela crueldade com aquela criança.

Um dos maiores obstáculos para Kaori era esconder um sentimento, enaltecendo outro. Como uma Bayushi, ela tinha consciência que deveria mascarar suas emoções, permanecendo impassível aos acontecimentos, agindo de acordo com seus interesses.

Era imperativo que aprendesse a controlar o próprio corpo, para que não traísse a si mesma diante dos outros. Rokugan era, sem dúvidas, um mundo de aparências, cuja maldade vivia de mãos dadas com a “bondade”, que sorria sem dentes para os transeuntes.

吹管 (Zarabatana)

O gasto boneco de palha parecia olhar com ironia para Kaori.
A jovem de 15 anos resolvera fazer uma visita ao irmão e ao primo, enquanto eles treinavam com a arma de sopro. Naquela tarde ela descobriu o quão inapta era com a zarabatana.
Terada a puxou pela mão, e com dois passos, se moveu atrás de Kaori, a ajudando a se posicionar.
“Seu cabelo é cheiroso, Kaori-chan…”
Terada dizia sussurrando em seu ouvido. Kaori se sentiu intimidada, e antes que pudesse fazer algo, Kamui o pegou pelo braço e parou ao lado da jovem, claramente irritado com a proximidade do primo. Os dois trocaram olhares ameaçadores, e Kaori teve que intervir para que não acabasse em uma luta séria.
Não era segredo que os dois não interagiam muito bem, e ela não queria ser o motivo de mais uma briga. O clima entre eles era estranho, e parecia que cada um tentava obter mais da atenção dela. Kaori decidiu encerrar essa situação, se despedindo dos dois se virando para ir embora.
Porém, antes que saísse do local, conseguiu ouvir Kamui dizendo à Terada:
“Não encoste em Kaori, ela nunca será sua. Nem que eu precise te matar”.
A jovem olhou para trás com olhos arregalados, a tempo de ver, pela primeira vez, um sorriso sádico no rosto de seu primo. Apressou seu passo, a impedindo de ouvir a enigmática resposta:
“Nem sua…”
Bayushi Kaori 3
末尾 (Fim).
 P.S: Segue um agradecimento especial à jogadora Ludmila Selvatici Faiolli Borges, que deu a luz à dama Bayushi Kaori – e a tudo que a envolve – bem como as ilustrações aqui utilizadas.
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2 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    22/03/2016 23:40

    Glossário:

    Neko: Gato, felino doméstico.

    Neko-chan: Literalmente, “gatinho(a)”.

    Kyuden: Palácio pertencente a uma das Famílias de Rokugan.

    Taketori Monogatari: Fábula muito popular no Japão, sobre a “Princesa da Lua” – uma jovem caída dos céus, que fora criada por um casal de idosos.

    Ki-rin: Espírito mítico e venerável de Rokugan, que traz boa fortuna a quem recebe sua visita.

    Bokken: Espada esculpida em madeira sólida (carvalho, por exemplo), bastante usada em treinamentos de esgrima.

    Kami: Espírito elemental da natureza.

    Heimin: Classe de cidadão rokugani, equivalente à “classe média”.

    Kabuki: Estilo dramático de poesia e teatro orientais.

    Oni: Literalmente, “demônio”.

    Gaijin: Literalmente, “estrangeiro”.

    Dojo: Academia, escola de treinos.

    -sama: Forma honorífica de tratamento, atribuído a pessoas de status elevado e/ou em posições de respeito.

    -chan: Forma honorífica de tratamento, atribuído a pessoas intimamente, na forma de diminutivo.

    Konbanwa: Literalmente, “Boa noite”.

    Futon: Cobertor, também usado como colchonete para dormir.

    Wakizashi: Espada de lâmina curta, componente do Daisho juntamente com a Katana (espada de lâmina longa).

    Samurai-ko: Termo utilizado para designar Samurais mulheres.

    Yojimbo: Guarda-costas real.

    Yin Yang: A “Roda do Equilíbrio” do Taoísmo, comprosta por luz (Yin) e Escuridão (Yang).

    Pien Fu: Vestimenta originalmente chinesa, como uma túnica de mangas largas e finamente ornamentado.

    Daimyo: Líder de uma província ou, no caso de Rokugan, de uma Família.

  2. 23/03/2016 01:37

    Fantástico

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