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Um anjo, um demônio, a Morte, e algo entre eles.

19/01/2013

Para a maioria, deve parecer fácil o trabalho de um ceifador. É contar o tempo de vida do sujeito, providenciar o falecimento, e estar lá para guiar a alma desencarnada para o além. Não imaginam como é difícil manipular o destino de forma que as circunstancias fatais de cada um ocorram na hora exata. Ignoram o cuidado que se deve ter ao recolher a alma, para garantir que cada pedacinho seja reunido e esteja dentro do pote quando ele for lacrado, para depois ser corretamente rotulado e encaminhado. Nem suspeitam da existência de certos tipos de almas que, libertas de seus receptáculos mortais, explodem em milhões de pequenos fragmentos, nem sempre sólidos, que podem levar dias para serem reunidos. Almas pertencentes a seres que não são deste plano material, que parecem ter vindo para cá apenas para complicar o ofício de ceifador. Sim, porque não obstante as frequentes mortes não-agendadas que produzem ao longo de suas vidas terrenas, quando eles mesmos encontram um fim transformam-se em uma bagunça nojenta, que perturba a ordem e embrulha o estômago. Nessa hora, não há nada que um ceifador possa fazer a não ser cumprir sua função de limpeza, o mais rápido possível. Afinal, sua posição na hierarquia é bem definida, e ele sempre deverá se acomodar a desígnios superiores, mesmo que isso entre em choque com destinos que já estavam escritos.

Para o ceifador da área 452 – vulgarmente conhecida como Texas – a interferência dos Anjos nos assuntos terrenos é particularmente traumática. Há muitos anos, ele foi obrigado a servir de instrumento para uma punição. Um anjo e um demônio encarnados haviam desafiado a lei celestial e gerado uma prole: um nefilim. A sentença era de morte para ambos, e a Morte foi ao seu encontro. A criança, entretanto, era inocente e não poderia ser condenada pelos delitos de seus pais. Outro membro de sua família terrena teria que se tornar seu tutor, e a única pessoa disponível era a sua avó. O problema era que o destino da velha já estava selado, e, se fosse cumprido, logo o órfão ficaria novamente desamparado. Isto, de acordo com a sentença divina, não poderia acontecer de maneira alguma. Como sempre, as hostes celestes não consideraram o impasse mais do que um pequeno pormenor, e coube ao ceifador a tarefa de encontrar uma solução. E ele fez a única coisa que poderia fazer: esticou a vida da velha até onde pôde.

Contando com uma proteção sobrenatural, a velha desfrutou de uma vida longa e arrojada. Criou o neto em seu rancho, infundindo-lhe todos os valores da ética texana. O garoto cresceu forte e saudável, ignorando sua verdadeira natureza. Seria quando completasse 21 anos – sem saber, já que também ignorava sua verdadeira data de nascimento – que sua vida mudaria para sempre.

Deserto

1974. Era noite, e o ceifador rondava o rancho. Ele estava ansioso por se ver livre daquela situação aberrante, para devolver a ordem ao mundo e colocar o trem do destino de volta nos trilhos. Desta forma, ele também se livraria daquela maldita dor de cabeça! E ele estava confiante, pois havia encontrado uma maneira de contornar a barreira que ele mesmo tinha levantado: para causar uma morte que não estava na lista, seria preciso um assassino que também não estava. E o seu instrumento acabava de chegar à cena do crime, se esgueirando sorrateiramente pelas sombras: era um vampiro. Mais precisamente, uma vampira.

A vampira era uma veterana, vivia confortavelmente em seu refúgio, com serviçais que lhe atendiam a todas as necessidades e caprichos. Mas naquele dia, ela tinha tido um sonho. Um augúrio, que lhe falava das estrelas no céu do deserto, e lhe despertava a emoção da caçada. Que lhe apontava um certo rancho, com uma velha, uma presa perfeita. E uma luz estranha, vinda do céu. Quando despertou naquela noite, a vampira decidiu que aquela seria uma noite de caçada. Ela foi para o deserto, e logo se viu exatamente no local do sonho. Um sinal? Ela só descobriria se decidisse agir.

Enquanto o perigo rondava, o Nefilim adormecido entretinha sua insônia assistindo TV. Foi quando viu que sua avó tinha acordado, e estava na sala, ao lado do cabideiro da porta da frente, pegando um casaco e já armada com uma espingarda. “Tem alguma coisa lá fora assustando os cavalos.”  Não conseguiu alcançá-la antes que ela abrisse a porta, e quando ela o fez, ele experimentou o primeiro calafrio daquela noite. Ali, em pé na soleira da sua casa, estava a Morte. E ela estava tocando com sua foice a testa da sua avó. Suas pernas fraquejaram, mas ele reagiu e a alcançou. “Vó, cuidado!” Ela não tinha visto nada. Mas para ele o véu estava começando se romper.

A velha manteve-se firme em seu propósito de espantar qualquer invasor de sua propriedade. O neto se viu obrigado a acompanhá-la. Estavam a alguns passos do estábulo quando a vampira revelou sua figura feminina e monstruosa. A velha se assustou, e disparou a espingarda, precipitada e desastradamente. A vampira sorriu. O garoto não seria páreo para ela, era hora de agarrar aquilo que viera buscar. Ela saltou, em um bote mortífero, direto na garganta da avó. A bênção da velha terminava ali. Mas, simultaneamente, a vampira sentia um golpe que não imaginava ser possível. O garoto que ela planejava atacar em seguida, contando que ele ainda estivesse em estado de choque, era agora um Nefilim ardendo em fúria, que lhe esmurrava as costas, partindo sua coluna ao meio. Ela não poderia recuar. As duas tombaram juntas, as presas da vampira cravadas no pescoço da velha, da qual a vida se esvaía. O garoto recuperou seu equilíbrio e voltou-se para elas. O olhar flamejante. Ele gritou, com toda a força de seus pulmões. A terra tremeu. E ele perdeu os sentidos.

Meio-dia. A luz do sol penetrava o cânion estreito e atingia o fundo, algo que acontecia apenas nesta hora do dia. O garoto acordou, e percebeu que suas roupas eram farrapos. Seu corpo doía. Ele ainda não tinha idéia de como tinha chegado ali, e sua memória apenas começava a recuperar as imagens da noite anterior. A primeira que ficou nítida foi a da sua avó ensaguentada e inerte no chão. Depois ele se lembrou de um rosto amigo, um colega da escola que também era seu vizinho. Em meio ao caos da noite passada, ele se lembrou de tê-lo visto em seu rancho, e se lembrou de estranhar muito sua presença súbita ali. E o motivo pelo qual a memória acerca do vizinho foi desencadeada é que o mesmo estava bem na sua frente agora, em carne e osso. “Calma. Estou aqui para te proteger, e estarei sempre a partir de agora.” Ele não tinha certeza se estava entendo o que o colega lhe dizia. Na verdade não tinha certeza de nada, pois minutos antes a mesma pessoa estava falando sozinha, discutindo com algum ser imaginário a que chamava de “ceifador”. Ele tentou colocar seus pensamentos no lugar, mas seu vizinho louco continou falando: “Você é um Nefilim, seus pais eram um anjo e um demônio, que foram condenados à morte por você ter nascido. Eu sou o anjo que foi encarregado de te guiar.” Ele reagiu: “Não. Isso não pode ser verdade! Isso não pode estar acontecendo!”

O ceifador sorriu. “Ah, a ignorância é uma bênção!”


Isto resume, aproximadamente, o conteúdo de um jogo de Este Corpo Mortal que se estendeu por três sessões na semana passada, em que eu tive o prazer de mestrar para meus chapas Danilo e Buda, junto com meus primos Natan e Lucas. Nesse caso, achei que a narração falaria mais pelo jogo do que uma resenha. Alguma coisa dos bastidores, no entanto, vocês podem achar interessante:

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Quando decidimos fazer um jogo sobre seres sobrenaturais – e o ECM caiu como uma luva – os primeiros personagens concebidos foram os dos meus primos: o Nefilim e o Anjo. Depois, quando expusemos a idéia para o resto do grupo, o Danilo resolveu encarnar uma Vampira, e o Buda ficou pensando, pensando, e disse que queria fazer algo neutro e sombrio. Daí eu lembrei de Supernatural, a série, e sugeri: porque você não joga como a Morte? Ele topou.

O interessante do sistema de Este Corpo Mortal é que você não precisa ter nada muito definido para começar. O jogo começa com o grupo discutindo a premissa e preenchendo a ficha-tema para aquela mesa (sim, uma espécie de ficha para o jogo, não para os personagens). Durante o processo, alguns fatos sobre o sobrenatural no cenário são definidos pelos jogadores em debate, e muita, muita coisa é deixada em aberto. Então, fichas são distribuídas aos jogadores para representar, entre outras coisas, pontos de magia. Depois de iniciada a narrativa, os jogadores podem gastar seus pontos de magia para acrescentar fatos ao documento-tema, e desta forma, definir ou detalhar melhor os poderes que os personagens dispõem (não só os dos seus peronsagens, mas qualquer um que apareça no jogo, inclusive os do mestre). E o mais legal: para cada poder novo, outro jogador tem que definir um preço para aquilo. Portanto, narração e criação do cenário correm em paralelo, e ambos são parte do jogo. Daí, como todos os jogadores tem uma quantidade igual de fichas de magia, é perfeitamente possível que um  protagonista seja um mero mortal e o outro seja, digamos, um deus. Se o jogador que controla o deus começa a abusar de seus poderes, basta que o jogador do personagem mortal invista alguns pontos de magia em limitações para os poderes do deus, da forma que mais facilitar a vida do seu mero mortal. É um jogo de criação colaborativa sem limites, e isso é algo muito divertido!

No entanto, como todo jogo aberto, ele requer um pouco mais de esforço por parte de seus jogadores no sentido de manter a coesão da narração. No nosso caso, por exemplo, dois personagens foram criados conjuntamente, enquanto a vampira e o ceifador foram concebidos depois, sem tanta preocupação em  integrar o ‘mesmo mundo’. O resultado foram personagens excelentes, mas desconectados. Para a história funcionar eu tive que, como mestre, direcionar um pouco as coisas. Pedi que a Morte tivesse uma ligação com ao menos um deles (algo que o livro recomenda fortemente), e concordamos com a história da proteção da avó, que por sua vez era uma das paixões do nefilim (paixões são o que definem as motivações dos personagens em ECM). Sugeri também uma reinterpretação do vampiro para encaixá-lo na definição de demônio, já que estava estabelecido que anjos e demônios seriam dois lados da mesma moeda. Surgiu a partir daí a ideia de que esses seres teriam que nascer na Terra para atuar aqui, e que a Morte também estaria encarregada de levá-los quando morressem. Pronto, com alguma acrobacia estavam todos amarrados. A grande vantagem desse jogo é que, como as definições do cenário passam pelo crivo de todos os participantes, então não existe a menor chance de o mestre ou quem quer que seja frustrar as expectativas dos demais. A única saída para qualquer diferença é a cooperação, e daí o resultado em forma de narrativa é riquíssimo.

Outro obstáculo para o nosso jogo foi nossa inabilidade inicial em utilizar o sistema de resolução de conflitos. O que acontece é que não há dados, tudo é resolvido com base em apostas de fichas. Um personagem dispõe de quatro ‘capacidades’ (Força, Graciosidade, Vontade e Sagacidade) e algumas ‘aptidões’, escolhidas e definidas pelo jogador (‘vampiro’, por exemplo, pode ser uma aptidão, assim como ‘boxeador’ ou ‘hacker’). Quando há dois lados com objetivos conflitantes em uma cena, o mestre convoca as apostas. Daí cada lado escolhe as ações que deseja realizar durante o conflito (até 4 ao mesmo tempo), e investe em segredo suas fichas de ação em uma capacidade, que tem que ser associada com uma aptidão. A soma de capacidade, aptidão e a quantidade de fichas aplicada indica a ‘potência’ daquela ação, que é comparada com  a ‘potência’  das ações oponentes. Esse sistema me pareceu muitíssimo interessante quando li sobre ele a primeira vez, mas o que eu não tinha noção era como as coisas iam se complicar na mesa. O problema é que cabe apenas ao mestre definir, depois de reveladas as apostas, quais ações estão se opondo, na forma de ataque e defesa, e quais tem sucesso ou fracasso automático por falta de oposição. Parece simples, mas é uma tarefa inglória, poque depende exclusivamente da interpretação que o mestre faz dos fatos, e que os jogadores nunca vão conseguir saber de antemão. Resultado: é impossível para os jogadores estabelecer uma estratégia de alocação de fichas que possa lhe valer o conflito. Especialmente quando o mesmo envolve personagens do mestre! Detalhe: para cada personagem em um conflito, o mestre tem que preparar uma ficha completa! E a confusão não pára por aí: definidas as ações vencedoras e perdedoras, o resultado do conflito e as consequências para cada parte também tem que ser arbitrados subjetivamente. Minha recomendação: evite ao máximo o uso de conflitos e resolva a maioria das coisas com base na conversa. Se decidir usar um conflito, estabeleça de antemão quais capacidades se opõem naturalmente (preferencialmente força vs. força; vontade vs. vontade, etc.) e use uma regra de maioria de ações bem sucedidas para definir vencedores.

Flexibilizações à parte, Este Corpo Mortal é um sistema inovador, que amplia bastante os horizontes dos RPGs, e se os jogadores forem como eu, nerds do tipo que se esbaldam discutindo o sexo dos anjos, pode ser, sim, bastante divertido.

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7 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    19/01/2013 22:51

    Se eu não estivesse tão entretido com o Postmortem, faria questão de conduzir uma história no ECM. Um sistema genial, que me ensinou muito sobre o RPG apenas na leitura.

    Excelente história, Jão – só quero saber quando é que eu, e os demais membros deste grupo, teremos a chance de vê-lo narrando… :)

    • 20/01/2013 02:58

      Ora, meu caro, agora que o Chico nos abriu as portas do Roll20, tudo o que precisamos é de organizar uma mesa virtual!

  2. 20/01/2013 06:22

    Mesa virtual… num eskece deu

  3. 20/01/2013 09:40

    Cara, eu jurava que estava lendo um texto do Terry Pratchett sobre o Morte no começo desse post! E olha que o Morte é meu personagem favorito em Discworld, o elogio não é pouco.

    Massa demais Jão!

    Parece ter sido uma baita sessão, e o ECM parece ser muito interessante mesmo! Afinal, você e o Jairo já o elogiaram bastante.

    E caramba ,quando sai essa sessão aí?
    To com o Mozart (stalker) nessa! hahaha

    • 20/01/2013 11:20

      Bem, no nosso jogo a Morte foi concebida e interpretada pelo Buda, eu apenas tentei transmitir a personalidade do personagem dele no texto.
      Quanto à sessão, você e Mozart se somam a uma lista de pessoas que estão afim, então. A questão será coordenar a agenda pra isso acontecer…

  4. gerbur12 permalink
    20/01/2013 18:26

    Mestre Johnny, pode me incluir nessa sessão virtual aí!

    O jogo parece ser DUCA!!!

    E parabéns pelo texto, a sessão parece ter sido fantástica mesmo. Apesar das dificuldades relatadas sobre os personagens serem, a priori, disconexos entre si, você como mestre amarrou muito bem todos eles na história e criou um mundo bastante crível. Parabéns!

  5. Mamangava permalink
    23/01/2013 09:52

    Muito bom, Jão! Tanto a narrativa da sessão quanto as observações acerca do sistema!
    Abraços!

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