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Um ensaio sobre Tolkien e Miyazaki, ou “A Beleza das Coisas em Si”

02/03/2014

Esse post nasceu com uma idéia, ou melhor, sentimento, que me acometeu logo após assistir o filme “Meu Vizinho Totoro” de Hayao Miyazaki. Sou fã incondicional do Studio Ghibli, e admiro muito a linguagem, ou, como costumo dizer, a poesia do estúdio. Os filmes de Miyazaki nos apresentam uma fantasia leve, recheada de elementos da cultura oriental, usualmente retratando o universo infantil à partir duma figura feminina.

Há uma beleza singela que permeia suas obras, e confesso que fico extasiado quando vejo o jardim de Howl, os espíritos da floresta da Princesa Mononoke e a magia de Haru. Eu realmente sou transportado para esse mundo fantástico.

Pois bem, depois de assistir Totoro , comecei a refletir sobre os elementos da filmografia do Studio Ghibli. O que me cativa tanto nessas obras?

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To-toro, to-torooooo…

Foi daí que lembrei de outra paixão minha: o universo de Tolkien, e passei a entender melhor essa minha admiração. A fantasia dos dois autores são ricas em detalhes, “coloridas e vivas”, em todos os sentidos.

Mas o que isso significa?

Elas possuem A Beleza das Coisas em Si.

Kant dizia que os humanos não conseguem compreender as coisas em si, pois elas são inerentes à elas mesmas, não sendo passíveis de experimentação.

Pois bem, vou ser “topetudo” e contradizer o filósofo alemão com uma passagem de Tolkien:

“Os outros se jogaram na relva cheirosa, mas Frodo (…) tinha a impressão de ter atravessado uma janela alta que dava para um mundo desaparecido. Havia uma luz sobre esse mundo que não podia ser descrita na língua dele. Tudo o que via parecia harmonioso, mas as formas pareciam novas, como se tivesse sido concebidas e desenhadas no momento em que tiraram a venda dos olhos, e ao mesmo tempo antigas, como se tivessem existido desde sempre. Frodo não viu cores diferentes das que conhecia, dourado e branco e azul e verde, mas eram novas e pungentes, como se naquele mesmo momento as tivesse percebido pela primeira vez, dando-lhes nomes novos e maravilhosos. Naquela região, no inverno, ninguém podia sentir saudade do verão ou da primavera. Não se podia ver qualquer defeito ou doença ou deformidade em cada uma das coisas que cresciam sobre a terra. Não havia manchas na terra de Lórien”. 

Com todo esse maravilhamento, Sam diz a Frodo: “Sinto-me como se estivesse dentro de uma canção”.

Lórien, por Ted Nasmith

Lórien, por Ted Nasmith

Olha só que incrível esse trecho do Senhor dos Anéis (páginas 372 e 373 da Sociedade do Anel, se alguém quiser conferir).
Não há nada de sobrenatural na terra de Lórien. Não há animais fantásticos e nem flores que brilham no escuro.
Mas há formas harmoniosas, cores vivas e uma beleza sutil. Simples e sutil – a beleza das coisas em si.

Mais do que o enredo, mais do que os protagonistas, mais do que a trama política… os autores conseguem retratar a beleza das coisas simples, transformando o cenário e o mundo ao redor em próprios personagens.

O Castelo Animado e o Condado podem ser vistos como um monte de sucata ambulante e uma área rural repleta de caipiras de pés peludos para os homens grandes, mas no universo de Tolkien e Miyazaki, esses lugares são mágicos.

É claro que precisamos enxergar o mundo através das lentes certas para apreciar essa beleza.
E é por isso que temos pequenos protagonistas nas histórias dos dois autores: crianças e hobbits, seres que não deixaram de apreciar a magia ao seu redor, mesmo que ela esteja em coisas singelas.

Condado, por John Howe

Condado, por John Howe

Outra passagem que normalmente passa despercebida para os leitores de Tolkien e que eu adoro, é o coração partido de Sam ao se separar do seu equipamento de cozinha (em Mordor!!!). Era o elo que ligava o jovem hobbit à sua vida passada, à sua casa, à sua vida de jardineiro e servente.

Como não ficar tocado com estas cenas?

Miyazaki e Tolkien ensinam uma lição preciosa para os RPGistas: “Sinto-me como se estivesse dentro de uma canção”.

Na minha opinião não há elogio maior para um Mestre do que ouvir isso dos seus jogadores.

Cada vez que eu jogo O Um Anel com meus amigos, sinto como se estivesse dentro de uma canção, e juro que só Eru sabe como quero experimentar o Golden Sky Stories.

Sei que muitos preferem as tramas políticas de Game of Thrones (é, eu também curto muito elas) e a magia nada sutil de D&D (tem gosto pra tudo nesse mundo), mas tenho certeza que algumas crianças por aí apreciam essa poesia sutil, mesmo que essas “crianças” tenham mais de 60 anos, como diria Terry Pratchett.

Para concluir, recomendo um tópico muito bem escrito pelo Gerbur no fórum Tolkien que participamos, e onde devo grande parte do elaborado neste post: A Magia das Coisas em Si. E, por último mas não menos importante, gostaria de mencionar a Ludmila, querida amiga fã de Miyazaki e Condessa do Arroio do Silva que me emprestou o livro dO Castelo Animado, e a Blanda, a quem prometi esse post há muito tempo e acabei demorando mais do que deveria para extraí-lo da minha cabeça. Torço para que a espera tenha valido a pena!

Abraços à todos!

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2 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    05/03/2014 12:18

    Cara… Excelente texto. Principalmente pelo fato de tê-los como principal inspiração na hora de escrever.

    Espero um dia captar “A Beleza das Coisas em Si” tão bem quanto eles… :)

    P.S: Como o Gonça escreve bem, cara… fiquei besta com o argumento.

  2. 06/03/2014 09:20

    Obrigado meu amigo!
    Bom, nós todos temos a possibilidade de redirecionar nosso olhar à partir da lente desses artistas. Não é tão difícil assim :)

    E sim, o Gonça escreve muito bem!
    Vou te mandar mais algum textos dele.

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