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LARP ‘A Experiencia Quimera’ – Relato de uma madrugada de sonhos

22/08/2013

No fim de maio tive a oportunidade de participar de um LARP organizado pela Confraria das Ideias. Eu já havia participado de alguns pequenos lives no Labjogos com os Luízes (Falcão e Prado), mas agora era brincadeira de gente grande.

O LARP ocorreu na biblioteca Viriato Corrêa aqui em Sampa, e durou a noite toda. O tema do live action era “Uma experiência no fim do mundo”, e pra isso já na inscrição do site recebemos formulários tematizados.

Na pegada de Inception (tínhamos que até trazer totens conosco), tudo indicava que teríamos uma vivência conjunta. E havia uma empresa que proporcionava a experiência – a Quimera.

E nós nem imaginávamos a importância que esse nome teria no final da noite quando nos inscrevemos no LARP…

A experiência

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Cheguei à biblioteca pouco antes da meia-noite, e após uma breve interação com a galera (reencontrei o Falcão e o Jonny, que havia mestrado Este Corpo Mortal pra gente no LabJogos), e depois de deixarmos os totens com um representante da Quimera, fomos encaminhados à antessala. Lá fizemos os testes de saúde mental para realizar a experiência – e eu achei demais eles terem pensado nesse nível de detalhe, tomamos um chá muito bom, e após um breve período de tempo nos deixamos levar pela imaginação…

Acordamos na Ilha de Eldorado, e de repente eu não era mais o Chico, mas sim um agente da CIA disfarçado como operário na ENADEN – indústria de energia nuclear da ilha. E, com o Chico deixado de lado, o espião começou a viver.

Muitos LARPs são o tipo de experiência em que todo mundo fala muito, e na verdade não fala nada. É praticamente um exercício de intuição e dedução, onde começamos a tentar ver o que há por trás das palavras, gestos e intenções das pessoas. A ‘Experiência no Fim do Mundo’, a princípio, não era muito diferente disso.

Vivemos em Eldorado por umas quatro horas, e foi muito legal interagir com as figuras dali. Arcebispos com atividades celibatárias questionáveis, uma quantidade de jornalistas mais expressiva que qualquer faculdade de comunicação, além de um corpo de funcionários públicos digno de qualquer “repartição” brasileira. Meu personagem criou laços com vários daquelas figuras, e com o tempo percebi que eu tinha aliados ali – a jornalista amiga (íntima) do arcebispo, o assistente do presidente, e uma jornalista americana interessada no plantio de coca. Conversamos bastante, fizemos planos, ameaças, discutimos e…

Pera, o que está acontecendo?

Gelo seco por todo o lado, e de repente um discurso em alemão é ouvido por todos. Hãããã???
Bandeiras do III Reich são desfraldadas, e de repente nós estamos na Alemanha nazista!!! Todos estávamos aturdidos, e os novos envelopes com informações dos novos personagens não ajudavam em nada. Abri meu envelope e havia escrito nele algo como:

Nova ficha Quimera

Ok, eu tava mais perdido que cego em tiroterio, e pra ajudar o ex-diretor da ENADEN agora gritava à todos sobre a necessidade de manter a pureza ariana.
Fui até um dos narradores pra reclamar do meu “problema”, e percebi que de repente ele não é mais um narrador:

[Voz suave do Prado On]”Oi, eu sou a Quimera. Sim, eu sei que isso significa algo pra você… É, você acordou, mas não conseguiu voltar pra onde deveria – seu corpo. Você está preso aqui, e se quiser voltar, terá que me levar junto… dentro de você, dentro da sua mente! Seremos um só ser a partir de então…”[Voz suave do Prado Off]

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WTF???
Olhei ao redor abobado, e só consegui ver dois “anticorpos” – criaturas vestidas totalmente de branco do meu lado, me encarando. No início do sonho fomos orientados a ignorar eles. Nós fazíamos isso – alguns mais, outros menos na verdade, mas eles, os anticorpos, com certeza não nos ignoravam. Muitos jogadores enlouqueciam com um bicho branco mascarado te encarando enquanto você tentava interpretar seu personagem…

Mas voltando à Alemanha Nazi, eu continuaria maluco se não fosse meu ponto de sanidade – meus amigos (aqueles que criei laços), que se sentiam tão confusos quanto eu. É sempre melhor se sentir louco em grupo, acreditem!

Bom, o tempo passou, e junto com o gelo seco outras névoas se dissiparam. A situação estava melhor explicada: houve algum problema no nosso sonho conjunto, e a Quimera se materializou. Enquanto alguns de nós acordaram pra consciência real, outros entraram no novo “pacote” da Quimera Inc. Nós “acordados” tínhamos que fazer os outros entenderem a situação, e, ao mesmo tempo, encontrar nossos totens para que tivéssemos um link com a realidade.

E depois de alguns minutos procurando e ao mesmo tempo tentando fazer o Goebbels entender que ele não é o Goebbels de verdade, vi que minha busca era infrutífera. Todos os outros jogadores haviam encontrado seus totens, menos eu. Só me restava a Quimera como opção, e esta eu nunca aceitaria.

E então, quando contei à ex-jornalista americana de Eldorado, atual Mariana recém-acordada minha situação, recebi uma lição de vida e vivi uma experiência incrível – que é, afinal, o objetido do LARP (e dos RPGs, e, na minha opinião, da vida).

A Mariana se ofereceu pra dividir o totem dela comigo, assim nós dois poderíamos voltar à realidade, cada um com metade das memórias e experiências da verdadeira Mariana.

Eu arregalei os olhos por um tempo, e fiquei pasmo com o que acabara de ouvir. Eu recebi, de bom grado, uma proposta exatamente igual àquela que eu havia veemente negado à Quimera. Eu nunca aceitaria alguém alojado dentro de mim, compartilhando meus pensamentos, emoções e vivências…

E PANZ! A Mariana vem e me joga essa!
Levei uma sacudida na mente e na alma naquele momento. Naquela noite, a Mariana me mostrou que podemos pensar além do nosso umbigo, e que o sacrifício pelo outro talvez seja uma das coisas mais especiais e nobres que podemos fazer.

É claro que estávamos num jogo, mas os signos, atos e experiência dele refletem na nossa vida, e juro que me senti uma pessoa melhor depois desse LARP. Não só pelo ato da Mariana, mas também por ter presenciado a audácia e criatividade do Prado, do Falcão, e da Confraria das Ideias como um todo em inovar no RPG.

Conforme o Roberto (meu camarada assistente do presidente em Eldorado e Goebbels na Alemanha Nazi) disse no nosso encontro pós-LARP, nós chegamos num momento que não havia diferença do “In Game” e “Off Game”, já que jogador e personagem se misturaram em determinado momento.

Olha que doido!!!

Meus profundos agradecimentos e sincera admiração à todos que fizeram a vivência do Fim do Mundo algo tão incrível. Obrigado e parabéns!!!

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E, desculpem os leitores, mas eu dei um pontapé no traseiro ariano do Hitler. FUCK YEAH!!!

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6 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    22/08/2013 00:35

    Uma palavra: Fodástico!

    Uma lamentação: eu não ter participado. Depois do LabJogos, minha mente se abriu completamnete!

  2. gerbur12 permalink
    23/08/2013 12:18

    Cara, os LARPs são muito incríveis. Aprendi muito com os exercícios dos LARPs dos Luízes no LabJogos em BH esse ano.

    Essa experiência que você relatou, Chicão, foi foda! Me lembrou “O exército dos 12 macacos”, “Blade Runner”, “A Origem”, “Cidade das Sombras” e muita piração de compartilhamento de mente. A piração dos limites mesmo.

    Você disse que falaram sobre a inexistência da diferença de “In Game” e “Off Game” uma vez que personagem e jogador se misturaram. Mas vocês foram além, vocês romperam os limites também dos personagens, uma vez que eles também se misturaram ao decidirem compartilhar a mesma mente. Olha que piração!

    Isso nos faz refleter sobre muita coisa. Muito interessante essa experiência! Parabéns pelo post!

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