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O que seus jogadores querem? – A importância do Narrador ouvir seu grupo de jogo

18/11/2015

Em uma das minhas últimas sessões de RPG tivemos uma conversa pós-jogo que foi muito interessante. Havíamos acabado de terminar um arco em Dungeon World, e estávamos reunindo ideias sobre novos sistemas e cenários para nos aventurarmos.

Com 4 fãs de Game of Thrones reunidos, me parecia meio óbvio propor o cenário de Westeros. Meu amigo Flávio se exultou com a ideia, mas tive uma surpresa e uma resposta muito interessante vindo do nosso membros mais novo, mostrando que nós, medalhões, temos muito ainda que aprender:

” – Acho que eu não curtiria um RPG de Game of Thrones…
– Porque não Igor? Iam ter as Casas, muita política, investigação, intrigas…
– É, por isso mesmo. Ia ser muito… real, sei lá. Eu quero algo pra relaxar, dar risada…”

Game of Masterminds

 

Olha que incrível, e que ingenuidade a minha. Ser fã/admirar algo não significa necessariamente querer viver isso na pele. Afinal, e me perdoem a comparação, é mais confortável acreditar em Jesus do que agir como ele. E não digo isso como crítica ao Igor, mas como elogio, da sua clareza. Ele tem muito bem definido o seu objetivo na mesa de jogo. O porque dele estar ali.

Mais uma vez, pra que eu nunca esqueça e me recolha na minha insignificância, fui lembrado da importância da vontade dos jogadores. Todo Narrador deveria ter em mente: “O que seus jogadores querem?”. Seu jogo e a maneira que você narra, interage com eles e, talvez mais importante – dá liberdade pra eles interagirem entre si, é coerente com essas vontades?

Não que um Narrador deva se preocupar só em ser um Mestre bonzinho e não surpreender, desafiar e até, ocasionalmente, irritar seus jogadores, mas, além dos seus próprios desejos, ele deve ouvir seus jogadores – conhecê-los. Afinal, eles são maioria, e representam (na minha opinião) o aspecto mais importante do jogo.

Essa reflexão desencadeia muitas outras.
Por exemplo: Qual jogo é mais adequado pra sua mesa?  (e não “qual jogo é melhor”)

Como conhecer seus jogadores?

Robin D. Laws tem um livro muito interessante sobre perfil dos RPGistas, que pode, ou não, ajudar no entendimento do seu grupo. No livro o autor classifica os jogadores como:

Butt-kickers: Chutadores-de-bundas em português. São aqueles jogadores que querem ação a todo instante, e que odeiam pausas para planos e longas descrições e falas de personagens do Mestre.

Powergamers: Seus personagens são os mais fortes. Mais combados. Mais ricos. Se seus heróis não são melhores que dos seus colegas, eles não descansarão em paz até provar que estão no topo da cadeia alimentar.

Táticos: Provavelmente os opostos dos Butt-Kickers. O prazer dos Táticos é justamente evitar a ação. Friamente calcular as consequências dos seus planos e ver eles funcionam.

Especialistas: Sabe aqueles jogadores que tem uma classe preferida e jogam só com ela? Que conhecem o “Quintessência do Ladino” de cabo a rabo? Aquele jogador que só joga com Ventrue e não quer nem saber dos outros clãs de Vampiro?

Narrativistas: Seus personagens não são importantes. O que importa é a história. A narrativa está acima dos personagens. Seu personagem pode sofrer, apanhar, virar corintiano, morrer. O que importa é a história que isso vai virar.

Jogadores Casuais: São os jogadores que estão ali meio por acaso, meio pra interagir com os outros amigos, meio pra descobrir o que é esse tal de RPG, e meio pra comer a pizza que rola depois da jogatina.

Robin's Laws of Good Game Mastering

É claro que há mil nuâncias, combinações e variações desse modelo, mas nem por isso ele se torna menos útil. Várias vezes já pensei nessas classificações genéricas pra me guiar no planejamento de aventuras. Afinal, eu jogo RPG com tanta gente de perfil diferente!

A título de exemplo, joguei Quintessência no agora longínquo WRPG Fest 2012 sem ninguém da mesa rolar um dado, em uma aventura recheada de interpretação e drama. Ao mesmo tempo que essa hipótese assustaria outra parcela de amigos que já curtem jogar com miniaturas, dados e REGRAS, muitas REGRAS!!!

Nem um nem outro grupo está errado, obviamente. Confesso que apesar de curtir um estilo mais que o outro, me divirto com os dois modos.

Espero que o post os tenha feito refletir. Se vocês desejarem fazer uma viagem no tempo, recomendo esse post aqui no blog feito pelo Shiro, em 2010: Conhecendo o seu grupo de jogo.

Aos Narradores: ouçam seus jogadores. Observem o que é dito, o que não é dito, qual é a postura dos jogadores em cada tipo de cena…

Em uma fase da vida que tenho jogado muito menos do que gostaria, tenho esse conselho como imprescindível para conseguir reunir os amigos no nosso altar de jogos.

Um agradecimento à você que leu até aqui, e principalmente à você Igor, jogador casual e amigo estimado que me inspirou a ir dormir mais tarde e escrever aqui depois de um tempo negligenciando minhas obrigações com minha paixão que é o RPG.

Roll the bones,

Chico Lobo Leal

 

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One Comment leave one →
  1. 19/11/2015 11:16

    Muito bom, Chico! Esse é sempre um desafio mesmo! Às vezes esquecemos que jogar RPG é, antes de mais nada, um evento social, em que as pessoas se encontram para se divertir com as companhias umas das outras. Histórias épicas, drama e emoção é apenas o que vem depois!

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