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Vidas Cruzadas – Uma História das Sombras do Brasil (Introdução)

02/04/2013

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“Brasil, ano 2100. Um país diferente de tudo que já passou, desde a sua colonização. Ou nem tanto. Um país repleto de riquezas naturais, amplamente exploradas em troca de um alto potencial econômico. Um país em franca expansão, tanto social quanto estrutural, recuperando-se da ordem social que o despedaçou…

Dissidências entre as lideranças políticas e militares resultaram na mobilização das Forças Armadas para a reconstrução de seu país.

Grupos estudantis driblam a repressão governitsta para lutar pelos seus direitos. Encontraram na violência o poder para se fazerem notados perante as massas e, quem sabe, alcançarem seus desejos. Na podridão das periferias, o Submundo cresce. Nutrindo-se das vidas difíceis na vizinhança, grupos armam-se para manter seus mercados (seja de entorpecentes, seja de escravos e prostitutas). Em outras palavras, um futuro sofrido para muitos e próspero para muito poucos. Mas é desse contexto desigual que surge a esperança – seja ela como propulsora de uma causa maior ou, apenas, para benefício próprio…”

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Após um vôo tranquilo, Manoel se contenta em ver o vai-vém de pessoas no Aeroporto Salgado Filho. Sentia-se bem por estar em solo novamente, apesar de não ser a sua terra natal. Deixou para trás a Federação Monárquica do Grão-Pará com um propósito que julga nobre – para não dizer, no mínimo, lucrativo.

Ficou surpreso com a presença de um soldado à sua espera, um verdadeiro retrato da ordem nas bandas do Sul. Bem que haviam lhe avisado, antes de viajar.

– O senhor deve ser o Doutor Freitas.

– Sim, sou eu mesmo. Quiá, quiá, quiá.

Caminhavam pelo saguão, à guisa dos olhares cautelosos de todos, até a limusine branca que os esperava. Um homem alto e descontraído, que ostentava medalhas em seu uniforme, o acolheu como a um velho amigo.

– Espero que tenha feito uma boa viagem.

Retirou seu caderninho de um bolso qualquer, para retomar algumas notas enquanto conversa.

– De fato, uma dúzia de idéias me instigou à pesquisa. Tudo para me distrair da monotonia dos céus, quiá, quiá, quiá…

O militar consentiu, pouco antes de falar um pouco mais sobre aquela região. Algo que poderia ser facilmente resolvido com uma pesquisa rápida aos bancos de dados locais.
Por outro lado, esse enfado teve fim quando chegaram ao Centro de Pesquisas Júlio de Castilhos – um prédio tão modesto quanto o interesse do governo local pela ciência…

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“Qual é a ordem, Agente F?”

Felicia não escondia sua insatisfação em missões de campo. Desde o seu alistamento, escolheu atuar como agente da CIE para não entrar no confronto direto. Mas estava errada, e isso a frustra sempre.

Conferia os dados do alvo em seu tablet, à velocidade da busca. O indivíduo se assemelharia a muitos que já capturou em seu serviço, um punk saudosista como tantos que se escondem por aí. Poderia ser uma situação regular, se os superiores da Agência não fizessem questão dele vivo…

às portas do prédio, acenou para os agentes de apoio manterem o perímetro. Entrou calmamente, cumprimentando a vizinhança com discrição. A julgar pelo ruído das músicas no terceiro andar, foi bastante fácil encontrar o sujeito.

*toc, toc, toc.

– Que é? – O rosto, entrecortado pela fresta da porta, transpirava pleno desinteresse.

– Você deve ser o Lobo. – Respondeu, convicta e convincente. – Vim a pedido de Félix.

A expressão dele mudou, fechando a porta para se apresentar formalmente. “Gotcha“. Havia encontrado uma brecha.

Quando ele voltou, vestido e mais disposto a conversar, Felicia podia perceber o “padrão” naquele sujeito: paredes amareladas, do consumo excessivo de drogas; aparelhos rudimentares de som, e vários vinis proibidos pelo Sistema; e, como não podia ser diferente, uma jovem iludida pelos sonhos dessa “estrela”.

– Gostaria de beber alguma coisa?

– Mate gelado, por favor.

Ele voltou rapidamente, com duas cuias à mão. O argumento o havia atingido em cheio.

– Eu pensei que Félix não quisesse mais negócio comigo, depois do que aconteceu ontem…

– Ah, aquilo não foi culpa sua. – O gole foi crucial neste momento, para reavaliar o argumento. – Ele está lhe esperando lá embaixo.

Lobo ficou encucado. – E por que não subiu contigo?

– Estava com pressa, e gostaria de conversar em um lugar mais… calmo.

Deram o último gole antes de sair, o sujeito gritando à sua “esposa” que voltaria logo. Contatou discretamente os agentes via codec:

– Preparem-se para a captura.

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– Enquanto não tiveres tua senha, não poderei ajudar. Obrigada!

O telefone desligou secamente, resgatando Melissa ao silêncio acolhedor de seu refúgio. Preferia trabalhar em seu domínio, seguro graças aos negócios que mantêm com o alto escalão do governo.

Foi assim que conseguiu o espaço para montar o único domínio sexual dentro da rígida Dream.net. Com palavras doces e promessas de futuro, Melissa consegue garotas para saciar o desejo de seus clientes, seja em âmbito particular ou em orgias homéricas. No momento, a desconfiança da última ligação que recebeu a motivou a uma investigação mais profunda sobre um dos seletos membros do Sistema, o Senador Siqueira.

No entanto, uma segunda ligação mudou seus planos drasticamente.

– Melissa, é o Félix.

– Já te disse para não me contatar por este número.

A voz arfante do seu comparsa não deixava dúvidas: algo havia acontecido.

– Estou numa enrascada. Prenderam um parceiro meu, o Lobo, por contrariar as leis de Censura…

– E o que tenho eu a ver com isso?

– Tem uma coisa que vai te interessar nele… A Dream.net está bloqueada nele.

Por um momento, Melissa ficou em êxtase. A Dream.net integra todo mundo no Sul desde o nascimento, e lendas urbanas descreviam uns poucos casos de “bloqueio”. Lenda ou não, ela precisava comnprovar isso.

– Ok, faça o seguinte: há um café a um quarteirão da tua casa, a Baby Doll. Fica nele, que eu já tô chegando…

Desligou o telefone, sem dar resposta ao assustado Félix. Ligou para outro comparsa, especialista neste tipo de situação.

– Jorjão, aqui é a Mel. Vou precisar do teu serviço para agora mesmo…

*Continua…*

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2 Comentários leave one →
  1. 13/04/2013 01:06

    Agora entendo direito o que você quis dizer quando escrevia cenários para Shadowrun. Jairo, que texto incrível!

    Quando continuará?

  2. m4lk1e permalink
    13/04/2013 13:44

    Bem… Quando eu narrar o Sombras de novo, acho. :D

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