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Cena 19 – Vir, homem de Valle

04/10/2014

Cena Anterior: Cena 18 – Vir, o herói de Dol Guldur

Na noite da reunião com Bard, eu, Heruwyn, Falco e Berion ficamos hospedados na casa de meu primo Mansoor. Mercador antigo de Valle, o “Brimo”, como eu carinhosamente o chamava (Mansoor não conseguia perder o sotaque de nenhum jeito), nos recebeu de braços abertos.

Durante apenas um jantar, ouvimos o que demoraríamos dias para descobrir nas ruas. A gota d’água da tensão bardings-orientais fora a morte de um influente barding pelas mãos de uma formosa oriental.

Enquanto um lado acusava o homem de desrespeito e até tentativa de violação, o outro queria a morte de uma homicida estrangeira. A situação se agravava na medida que a garota era filha de um líder oriental, e, claro, como se não bastasse, o falecido era casado.

Mirah, a esposa de meu primo dissera que a garota estava presa há dois dias, que servia mais como uma forma de protege-la do que de culpa-la. Bard não tinha culhões para determinar seu destino. Não com o pai da acusada declarando vendeta à casa de Girion.

Berion já vislumbrava uma guerra civil.

– Arnor caiu assim; divisão, guerra interna, e rápida invasão. Se nada mudar logo, Sauron não precisará nem enviar um exército pra cá, os próprios habitantes de Valle resolverão tudo.

Heruwyn tinha um rosto preocupado, assim como Mansoor e Mirah. Falco apenas olhava pra baixo, talvez pensando em Qhorin e Ágrapo.

Precisávamos de um julgamento, mas eu já tivera dose suficiente da justiça de Bard. Precisávamos de um julgamento honesto, onde as duas partes fossem ouvidas.

– Brimo, você consegue reunir alguns homens de confiança, vindos do deserto? Vou falar com Bard e propor um julgamento aberto.

Melhor isso do que outra demonstração da “justiça de Bard”.
No dia posterior eu, Heruwyn, Berion e Falco nos separamos para realizar diferentes tarefas. Fiquei encarregado de conversar com os Senhores da cidade, enquanto meus amigos entregariam mensagens a homens apontados por Mansoor e outros nobres que eu conhecia. O conselheiro de Galadriel garantiria que ninguém tocado pela sombra participaria.

No caminho, mergulhado em meus pensamentos, passei por uma figura esguia que chamou minha atenção. Vi de relance o rosto de Rowenna, mas estava tão pensativo que nem parei meus pés. Segui adiante como somente um homem absorto em deveres consegue fazer.

Líderes, nobres, anciões e heróis foram chamados dos dois lados. Em apenas meia trajetória do sol, a cidade inteira se aprontara para o julgamento, e havia uma brisa de expectativa no ar. Bard concordara com um julgamento de júri popular, a contragosto de Bain e desconfiança dos nobres bardings.

Os orientais, é claro, também temiam armadilhas, uma encenação que desse legitimidade a execução de um dos seus. Mas mesmo assim concordaram. Quase todos.

O pai da réu veio à mim na noite anterior ao julgamento, oferecendo quarenta homens treinados e mercadorias suficientes para preencher duas caravanas. Yarek era seu nome, um corajoso líder e, acima de tudo, um pai preocupado.

“Podemos inflamar o coração de nosso povo e tomar a cidade por dentro. Sei de homens de Valle que nos ajudariam de bom grado, ó Vir, filho de Vir”.

Dispensei Yarek o mais educadamente que pude, dizendo os nomes daqueles que comporiam o júri.

“Doze nomes – seis da areia, seis da pedra. E você Vir, onde entra nisso? Você é um oriental ou um barding?”

Nada disse, pois não sabia a resposta.

O sol se punha ao redor do pátio da cidade. Suas últimas luzes envolviam a estátua do arqueiro de forma a revelar sua expressão determinada, convergindo a energia para sua flecha. Esta era de vidro enegrecido, que absorvia as diferentes matizes cromáticas do poente.

Um acorde de rara beleza neste terrível réquiem que presenciava.

A população de Valle estava toda reunida ao redor da estátua do arqueiro, onde grandes mesas foram colocadas, para que os importantes senhores sentassem.

Como as listas de uma zebra, a população se dividia entre grupos de claros e morenos, claros e morenos. Assim como a mesa. Esta mantinha seu lado esquerdo de bardings enquanto o lado oposto estava com orientais.  O centro permanecia desocupado. Quem seria o mediador? Bain era a escolha mais óbvia, mas este estava com o pai e o filho, Brand, fora da mesa, observando.

Quando a última luz do sol foi capturada pela flecha e as lanternas vindas de Erebor se acenderam, a prisioneira foi trazida, dando início ao julgamento.

“Habitantes de Valle, é com consternação de todos que aqui iniciamos o julgamento de Lilith, acusada do assassinato de um homem bom”.

– Assassina! Enforquem-na!

Os gritos só foram silenciados ao bater dos escudos da guarda da cidade, que mantinha um círculo ao redor da mesa.

“Que os Valar e os deuses orientais abençoem os membros do júri com sua sabedoria”.

Bain então se calou, e um a um, os homens da mesa foram até Bard e beijaram sua mão, jurando lealdade à sua casa e à Valle.

“Vir, filho de Vir, apresente-se ao seu rei e faça seu juramento à Casa de Girion. O júri precisa ter seu homem de confiança, um mediador que todos aprovem”.

Senti uma pontada no estômago, ao mesmo tempo que os pelos da minha nuca se eriçaram ao sentir tantos olhares sobre mim. Em nenhum momento isso foi combinado, fui feito de tolo!

Fazer um juramento à casa de Girion? Não tinha a menor intenção de realiza-lo.

No entanto, fui levado à presença do assassino de meu pai, e me vi ajoelhado. Meu corpo tremia de raiva, e a expressão de satisfação de Bard só piorava as coisas.

Que sua morte chegue rápido!

Pensei em quarenta homens armados ao meu comando, e a justiça que poderíamos fazer.

Suspirei.

– Eu, Vir, filho de Vir, herói de Dol Guldur, juro lealdade à casa de Girion e à Valle.

Não olhei para ninguém quando terminei, apenas sentei no centro da mesa. O julgamento prosseguiu por horas, e a réu e os acusadores se pronunciaram, bem como testemunhas do evento. A população ao redor diversas vezes se exaltava, e foi só quando um barding fora afastado do local que os ânimos se acalmaram.

Quando o júri se reuniu para entrar em consenso, aconteceu o que já todos imaginavam – seis condenações e seis manifestações de inocência. Todos me encararam, e eu olhava para a réu, que tremia algemada. Talvez do frio do inverno, talvez de um destino terrível que poderia acomete-la.

Quantas vidas os homens todos poderiam tirar? Já não havia guerra para todos? A tristeza da morte de um amigo – como Hardhart, já não era suficiente?

Bain então clamou por nossa posição. Os jurados concordaram com minha decisão, e foi com uma paz interior que bradei:

– Lilith é considerada culpada. Não por se defender, mas por tirar a vida de um homem de Valle. Só Bard possui o direito de escolher o destino do seu povo. Que os serviços de Lilith agora paguem por dois, os seus e do falecido. Seu pai ainda deverá entregar mercadorias correspondentes à uma caravana inteira para a família do falecido, como compensação.

A prisioneira então ajoelho e levantou as palmas das mãos aos céus. Servir à Bard só traria honra à sua família, e eu já sabia que seu pai era rico o suficiente para dispor da mercadoria.

Eu encarei a multidão e vi que ninguém sacara armas.

Valle viveria por mais um dia.

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Curtiu o relato?
Que tal ouvir EM ÁUDIO, o julgamento?

Clique aqui e divirta-se!

Próxima Cena: Cena 20 – O retorno de Qhorin

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