Skip to content

Campanha em Rokugan – Origens: O Caranguejo

31/12/2015

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

No entanto, a história de hoje se passa algum tempo antes do contexto atual, onde Império e Terras sombrias se encontram…

Rokugan Mapa Campanha 3.jpg

カニの巣 (O Ninho dos Caranguejos)

A noite era densa na Muralha do Carpinteiro, bem ao sul do Império Esmeralda. Chuva torrencial, gritos de batalha e urros de onis eram ouvidos horizonte afora, entre um trovão e outro.

Os passos apressados de Kaiu Hiromi ecoavam pelos corredores, silenciando-se apenas à frente da sala de Hida Oboro, o respeitado comandante da legião Sul.
A voz rouca e firme de Oboro rivalizava com os trovões.

“Pode entrar, Hiromi.”

Hiromi era um leal descendente dos Caranguejos, embora não representasse isso tão bem: mesmo sendo baixo e curiosamente esguio, não suspirou um minuto sequer em sua corrida por corredores e portas no interior da Muralha.

“Sente-se.”

A voz do comandante ecoava na sala,  quase ressoando na mente de quem o ouvia. Ele não era alto, mas sua compleição física era digna dos heróis que habitam os contos infantis. Seus cabelos eram grisalhos, sempre ostentando seu longo chonmage –  troféu de sua vasta experiência. Pelo peso das rugas, deveria estar entre seus 60 ou 70 anos, era impossível ter certeza; na verdade, nem mesmo ele sabia. A idade possui pouco valor nas fileiras da Muralha, mas com certeza é o mais respeitado dentre os membros do Clã, por evitar a morte por tantos anos.

“Desculpe-me, Hida-Sama, mas penso que sua decisão não foi a correta”.

Além do comando da legião Sul, Oboro era também o patriarca da família Hida. Mas isso não era suficiente para abrandar a saciedade do jovem soldado. Encarou-o diretamente, seu olhar dobrando a língua do visitante. Este último sentia-se frente a frente com a morte, curvando-se encolhido num silêncio fúnebre – na verdade, a face da vergonha por não se reportar a seu comandante de forma adequada.

“Perdoe o meu descuido, Taisa“.

“Esqueça”, pontuou Oboro. “Agora, justifique-se”.

Hiromi ofegou, retomando sua fala com a costumeira pressa das pessoas de pouca idade.

Carpenter_Wall
“Lishida não está pronto para ser o Yojimbo de Hiruma Genjuro”, justificou o insolente soldado. “Ele é impulsivo e sem modos, a ponto de nos envergonhar na Corte de Toshi Ranbo!”

Oboro permaneceu calado, não apenas pelo costume, mas para que suas razões fossem articuladas o bastante para convencer o jovem do contrário.

“Não ouso questionar suas habilidades em combate, mas ainda é novo demais para tal responsabilidade. Com facilidade, desonraria meu nome ou, talvez, até o nosso Clã!”

A dose exagerada de desesperança nas palavras daquele Bushi  o incomodavam profundamente, mas a muralha no rosto do líder permaneceu inalterada.

“Tenho certeza de que ele irá falhar, deixando Genjuro-san morrer para destruir alguma coisa, ou matar alguém que o perturbe”.

Neste momento, um autoritário Oboro ressoa e tons graves de repreensão. “Já terminou, garoto?”

Um clima pesado se instaurou na sala, provocado pelo leviano questionamento do soldado. Oboro se levantou, caminhando até uma estante no fundo de sua sala. Era lá onde os Kabuto de todos os comandantes da legião Sul estavam guardados, e os contemplou em silêncio por longos minutos.

“Hiromi… você conhece a História do Vilarejo de Pedra Negra?”

Como todo bom ouvinte, consentiu em silêncio; afinal,  era somente uma pergunta retórica. Todos que chegam à Muralha sabem o que aconteceu lá, faz alguns anos…

Ainda assim, não era motivo para interferir na história do veterano.

Ruined_City

“Há dezessete anos atrás, recebi um chamado desse vilarejo, em uma manhã fechada em seu véu de névoas. O mensageiro falou da presença de um Ki-rin na região, atacando qualquer um que ali estivesse. Ainda que não acreditasse naquilo, convoquei  Hida Shada e Kuni Bakuya para irmos até lá”.

“No entanto, chegamos tarde; o animal já tinha partido, deixando apenas um rastro de destruição e morte como lembrança.

Hiromi continuou em silêncio, como um filho desobediente levando um sermão. Oboro retomou a história, após uma pausa para lavar a garganta com sake.

“Quando reviramos os escombros da cidade na busca de sobreviventes, o choro de crianças nos guiou e acabamos resgatando-as. Ao todo, nove crianças tinham sobrevivido, e apenas uma delas não chorava. Curiosamente, a mais saudável delas”.

Os olhos do aprendiz se aguçaram. Como é que nunca tinha ouvido falar nisso antes?

“Quando estávamos saindo do vilarejo, fomos surpreendidos pelo ataque de bakemono– cerca de cem, ou cento e cinquenta deles. Sem outra opção, recuamos até o centro da cidade para proteger as crianças, em uma batalha que durou até o anoitecer.  Ao término da investida, quatro das nove crianças tinham sumido de nossa vista. Nos apressamos para levar as cinco restantes até a Muralha”.

      Uma pergunta se formou na garganta de Hiromi, mas acabou engolida em seco. Oboro, por sua vez, deu meia-volta para sua mesa, antes de retomar sua história.

“Chegando na Muralha, recebi ordens diretas para separar as crianças, enviando-as para os cantos mais distantes de Rokugan. Contrariando a ordem, assumi a tutela da criança silenciosa, e o chamei de Lishida”.

Bounteous-Kirin-Shishizaru

“O Mensageiro da Dor”, concluiu o soldado, ao lembrar do significado daquele nome. “Então, o senhor favoreceu um bastardo da pedra negra por estar sob a sua tutela? Ainda mais um garoto que foi tocado pela Mácula?”

Oboro tinha razões para se espantar com aquele desafio, pois era uma acusação bastante grave. Ainda que não conhecesse uma relação direta entre as crianças e o Ki-rin, uma conexão vaga entre os fatos seria o suficiente para tachá-lo de traidor.

“Hiromi… quantos anos você tinha quando realizou seu gempukku?”

“Doze anos, Hida-sama”. O orgulho transparecia na linguagem respeitosa e polida.

“Saiba que Lishida matou seu primeiro Oni ao completar oito anos”.

Tanto orgulho acabou cortado, como um pedaço de seda partido pela melhor das lâminas.

“Ele é mais novo que você, Hiromi. No entanto, já passou o dobro do tempo que você teve nas Terras Sombrias”.

Lembrou-se do apelido que o rapaz recebeu entre seus confrades: Andarilho Negro, por tingir suas roupas e armaduras com o sangue negro da Mácula, a cada nova incursão.

“Espera mesmo que ele saiba se portar entre a nobreza Imperial, tão distante das batalhas que aprecia?”

O olhar de Hiromi aguçou-se, matreiro como uma raposa.

“Ele é reservado, Taisa – o suficiente para saber com quem está lidando, e para evitar certos comportamentos na frente dos mesmos. Ao mesmo tempo, Genjuro encontrará muitos perigos pela frente, e confio na sua habilidade para eliminá-los|”.

Oboro se calou, para degustar um longo gole de sua bebida.

“Posso me retirar, senhor?”

“Sim”, suspirou o veterano. Virou-se para encarar o soldado mais uma vez, como se fosse a última. “Quando ele voltar… sinta-se livre para desafiá-lo, se assim desejar”.

Um sorriso quase transparente se estampou no rosto de Kaiu Hiromi.

L5R-Crab Mon

末尾 (Fim).

P.S: Deixo aqui o meu agradecimento ao grande amigo Bernardo Raulino, pelo excelente texto sobre seu personagem, Hida Lishida.

Anúncios
7 Comentários leave one →
  1. 31/12/2015 17:37

    Fascinante! Parabéns pelo trabalho! O texto sobre Lishida está publicado já?

    • m4lk1e permalink
      31/12/2015 19:50

      A princípio, esse é o primeiro texto sobre a história de Hida Lishida. No entanto, vou deixar que o Bernardo crie outras histórias desse personagem para irmos colocando aqui no blog. :)

      • 02/01/2016 13:25

        Eeeeeeeeeee!!! ^_^ Sério, parabéns mesmo pela iniciativa. Leve adiante, divulgue e continue publicando cada vez mais histórias (e jogando e mestrando). Saibam que vocês e seus personagens já ganharam um leitor e fã de carteirinha aqui.

  2. m4lk1e permalink
    31/12/2015 20:09

    Glossário:

    Oni: Criatura que habita as Terras Sombrias. São nascidos do Reino Maligno Jigoku e possuem grande poder.

    Chonmage: Estilo de coque utilizado pelos Samurais.

    -Sama: Forma honorífica de tratamento, dirigida a alguém poderoso e/ou de posição superior na hierarquia.

    Taisa: “Literalmente, “Capitão”; também usado para figuras de autoridade.

    Yojimbo: Guarda-costas real.

    -San: Forma honorífica de tratamento, dirigida a pessoas de mesmo grau hierárquico e/ou social ao seu.

    Kabuto: Elmos das armaduras de batalha, que protegem o rosto com máscaras retratando faces demoníacas.

    Ki-Rin: Espírito mágico de natureza incompreensível para os seres humanos. Trata-se de um espírito raro e superior, como a Fênix.

    Bakemonos: Literalmente, “Monstros”.

    Sake: Bebid de forte teor alcoólico, fermentada do arroz.

    Gempukku: Ritual de “batismo” de todo Samurai, onde o candidato torna-se reconhecido pela casta após desafiar um grande perigo e honrar suas habilidades e clã.

  3. Monseha permalink
    01/01/2016 22:35

    Parabéns Berne! Muito bom Jairo. Quem sabe não sai algo sobre Bayushi Kaori e Kakita Takashi na sequencia…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: