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RPG, e a beleza do jogo

26/12/2015

Minha trajetória como jogador começou bem cedo.
Desde piazinho eu disputava damas com meu pai, jogava buraco com a minha família e desafiava meus amigos nos mais diversos tipos de jogos. Era uma maneira de socializar, de passar o tempo, de se divertir, de desenvolver o raciocínio e, principalmente, de vencer.

Ancient greek players

Em todos os tempos, em todos os lugares…

Chega a ser engraçado olhar pra trás e ver como eram as coisas antigamente nessa minha trajetória. Até os tipos de jogos. Era um contexto tão binário, 1 – 0, preto – branco, ganhou – perdeu.

Conforme eu fui envelhecendo eu entrei em contato com outros tipos de jogos, comecei a criar brincadeiras e histórias, até descobrir a narração e interpretação de papéis, que depois viria se mostrar como o RPG. Nesse momento houve um divisor de águas nessa dita trajetória de jogador, trazendo outras propostas, outros paradigmas, outros horizontes. Naquela época muitas coisas mudaram na minha vida, e não é leviano dizer que essas transformações envolveram até minha personalidade.

A Terra, no entanto, segue girando no sentido de sempre, mesmo que você esteja em outra rotação:

“E aí, quem ganhou o jogo?”

Não é fácil explicar. Tenho certeza que muitos leitores já passaram por situação semelhante: “Ninguém ganha ou perde no RPG, tia…”.

A melhor reação que presenciei foi a: “É mesmo? Que jogo xarope!”

Essa questão da necessidade da vitória não deixa de ser interessante.
Tenho certeza que tem muito a ver até com o jeito que levamos nossas vidas, nossos objetivos pessoais, as metas que são impostas a nós pela família e sociedade, entre outras coisas.

Diversas vezes já discuti com amigos (não RPGistas) sobre essa questão da vitória, e até já vivenciei situações bem chatas com ex-namoradas a respeito desse tema… Vencer, vencer, vencer, aparentemente é tudo o que importa!

Confesso que mantenho um desafio pessoal de desmistificar essa importância da vitória, destacando a beleza que cada jogo possui. Nesta cruzada, recentemente tive uma felicidade muito grande ao encontrar outra mente em sintonia com a minha, mais um templário nesta difícil empreita. Seu nome é Patrick Rothfuss, autor da The Kingkiller Chronicle [Crônicas do Matador do Rei, em português].

No seu livro The Wise Men’s Fear [O Temor do Sábio], o autor nos apresenta Bredon, um já vivido jogador de TAK (um jogo de tabuleiro que provavelmente se assemelha bastante ao GO), que introduz o protagonista do livro ao referido jogo. Kvothe aprende rapidamente as regras do Tak, mas de nenhum jeito consegue vencer Bredon, o que decepciona o jovem jogador. Num dos melhores capítulos do livro – A Beautiful Game, o autor nos presenteia com uma passagem muito bela, retratada abaixo:

‘Estou tentando fazer você entender o jogo’, Bredon disse. ‘O jogo por completo, não apenas as regras de como mover as peças. A ideia não é jogar do jeito mais seguro e estável possível. Você precisa ser corajoso. Perigoso. E, acima de tudo, elegante’.

(…) ‘É um espelho da nossa própria vida.
Garoto, pense numa dança. Ninguém “ganha” numa dança. Tudo está ligado ao movimento que um corpo faz. Um jogo bem jogado de tak revela o movimento da mente. Há uma beleza nesse tipo de coisa praqueles que possuem a capacidade de ver’.

‘Então… quer dizer que o objetivo não é vencer?’ – Kvothe perguntou.

‘O objetivo’, Bredon respondeu magnificamente, ‘é jogar um jogo com beleza’.

*
Chapter Sixty-Five, a Beautiful Game (The Wise Men’s Fear). Tradução livre – Chico Lobo Leal.

Fiquei emocionado quando li esse diálogo. Tudo o que penso estava ali, escrito naquele capítulo de três, quatro páginas. Como é delicioso se deparar com esse tipo de coisa. The Wise Men’s Fear tem mais de cem capítulos, mas este, em especial, é o meu capítulo.

Eu e meu grupo de amigos já jogamos RPG (e outros jogos) há mais de vinte anos. Dentre todas as sandices e manias que construímos nesse tempo, destaco a importância do estilo.

bard female

Essa, meus amigos e amigas, é a definição de estilo. (Arte: Autor Desconhecido).

Não importa se você interpreta um fazendeiro tosco, um detetive gago ou se sua Casa só apanha no Game of Thrones de tabuleiro. O importante é interpretar um personagem com estilo. Um fazendeiro que defende sua terra com unhas e dentes, um detetive que não tem medo de bandido. Jogamos pra lutar no GoT gritando o lema das nossas Casas, futucando o pé e colocando nossas almas no negócio. Não importa se ganhamos ou perdemos. Se nossos personagens morrem ou são presos (aliás, se ninguém for preso numa sessão típica nossa de RPG, algo está terrivelmente errado). Se nossa Casa termina o jogo com apenas um castelo.

Nós procuramos vivenciar a experiência. Construirmos os momentos que serão lembrados horas e anos depois, celebrados simplesmente por existirem. Momentos únicos, momentos belos. Jogos com beleza.

Roll the beautiful bones,

Chico Lobo Leal

 

 

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