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Campanha em Rokugan – Cena Três

17/11/2015

Rokugan, o Império Esmeralda. Um mundo guiado pelos herdeiros do Sol e da Lua – os Imperadores – e regimentado pela existência de vários Clãs, compostos por guerreiros e interesses próprios. Um mundo de combates, honra e perigos mil.

No princípio de seu décimo-segundo século de existência, destaca-se o conturbado governo de Iweko-sama como Imperatriz do Império Esmeralda; e, na transição do trono, espera-se a restauração da harmonia entre os novos Sol e Lua, depois da sangrenta Guerra da Destruidora. Porém, poderão as sombras – de homens e de demônios – deixar que essa paz seja finalmente alcançada?

A noite de festa transforma-se em caos no vilarejo Ravina Serena, com a chegada de alguns desordeiros. Ao mesmo tempo, a fuga do assassino de Hiruma Genjuro se desenrolava na escuridão sombria. Com a intervenção dos recém-chegados guerreiros, o perigo maior foi evitado; Kakita perseguiu o assassino, enquanto que Hida afastou o grupo com uma brutal demonstração de combate…

Rokugan Mapa Campanha 2

Localidades Relevantes Nesta Cena: Ponto azul – Shizukana Keikoku (Ravina Serena). Ponto Amarelo: Heiwa Shinsei no Shinden (Templo Paz de Shinsei).

危険 (Perigo)

Com os olhos atentos como uma raposa, Bayushi Kaori procurou por novas pistas no casebre. Abriu o alçapão do assoalho (escondido pelo cadáver de Genjuro), e rastejou sob a casa. Encontrou lá um futon surrado, alguns andrajos e roupas de camponeses, e um saco de moedas de bronze. Evidências mais que suficientes para presumir que foi um gope premeditado.

Levou as moedas consigo quando saiu da choupana, contendo sua ânsia por saber o que aconteceu com seus “companheiros”. E foi neste momento que se solidarizou com os habitantes de Ravina Serena, e a brutal façanha do guerreiro Hida.

“Ora, mas é mesmo um idiota”, concluiu consigo mesma.

Neste momento, Kakita Takashi retornara, arrastando um corpo pela estrada (e, ao mesmo tempo, desenhando um rastro de sangue em seu caminho).

“Preciso me encontrar com o magistrado local”, sua voz polida quebrava o transe coletivo aos poucos. “Quem responde por esta alcunha?”

Um homem sereno surge na multidão, acalmando os aldeões por onde passava. Aos poucos, cada um destes ia para sua casa, no esforço de esquecer o seu testemunho.

“Meu nome é Okina, e irei lhes ajudar, nobres guerreiros. No entanto, acho que devíamos ir a um lugar mais resevado para conversar”.

Os três Bushis consentiram, seguindo-o até o lugar onde a confusão começou. Sua postura simples e humilde, associada à cabeça totalmente limpa, o identificavam como um bonzo. Contaram a Okina tudo que aconteceu – de seu encontro fortuito até a inesperada morte de Hiruma Genjuro. Takashi levara consigo o responsável por esta barbárie.

Ao arregaçar uma das mangas do sujeito, os olhos do monge transpareciam a certeza de seu pensamento. Mostrou a seus acompanhantes a razão: uma tatuagem no pulso, de suas katanas cruzadas, com as lâminas viradas para baixo.

“Um dos Lâminas Negras, sem dúvida. O servo de um bando de arruaceiros que nos ‘visita’ quando o sake sobe à cabeça… ou quando faz falta.”

Virou-se para encarar Lishida, quando reconheceu o mon do Caranguejo nele e no cadáver. Retirou a wakizashi deste último, limpando sua lâmina e a entregando para o primeiro.

“Isto vai servir para seus superiores. Agora… o que fazem tão longe de sua casa?”

“Viajávamos até a capital do Império, para entregar uma mensagem à nova Imperatriz”, respondeu o herdeiro Hida. Baixou a cabeça para encarar o olhar inerte de Genjuro. “Eu servia a este homem como seu Yojimbo.

“Neste caso”, interferiu Kakita, “isto é seu.”

Entregou para o gigante um pergaminho, antes guardado em seu kimono. Colocou a mão sobre o ombro do herdeiro Caranguejo.

“Se você vai até Toshi Ranbu, eu me ofereço para acompanhá-lo, Hida-san.”

Bayushi Kaori permaneceu quieta, ponderando sobre a decisão deles.

Asako_Heiwa

“Mas, antes de concretizar seus planos”, Okina se voltou para Takashi, “preciso lhe perguntar uma coisa. Inclusive, seria melhor se estivéssemos a sós…”

“Pergunte, caro Monge”.

O interesse do bonzo crescia com seu sorriso.

“Por acaso… você possui algum vínculo com o Gaki-dô? Afinal, você possui feição e olhos de seus servos…”

 Um olhar mais atento de Kaori revelou os traços pouco naturais de Takashi: seu olhar lívido, da cor do jade puro e sem pupilas, e a naturalidade branca de seus cabelos longos.

“Interessante você mencionar isto, porque foi esta questão que me fez começar meu Musha Shugyo“.

O nobre Bushi retirou, da manga de seu kimono, uma carta. Entrega-a para Okina com o mon de seu Clã bem visível, e o monge percebe do que se trata com uma rápida leitura: uma autorização de seu patriarca para sua jornada solitária.

“Neste caso, teria muito prazer em lhe ajudar com seu caminho. Mas, como já é tarde, presumo que tenhamos de nos recolher primeiro. Além do mais”, o sacerdote vira seus olhos para o falecido Genjuro, “ainda precisamos prestar a ele as condolências e rituais para seu repouso eterno. Faremos isso ao amanhecer, antes de seguirem seus caminhos”.

Ao deixar para trás a casa do finado Moriya, o grupo se dispersa.

Kaori caminha vagarosamente até a pousada, a cabeça imersa em pensamentos; diferente de seus “companheiros”, não pretende ir até a capital do Império, pois isso seria voltar para o compromisso que deixou para trás – angústia que atravessa seus sentimentos como a fria lâmina de uma faca.

Lishida mudou-se para o quarto pago por Genjuro, já que a família que antes o acolheu colocou seus poucos pertences na rua. Tinha nas mãos o pergaminho que o trouxe até aqui, selado por um fino laço de seda vermelha. Colocou-o na mochila, pois não pretendia conhecer o seu conteúdo; seu dever é entregá-lo à Iweko-sama em pessoa, e nada será capaz de dissuadi-lo disso.

Takashi seguiu o bonzo até o templo da região, a convite deste último. Encravado nas imensidão de uma floresta, aquele seria o local para encontrar a paz e, talvez, alguns esclarecimentos. Sentia-se estranhamente confortável com a presença de Okina, provavelmente pelo fato dele conhecer uma possível origem sua – que já o perturbou com inúmeras perguntas…

Talvez, o amanhecer traga-lhes algumas respostas.

Torii

O frescor da manhã recém-nascida deu lugar à friezados habitantes de Ravina Serena; de tão estarrecidos com o massacre da noite passada, sequer conseguem olhar para os visitantes – desviando seus olhares para as tendas desmontadas e consertos a serem feitos em suas casas.

A Escorpião e o Caranguejo encontraram-se com o Garça e seu anfitrião na frente do maldito casebre, sua porta novamente fechada pelo medo dos aldeões. À luz do dia, eles viram o grande número de amuletos de papel, escritos para selar influências ruins, contornando a porta. Alguns deles foram partidos, onde fica a sua tranca.

“Pobre Moriya”, suspirou o bonzo. ” Seu sofrimento foi tanto que a casa tomou gosto por tragédias…”

“O que aconteceu aqui?”, questionou Kakita.

Okina lhes contou a história da casa, e de seu dono, com todos os detalhes: a vida com sua filha (principal razão da sua vida), o desaparecimento misterioso de Tomiko e a dor que tomou os seus dias, matando-o pelo desgosto. Contou também que os Gaki costumam nascer do desespero e angústia, justificando a presença de tantos selos na porta. Inclusive, a voz dele transmitia um sentimento ruim, uma mágoa trancada na garganta…

“No entanto, eles acabaram rompidos pelos vivos”, finalizou com muito deboche.

Bayushi Kaori foi a primeira a entrar na casa, acompanhada por Okina, para dar início aos rituais de purificação. Viu o sangue, o alçapão e o que restou da vela – e acabou surpreendida.

Não viu em lugar algum o corpo de Hiruma Genjuro.

Rice field in Bali. Indonesia

Dentre os quatro, Hida Lishida parecia ser o mais preparado para compreender a situação, e torcia para que pudesse dar a Genjuro o merecido descanso. Por outro lado, percebeu também que Okina estava agindo de forma diferente – bastante nervoso, para dizer a verdade.

Takashi e Kaori perceberam a desconfiança do gigante (que se colocou à porta, no intuito de bloquear o caminho), passando a observar os modos do bonzo, que suava muito.

“Eu… eu preciso resolver isso agora. Por favor, eu devo sair daqui.”

Relutante, o Caranguejo deixou-o passar, percebendo de relance um pedaço da sua pele caindo da face, expondo a carne viva e pulsante do monge. Apontou para seus companheiros, que nada viram, e acabou deixando-o sair.

Takashi foi o próximo, para saber o que afetou tanto aquele homem. Em passo leve e despreocupado, jurou aos aliados que descobriria tudo. Kaori, por sua vez, resolveu averiguar o alçapão novamente, com o apoio do Bushi  restante.

Encontrou portas secretas sob o assoalho: uma delas, pontuada com pingos de sangue, leva até os campos de arroz do vilarejo. Ao fundo deles, um grande galpão de madeira escura permanece colado no horizonte. Sua porta está entreaberta, dando aos guerreiros a direção para seguir.

Caminham pelo charco da plantação cautelosamente, até chegar no galpão. Lishida tomou a dianteira, o fiel tetsubo nas mãos, entrando no galpão e se deparando com uma cena abominável.

Havia uma criatura lá, debruçada sobre uma poça de sangue fresco. Seus braços, pálidos e musculosos, moviam-se freneticamente – jorrando o icor avermelhado em cada puxão e rasgo. As mãos imundas levavam pequenos nacos de carne à cabeça, alva e semi-descarnada.

Entre os farrapos que cobriam seu torso, estava o mon dos Caranguejos, quase encoberto pelo sangue seco. A conclusão não poderia ser mais óbvia.

“Gen-Genjuro!”

Com um assobio, Lishida obteve as atenções daquela coisa – apens para que se virasse, expondo seus olhos vazios. Uma centelha da cor do jade iluminava o fundo de seus olhos vazios, e garganta.

Esta foi a mesma visão que Kaori-sama teve, quando entrou no galpão. Sentiu o abalo em sua alma quando ouviu aquele urro sepulcral dizer uma única palavra.

“Hiiiiiiiida!”

Doom_of_Fu_Leng_2

つづく (“Continua”…)

P.S: Acesse a Cena seguinte a esta por este link aqui.

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3 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    17/11/2015 01:16

    Glossário:

    Bushi: Guerreiro.

    Bonzo: Monge (termo originalmente utilizado para descrever adeptos do Budismo, e adaptado aqui).

    Katana: Espada de lâmina longa, integrante do Daisho (símbolo de todo Samurai).

    Sake: Bebida alcoólica refinada à base de arroz.

    Wakizashi: Espada de lâmina curta, integrante do Daisho (símbolo de todo Samurai).

    Yojimbo: Guarda-Costas.

    Kimono: Indumentária de mangas largas, característica da cultura Rokugani.

    San: Forma honorífica de tratamento, aplicada entre pessoas de mesmo grau hierárquico.

    Gaki-dô: Reino das almas famintas, conhecidas como Gaki.

    Musha Shugyo: Jornada de iluminação que um Samurai aceita, deixando sua vida para trás até encontrar a resposta.

    Mon: Insígnia.

    Sama: Forma honorífica de tratamento, referindo-se a alguém na escala mais alta da hierarquia.

  2. Monseha permalink
    21/11/2015 00:26

    WoW! Muito bom… Eu não acompanhei essa parte do galpão, da chegada, tinha caído. Que medo. Estou ansioso pela continuação, da campanha e da história.

Trackbacks

  1. Campanha em Rokugan – Cena Dois |

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