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Labjogos, poesia, reflexão e um pouco de sentimento

16/05/2013

Seguindo com o que eu disse aqui, vou reproduzir a carta do Eduardo Caetano, e seguir com as minhas reflexões finais (finalmente) sobre o fim de semana incrível que foi o Laboratório de Jogos.

Aqui vai ela:

Eduardo Caetano

É de certo modo um fardo, o fato de eu ter de ler minha carta por último. As análises tão profundas e convincentes dos outros Seculares só tornaram a escolha ainda mais difícil. De alguma maneira, os jogos escolhidos por cada juiz, refletem um pouco aspectos de suas personalidades. E comigo, não poderia ser diferente. Como verão a seguir, me afobei com a minha análise pregressa, e acabei por deixar subentendido que eu já estava escrevendo uma carta de amor ao sussurrus.

Poderíamos afirmar que o jogo que escolhi pode ter pecado com a abordagem de um de seus temas, mas os parâmetros desta etapa não são mais os mesmos das anteriores. Ainda bem!

Pois eis aqui um jogo lindo. Se os RPG’s possuem uma linguagem autônoma, então este autor comprova com este jogo que ele domina a língua, com maestria, fazendo poesia. A começar com o titulo do jogo: sussurus. Ele pincela, sugerindo com o excelente trocadilho –  súcubos, em um jogo que deve ser jogado, assim, sussurrando – o que está por vir. Com uma sutileza, e uma sensibilidade maquiavélica, para tratar das criaturas, do erotismo, e até mesmo da subversão, Ricardo Tavares toma muitas das decisões significativas de design, de maneira sutil, espalhando-as pela conversa do autor com o leitor no corpo do texto.

Isso deixa a impressão de que ele próprio assumiu a postura de um sussurrus, para tecer o texto. Buscando trazer esta conversa para perto, à distancia de um cochicho, localizando a ficção hoje, na sua cidade, na sua vizinhança. Assim, é possível dizer que ele foi ousado. Não pelos temas que ele aborda, mas justamente por abordá-los tão de perto…

Dentro de sua proposta, a distribuição de controle narrativo é elegantíssima. A dinâmica entre os papéis, tanto os diegésicos (dos personagens), quanto os do meta-jogo (dos jogadores), são especialmente coerentes aqui.

O mesmo acontece com a resolução das cenas. Cada parte fica com a responsabilidade que lhe cabe, de forma significativa nesta relação diegética e extra-diegética. Como o rival, que em resultado negativo, narra a cena, e diminui o poder do sussurrus. Ou próprio sussurrus quando o resultado é neutro, apagando-se uma característica, metaforizando a desconstrução da personagem. Ou no caso positivo, em que o próprio jogador narra a cena, mas reforça a ligação entre ele e seu demônio pessoal… Esta dinâmica de relações, mecanizada como é, representa de forma muito bonita o sentido de cada modelo de personagem, quatro pilares que fundamentam a estrutura do jogo.

A progressiva transformação através de novas informações incorporados à lista – representando o domínio da criatura – ou a descendente espiral de se perder as características da sua personalidade uma a uma, ao ponto de não mais ser, é uma perversão da idéia de evolução, uma metáfora de desconstrução da personagem.

Mesmo assim, sei que este não é um jogo para todos. Este é um jogo para pessoas de sensibilidade aflorada, ousadas, que não temem explorar – de forma segura – alguns aspectos sombrios e latentes de si mesmos. Que entendem os sentidos subjetivos da sedução. Afinal, este é um jogo que explora os cinco sentidos de percepção da ficção.

Não poderia terminar esta carta de amor, sem dizer que este era o jogo que eu esperava ver, quando sugerimos o tema Erotismo. Este é o tipo de jogo, que eu como inventor de jogos, gostaria ter criado.  Não é o caso, eu sei.

Então ouso me apropriar dele, como se o autor conhecesse intimamente meu espírito rolista, e tivesse de forma inversa à que eu faço aqui, criado pra mim, seu jogo como uma carta de amor.

 

Talvez a leitura da carta não seja suficiente pra faze-los sentir e entender tudo o que me veio a mente naquele momento. Mas uma conjuntura repleta de diferentes fatores me fizeram ir um pouco mais longe, e vim aqui compartilhar meus próprios botões com quem quer que se interesse pelo que se passa na minha cabeça:

 

O que eu vi naquele dia, e naquele fim de semana em geral, foi um monte de gente apaixonada. Sim, apaixonada. Não por por outras pessoas (Gonça é uma exceção nesse caso, mas é uma exceção justificada), mas pelo que fazemos. Gente muito criativa e talentosa apaixonada pelo RPG, pelo LARP, pela criação, pela vivência.

E a carta do Du, que pra mim é tão bonita quanto um (bom) poema, foi o ápice de tudo isso. Pois o sentimento aqui extravasam as palavras, e só quem coloca sua alma no que faz é capaz de realizar isso. Isso – e aqui vai minha opinião sobre um debate que tivemos ali no evento – isso é arte!!!!!

E naquele fim de semana, TODOS nós fomos artistas.

E estar rodeado de artistas é estar em boa companhia, e se tem algo que eu aprendi é o valor da boa companhia. E quando me lembro do tempo em que o ano na verdade era um intervalo entre um EIRPG e outro, sorrio e sinto que na verdade não envelheci tanto assim.

Como o próprio Jão comentou comigo no evento – ainda somos crianças…

E sempre seremos.

Make Good Art copy

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5 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    16/05/2013 19:04

    Engaçado você ter citado a paixão aqui, Chico – pois as duas vezes que fui desbravar as terras longínquas do norte do país (em relação a onde moro, claro) foram impulsionadas pela paixão: a primeira, por minha amada Condessa; a mais recente, pelo RPG e tudo que o abrange.

    Apesar de torcer muito pelo Massa Crítica (por considerá-lo o sucesso que tentei alcançar com o Sombras do Brasil), devo admitir que as palavras do Du fazem jus ao Sussurrus: o livro é incrível, envolvente e convidativo (como um diário de um próprio Sussurrus). Recomendo-te demais a leitura.

    E sim, somos crianças – e como tal, nos divertimos com o maior dos artifícios humanos: a imaginação.

  2. 17/05/2013 10:47

    Vocês todos estiveram na capital mineira?
    Porra perdi duas coisas numa porrada só, o lab e uma oportunidades de conhecer vocês.
    Estou adorando a posição que BH está tomando no cenário rpgistico nacional.

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