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A “Dialética” do RPG

21/09/2013
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Eu já devo ter admitido aqui antes, mas não custa frisar novamente: sou apaixonado pela Dialética. Não aquela que Marx postulou, focada no concreto e consumível, mas aquela que rege o princípio das idéias, debates e, por que não dizer, todo e qualquer diálogo.

Desde que me vejo jogar RPG, esta corrente lógica se faz presente: ao depararmo-nos (enquanto jogadores) com a história, nós a transformamos por intermédio de nossas ações e escolhas – seja quando assumimos de fato um dos papéis (falando por ele, ou descrevendo o que o próprio vê na hora), seja quando nos fazemos entender em “off”, nos bastidores da trama.

Desde que passei a me relacionar mais profundamente com o hobby (especialmente aqueles que o defendem, o produzem e o divulgam, pela internet ou em eventos específicos), esta lógica toma uma dimensão maior: sua própria história se torna dialética, transformando-se junto com aqueles que o apóiam e o jogam. Então, para facilitar minha ilustração, vamos entrar de cabeça neste movimento?

A Tese

A primeira função da Dialética é a Tese – a idéia inicial, e ponto de partida para o desenvolvimento de um debate. No RPG, foi justamente a chegada dos primeiros jogos, ditos “tradicionais”: Dungeons and Dragons, Shadowrun, GURPS, Vampiro: a Máscara, e tantos outros. Muitos começaram a “se aventurar” com estes livros, fascinados com a novidade.

Aqui no Brasil, por exemplo, não foi diferente (tardio, mas bastante parecido). Muitos eram jovens nesta época, bem calcados em suas amizades da escola, em que partilhar um jogo concedia grande prazer da maneira como ele se mostrava. Claro que alguns aventuraram-se na criação de jogos, com o propósito de agregar valores nacionais ao recém-chegado hobby (Tagmar e o clássico Desafio dos Bandeirantes continuam na memória de muitos que aprenderam a jogar nesta época).

rpg-2

Muitos dados, planilhas… a magia dos jogos clássicos está em cada detalhe.

A Antítese

Para complementar a análise mais clara, surge no movimento a Antítese – a “anti-idéia”, o espelho da Tese (sua imagem contrária, que incita a dicussão e análise). Acredito que nós estejamos vivendo este momento: saindo da visão tradicional para explorarmos novos temas e recursos para novos jogos (os famosos “Indies”).

O público, que começou a jogar com títulos tradicionais no passado, amadureceu, e busca explorar novos temas (mais pesados, ou que carreguem consigo uma mensagem) ou formas inovadoras de interação dentro do jogo. Claro que as condições atuais para publicação e a comunhão que a internet proporciona contribuem bastante neste processo: muitas editoras independentes estão surgindo no país, e o contato entre autores e jogadores se acirra – assim como a produção de jogos nacionais se agiganta (RPGs, e também boardgames).

Pulse

Uma foto do jogo Pulse (do amigo Encho Chagas) em andamento. Os mesmos dados, para um jogo verdadeiramente criativo.

E, Por Último… a Síntese

Este seria o ápice da Dialética, o seu principal objetivo enquanto lógica: a Síntese. Em suma, o melhor resultado possível, fruto da fusão entre a Tese e sua Antítese: a idéia perfeita propriamente dita.

Esta última parte, creio eu, está parcialmente em branco. Há tanto a se desenvolver, dentro da premissa e dos movimentos pertinentes ao RPG, que fica difícil delimitar um “futuro” pleno. Mas, acho também que muitas facetas do hobby já foram desvendadas, pela criatividade dos designers de hoje, por pesquisas de aprimoramento e compreensão sobre o fenômeno e, principalmente, pelo amadurecimento dos jogadores.

E vocês, caros amigos? Arriscam um palpite sobre a “Síntese” dos RPGs? Que tal compartilharem comigo, neste humilde espaço, o que vocês esperam, vêem e desejam mudar neste processo. Quem sabe, não pincelamos um pouco mais esta história bonita e, ao mesmo tempo, evolutória?

Que Luna os ilumine, e até a próxima!

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5 Comentários leave one →
  1. 21/09/2013 22:46

    Onde você vê a OSR nisso aí?

    • 21/09/2013 22:57

      Vejo na Síntese, como parte dela, pois essa vertente nunca foi deixada para trás. É uma pedra fundamental do RPG, e creio que não deve ser esquecida (e nem o será, pela consideração de fãs como você, Diogo).

  2. Mario Monteiro permalink
    21/09/2013 23:05

    Boa reflexão.

  3. 15/10/2013 22:33

    Legal seu post Jairo!
    Eu não tenho certeza se concordo com o uso de dialética aqui. Dialética, como conheço, remete a ideia de que um só existe enquanto oposição ao outro, reforçando a existência do seu oposto, justamente por essa oposição (salve Hegel!).

    E da mesma forma que você disse na resposta ao Diogo, o novo não se opõe ao velho, o complementa. O novo usa e abusa da roupagem antiga, colocando um novo conteúdo. Ou será que usa e abusa do conteúdo antigo, pondo-o numa nova roupagem?

    Enfim, já que resolvi ser um pouco mais crítico nesse comentário, acho muito audacioso você colocar um o Pulse como “verdadeiramente criativo”.

    É claro que ele é criativo (e parece super foda!), mas o “verdadeiramente” ali desvaloriza outros jogos. Eu acho que as vezes a gente se atém muito ao criativo, ao novo, ao totalmente diferente, e acaba esquecendo um pouco da praticidade. Ou do “pão com ovo”, como você mesmo gosta de falar! hahaha

    Nessa hora lembro de um comentário muito legal do Tio Nitro no LabJogos: “O importante é escrever, dar a cara a tapa pra criar jogos! Não se preocupem em ser mega criativos”.

    É claro que a criatividade é um baita elemento importante, e talvez pra muitos seja até o principal, mas ele não é o único elemento que atrai os jogadores aos jogos!!!

    Enfim, acho melhor eu fazer um post mais elaborado sobre a supervalorização da criatividade depois. Já escrevi demais :)

    • m4lk1e permalink
      16/10/2013 00:52

      Eu concordo com você, Chico, em partes.

      Primeiro, porque a Síntese reúne princípios da Tese e da Antítese – idéias contrárias que se tornam uma com a fusão gerada pelo raciocínio. Então, “novo” e “velho” ainda existem sob uma nova roupagem, ditinta tanto de um quanto do outro.

      Segundo, eu de fato acho que ser criativo se difere do ser pragmático, e por isso defini o Pulse como verdadeiramente criativo: ele segue o propósito de outros tantos jogos (descrever um evento) por uma lógica totalmente distinta do que é circular, do que nos é esperado. É algo realmente novo e desafiador, que pode não ser prático para alguns que o testarem. :)

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