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Campanha em Erebor – Cena 14 – Falco, o Arqueiro das Sombras

08/04/2014

Cena Anterior: Campanha em Erebor – Cena 13 – Qhorin

– Este lugar é terrível!

Nem nos meus sonhos mais sombrios eu imaginei um lugar tão horroroso quanto este. A escuridão me oprimia, e mesmo as chamas de nossas tochas mal iluminavam a passagem subterrânea que estávamos atravessando. Eu andava no meio de todos, sentindo a mão de Vir na minha cabeça enquanto segurava o cinto de Qhorin.

Nunca desejei tão ardentemente estar de volta na minha confortável toca quanto naquele momento.

A passagem começou a ficar cada vez mais inclinada até a parte que me sentia num escorregador. Andávamos devagar para não derrapar, mas então ouvimos um “Opa!”, e Hardhart, que estava em último no grupo escorregou e com seu corpo trouxe todos ao chão, descendo numa velocidade cada vez mais rápida.

Todos xingávamos, e eu já imaginava as possibilidades de destinos terríveis que nos aguardavam embaixo: Estacas? Cobras peçonhentas? Lâminas enferrujadas? Uma fogueira? Talvez um caldeirão para nos cozinhar…

TCHIBUM!

Água?

Caímos em um rio, e antes mesmo que lembrasse que não sei nadar senti uma mão me puxando para a borda. Havia um córrego subterrâneo correndo por baixo de Dol Guldur, e aparentemente achamos uma passagem para ele. Talvez um antigo escoadouro de esgoto da torre, construído pelos elfos há muitos anos.

Uma pequena jangada estava amarrada num canto, e Hardhart se dobrava de rir com a aparência de Rowenna, gentilmente apelidada de “Frango d’água”.

Depois de um chute bem rápido “naquele lugar”, paramos para olhar ao redor e vimos uma escada cravada na pedra.

Qhorin e Thraurin iam a frente, e somente o saque de armas já foi suficiente para nos alertas dos inimigos. Criaturas com manto preto começaram a surgir, mas logo caíam perante os golpes de meus amigos, mostrando que, assim como eu, nossos inimigos não eram guerreiros.

Homens pálidos estavam debaixo do manto escuro, e enquanto os revistávamos atrás de pistas, Vir saiu de seu silêncio:

– Vamos pegar esses mantos e nos disfarçar. Será um jeito de evitarmos problemas caso encontremos mais desses.

A ideia foi aceita rapidamente por todos (Boa Vir!), e pegando carona nos ombros de Qhorin seguimos andando.

Um corredor comprido estava na nossa frente, e dois corpos com manto estavam caídos atravessados por setas, caídos nas suas próprias armadilhas.

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Seguimos com cuidado, e para meu espanto chegamos numa espécie de anfiteatro com dezenas de homens vestidos de preto. Alguns deles conversavam entre si, e todos se movimentavam ao redor de uma estátua.

Uma estátua de um dragão.

Tremi quando vi aquilo, e senti Qhorin segurando minhas pernas com força. Quem eram essas pessoas?

A maldade se espalhava por todos os lados das maneiras mais estranhas.

Descemos os degraus tentando não chamar muita atenção, e de repente percebi que as palavras que eu ouvi na verdade eram uma música.

Eu não entendia a língua que era entoada, mas o que antes parecia uma conversa se revelou uma espécie de cântico, recitado alternadamente pelos presentes em formas de verso, em um tema que se repetia.

Descemos até o nível do chão, e começamos a se misturar na multidão que subia, descia e se movia através do anfiteatro, tendo a estátua como centro.

Felizmente ninguém nos interrogou, e nessa andança consegui avistar na meia-luz dois corredores laterais, fechados por portas de madeira que frequentemente eram abertas pela passagem de algum manto.

Se Ágrapo estava em algum lugar, algo me dizia que era em algum desses corredores. “Conduzi” Qhorin com meus joelhos para o mais perto, e como se fizéssemos esse caminho toda quinta-feira de manhã antes de tomar o desjejum, entramos no correr da esquerda.

Vários mantos negros se deslocavam pelo corredor, e tivemos que sair rápido do caminho da porta pra não sermos atropelados por um deles que carregava alguns pergaminhos.

Andamos rapidamente por aquele lugar mal iluminado, e não pude deixar de notar a coragem que havia crescido em mim. Tenho certeza que o “Mago das Panelas” não ousaria entrar ali, mas quem estava no comando agora era o “Arqueiro das Sombras”. Ágrapo era meu amigo e filho de Qhorin, eu não deixaria ele na mão.

A primeira porta estava escancarada, e só revelou uma porção de livros, pergaminhos e mais mantos-negros debruçados sobre mesas estudando. Percebi que um de meus companheiros (provavelmente Rowenna) demorou mais tempo ali, possivelmente por curiosidade. Que segredos de feitiçaria aquele lugar deveria guardar?

Que terrível pensar que haviam tantos aprendizes… aquilo era uma escola de malignos!

Que tempos terríveis…

Seguimos adiante, e ignorando outros mantos presentes, chegamos em uma área com guardas. Eles também vestiam o manto, mas as armaduras e as lanças negras ainda tinham o brilho característico do aço. O que será que eles guardavam?

Ouvi um ruído reptiliano enorme vindo da porta que eles protegiam, e meu coração quase saltou pela boca. Não era possível que fosse um dragão… mas que criatura seria?

Um cheiro terrível vinha de lá, e enquanto estávamos estarrecidos ali perto, vi a porta se abrindo, com dois mantos saindo e conversando entre si. Um deles segurava um braço ensanguentado.

– Sim Razhal, tenho certeza que eles estão prontos. E não seja idiota, é óbvio que eles são agressivos, você esperava o que? Uma lambida?

– Mas senhor…

– Cale-se! Não passei minha vida estudando pra ter um recém-iniciado duvidar da minha opinião. Vá até a Câmara dos Mestres, avise-os que suas montarias estão prontas.

Mestres?

Continuamos andando rapidamente, e era difícil não comentar nada com meus amigos. Neste exato momento só uma coisa me passava pela cabeça: Será que os guardas estavam ali para ninguém entrar ou para proteger os que estavam fora do que estava guardado ali dentro?

Então chegamos no fim do corredor, e um arco de pedra apareceu na nossa frente. Um manto muito curvado estava ali, segurando uma bengala toda deformada. Nem precisávamos das correntes penduradas no arco para entender o que era aquele lugar, aquilo tudo fedia à uma catacumba.

– Cinco? Desde quando precisamos de cinco aprendizes para trazer comida pros prisioneiros?

A voz era velha, mas algo nela trazia uma ameaça que me fez ficar com os pelos eriçados. Nunca fui de entender essas coisas, mas algo me dizia que havia poder ali.

Vir foi quem falou.

– Estamos com pressa, os Mestres querem interrogar o anão.

Foi um chute no escuro, e segurei minha respiração esperando a reação do manto curvado.

– Os Mestres já acordaram? Isso é bom. Maldita magia élfica!

O velho nos deu passagem, e com o coração pulando entramos na catacumba. Qhorin andava rapidamente, e sua respiração era forte. Eu sentia a tensão do meu amigo.

Havia poucas celas ali, e nenhuma delas tinha portas. Passamos ao lado de um poço aberto, e fiz questão de não olhar pro fundo dele. Eu realmente não estava interessado no que poderia ter ali.

Um, dois, três passos depois, fui jogado ao chão.

– Qhorin?!?! – sussurrei com medo.

Qhorin olhou para o poço.

– Ágrapo, meu filho!

Todos nos juntamos ao redor daquele buraco, e no fundo havia um corpo que murmurou quando ouviu seu nome.

– Ágrapo, seu pai está aqui. Sou eu, Qhorin, venha, pegue minha mão!

Era difícil acreditar que o ser no fundo do poço era o amigo que viajou léguas comigo. Minha lembrança de Ágrapo era de um anão jovem e robusto. Aquela… coisa ali, era um espectro da lembrança do anão. Mas um pai sempre reconhece seu filho.

O filho de Qhorin não se moveu, e então seu pai pulou no poço para ergue-lo. Ágrapo não reagia, embora estivesse com os olhos abertos. Qhorin estava com o rosto coberto por rios de lágrimas.

Quando resgatamos os corpos, Ágrapo olhou para todos nós, e uma fagulha atravessou seu olhar.

– Vocês vieram me salvar?

– Sim Ágrapo, sou eu, seu pai. Vamos sair daqui agora mesmo.

– Ellander, salvem meu companheiro Ellander, por favor.

Ágrapo apontou com seu dedo torto à nossa frente, e correndo até lá, Thraurin voltou carregando um elfo que exibia todos seus ossos. Seu rosto era tão cadavérico que mesmo desacordado ele era assustador.

– Obrigado, muito obrigado.

Agora precisávamos sair.

– E agora como…

Qhorin estava fora de si, e já ia carregando seu filho pelos braços em direção à saída.

– Qhorin, seu louco…

Corremos atrás dele, com Rowenna jogando a capa longe e sacando seu arco. Sangue iria rolar, e os disfarces não importavam mais. Sacamos nossas armas, e eu comecei a ficar agitado. Eu realmente esperava que não tivéssemos encontrado Ágrapo a troco de nada.

Minhas pernas curtas me deixaram por último, e eu já ouvia gritos à frente, com a voz poderosa do velho berrando e chamando os guardas. Quando passei o arco, vi um clarão, que quase cegou meus olhos mas foi o suficiente para derrubar o velho no chão. Seu manto caiu, revelando um rosto tão deformado quanto sua bengala. Apontando ao léu, o velho conjurou algum feitiço maligno que, para nosso azar, acertou Qhorin em cheio.

Ágrapo caiu estatelado no chão quando seu pai o largou e colocou as mãos nos olhos. Vir recuperou o ex-prisioneiro rapidamente, e Rowenna, que fora quem havia realizado o clarão, puxou Qhorin pela mão, gritando a plenos pulmões: – CORRAM!!!

Os olhos do meu amigo estavam, para meu terror, totalmente negros, e agora Vir carregava Ágrapo nos ombros, enquanto seu pai tropeçava numa corrida desenfreada. Corremos que nem loucos, e, pra ser sincero, talvez fosse isso mesmo o que éramos naquele momento.

Os dois guardas que havíamos atravessado na ida saltaram a nossa frente, mas Hardhart fora rápido: uma ombrada no nariz do primeiro e uma lâmina de machado no abdômen do segundo foram suficientes para tirar essa ameaça do caminho, e quando passamos correndo na frente da porta das criaturas, ouvi um grito terrível vindo de dentro.

Empurramos aqueles que saíram da biblioteca sem dificuldade, e chegando no anfiteatro, para meu alívio, a cantoria já havia acabado. Apenas alguns dos mantos negros estavam ali, confusos com o que acontecia. Não demos tempo para eles entenderem a situação, só continuamos em disparada para o alto. Tínhamos que chegar até a jangada do rio e torcer para que ele nos deixasse em lugar seguro.

Dessa vez algumas setas do corredor das armadilhas nos acertaram (não tínhamos tempo para achar o caminho certo), e quase sem fôlego chegamos ao rio.

Para nosso desespero, o velho deformado estava em cima de nossa única chance de sair dali. O filho duma orc estava em cima da jangada.

– Anões, elfo, homem da floresta e do leste… e um pequeno. Meus Mestres vão ficar contentes em ouvir essa história. Vários membros viram vocês.

Estávamos paralisados, presos nas palavras daquela criatura terrível.

– Sabe, eu preciso escolher um de vocês… É difícil fazer isso, com tantas opções…

Hardhart foi o primeiro a sair da paralisia, partindo pra cima do velho em fúria.

– Ah, obrigado. Você fez a escolha por mim!

O bruxo foi reto na direção do machado do beorning, recebendo a lâmina no meio da testa. Sua cabeça se abriu, expelindo sombras e um odor nauseabundo que envolveram Hardhart completamente.

Por um instante nada aconteceu, então o gigante começou a nos agarrar e arremessar para dentro da jangada. Comigo e com Ágrapo deu certo, com a elfa deu certo, com o elfo novo também, mas quando ele foi pegar Thraurin teve um espasmo de dor e arremessou o anão pelo seu amuleto: o Coração de Rhosgobel. O resultado disso foi que a corrente se partiu e o amuleto ficou na mão de Hardhart que urrava de dor enquanto se transformava em urso. Vir empurrou Qhorin para dentro da jangada e pulou para a mesma em seguida.

_ Vamos logo Hardhart! – Gritei.

Dezenas de criaturas com mantos pretos corriam em nossa direção e alcançariam nossa jangada parada em questão de segundos.

_ HARDHART! – Vir, de cima da jangada, estendeu a mão para tentar puxar o amigo, mas não o alcançou.

O gigante estava envolto em sombras e urrava enquanto se transformava no enorme monstro de pelos, garras e presas. Em meio a espasmos de dor lancinante, o urso arremessou tudo à sua volta pra cima: mantos negros e, também, o amuleto. Este caiu para dentro do riacho escuro e sua luz verde sumiu do mundo. Nossa única esperança era Rowenna.

Bear in flames, adaptado

A elfa estava ao meu lado, com os olhos vítreos naquela cena digna de um pesadelo.

_ Rowenna! – Gritou Thraurin tirando a elfa do transe.

– Eu não posso fazer nada.

– Mas Hardhart…- Tentei argumentar.

_ Não há tempo. – Foi sua única resposta.

Pouco antes das criaturas nos alcançarem e cercar nosso amigo com lanças e redes, Vir cortou, com sua cimitarra, a corda que segurava a jangada à margem e quase ao mesmo instante Rowenna impulsionou a jangada para frente com um remo. A correnteza do rio era rápida e dois segundos depois estávamos longe de Hardhart e as criaturas. O rio seguia por um túnel subterrâneo sem tochas e uma sombra fria inundou nossa jangada que deslizava veloz e silenciosa.

Thraurin levou seus dedos ao seu pescoço onde costumava ficar seu amuleto, mas nada encontrara. A última coisa que vi antes da luz desaparecer foram os seus olhos.

Próxima cena: Cena 15 – Vir, filho de Vir

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6 Comentários leave one →
  1. 09/04/2014 16:21

    Que isso em Chico, se ta inspirado, esse veio rapidão e com muita qualidade.
    Uma pena, gostei tanto do Hardhart e agora ele ta nessa situação. A apresentação do inimigo foi muito bem feita e agora mal posso esperar a próxima.

  2. gerbur12 permalink
    09/04/2014 18:13

    Muito bom mesmo o relato, Chicão!

    Lendo esse relato consegui escutar a musiquinha dos Lannisters de trilha sonora, rs.

    Essa sessão foi muito pesada, intensa. Nunca tiramos tantos Olhos de Sauron (falhas críticas nos dados) como nessa sessão. Graças a Eru que “conseguimos” sair da Torre da Necromancia.

    E enfim Ágrapo foi resgatado! Aqui termina o grande arco de Qhorin, meu personagem. A partir desse ponto ele muda um pouco uma vez que conseguiu atingir seu principal objetivo: resgatar o filho.

  3. 09/04/2014 22:19

    Opa, obrigado André!
    Na realidade o relato anterior e este são um só, mas separados para não cansar tanto o leitor. De vez em quando eu e o Gonça entramos no “frenesi de criação”, e daí o lápis só pára quando a história termina.

    E falando em término, Mestre Qhorin apontou uma coisa interessante: este foi o final do primeiro arco de campanha, com o resgate do Ágrapo!
    Tivemos duas sessões depois desta, e muita coisa mudou (principalmente na última). A campanha agora tá mais atrelada ao destino dos próprios reinos, e a Guerra do Norte tá finalmente despertando seus ecos.

    Aliás, espero que vocês tenham captado alguns detalhes da história, algumas referências espalhadas pelo texto.

    Abração!

  4. 14/04/2014 19:34

    Brihante, como sempre! :D

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