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Campanha em Erebor – Cena 13 – Qhorin

22/03/2014

Cena Anterior: Campanha em Erebor – Cena 12

Partimos com o coração pesado até Dol Guldur.

Era a hora, o momento. As flechas dos elfos, a longa viagem, a morte de Beorn…
Tudo isso seria suportável se minha missão tivesse sucesso.
Ágrapo, estou chegando.

Respirávamos cada vez com mais dificuldade ao nos aproximarmos da torre de bruxaria. O ar era pesado, e a floresta ao redor era escura… uma floresta das trevas.
Quando chegamos na colina ao redor, já descampada, avistamos várias trilhas largas, de carroça. Por algum motivo vários destes veículos iam e vinham desta direção. Pelo visto a torre não estava tão abandonada assim, ou pelo menos alguém tinha dado uma utilidade para ela.

Bagnir, meu martelo, me protegeria.

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No meio da tarde alcançamos o topo da colina e o pé da torre, e então entramos as trilhas das carroças. Vários corpos estavam amontoados ao redor de Dol Guldur. Humanos, orcs, animais, e, para meu espanto, anões!

Da onde vinham esses corpos? Alguns estavam podres, outros esqueléticos, mas também haviam aqueles em que a face era reconhecível. Estávamos em choque por aquela visão macabra, aquele cheiro nauseabundo que entrava nas nossas narinas e agredia nossa alma.

A torre de necromancia exibia seus tesouros para nós.

Subitamente, Thraurin correu, e se aproximando de um corpo, começou a gritar de dor. Fiquei com o coração acelerado, temendo pelo pior. Será possível que o corpo de meu filho estaria jogado naquela coleção de cadáveres?

Corri em direção ao meu amigo, mas quando ouvi a palavra “Pai!” sendo gritada, desacelerei e fiquei mais calmo. Merda, não tenho orgulho do que senti, mas fiquei aliviado.

Mas como seria possível que o corpo de Dwalin estava ali?

Não importa, ninguém duvidada do ocorrido.

Thraurin estava transtornado. Se tínhamos alguma intenção de entrar na torre sem ser sermos percebidos, isso já não importava mais.

O filho de Dwalin gritava e arrancava os pelos da sua barba, amaldiçoando todos os seres da escuridão.

Aproximei dele e coloquei a mão no seu ombro. Eu precisava apoiá-lo nesse momento. E então, olhei para o corpo. Mas… que bruxaria era aquela?

– Thraurin, acalme-se. Este não é seu pai.

– Que merda você tá falando?!?!

– Este não é seu pai Thraurin, Coração de Freixo. Não conheço esse anão, e ele nem de longe lembra Dwalin, herói de nosso povo. Que loucura te acometeu meu amigo?

Thraurin parou de tremer e colocou o corpo no chão. Sua cara era uma máscara para mim, eu não conseguia perceber o que lhe passava em sua mente. De repente ele passou a mão pelo rosto e sacudiu a cabeça.

– Pedra lascada, este lugar é amaldiçoado! Juro que vi meu pai caído aqui.

Os outros haviam se aproximado de nós. Rowenna falou:

– Esta é a feitiçaria de Dol Guldur. Sombras, confusão, desespero. Vazia ou não, a torre é perigosa por si só. Temos nosso exemplo, precisamos permanecer juntos e atentos. Se Thraurin estivesse sozinho ele já teria sucumbido ao desespero e à loucura.

Thraurin então respondeu, e, pela primeira vez ao falar depois da elfa, não foi com tom de escárnio:

– Rowenna tem razão. E obrigado Qhorin. Mesmo.

Engoli em seco temeroso pelo que enfrentaríamos.

– Vamos deixar os mortos para trás. Nossa preocupação é com os vivos.

Dei um tapinha nos ombros do meu amigo e continuamos. Era unânime a opinião de evitarmos a entrada principal, então Falco começou a procurar uma passagem lateral para entrarmos. A parede externa da torre era de pedra, mas no nosso mapa obtido em Rhosgobel algumas passagens laterais eram apontadas. Mas aparentemente elas haviam sido tampadas quando a Sombra tomou o lugar.

Depois de um quarto de hora Falco encontrou o que procurava, e entramos em Dol Guldur por um trecho quebrado da parede. Bom sinal, a torre provavelmente estava abandonada!

Adentramos um grande salão, repleto de escuridão. A passagem que havíamos usado trazia um pouco de ar ao ambiente, mas a poeira e o ar parado lá dentro eram incômodos. Demais. Dol Guldur estava abandonada e apodrecida. Pelo menos era isso que queriam que acreditássemos.

– Meu filho está aqui, e já está claro que há feitiçaria nesse lugar. Vamos ter cuidado e explorar esse buraco o mais rápido possível.

Todos concordaram, e acendendo tochas começamos a explorar. Armas a postos. Ágrapo, estou chegando.

Andamos por um bom tempo naquele salão, e não encontramos nada que indicasse uma fonte de vida. Havia armas enferrujadas, muito vidro que refletia a claridade das tochas, muitas aranhas, MUITAS aranhas, mas nada mais.

– Pessoal, tem uma passagem barrada aqui.

Hardhart achou o que procurávamos, e quando cheguei perto do gigante vi uma entrada lateral bloqueada por pedras. Nada que o esforço de dois anões, um oriental e um urso não resolvessem.

Havia um manto de escuridão na sala “revelada”, além da poeira que nos assolava e nos fazia tossir. Jogamos uma tocha dentro e sala e ela se apagou ao atravessar o breu.

– Rowenna, pode fazer algo em relação à isso?

– Há feitiçaria aqui, mas posso tentar.

A elfa foi no limiar da porta e, para nossa surpresa, começou a cantar. Uma melodia simples, mas que continha palavras que meu parco élfico podia entender: sol e luz. Rowenna cantou por alguns minutos e então entrou na escuridão. A elfa virou um faixo de luz, e mesmo eu reconheci o poder dos esguios. Era espantoso.

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Entramos todos na sala atentos com possíveis armadilhas, a única coisa que encontramos foi a face de um monstro, esculpida na parede.

Sua boca enorme estava escancarada, e sem nem pensar duas vezes, o gigantemente imbecil Hardhart colocou uma tocha dentro da boca… junto com sua mão!!

– Mas que merda?!?!

– Eu… fui atraído por isso…

Feitiçaria novamente! Para nossa não-surpresa, o beorning não conseguia mais tirar sua mão de dentro da figura.

Rowenna examinou sério a situação e balançou a cabeça.

– Há tanta maldade aqui que eu desmaiaria se sequer tentasse um contra-feitiço. Preciso de tempo para pensar.

É claro que havia outra solução, digamos, menos mágica, e inconscientemente Hardhart olhou para a cimitarra de Vir.

– Temos tempo.

O tempo passou, e quando já estávamos desconfortáveis demais com a situação, Rowenna falou:

– É, não temos outra opção. Eu não queria usar esse recurso agora, mas não podemos nos dar ao luxo de nosso guerreiro perder sua mão da espada.

A elfa então se ajoelhou e tirou da sua mochila o pequeno baú de Rhosgobel.

“_ Você só pode abri-la uma única vez. Quando abrir, você terá o que precisa. Depois disso ela se tornará uma caixa comum. Abra-a com sabedoria e somente quando precisar. Não o faça levianamente.”

Ela abriu o objeto decorado de madeira, e uma lufada de vento tomou a sala. Uma brisa silvestre com aroma de flores, orvalho e cogumelos. O vento espantou a escuridão, e junto com ela uma sombra mais escura que a noite foi espantada da escultura do monstro, se arrastando para fora da sala. Hardhart bateu palmas, suado mas alegre:

– Radagast é um bom mago! Sou eternamente grato ao Castanho.

Estávamos espantados demais com tudo para responder e simplesmente saímos da salinha. Para nossa surpresa, uma escadaria apareceu no meio do salão

– Mas como?, balbuciou Falco.

– O inimigo saiu daqui há alguns anos, mas nem todos seus servos se foram. Aquela sombra que estava no receptáculo devia ser o guardião do andar que estamos. Torçamos para que não encontremos outros. Só tínhamos um baú.

Era aterrorizante. Nenhum de nós temia uma batalha, mas feitiçaria…

Sorte que tínhamos Rowenna.

Enquanto a discípula de Radagast descia a escada, reuníamos as mochilas que tínhamos deixado no chão. Quando descemos para seguir a elfa, não vimos nada.

– Rowenna? Rowenna?? Rowe…

Eu não ouvia minha voz.

Olhei para trás e vi apenas Vir me seguindo.

Falei com ele, mas era óbvio que nem eu nem ele me ouvia. Quando Vir abriu e fechou sua boca sem produzir nenhum som, percebi o que temia… mudos.

Chutei de raiva uma pedra no chão, e nem ela fez barulho ao bater numa parede. Silêncio absoluto, e nenhum sinal de Rowenna, nem de Thraurin, Falco e Hardhart, que deveriam estar atrás de nós. Merda!!!!

Pensei rapidamente e decidi procurar a elfa, afinal ela estava sozinha.

Continuamos pela câmara e encontramos uma esquife ao centro. Havia alguém lá, e, para nosso desespero, era Rowenna.

Abri minha boca e soltei um palavrão que nunca seria ouvido. Como usaríamos mágica para tirá-la de lá?

Batemos na pedra lisa, tentamos empurrar a parte superior… e nada. Onde estava Hardhart e sua força beorning?

Vir me cutucou, e quando o olhei vi que ele apontava para meu martelo.

Afinal, de alguma forma, ele também era mágico.

Juntei toda minha força e bati gritando na esquife. Para minha surpresa, não só o esquife estourou, num clarão de brilho azul, como também ouvi meu próprio grito. Rowenna acordou de súbito, com a mão no peito arfando.

– Onde estão os morcegos? – bufou a confusa elfa, olhando para os lados.

– Feitiçaria… Maldita feitiçaria. Vamos, nossos amigos estão em cima, provavelmente em perigo.

Puxei a atordoada elfa pelo braço, e correndo subimos as escadas. Com um susto, encontramos as primeiras criaturas da torre. Confesso que não reclamei, seria nossa chance de gastar a raiva.

Um meio troll segurava um machado gigante, enquanto um orc também com machado e um pequeno goblin das cavernas com um arco estavam ao seu lado. Eles pareciam tão surpresos quanto nós por encontrar alguém invadindo o santuário de seu senhor.

Com velocidade parti com meu martelo contra o gigante, que agilmente girou o seu machado na minha cabeça, chocando-se contra meu elmo e fazendo meu cérebro sacolejar. A criatura era tão forte quanto um urso! Felizmente meu elmo era de aço temperado anão, e enquanto estava confuso Rowenna foi rápida e cravou uma flecha no joelho esquerdo da criatura.

A escaramuça continuou, e em meio a flechadas, machadadas, marteladas, chutes e agarrões, a batalha não dava sinal de parar. Os lados estavam equilibrados. Os servos do Necromante eram ossos duros de roer!

Faltava pouco para alguém perder um membro quando a voz da elfa preencheu o salão:

– Parem com essa loucura! Gigante, anão, pequeno, machados e arco… São nossos amigos, que também enxergam monstros. Larguem as armas!

Percebi o truque sentindo um soco. Um real – no estômago, e um imaginário – no cérebro. Era óbvio!

Largamos nossas armas e dizendo os nomes de nossos amigos lentamente os fizemos entender a situação. Uma brisa partiu de lugar nenhum, e com ela o véu que cobria a realidade se foi. Nossos amigos finalmente estavam na nossa frente, tão espantados e cansados quanto nós.

Finalmente nos abraçamos, e as desculpas soaram como tolices. Éramos um bando de tolos, mas estaríamos mortos se não fosse a elfa.

– Rowenna, obrigado. Estamos em eterna dívida com você.

– Bobagem, meu raciocínio ainda está lento por causa do esquife, demorei demais, quase que falhamos na missão por nossa própria culpa.

– Mas aqui estamos, inteiros. Obrigado.

Rowenna deu um muxoxo e assentiu com a cabeça. Se não fosse Radagast e sua aprendiz tudo já estaria perdido.

Descemos novamente as escadas, dessa vez com a mão no ombro da pessoa à frente (ou cabeça, no caso de Falco).

Os estilhaços da esquife ainda estavam espalhados, e resumimos brevemente aos nossos amigos o que ocorrera.

Um alçapão estava embaixo de onde a esquife antes se encontrava, e antes de atravessá-lo Falco apenas exclamou:

HGSS_Dark_Cave-Route_31-Night

– Este lugar é terrível.

Concordei, e em muitas mãos erguemos a porta do alçapão, revelando um longo túnel sombrio.

Descemos em fila indiana, com o filho de Dwalin na minha frente. Eu estava há meses sem notícias de Ágrapo, e isso me corroía por dentro. Mas eu só podia imaginar a dor e o sofrimento de Thraurin, há anos sem notícias do tio.

– A busca por nossos parentes tem nos levado a percorrer caminhos escuros e terríveis, Thraurin.

Sem ao menos virar para trás, o sobrinho de Balin respondeu:

– É verdade. Mas iremos percorrê-los mesmo assim.

Próxima Cena: Campanha em Erebor – Cena 14 – Falco, o Arqueiro das Sombras

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5 Comentários leave one →
  1. 24/03/2014 09:23

    Velhos, adoro como vocês entendem a magia de Tolkien, essa coisa mais ilusionista do que conjuradora.
    Confundir mentes, causar desespero, retirar a esperança, pra mim é a forma mais mortal de magia, mais que um boal de fogo.
    Estão de parabéns, existe um sensação de angústia e falta de fé para quem lê a incursão dos heróis pela fortaleza abandonada, e acredito que era justamente isso que tolkien queria que esse lugar fosse.
    Adoro a sutileza da magia de tolkien.

  2. gerbur12 permalink
    24/03/2014 19:37

    Valeu mestre André! E parabéns Chicão pelo excelente post!

    Penso que esse relato retratou bem o sentimento de Qhorin na fortaleza. Ele está completamente desgastado, cansado, com medo e fraco, mas ao mesmo tempo está muito perto do seu objetivo para desistir. Quando ele saiu de Erebor, ele saiu de lá praticamente como um Senhor cheio de coragem e disposição. Mas agora seu coração está cheio de dúvidas e temendo pelo pior. Ele anseia por rever Ágrapo, mas a medida que o momento se aproxima percebe que ele não tem o que é preciso para encarar seu filho novamente, Algo lhe falta, ele perdeu algo no meio do caminho, mas não sabe exatamente o que é.

    Fora Qhorin, essa sessão foi muito intensa para todos os personagens. A fortaleza do necromante caiu pesada em cima de todos nós. Como vocês puderam perceber, tiramos muitas falhas críticas nessa sessão. Muitas mesmo. E quando a sessão acabou estávamos todos com um certo gosto amargo na boca.

    Não posso falar mais sem dar spoilers, mas logo postamos a 2a parte de Dol Guldur aqui no blog. Essa sessão foi muito importante, a meu ver, um dos momentos principais dessa crônica. Ansiedade Máxima aqui!

  3. 24/03/2014 21:35

    Obrigado André!
    Acho que já passou da hora de fazermos um npc com seu nome em homenagem hein?
    Vou providenciar isso logo.

    Valeu você também Gonça. Concordo contigo, Dol Guldur foi um divisor de águas, em muitos sentidos.Foi uma sessão muito difícil de narrar, foi um jogo pesado. Não só os jogadores terminaram cansados, mas eu também. Foi desgastante narrar/descrever/viver um lugar assim.

    Enfim, a 2a parte de Dol Guldur já está quase saindo, nos primeiros dias de abril ela vai pro ar!

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