Skip to content

A Vida Depois das Aventuras…

26/09/2013

Imagine-se, você, caro aventureiro, com a vida calejada de tanto lutar. Já perdeu as contas de quantos monstros você trucidou em seu caminho, quantos planos malignos você frustrou e quantos poderes você adquiriu. Não há nada no mundo que você não conheça, ou que não possua, de tantas recompensas. É tanta coisa para contar e recordar, que sua mente acabou tão afiada quanto sua velha espada – aquela, que você carrega consigo desde a tenra juventude.

Nesse momento, o quê você faria? Desfrutaria de tudo que possui (ou já possuiu), ou se deixaria levar pela vida a qual você já se acostumou? Esta é uma questão interessante, que admito já ter ignorado em alguns momentos de narrativa. O RPG é um hobby muito legal, por integrar um grupo na construção contínua de uma história. Mas, ao mesmo tempo, também pode se tornar um “vício” (no aspecto mais leve da palavra), traduzido na afeição pelos personagens. À medida que o jogador o constrói e o desenvolve (de acordo com as devidas consequências de seus atos), forma-se uma afeição pelo seu protagonista, geralmente apresentando dificuldades para se desvencilhar dele. Dessa relação que surge a quebra dos limites, ilustrado em frases como esta:

E daí que o meu personagem já atingiu o Nível Épico? Isso não é o bastante para tirá-lo do jogo!

Em horas como esta, percebe-se que o intuito do jogador é mantê-lo vivo, lutando contra toda e qualquer ameaça presente nos bestiários e masmorras em seu caminho. Eu carinhosamente chamo este comportamento de “Síndrome Gatsu”, pois a frustração do jogador frente a condições que contrariem seu anseio (como, por exemplo, a morte) podem afundá-los em “Berserk”. No entanto, venho mostrar-lhes algumas alternativas de como pode ser a vida “além-Masmorras”, em que condições supostamente triviais podem levar o aventureiro à aposentadoria.

gatsu

Gatsu, de Berserk: o mito do “lutador incansável”, que já vi em várias narrativas.

1 – Satisfação

Antes de entrar neste ponto, algo precisa ficar bem claro: qual é a ambição do personagem? Perceba que não se trata, aqui, do que o personagem deve fazer (o que chamo de “objetivo”), mas o quê ele de fato deseja para si. O quê ele pretende ganhar se aventurando – dinheiro, mulheres, propriedades, o resgate de um ente querido… O quê?

Uma vez que isso seja bem definido, e bem explorado durante o jogo, vamos supôr que o personagem consiga alcançar sua ambição: torne-se rico, conquiste as mulheres que desejou, obtenha posses e propriedades, etc. Por que ele deveria continuar lutando, neste caso, quando conseguiu chegar onde queria? O que poderia fazê-lo deixar de aproveitar a vida, depois de tudo que passou, para continuar entregue ao perigo?

Aqui, a visão é puramente materialista e, por que não dizer, carnal: desfrutar de tudo que o mundo pode oferecer, conhecer novas culturas e almejar o que há de tão valioso nelas. Tudo isso, justificado sobre o desejo de uma vida confortável entre a nobreza, cercado dos luxos que sua própria vida não consegue manter.

conan_rei_trono

Um bom exemplo de narrativa regida pela satisfação é o Conan (dos quadrinhos). Depois de toda uma vida lutando e servindo reis de toda estirpe, ele consegue o seu próprio reino (o que mais desejou em vida), uma esposa e filhos dos quais poderia se orgulhar.

2 – Glória

Se o desejo de seu personagem era crescer entre seus iguais,  tornando-se uma lenda ou realizando sua vingança, e você já o fez, pode continuar vivendo disso. Seu nome será eternizado nas canções mais conhecidas, e as crianças da região ouvirão seu nome. Se a paz for encontrada pela sua busca, maior será o reconhecimento e o quinhão que receberás dele: um papel político relevante na região, o amor de uma bela dama, etc.

Neste caso, a recompensa maior torna-se o seu próprio heroísmo, que lhe concedeu uma responsabilidade maior que “apenas” lutar por si próprio. Agora existe um povo para proteger, uma família para manter e um mundo (e/ou lição) sobre o (a) qual aprender.

images

A devoção de Samwise Gamgi por seu amigo Frodo é um excelente exemplo. Enfrentou perigos mil por um dever que julgava seu – proteger seu amigo. Depois de toda a jornada, ele retornou ao Condado (onde sua fama não valia de nada), e viveu em paz com sua esposa e filhos.

3 – Limitações

Nada dura para sempre, não é mesmo? O inexorável passar do tempo deixa suas marcas em todo ser vivo, e o personagem não é exceção. Cicatrizes, mutilações e doenças também fazem parte disso, mazelas vindas de seus tempos de guerra, que podem torná-lo preso ao passado (“o braço amputado na luta contra o Troll causa admiração nas crianças que ouvem a história – me lembrando de como era boa, aquela época”).

Este tipo de abordagem possui um caráter de consequência, resultante das escolhas feitas pelo aventureiro em situações difíceis. Talvez ele tenha decidido lutar pela vida toda, e a velhice consumiu suas forças nesse meio-tempo, ou uma doença sexualmente transmissível seja o fruto de uma vida mundana e lasciva.

Cohen

Um exemplo inquestionável deste tipo de história é o lendário Cohen, o Bárbaro (de Discworld). Ele já tem mais de 90 anos de idade, e seus feitos são conhecidos por todos. Infelizmente, a vontade de se aventurar ainda não o abandonou – sendo que apenas a idade avançada e suas consequências conseguem impedi-lo.

Nem Tudo São Flores, No Entanto…

“Ora, mas se eu criar uma história assim, estarei dando fim ao meu personagem”, você indaga. Eu discordo, pois um outro tom pode ser dado à história.

Vamos explorar os exemplos, primeiramente. Conan consegue virar rei e abandona a vida de mercenário, mas a sua vida não fica tão tranquila assim. O trono de Aquilônia passa a serdisputado por seus filhos em um jogo cheio de tramóias e falsidade, que só piora com a má relação que desenvolve com sua rainha, e seus súditos.

Na obra original, antes de alcançar a paz definitiva, Sam tem que lutar com os “líderes” do Condado, assim que chega ao seu lar. Claro que ele estava mais preparado para lidar com isso, mas não esperava encontrar seu povo oprimido por alguém, depois de tantos perigos e desafios… e acaba tornando-se um herói na sua terra, o líder da região.

E o Cohen? Bem… a reputação dele é tão boa que o povo sempre o procura – é por esta razão que ele não desiste de lutar, na verdade – quando, na verdade, sua própria imagem acaba causando decepção.

Entendem onde quero chegar? A questão é que há uma gama de fatores que podem levar um personagem à aposentadoria (eu só citei alguns), e que explorá-los pode dar um rumo diferente na história.

Muito mais que se envolver infinitamente em combates e perigos, como as epopéias gregas. É tudo uma questão de “pensar fora da caixa”, experimentar este novo desafio e ver no que dá.

Caso não se convença de tudo que coloquei aqui até agora, tente assistir a este filme – que vai comprovar cada palavra:

260x365_519eb7ce94b26

Que Luna os ilumine, e até a próxima!

P.S: Um agradecimento especial aos amigos da Dungeon Carioca, que me concederam a luz (e a licença) para discorrer sobre este assunto em uma grandiosa discussão. :)

Anúncios
9 Comentários leave one →
  1. gerbur12 permalink
    26/09/2013 12:26

    Cara, acho que quem mais reluta em aposentar personagens são jogadores iniciantes que se apegam bastante a eles e a suas armas e equipamentos. Jogadores mais calejados no mundo do RPG conseguem se desapegar com mais facilidade e as vezes até ajudam o mestre a criar uma cena de morte bacana para seu personagem, por exemplo.

    Agora, aqueles que tiverem mais dificuldades em abandonar seu parceiro de aventuras (não estou falando do Toddynho, rs), esses devem continuar jogando com seus personagens, uai. Qual o problema? Melhor do que ele aposentar o persona para depois fazer outro igual para continuar jogando. Deixe que ele continua jogando, com o tempo ele vai se desapegando e se abrindo para novos personagens. Cada um tem seu tempo.

    • m4lk1e permalink
      26/09/2013 13:14

      Depende, Gonçalo: já vi muito jogador “calejado” fazer fiasco por não aceitar a morte do seu querido personagem.

      Ademais, escrevi este artigo também para estimular jogadores a saírem do contexto “morte gloriosa”. Por que as histórias precisam terminar em morte, quando o personagem pode ser melhor aproveitado em um epílogo mais interessante?

  2. gerbur12 permalink
    26/09/2013 18:25

    Sim, claro. A morte não é o único desfecho possível. Como você bem ilustrou em seu post. Mas e se o jogador não quiser aposentar seu personagem? E se ele tiver muito apegado ao mesmo? Qual o problema dele continuar “na ativa”? Isso que eu quis dizer. Deixar o rio seguir seu fluxo, Respeitar o tempo de cada um. Ou isso pode chegar a ser um problema para o mestre? Em que momento esse “apego” do jogador ao personagem se transforma em problema? Abraço, ciborgue malkaviano!

    • m4lk1e permalink
      26/09/2013 20:08

      Gonça… Sem querer, você deu mais trabalho a este amigo “cybermalkavian”… :D

  3. 26/09/2013 20:16

    Uma opção para “aposentar” o personagem é fazer novos personagens e continuar jogando a campanha, mas agora sobre outro enfoque, e lidando com acontecimentos que envolvam antigas aventuras.

    Assim, o personagem ainda está presente, mas de maneira indireta (embora possa até incluí-los algumas vezes, permitindo “participações especiais” e coisas assim).

    • m4lk1e permalink
      26/09/2013 23:29

      Engraçado você ter mencionado isso, Jack. Alguns jogos já recorrem a este recurso, como Dungeon World: ao chegar no décimo nível, o PJ se aposentará automaticamente, pois não há mais nada a ser aprendido. E, para continuar jogando, o jogador cria um novo PJ, com vínculos perante o primeiro (sendo filho dele ou um aprendiz, por exemplo).

  4. gerbur12 permalink
    27/09/2013 09:41

    … E o antigo personagem (aposentado) do jogador se transforma num NPC fodão? Legal isso, hein?!

  5. 28/09/2013 00:29

    Muito legal sua dissertação Jairo, adorei as referências, principalmente a do Cohen! hehe
    Tinha lido um artigo muito legal sobre isso no blog do Diogo, o Pontos de Experiência.

    Acho muito interessante a ideia de dar um novo tom pra aventura com a aposentadoria de um personagem, mas isso precisa ser bem encarado pelo grupo.
    Uma das sessões mais memoráveis da minha turma foi o casamento e a construção da “lojinha” do bardo de um amigo nosso, com a consequente aposentadoria da vida de aventuras.

    Todos ajudaram nosso amigo a conseguir o que precisava, e ainda lutamos a unhas e dentes pra ver quem seria o padrinho, o mestre de cerimônias…

    Vida longa aos heróis, sejam eles donos de taverna ou estátuas num campo de batalha!
    :)

Trackbacks

  1. Portal Dungeon Carioca » Opinião: Pathfinder pela Devir, por Eder Marques

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: