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Campanha em Rokugan – Cena Sete

11/01/2016

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

Na escuridão noturna e plácida de Ravina Serena, alguém do passado retrona para assombrar Kaori. Nas palavras de Bayushi Kamui, vinha o dever para com sua família, revogado até agora por conta de um desejo pessoal. Nem mesmo os esforços de seus companheiros puderam impedi-la de, finalmente, assumir essa responsabilidade – ainda que à força…

 

Rokugan Mapa Campanha 4

Pontos Importantes na Trama: L8 – Cidade da Permissão (Ninkatoshi).

停止 (Paragens)

A caminhada foi longa para Takashi e Lishida, mas foi também compensadora: ao longo da estrada, testemunhavam a vida se desenrolando despreocupadamente no passeio de pais e filhos, Bushis e Samurai-ko, comerciantes e agricultores, cônjuges… todos envoltos na normalidade cotidiana da existência.

Até certo ponto do caminho, seu horizonte fora pontuado por diversas casas de chá e hospedarias, todas prontas para receber visitas. Entretanto, quanto mais se aproximavam de Toshi Ranbo, mais a vida civilizada se afastava das estradas.

Contradizendo esta perspectiva, um isolado casebre desponta no ambiente, com seu despreocupado dono sentado em sua soleira, distraindo-se com seu cachimbo. Seus cabelos longos, brancos como as primeiras neves do inverno, dançavam ao ritmo do vento – acompanhados somente da manga esquerda de seu Kimono verde-amarronzado.

“Com licença, senhor”, pigarreou o peregrino Kakita. “Por acaso, você viu dois servos do Escorpião passrem a todo galope por esta estrada?”

“Hum”, ponderou enquanto exalava um perfeito anel de fumaça no ar. “Não vi cavaleiro nenhum hoje, e também penso que não irei vê-los. Afinal, Escorpiões odeiam sair à luz do sol”.

Um olhar mais atento à cor pura nos cabelos daquele homem, Takashi não pôde evitar a seguinte pergunta:

“Por acaso, o senhor conhece um veterano espadahim chamado Munisai?”

Em sua nova tragada, o sujeito engasgou com a pergunta, engolindo totalmente a fumaça.

“E… por que dois jovens como vocês procurariam por Munisai?”

“Foi o bonzo Okina, de Ravina Serena, que me orientou a procurá-lo”, respondeu o visitante. “Quero entender mais sobre a maldição que carrego”.

Até agora, Lishida permaneceu calado, observando atentamente palavras e gestos daquele homem; percebeu, inclusive, a grande semelhança entre o mesmo e seu companheiro de viagens. Nem mesmo o calor que abraçava sua pesada armadura o incomodou tanto quanto vê-lo se levantando, e os acolhendo com rasa simpatia.

“Gostariam de tomar um pouco de chá?”

The Art of a Hut drawings 012

Para Kaori, o passar do tempo fora medido pelo bater incessante dos cascos do cavalo em que montava. Kamui permaneceu quieto por toda a viagem, concentrado apenas em mantê-los longe de qualquer testemunha em seu caminho.

“Você… sabe o que está fazendo comigo, não sabe, aniki?” A voz dela era firme e, ao mesmo tempo, desafiadora.

“Estou cumprindo meu dever”, respondeu secamente. “O mesmo dever que me foi entregue na noite do seu nascimento”.

“E mesmo assim, você pretende me levar à morte certa…”

ninja reduziu o ritmo da cavalgada, levando o cavalo à borda da trilha.

“Ninguém, eu disse NINGUÉM, será capaz de assassinar a nova Imperatriz de Rokugan, minha irmã! Pare de pensar dessa forma, e não se preocupe com isso”.

A dama Bayushi perdeu o ar com essas palavras.

“Espera um pouco… o que você disse?”

Os olhos de Kamui não expressavam o menor sinal de incredulidade, ou desapontamento.

“Então, nosso Pai não lhe disse nada sobre o seu destino, os bons augúrios que lhe foram destinados ou sobre o tratamento que que recebeste durante os seus dias?”

A resposta surgiu como um tímido meneio de cabeça.

“Neste caso, eu deveria levá-la até o nosso Kyuden para que o próprio Nitoshi-sama pudesse descrever o seu papel neste mundo”, suspirou o irmão mais velho. “Mas não temos tempo. Preciso levá-la para seu casamento, antes que seja tarde”.

O desconhecimento de Kaori sobre tudo aquilo fortaleceu sua relutância.

“Nesse caso… não seria mais prudente casar-me com Tetsuo-san? Afinal, ele pertence a uma das quatro linhagens Imperiais…

A melancolia assume, indisfarçadamente, o brilho nos olhos de Kamui.

“Ele… já tem o seu papel nesta história. Agora, espere aqui, para que eu encontre um lugar seguro para nós esta noite”.

Para ela, restou apenas o silêncio que sucede as grandes revelações do mundo, para que pudesse entender cada informação obtida neste instante…

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Nem memo o doce aroma de chá verde conseguiu apagar a decepção e angústia nas palavras daquele homem.

Yorei-ke… não pensei que estivesse acontecendo com tanta frequência”.

As palavras confundiam Takashi. Afinal, seria ele, realmente, um filho de mãe falecida – como disse o bonzo Okina em Ravina Serena?

“Mas minha mãe é viva, senhor”.

Aos poucos, a fumaça do cachimbo daquele homem consumia o ar puro da casa.

“Talvez, você não seja filho dela. Não de sangue, pelo menos”.

Uma pausa silenciosa emergiu no casebre, no momento em que o chá era sorvido por todos. O anfitrião retomou a palavra. “Isso acabou acontecendo com meu filho, graças aos impiedosos Kakita…”

Esta frase deu a Takashi a conclusão que esperava alcançar: aquele sujeito era Kakita Munisai. No entanto, ainda não reconhecia este nome na história de sua família. Retirou, então, a wakizashi que tomou de Lady Ganryu, no fatídico duelo às portas do templo de Ravina Serena.

“Eu… presumo que isto lhe pertença, Munisai-dono“.

O velho a pegou desajeitadamente, mal crendo no que via.

“Munisai… faz tanto tempo que não sou chamado assim. Seus parentes costumam se referir a mim como ‘Kotoko, o Inútil”.

Agora tudo fazia sentido, pois o andarilho conhecia bem a história de Kotoko, assim como todos os aprendizes de sua família, como exemplo da falta de disciplina e humildade.

Há cinquenta anos atrás, Kakita Munisai foi considerado um gênio da espada, o melhor duelista do clã Garça. Ninguém conseguia derrotá-lo no Iaijutsu, exceto uma jovem Mirumoto, cujo nome a história fez questão de apagar.

Mais que perder o duelo, ele também perdeu sua razão; tornou-se obcecado por ela e seu estilo Niten de esgrima, a ponto de abandonar sua família para casar com ela. Os parentes mais próximos não puderam tolerar isso, a perda de um talento raro para seus grandes rivais. Logo, para amenizar a desonra, uniram-se para capturar o casal, torturando a Mirumoto até a morte, e punindo Munisai com a perda de seu braço esquerdo (o “braço bom” dos duelos). Sem família, diz-se que não teve sequer coragem de cometer o seppuku.

“Onde… você conseguiu isso?” O engasgo de Munisai parece ter dominado sua garganta novamente.

“Uma jovem espadachim chamada Lady Ganryu a carregava, quando me concedeu um duelo justo”, respondeu Takashi, atenciosamente. “E decidi honrá-la entregando eta lâmina ao seu verdadeiro dono”.

A névoa do desdém pairou nos olhos do velho.

“Ou seja, a ganhaste de uma patife sem nome… foi este o legado que deixei?” Olhou mais uma vez para aquela espada, antes de lançá-la pela janela, tocando um lago nos fundos da estrada.

“Não precisarei mais disto”.

Tanto rancor irritou o Bushi Garça, que saiu do casebre sem olhar para trás – ignorando até o alerta do velho sobre um homem. Lishida, por outro lado, pôde ouvir um último lamento de Munisai antes de acompanhar seu amigo.

“Você vai morrer, se continuar seguindo este homem”.

O Caranguejo apenas respondeu, com a ríspida sinceridade que o torna tão peculiar:

“A morte faz parte do meu destino, assim como a de qualquer um ainda vivo. A diferença é o que fazemos no momento da sua chegada – e lutarei ao lado dele nesta hora”.

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Instalando-se nas ruínas de um dojo abandonado, Kamui e Kaori mantiveram a discrição. Esconderam o cavalo nos fundos da construção, e o ninja acomodou sua irmã no mais arrumado dos cômodos.

“Fique aqui, enquanto ficarei de vigia”.

Curioso notar que, mesmo sendo cauteloso, Kamui a deixou com suas armas – afinal, “ela não seria capaz de atacar seu próprio sangue” (crença esta confirmada por ele próprio).

Acomodava-se entre as telhas soltas do lugar quando Kaori subiu para lhes falar. Ele não fez questão de manter a compostura.

“Por que veio para cá?”

“Estava muito quente ali embaixo”, retrucou com o habitual ar de superioridade que lhe cerca. “Além do mais, queria lhe dizer uma coisa”.

Kamui deu de ombros.

“Não insista com isso”.

“E deixar Tetsuo-san morrer por minha causa? E abraçar um plano que sequer desejo para mim? Nada disso”, a irritação inflamava o discurso da Samurai-ko. “Não vou deixar que isso aconteça!”

O irmão mais velho deu as costas para ela, como a vergonha impedisse-o de encará-la.

“Então, você prefere trair sua família, o seu sangue, e o seu clã para viver uma paixão tola? Deixará seu destino de lado para se arriscar por um sentimento vazio? Vai deixar que eu, e outros servos fiéis ao nosso destino, dêem suas vidas por um capricho seu?”

Sem mais palavras, Kamui corre até o outro lado do dojo, em um rude pedido para não ser ignorado. Kaori permaneceu onde estava, pensando em Miya Tetsuo e em como escapar desse maldito compromisso novamente.

Pelo menos, até a chegada daqueles homens…

Ruins_of_Yotsu_Dojo

つづく (“Continua”…)

P.S: Você pode acessar a próxima Cena por este link aqui.

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3 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    11/01/2016 22:49

    Glossário:

    Bushi: Samurai guerreiro.

    Samurai-ko: definição utilizada para mulheres samurais.

    Kimono: Indumentária de mangas largas, semelhante a um roupão – bastante comum em Rokugan.

    Bonzo: Termo respeitoso atribuído inicialmente a monges budistas, mas adaptado para os seguidores de Shinsei.

    Aniki: Literalmente, “irmão mais velho”.

    Kyuden: Palácio.

    -sama: Forma honorífica de tratamento, atribuído a pessoas de status elevado e/ou em posições de respeito.

    -san: Forma honorífica de tratamento, atribuído a pessoas de mesma posição social que a sua.

    Ninja: Assassino das sombras, guerreiro impiedoso e bem conhecido pela deslealdade.

    Yorei-ke: Literalmente, “Cabelos Fantasmas”.

    Wakizashi: Espada de lâmina curta, que compõe o daisho (conjunto de espadas que acompanha todo Samurai).

    -dono: Forma honorífica de tratamento, atribuída a pessoas de idade superior a sua.

    Kotoko: Literalmente, “Sem Braço”.

    Iaijutsu: Forma distinta de esgrima, baseada no saque rápido da espada. É a forma tradicional de duelos em Rokugan.

    Niten: Estilo de esgrima que utiliza duas espadas simultaneamente, Katana e Wakizashi lutando lado a lado.

    Seppuku: O sacrifício ritual a que todo Samurai se submete para provar sua honra, após cometer alguma transgressão grave.

    Dojo: Academia marcial.

  2. Monseha permalink
    12/01/2016 00:44

    “Velho teimoso! Vai morrer verde de rancor!” “Não aceitou o presente e ainda por cima jogou no lago!” :)

    Muito bom. Esperava que a Cena Sete terminasse mais adiante, mas ficou muito bom!

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