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Desvendando Um Mito: Financiamento Coletivo

25/05/2015

Nos últimos anos, o Brasil anda passando por uma explosão de jogos. Editoras aflorando, projetos pipocando e traduções aquecendo nosso mercado. Isso deveria ser motivo de alegria para nós, jogadores certo? Boa parte desse empenho pode se resumir a um termo: Financiamento Coletivo – um procedimento que, desde 2011, tornou-se uma alternativa viável para permitir a criação de um projeto qualquer. Filmes, clipes, álbuns musicais, eventos e, claro, a publicação de jogos.

Violentina Foda

Violentina – o primeiro projeto independente nacional a embarcar no financiamento coletivo, em 2011.

Voltando à pergunta do primeiro parágrafo, vejo que isso acontece em parte. Mas, ao mesmo tempo, tenho presenciado em grupos de discussão a insatisfação com este ou aquele projeto, por diversos aspectos. E, por conta disso, percebo que o público ainda não me parece preparado para lidar com esse desenvolvimento. Dessa forma, trago a vocês esse assunto em discussão, a partir dos comentários mais comuns que encontrei nesses grupos de discussão. Mas, primeiramente, vamos a um conceito básico e sólido sobre o assunto:

O Financiamento coletivo (crowdfunding) consiste na obtenção de capital para iniciativas de interesse coletivo através da agregação de múltiplas fontes de financiamento, em geral pessoas físicas interessadas na iniciativa. O termo é muitas vezes usado para descrever especificamente ações na Internet com o objetivo de arrecadar dinheiro para artistas, jornalismo cidadão, pequenos negócios e start-ups, campanhas políticas, iniciativas de software livre, filantropia e ajuda a regiões atingidas por desastres, entre outros. É usual que seja estipulada uma meta de arrecadação que deve ser atingida para que o projeto seja viabilizado. Caso os recursos arrecadados sejam inferiores à meta, o projeto não é financiado e o montante arrecadado volta para os doadores.

“Como Cliente desse Financiamento, Eu Exijo Meu Jogo!”

Esta é, infelizmente, a confusão mais comum entre os apoiadores de um financiamento coletivo: achar que funciona como uma pré-venda (a aquisição prévia de um produto que ainda não foi posto em mercado). Na verdade, passa muito longe disso. Vamos voltar à definição inicial, mais exatamente à seguinte frase: É usual que seja estipulada uma meta de arrecadação que deve ser atingida para que o projeto seja viabilizado. Logo, se você contribui em um projeto como este, não espere pelo cumprimento de prazos de entrega – porque o projeto não foi sequer iniciado. Sim, é isso mesmo: você está doando (sim, doando) seu dinheirinho suado em um protótipo que sequer foi finalizado, na grande parte dos casos – sendo que este será uma recompensa dada a você se o projeto sair do papel. E, no caso da meta não ser atingida, você vai ter o dinheiro de volta e o projeto não vai sair.

Chamado de Cthulhu

O Chamado de Cthulhu: Um projeto bonito, que valeu a pena esperar…

“Eu Não Financiei o Projeto Para Receber Algo de Tão Baixa Qualidade!”

Outro ponto bem comum nas discussões de financiamentos que acompanhei: a qualidade e manejo dos componentes de um projeto; seja por suas miniaturas, pelo material utilizado na impressão, ou até mesmo pela qualidade no texto/tradução do jogo. Bem, isto acontece por um motivo bastante simples: o Brasil carece de um trabalho gráfico satisfatório para a produção de jogos. Mesmo as empresas grandes e tarimbadas no ramo, como a Grow e a Devir, não conseguem satisfazer este nicho – e erros diversos acabam aparecendo. Somem a isso o custo de materiais de boa qualidade (boa parte deles, calculados em Dólar) ou logística frustrante dos Correios na entrega dos jogos, Se o projeto consiste na tradução de um jogo estrangeiro, existe outro possível empecilho: as definições de design. Ou seja, os produtores preparam a versão brasileira, e esta será publicada somente quando passar pelo crivo da editora “original”. Caso não passe, mais um ciclo de trabalho tem que acontecer…

Savage Worlds

Savage Worlds: Um exemplo de financiamento de sucesso, porém ainda empenhado na entrega do material extra – o clássico cenário Deadlands.

“Eles Me Deixam um Tempão Sem Notícias Sobre o Jogo!”

Bom, isso pode ser parte do trabalho de quem produz um projeto via financiamento coletivo – afinal, da mesma forma que a responsabilidade sobre divulgação é dos produtores, o contato com os colaboradores é uma boa ponte para estabelecer vínculos saudáveis entre as partes (produtor, e financiador).

No entanto, bem sabemos que comunicação é uma via de mão dupla: logo, se não houve comunicação por parte dos produtores, eles provavelmente estão se dedicando à elaboração do projeto. E não custa nada você contatá-los diretamente para saber a quantas anda esse processo. Meios para isso não faltam.

Cosa Nostra

Cosa Nostra RPG: Financiado em 2013, ficou no ostracismo até abril desse ano, quando finalmente foi publicado (para nossa alegria, é claro!).

Conclusão

Diante dos pontos levantados acima, o que posso sugerir a você, caro leitor (e potencial financiador) é paciência. Afinal de contas, a produção de jogos no Brasil tornou-se realidade há pouco tempo, e isso se deve ao amadorismo. Cansados de esperar pelas grandes editoras, fãs como a gente estão dando a cara à tapa para trazerem grandes jogos ao mercado, e o caminho para isto é repleto de erros e, consequentemente, aprendizado.

Claro que você está no direito de questionar uma ou outra campanha de financiamento, mas faça-o no intuito de ajudar, e não de desestimular a produção. Mas, principalmente: não perca a oportunidade de apoiar o mercado de jogos brasileiro, se você tiver a chance. Só assim continuaremos a ter jogos variados enriquecendo nosso cast. Tanto eu, criador e fã de jogos, como outros produtores, contamos com seu apoio.

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7 Comentários leave one →
  1. 26/05/2015 12:26

    Grande post! Concordo em número, gênero e grau.

  2. 26/05/2015 19:06

    Belo texto Jairo, muito lúcido.
    O crowdfunding, e a produção independente de jogos que tem se apoiado nele, oferece um novo caminho e uma nova relação entre os autores (produtores) e fãs (consumidores).

    Resta a nós aprender com essa nova relação, sem intermediários. Ambas as partes precisam amadurecer. Seu post já foi uma ótima lição, e chamado a reflexão. Meus parabéns!

  3. 26/05/2015 21:13

    Belíssimo texto! O tipo de crítica que serve para o aprendizado e amadurecimento de nós que usamos a plataforma e os doadores, quem viabiliza o projeto.

  4. 27/05/2015 13:43

    Bom post, necessário para que o público não somente seja compreensível com os projetos que apoia, mas que entenda as muitas dificuldades da produção que muitas vezes não dependem somente do profissionalismo ou boa vontade dos autores.

  5. 28/05/2015 13:11

    Gostei do post, só vale reiterar que cobrar o produto de um croundfunding antes do termino da arrecadação é além imoral burro porque demostra que o usuário não leu os termos, mas cobrar o produto prometido após a meta ter sido alcançada se torna direito de consumidor.

    • m4lk1e permalink
      28/05/2015 13:56

      Esse é um dos pontos do post: o produto não é “prometido”, mas dado como uma recompensa por sua doação. Logo, essa cobrança se torna infundada de acordo com a idéia de financiamento (pois ninguém pode se prender a prazos quando o projeto ainda está em andamento). O certo é aguardar informações a respeito do andamento da produção e, caso sejas o único a não receber sua recompensa (ou caso semelhante), contatar diretamente os responsáveis pelo projeto.

  6. Pedro " Petrus Heligan" permalink
    08/06/2015 12:05

    Ótimo texto, mas me permita ser o advogado do diabo , olhando por uma ótica diferente :

    “Como Cliente desse Financiamento, Eu Exijo Meu Jogo!” – Acho que quem patrocina algo, sempre vai querer algo em troca, o que não necessariamente precisa ser algo direto ao patrocinador ou algo físico. Não esperar o prazo de entrega, porquê ? Os financiadores estão errados de cobrar ou os responsáveis pelos projetos deveriam ser mais realistas com os prazos, quando não usam desse tópico como atrativo, para que seu projeto vingue?
    A diretriz de um FC , na forma legal, não diz que o dinheiro arrecadado se trate como doação, mas sim um investimento ( financiado) para que o projeto dê certo. Como qualquer investidor, em qualquer áerea, é perfeitamente normal querer ver os resultados desse trabalho. Claro que para isso ele precisa ter a meta de arrecadação atingida. Outro ponto interessante a ressaltar é que na pré-venda a teoria é de que o projeto esteja todo pronto, faltando apenas a parte de produção física , onde aqui os consumidores costumam confundir ( principalmente pela questão do prazo que eu citei acima.)

    Eu Não Financiei o Projeto Para Receber Algo de Tão Baixa Qualidade!” – Posso até concordar com você, em relação ao parque gráfico, mas quanto aos custos isso é perfeitamente viável se ao criar um FC, o autor do projeto procurar ter um conhecimento prévio, ainda que mínimo, de quanto custa em média cada componente do seu projeto; é o básico para começar . Aqui muitas vezes se mostra o viés desses projetos, pois a possibilidade de qualquer um fazer um FC não necessariamente quer dizer que ele conhece o mercado onde o seu projeto se situa, e erros bobos e decisões erradas podem acontecer.
    “Eles Me Deixam um Tempão Sem Notícias Sobre o Jogo!”
    É fundamental que o autor do projeto tenha um canal de comunicação com os financiadores, e hoje existem diversas ferramentas para isso ( facebook, twitter,e-mail ;além da própria página do financiamento ). Claro que não é preciso um reporte diário ou semanal, acho que quinzenal ou mensal o mais apropriado, porque isso traz credibilidade sobre o projeto, a editora ou ao responsável por ele. Vemos em alguns casos que a falta de tato é um problema na comunicação , ainda que alguns financiadores ou “comentaristas” se expressam de maneira rude e desrespeitosa; principalmente em nosso hobby.

    Conclusão :

    Acho que é preciso que os autores dos financiamentos coletivos procurem ter um conhecimento prévio do nicho onde seus trabalhos residem, isso evitará dores de cabeça no futuro. Esse tipo de patrocínio tem como foco alguém que precisa do monetário para que seu trabalho ganhe vida, mas não está implícito que deva ser uma pessoa que nunca atuou na áerea desejada( acho até que isso futuramente será o diferencial dos próximos financiamentos aqui no Brasil.). Por outro lado, é preciso menos afobação , educação e entendimento da parte dos financiadores que há diferenças claras entre uma pré-venda e um FC. No final das contas, essa é uma modalidade recente no Brasil, e ambos os lados precisam entender e amadurecer melhor sobre todas as facetas envolvidas nesse tipo de projeto.

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