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Campanha em Erebor – Cena 12 – Hardhart

31/12/2013

Cena Anterior: Campanha em Erebor – Cena 11 

Eu carregava em minhas mãos a cabeça da fera. Seu sangue já parara de escorrer, e Falco já não desviava mais o olhar daquela expressão mortal assustadora. Meu plano era fixar a cabeça numa estaca, olhando para o sul, na direção de Dol Guldur. Os beornings aprovariam e alguns homens da floresta nos dariam presentes como agradecimento.

Nossa volta foi bem mais rápida que a ida, graças ao nosso entusiasmo vitorioso. Estávamos voltando como heróis, e compartilharíamos o júbilo da vitória como nossos amigos. Que delícia!

Com o sol à pino alcançamos a cerca externa. Havia um estranho silêncio no ar, como a calmaria que precede a tempestade. Fiquei inquieto.
Cruzamos as sentinelas e chegamos na frente do Salão de Beorn. Qhorin, Thraurin e Rowenna já estavam lá. Eles não sorriram quando nos viram.

– Beorn o aguarda, não o faça esperar mais.

A voz da elfa era cortante. Meu coração começou a bater mais rápido.

Entrei na casa rapidamente, e apenas a luz da lareira iluminava o lugar. O cheiro de cedro queimado exalava no ar, mas havia outro cheiro que qualquer caçador experiente reconhecia: o cheiro da morte.

Grimbeorn estava ao lado de seu pai, que descansava sobre sua cama de pinheiro negro. A luz brilhava nos olhos cansados de nosso líder, e seu rosto feroz agora apresentava a calma e a paz daqueles que estão prestes a voltar à Grande Mãe.

– Salve Hardhart, Passo-de-Pedra, bons ventos o trazem! Vejo que sua missão foi cumprida com êxito, disse-me Beorn.

Olhei para a cabeça do lobisomem em minha mão, agora tão desimportante quanto um besouro rola-bosta. Larguei-a no chão e me aproximei da cama. Eu não conseguia falar, minha língua pesava, e um gosto ruim tomava minha boca. O júbilo me abandonara.

– Que bom que tive tempo de me despedir de você. O tenho em alta conta, e agora posso partir mais calmo.

Segurei sua mão, e percebi que eu não tinha capacidade de me expressar naquele momento. A dor que pulsava em meu peito era superior a qualquer ferimento que havia sentido.

Grimbeorn então disse:

– Nossos parentes também vieram de longe para se despedir. Nossa família precisa estar unida em todos os momentos.

Olhei então para o outro lado do salão e vi alguns ursos sentados. De alguma forma, aquilo não me parecia estranho.

Beorn então apertou minha mão com força, de forma que olhei para ele imediatamente.

– Lembre-se do que aprendeu. Mantenha seus princípios, eles são mais importantes que seus pertences.

Enfim consegui falar:

– Nunca esquecerei minha lições, Mestre. Cada parte é importante no ciclo da Natureza.

Beorn sorriu, a última expressão que eu veria em seu rosto poderoso.

– Não há partes Hardhart. Somos todos um só.

Então seus olhos fecharam, para nunca mais se abrir.

Sem nenhum sinal, mas como um sentimento compartilhado de dor e respeito, todos os presentes urraram. Um grito ensurdecedor, que dizia mais que qualquer palavra.

Beorn nos deixara.

Conforme a vontade de nosso líder, seu corpo seria queimado no alto da Carrocha, de forma que suas cinzas se espalhassem por toda a região em que ele vivera e amara. Sua presença e proteção nunca deixaria aquele lugar.

Nenhum mensageiro formal fora enviado, pois estes não eram necessários.
Os animais amigos de Beorn levaram a mensagem para aqueles que deveriam ser contatados.

Com a noite muitos vieram, e logo havia uma comitiva que diria o último adeus ao nosso chefe. Grimbeorn partira com o corpo ainda durante a tarde, enquanto nós tentávamos organizar aqueles que chegavam. Felizmente, nenhuma pergunta era feita, e o que cada semblante exibia era o pesar sincero de uma perda irreparável.

Alguns homens e até mesmo elfos apareceram, mas a grande maioria dos presentes possuía patas. Cavalos, alces, pássaros, e, claro, ursos vieram em massa.

Quando tudo parecia pronto, partimos para a Carrocha. Uma procissão estranha que carregava tochas brilhantes numa escuridão pesada. Meus amigos caminhavam ao meu redor, mas nada diziam.

No meio do trajeto pensei em algo, e indaguei para Rowenna:

– Rowenna, Radagast não virá?

A elfa piscou um olho e se aproximou de mim.

– Ah, ele não perderia isso por nada. É claro que ele veio, por mais que seus olhos não o reconheçam. Radagast é o mestre das formas e cores, sua aparência não é facilmente reconhecível para aqueles que o procuram com os olhos.

Voltei a caminhar, e logo já estávamos ao pé da Carrocha.
Subindo sua trilha senti uma estranha vontade, algo que não fazia com frequência. Comecei a cantar.

A melodia era forte e ritmada, da mesma forma que Beorn. Logo muitos me acompanharam, e foi cantando que alcançamos o topo da colina.

Grimbeorn já estava lá, ao lado de uma plataforma de madeira, onde seu pai descansava. A única árvore presente na Carrocha – a árvore de pedra, estava atrás dos dois, marcando o local escolhido. Seu caule era rochoso, e ninguém sabia dizer se era uma obra da natureza ou por mãos de anões, homens ou elfos.

Nossa procissão então passou pelo tombado, cada um dizendo uma palavra, fazendo um gesto ou apenas olhando bem para um dos homens mais poderosos de seu tempo. Vir deixou sua adaga ao lado do corpo, e Qhorin colocou um de seus anéis sobre a lâmina desta.

Quando todos os seres vivos passaram por Beorn, seu filho começou a falar:

– Meus amigos, agradeço a presença de vocês aqui, no último adeus de Beorn. Sei que cada um de vocês tem um grau de afeição diferente pelo meu pai, mas tenho certeza que todos nós compartilhamos uma coisa: o respeito.

Uma pausa foi feita, e o círculo de criaturas ao redor da árvore era fortemente iluminado pela Lua Crescente. As constelações brilhavam no céu.

– Beorn, o Urso, o Primeiro dos beornings e o Pai de minha casa. Meu pai… É com pesar que assumo a responsabilidade deixada por ele. Mas foi pra isso que foi educado. Continuarei as obras de meu pai, e podem ter certeza que o rugido dos beornings será ouvido em qualquer exército que lutar contra a escuridão!

Nós beornings então rugimos. Éramos um povo ligado à natureza, mas também éramos um povo guerreiro.

– Que a lembrança do Grande Urso permaneça na mente e no coração de todos. Adeus.

Grimbeorn então jogou sua tocha sobre o corpo, e um a um, fizemos o mesmo. Logo um imenso crepitar de madeira começou, e uma grande chama tomou Beorn e sua pira. O fogo consumia carne e madeira, e capturava nosso olhar.

Brygit, nossa aeda então começou a cantar, no nosso próprio dialeto. Como sempre, ela compunha a música conforme a ocasião. Ouvimos uma música linda, selvagem e poderosa. Como deveria ser.

Conforme ouvíamos nossos corações eram preenchidos com a força de nosso líder, e tenho certeza que mesmo aquele que não conheciam nossa língua puderam captar a mensagem.

A música terminou, e tocados pela beleza e força do momento, começamos a deixar a Carrocha. Os passáros voavam juntos, piando na melodia da música, e a grande maioria de nós saía com as bochechas úmidas tamanha beleza e habilidade demonstrada.

Quando estava prestes a seguir a trilha de volta, senti um peso em meus ombros.

– Você não Hardhart. Você ficará conosco dançando e cantando até o amanhecer.

Virei e, para minha surpresa, uma enorme ursa me segurava.

– Nossa família precisa estar unida em todos os momentos.

Os ursos e os beornings começaram a dançar ao redor da pira e da árvore. A música de Brygit soava por vozes humanas e através das bocas dos ursos.

A luz argêntea do céu era muito forte, e quando olhei pra cima percebi que aquela claridade não vinha da Lua, e sim de uma constelação – Ursa Maior.

Quando voltei minha atenção ao círculo, percebi que o número de ursos crescera, apesar do número de criaturas permanecer o mesmo. Conforme as horas foram passando, cada vez menos humanos e mais ursos dançavam.

Pouco antes do amanhecer o ritual estava completo, e não havia mais humanos na Carrocha.

Me reuni novamente com meus amigos no Salão de Grimbeorn no meio da tarde do próximo dia. Fomos convocados pelo nosso novo líder.

– Hardhart, seu aprendizado foi completado, e o valor de seus companheiros provado. É com a benção de meu pai que lhe libero. Você acompanhará seus amigos à Dol Guldur.

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Próxima Cena: Campanha em Erebor – Cena 13

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8 Comentários leave one →
  1. gerbur12 permalink
    02/01/2014 12:13

    Essa sessão foi uma das melhores que joguei.

    O mestre apagou as luzes e colocou velas pequenas e grossas em diversos lugares dando um tom fúnebre e ao mesmo tempo de natureza. A música que a aeda toca e canta é linda e ajuda a construir esse clima de ligação com a natureza. Muito bonito.

    Teve um momento que o mestre foi na cozinha dizendo que iria pegar um “negócio” e me deu um frio na espinha. Fiquei olhando para a porta e por um momento pensei que sairia dali um urso! rs. Mas saiu mesmo só o mestre com as tais velas,rs.

    Teve um outro jogador (apaixonado por Tolkien, diga-se de passagem) que chorou com as palavras ditas na sessão. Realmente, participar do funeral de Beorn foi uma honra! Valeu, mestre Chico!

  2. 02/01/2014 16:47

    Foi uma honra narrar essa sessão também.
    Todo mundo entrou num clima de tal forma, que quase acompanhei nosso amigo nas lágrimas.

    Cada gesto e cada palavra dita por vocês só enriqueceu a narrativa, foi uma sessão histórica!

  3. 05/01/2014 21:37

    Ótimo relato Sr. Francisco, muito bem escrito.

    Essa sessão foi uma das melhores que joguei, mesmo meu personagem não agindo muito, mas só o fato de ter presenciado valeu a pena.

    Mas amigos, os próximos relatos serão muito, mas muito bons. Eu não vejo a hora de ler o que acontecera em Dol Guldur.

  4. 11/03/2014 08:53

    Uai, os relatos acabaram?

  5. 11/03/2014 10:21

    Oi André!
    Não, não acabaram, mas infelizmente tão demorando mais do que deveriam, por muitos motivos. Ficamos muito tempo sem jogar, só retomaremos a Campanha no fim da semana que vem.

    Espero que o próximo relato saia até a próxima sessão!!
    Eu também estou curioso para lê-lo.
    Lamento a demora :/

  6. 12/03/2014 14:20

    Já imaginava o motivo, tempos corridos, fica difícil de encontrar para jogar.
    Bem, como sou leitor do blog não vejo problema em esperar ^^

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