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Máscaras de Papel: O Processo RPG no Jogador

21/01/2013
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Ao meu ver, o RPG já deixou de ser “apenas” um jogo. De uns tempos pra cá, o hobby ultrapassou o escopo lúdico para despertar algo além desses limites, dentro de cada jogador.

Na Psicologia, este espaço é bem mantido por uma técnica psicoterapêutica, chamada “roleplay“. Seu propósito é, a partir da simples dramatização de um evento passado e/ou hipotético, mobilizar os conteúdos internos do cliente (emoções, desejos e anseios contidos, ou mascarados). Neste processo, o terapeuta realiza mediações dentro da cena, com o cuidado de perceber reações e limites do indivíduo frente a essa situação.

Já deu para perceber a semelhança com o jogo, não é mesmo? Então, eu proponho (na condição de psicólogo) uma visão analítica do “processo” RPG, a partir dos três momentos fundamentais que descrevem a técnica e o jogo.

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As várias faces do ser humano.

Primeiro Ato: Role-Taking

Cada indivíduo é potencialmente espontâneo, ou seja, apto a coexistir com a realidade segundo sua própria compreensão. Essa interação é mediada pelos Papéis, que podem ser definidos da seguinte forma:

O papel pode ser definido como uma pessoa criada por um ator dramático, por exemplo, um Hamlet, um Otelo, um Fausto; esse papel imaginário pode nunca ter existido, como um Pinóquio ou um Bambi. Pode ser um modelo para a existência, como um Fausto; ou uma imitação dela, como um Otelo. O papel pode ser definido como uma personagem ou função assumida na realidade social, por exemplo, um juiz, um médico, um deputado (…) O papel é uma cristalização final de todas as situações numa área especial de operações por que o indivíduo passou (por exemplo, o comedor, o pai, o piloto de avião) (MORENO, 1997, p. 70)

O primeiro passo, ao relacionar-se com um papel, chama-se Role-Taking – a tomada de um papel pré-estabelecido. Esta parte do processo é mais visível quando o sujeito está aprendendo a jogar RPG: espelha-se em um herói/personagem que seja de seu gosto, para colocá-lo na história, dar-lhe uma base do que fazer.

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O contato com o “mundo de perigos” do RPG nem sempre é tão saudável… ^^

Segundo Ato: Role-playing

Com o papel já definido, cabe a cada um dos jogadores desempenhar o seu papel na história, de modo semelhante a como fariam com um dos vários papéis que compõem a sua vida (estudante, filho, pai, trabalhador, pedestre… por aí vai). É por este papel que o jogador será reconhecido dentro da história, e por suas possibilidades que o seu poder decisório irá fluir (se um paladino, por exemplo, é instruído a sempre proteger feridos e indefesos, ele fará o mesmo com um monstro nestas condições?)

Esta parte do processo é bem interessante, por apresentar um pouco das facetas do jogador. É o pensamento e personalidade do último em ação, ainda que em um papel incomum ou fantasioso. Ao responder os dramas da história, o seu grau de envolvimento na mesma se eleva – e alguém atento (leia-se o Narrador, na maioria dos casos) pode revidar este comportamento, com Recompensas (“Whoa, Subi um Nível!”) ou Reprimendas (“Como assim, eu fui preso?”).

Em outras palavras, isto é o que move o jogo e, ao mesmo tempo, conduz o sujeito aoaprendizado – seja de algo novo, ou sobre si mesmo.

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Terceiro Ato: Role-Creating

A partir da tomada de um exemplo, e de sua atuação, o sujeito aprende a construir seus próprios papéis, com novas possibilidades e limitações. É neste momento em que o jogador se “recicla”, readaptando idéias já trabalhadas em um conceito novo (como, por exemplo, aquele ladrão renegado que resolve agir em prol da justiça, ao seu próprio modo).

É neste ponto que a maturidade do jogador aflora, seu poder decisório mostra-se fortalecido pelas decisões que enfrentou na história, e o aprendizado que teve se consolida – não apenas na história, como em seu todo (aquele jogador que joga apenas com Magos pode se tornar mais cauteloso, e apto a resolver democraticamente seus problemas, por exemplo). Ou seja, torna-se mais espontâneo e criativo.

Conclusões

A julgar pelo crivo dos critérios acima, confirmo as palavras que coloquei logo no início do texto: o RPG tornou-se algo maior que o lúdico permite; tornou-se um processo que estimula a natureza humana de compreensão, partindo da fantasia para outros conteúdos internos.

Algo que pode ser muito bem ilustrado pela seguinte vídeo, que apresenta o ápice evolutivo do RPG: o LARP (Live Action Role Playing): http://www.youtube.com/watch?v=vhvcqaYNPfs

Que Luna os ilumine, e até a próxima!

 

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8 Comentários leave one →
  1. Aforen permalink
    21/01/2013 01:31

    Como professor de Educação Física e pesquisador na área de Lazer, jogo e ludicidade, defendo que o RPG sempre foi somente um jogo, e como somente um jogo sempre apresentou sua força lúdica e tudo o que você apresenta no texto em teorias da psicologia, e muitas outras coisas mais.

    Não desmerecendo sua análise, bastante valiosa, mas a ideia (pelo menos do que entendi de seu texto) de ir além do jogo e do lúdico para encontrar benefícios no RPG, não me agrada; não é preciso ir além do jogo e seu caráter lúdico (em essência nem é possível, se não nem seria mais RPG) para se encontrar grandes possibilidades de desenvolvimento humano.

    • m4lk1e permalink
      21/01/2013 08:30

      Compreendo seu ponto de vista, caro Aforen. A idéia do post é retratar um grau evolutivo do RPG, desde os seus tempos de “wargame”. Suas possibilidades são potenciais derivados da imersão no jogo, facilmente comparáveis ao processo de crescimento e muito superiores a outros tipos de jogos, na minha opinião (como videogames, por exemplo).
      E, principalmente, a idéia foi colocar isso em discussão – então, por favor, contribua como quiser neste tópico :)

  2. Aforen permalink
    21/01/2013 09:47

    Esse ponto sobre evolução desde war games é importante para a compreensão de sua análise, em verdade imaginei que você se referia a isso no texto, mas por não estar claro, achei importante instigar.

    Precisamos mesmo de mais debates envolvendo essas discussões no meio RPGista!

  3. 21/01/2013 11:21

    Concordo com o Aforen…. O RPG mudou ao longo do tempo (Evoluiu no sentido carnavalesco) e isso é notório.

    Mas é preciso tratá-lo como simples jogo e divertimento que é, sob pena de assumir uma postura lirista e elitista (que é comum em muitos praticantes). Lidar com a Fantasia e o Ludismo é sim uma ciência ampla e pertinente, mas prefiro manter nosso querido jogo em seu patamar de origem: Um simples jogo, muito divertido.

    Por incrível que pareça, acredito que fazê-lo “mais comum” é muito mais benéfico para sua divulgação e crescimento, do que fazê-lo “diferenciadamente funcional” ou mesmo “científico”.

    Minhas 2 moedas sobre o assunto! Parabéns pelo texto.

  4. gerbur12 permalink
    21/01/2013 22:34

    Excelente texto, mestre Jairo!

    O RPG realmente evoluiu muito e hoje percebemos que ele transcendeu os limites do lúdico e a categoria de um simples jogo. Percebemos que o RPG tem seu lado educacional (sendo usado em escolas e até empresas com essa finalidade) e mesmo terapêutico, por exemplo!

    Em outro post comentei que comecei a jogar RPG para assumir um outro papel, queria vivenciar algo diferente, a experiência de algum personagem qualquer que não fosse eu mesmo. Ironicamente o personagem que criei foi exatamente igual a minha pessoa, rs. Freudiano, não?

    Que o RPG continue se expandindo e ampliando suas fronteiras levando seus benefícios que certamente vão além da diversão e do entretenimento.

    Parabéns pelo post!

  5. 21/01/2013 23:54

    Muito legal, Jairo! Acho que realmente, quando olhamos para o “jogo” mais profundamente, percebemos que há muito mais coisas acontecendo ali do uma simples conversa entre amigos. Se o homem é um animal simbólico, a cabeça de um jogador de RPG é uma arena perfeita para o embate de idéias: assimilação, reconhecimento, resignificação. O Du poderia nos falar bastante da definição de RPG como uma “mídia inter-imersiva”, uma “Zona Autônoma Temporária”, que são conceitos bem legais. Eu pessoalmente atribuo ao jogo o status de arte.
    Agora, acho que nada disso altera ou prejudica a sua função de puro e simples entretenimento!. Assim como toda literatura, um jogo pode ser lido de várias maneiras.

  6. 22/01/2013 13:19

    Eu curto qualquer análise sobre o RPG, simplesmente por uma fome avassaladora de entender e absorver o máximo possível as mais diversas facetas do hobbie. Mas sei que ao final pra mim é um jogo, um hobbie, entretenimento. Maravilhoso e sedutor, mas ainda assim entretenimento. Acredito que o Jairo teve a intenção não de elevar o status quo do rolista, mas de fornecer uma analise sob certo ponto de vista, que ao final, pra mim, é útil pra a minha finalidade, que é discutir e criar jogos. Posso muito bem tomar as três instâncias que ele citou e macanizá-las num jogo, no processo de evolução, ou para elencar a importância de uma cena, por exemplo.

    Eu pessoalmente adoro toda a discussão cabeçuda, acadêmica ou que force os limites do meu entendimento sobre a parada, mas creio que isso é parte da meu próprio tesão nessa masturbação intelectual. Acho que estas discussões podem e devem ocorrer, mas não devem ter o intuito de balizar verdades ou fatos sobre o hobbie, e sim orbirtar o núcleo do que realmente importa, que é O Jogo.

    RPG como Arte/Educação/Ferramenta Psicológica/Símbolo/Espírito da Época são discussões interessantes, desde que não se sobreponham, ou se tornem mais importantes, ou elitizem etc…

    Por exemplo: É importante que cientistas e médicos estudem a fundo as influências géniticas e hereditárias de certas doenças, mas o que realmente importa é que a ciIencia avance e a humanidade tenha uma qualidade de vida melhor. Com o tempo o conhecimento ou as suas ramificações se tornam presentes e lugar comum no mundo (tipo a penicilina décadas atrás X hoje).

    Tipo RPG sem mestre duas décadas atrás vs hoje. Houve uma discussão cabeçuda, cheia de referIencias acadêmicas sobre arte/literatura/ciência que se amalgamaram pra que um Morningstar da vida elaborasse um Fiasco, mas o que importa mesmo, é o Fiasco, que é puta divertido!

    Blagh, empolguei e falei demais…
    =]

    Massa o texto e a discussão. Sempre me chamem pra umas dessas!

  7. 22/01/2013 16:24

    Nossa Jairo, você não imagina a felicidade que eu fiquei em ler seu post.

    Lembra das conversas que tivemos sobre o Quintessência, na qual eu comentei contigo que queria focá-lo numa jornada pessoal? Você transformou meus pensamentos em palavras cara. Muito obrigado!

    A impressão que me deu é que o pessoal tá entendendo que você tá falando da evolução do RPG… mas pra mim você tá falando sobre a evolução do jogador!

    Você narrou exatamente como foi a minha própria transformação como jogador, o aprendizado e a ampliação de horizontes:

    “Em outras palavras, isto é o que move o jogo e, ao mesmo tempo, conduz o sujeito ao aprendizado – seja de algo novo, ou sobre si mesmo”.

    Exato cara!

    O RPG é um jogo – entretenimento, mas a dinâmica dele proporciona esse tipo de transformação, e, nesse aspecto, há uma superação das suas próprias características.

    “A partir da tomada de um exemplo, e de sua atuação, o sujeito aprende a construir seus próprios papéis, com novas possibilidades e limitações. É neste momento em que o jogador se “recicla”, readaptando idéias já trabalhadas em um conceito novo (como, por exemplo, aquele ladrão renegado que resolve agir em prol da justiça, ao seu próprio modo).”

    Genial cara, concordo totalmente contigo, baseado na minha própria experiência!

    Gosto muito do exemplo do Apollo, personagem do Battlestar Galactica que é um paladino da justiça. Ele é um esteriótipo, mas ao mesmo tempo é um personagem super rico e interessante. Na busca de seguir o que considera certo, ele esbarra em mil situações de confronto com outras pessoas que também acreditam estar seguindo o certo.

    E são as escolhas, os sacrifícios que nós simulamos nas nossas sessões de RPG que são tão significativas pois nos colocam em situações de dilema!

    E cara, como a gente aprende nesse hobby, sobre a vida, o universo e tudo o mais, e principalmente sobre nós mesmos!

    Parabéns pelo post Jairo, espetacular!

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