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Campanha em Moria – Cena 16

18/11/2012

Cena anterior: Campanha em Moria – Cena 15

– Comigo Toph, venha comigo. Chegou o momento.

Nordri falou no seu tom de voz que não admite contradições, e mesmo explodindo de energia e ansioso para a batalha, me concentrei no meu dever e segui meu professor.  Descemos degraus e degraus, sempre cruzando com passos que corriam na direção contrária. Meus irmãos e amigos corriam na direção da morte, enquanto nós nos dirigíamos aos empoeirados aposentos dos Druidas da Montanha.

Entramos na nossa sala e Nordri disse-me para esperar. Eu ouvia Korf voando ao meu redor, mas ele devia estar agitado demais, pois não sentou no meu ombro como de costume.

– Vamos iniciar o encantamento mais poderoso da nossa Ordem, e eu precisarei do auxílio de você, Portador do Anel. Dizem que bons aprendizes frequentemente superam os mestres, mas você foi além com o Khevala, Toph. Sinto-me orgulhoso.

O elogio me pegou despreparado, e fiquei comovido com as palavras de meu Mestre. Nós anões não somos um povo que costuma expressar-se através das palavras – normalmente fazemos isso através das nossas ações e obras. Não tenho nem lembranças de meu pai dizendo algo parecido para mim.

– Obrigado Mestre. A caminhada ainda é longa, e só me resta torcer para que eu alce ao seu nível de sabedoria. O Anel foi conquistado através de muito esforço, mas receio que ele tenha chego tarde demais. Seu verdadeiro dono não caminha mais entre nós.

– Não existe tarde demais Toph, e você deveria saber bem disso. Nossa Ordem não é justamente aquela que oferece a segunda chance ao nosso povo? Anéis mágicos não são itens comuns. Por mais estranho que pareça o que vou dizer, talvez ele só tenha aparecido agora justamente pela morte de nosso Senhor. As vezes temos que perder algo para ganharmos outra coisa no lugar. O portador do Topázio agora é você, e faça bom uso dele enquanto puder!

Enquanto conversávamos Nordri remexia em pedras, cinzéis, óleos e incensos. Logo todo o ambiente estava tomado com o cheiro forte de fungos sendo queimados.

– Agora Toph, preciso que você medite e conecte sua magia à minha. Vou realizar o Encanto da Montanha e entrar em torpor. Mas eu só vou conseguir sustentá-la, você que assumirá a forja! Faça o seu melhor e alcance a compreensão rápido. E quando achar que está na hora, volte ao seu corpo e rompa a magia à força. Com sorte meu corpo resistirá.

Respirei fundo. Deixei o aroma dos cogumelos entrarem nas minhas narinas e poros, e comecei a meditar. Nordri começara a usar o cinzel no chão de pedra, e conforme eu ia respirando de forma cada vez mais leve, comecei a ouvir o barulho de pequenas pedras sendo jogadas ao chão. Concentrei-me no que fazia e logo as batidas de tambor começaram. Palavras em khuzdûl vinham à mim da boca de meu professor, e eu sentia respingos de sangue na minha barba e no meu rosto. Gotículas voavam das mãos cortadas do Mithril.

Quando eu já não conseguia mais discernir meus pensamentos das palavras que ouvia, quando o incenso tornou-se o ar que respirava, no ponto que minha própria consciência parecia intangível e distante – uma mistura de Toph, Nordri e a própria Montanha, senti a magia correr através de mim. A ligação estava feita. E então fiz algo que não fazia há muitos e muitos anos – abri meus olhos.

E vi. Vi imagens de um lugar que há muito tempo habitava, mas nunca antes avistara.  Vi um mundo de luzes e sombra onde antes só havia escuridão. Vi.

Eu estava de fora de uma muralha de rocha pura, linda e imponente. Milhares de orcs estavam ao meu redor, uma multidão hedionda que ansiava por sangue. Estandartes com uma vara azul pontilhavam as fileiras, e como se alguém subitamente houvesse destampado meu ouvido, comecei a ouvir tambores, gritos e entrechoques de armas. Eu estava no 7º Pavimento, e a cena diante de mim era ao mesmo tempo linda e terrível.

Virei minha cabeça, e vi ao meu lado uma fileira de Pedras-Vigias – rochas esculpidas como anões em formas toscas, guardando o antigo caminho principal de Khazad-dûm.  Enquanto reparava nas formas e cores incomuns das Pedras, senti uma sensação estranha, como se todas olhassem pra mim.

E olhando para os rostos daquelas criaturas, que cada vez mais pareciam-se mais familiares, finalmente alcancei a compreensão, elemento vital para a realização de qualquer encantamento.  Elas estavam me esperando, ansiosas. Esperavam-me para o pagamento de contas, para darem o troco nas criaturas que ousaram profanar a morada de nosso povo.

Levantei meus próprios braços rochosos e comecei a me movimentar. Abri minha boca tosca e recitei:

– Parte da Montanha! Parte do exército!

Meu exército então se moveu comigo, e caímos como um avalanche nos nossos inimigos. As expressões de horror e gritos de medo eram só um adicional, enquanto esmagávamos e partíamos as fileiras à frente. Demorou minutos para que o exército orc finalmente entendesse o que estava acontecendo, e muitos já haviam virado geléia debaixo de meus punhos.

Nosso estranho exército abriu caminho até o portão principal, e, para meu desespero, um aríete gigante estava estacionado na frente dele. Nosso portão estava totalmente torto, e trolls o golpeavam impiedosamente com marretas e mesmo com as mãos nuas. Eles estavam fortemente armados, e talvez em outros tempos eles até poderiam parecer intimidadores .  Mas não hoje.

Com a velocidade de uma rocha que se desprende da encosta da montanha pulei sobre o primeiro, e o golpeei impiedosamente no crânio, até que seu elmo ficasse mais deformado que seu rosto. Menos um.

Mas o mundo não parava ao meu redor, e meus companheiros logo estavam cercados, sendo atingidos com fogo, picaretas e martelos. Suas pernas estavam enegrecidas pela brasa fumegante, flechas perfuravam seu torso, mas o combate continuava. Muitos orcs caíam, muitas aranhas eram arremessadas sobre seus aliados, mas parecia que aquela horda não tinha fim.

Enquanto eu lutava com o segundo troll vi que o portão começara a ceder, e antes em que eu pudesse fazer qualquer coisa, levei um susto quando três anões caíram com um baque ao meu lado. Eles haviam pulado de cima do aríete, e aproveitaram o espaço que eu abri para engajarem os trolls em combate corpo-a-corpo. Que coragem esses bravos guerreiros tinham!

– Barûk Khazâd!, Khazâd ai-mênu! – gritaram os guerreiros, e para o meu deleite vi pela primeira vez meu amigo Tyr e os irmãos Lóni e Náli. E nós lutamos lado a lado.

– Parte da Montanha! Parte do exército!

Flechas vinham do exército orc, e aproveitei meu corpo para fazer cobertura a meus amigos. Fui atingido por flechas flamejantes, mas consegui derrubar o segundo troll com o peso de meu corpo. Náli terminou o serviço, e quando íamos alcançar o terceiro e último troll, o pior aconteceu: o portão caiu.

Com um urro derrubei a besta, e Lóni e Náli aproveitaram a chance e cortaram os tendões dos calcanhares da criatura. Tyr pulou e cravou seu machado na placa de ferro do peitoral do monstro. E o golpe foi mortal. Mas antes de morrer o troll conseguiu apanhar os dois irmãos em cada mão e apertou-lhes com todo o restante da força descomunal que ainda possuía, ceifando lhes a vida.

Ouvi um grito vindo do lado de dentro do portão, e de repente o capitão Frár surgiu numa raiva descontralada. Antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, ele saltou sobre o corpo de seus soldados e começou a degolar cada ser vivo num raio de 5 metros. Tentamos ir até ele para ajudá-lo, mas a razão já havia abandonado o capitão, e não demorou muito para que um lança inimiga atravessasse seu corpo.

– Para o Segundo Salão! – Ouvi a voz de Wiglaf vir de dentro da Muralha. – Desçam todos! Defendam o pátio!

Tyr seguiu correndo para dentro, e acompanhando-o com o olhar, vi meus outros amigos se dirigindo ao local de encontro. Consegui ver cada um deles – humano, elfo e elfa, e me senti feliz de ter tido essa oportunidade. Nordri me deu um presente muito valioso.

Então olhei para trás e o meu exército de rocha estava minguando. Dois de meus companheiros estavam totalmente tomados em chamas, e outros três tinham tantas flechas no corpo, que rachaduras eram visíveis espalhadas da cabeça aos pés.

Nosso papel havia acabado, eu falhei.

Fechei meus olhos e concentrei-me em sentir a conexão da magia. Eu precisava achá-la rápido e terminar o encantamento de Nordri o quanto antes. Consegui isso sem me demorar e tossindo e cuspindo fumaça voltei a sentir a sala da Ordem.

Levantei com dificuldade devido ao corpo dormente, e pedi ajuda à Korf para me orientar, mas não ouvi nada em resposta. Ele devia ter saído da sala por algum motivo.

Um grunhido de dor foi o bastante pra eu encontrar meu Mestre, e com muito esforço consegui canalizar magia o suficiente pra quebrar o encantamento de Nordri. Eu não era mais um imortal de pedra, apenas o velho cego de sempre, e a escuridão, novamente me abraçou. Caí ao seu lado de exaustão, e uma poça úmida revelou que o Mithril sangrava. Coloquei minhas mãos no rosto e nos braços de meu Mestre e senti grandes bolhas de queimadura na sua pele velha. O encantamento cobrou um preço alto demais.

– Eu consegui… não consegui?

– Mestre, foi a magia mais poderosa que já vi! O senhor foi incrível! Eu consegui ver novamente. Obrigado, muito obrigado!!

– Nós ganhamos?

Eu não sabia o que responder. Parte de mim queria dizer que sim, nós ganhamos, os Vigias foram o suficiente para nos proteger, tudo ficará bem agora. Nós temos tempo para reconstruir e ampliar a colônia. Mas eu não podia. Eu não poderia mentir pra meu Mestre, mesmo que ele estivesse às portas da morte.

– Receio que não Mestre. Eles eram numerosos demais.

– Maldição!

E depois de muita tosse e um grande suspiro, Nordri completou: – Está na hora de eu encontrar Balin, Toph. Aqui, fique com isto.

Senti meus braceletes sendo arrancados, e novos serem colocados no lugar.

– Eu não tenho mais os braceletes de Ouro pra lhe entregar aluno… mas estes estão pesados pra mim. Talvez você tenha a força necessária… para usá-los nesses tempos de desespero.

Eu estava emocionado demais para conseguir dizer qualquer coisa, então apenas segurei e beijei as mãos de meu Mestre. Essa honra era muito mais do que eu merecia.

Adeus, Mestre.

– Estou ansioso para encontrar Luman, meu antigo Mestre… Ele era muito mais poderoso do que eu… e você juntos… Quando eu participei desse ritual pela primeira vez… eu estava no seu lugar… e era Luman que mantinha-o… Nunca esqueci a sensação de ser parte da própria Montanha… é… estupendo… não é Toph?

Meu corpo tremia, e meu peito ardia com as lágrimas que não vinham.

– É maravilhoso Mestre, maravilhoso.

– Você… se saiu… muito bem… Toph… o Mithril… adeus!

E então fiquei sozinho. Sem Nordri, sem Korf. Só eu, e a escuridão. A tristeza tomava conta de mim, e o tempo se passou ao meu redor, incapaz de me despertar do pesadelo que vivia.

Minutos? Horas?

Perdi a noção de tempo, e só acordei quando ouvi gritos, ecos de palavras em outras câmaras. Eu precisava levantar, eu ainda tinha amigos que respiravam. Apertei o Anel e fui cambaleando com meu cajado subindo os degraus. Os gritos ficavam mais altos conforme eu me aproximava do Segundo Salão, e quando finalmente cheguei nele, ouvi o batido surdo de um aríete que golpeava a porta do salão.

– Toph!!!!  Por Balin, onde você estava?

– Onde deveria estar Tyr, ao lado de vocês. Mas nem os Vigias foram suficientes pra parar a horda.

Tum… Tum… TUUUUMMMMM…

– Foi você que despertou as Pedras-Vigias? Foi a coisa mais incrível que já vi!

– Não, eu não creio que tenha capacidade pra isso. Mas eu estava lá, de qualquer forma. O que ocorre?

– Esses demônios tomaram o Segundo Salão. E acho que essa porta não vai resistir por muito tempo.

– Então vamos subir mais, vamos para a Praça dos Heróis! Lá teremos espaço para lutar e poderemos dar um bom espetáculo para nossos antepassados. E ainda estaremos perto de Balin, na Câmara de Mazarbul!

Subimos correndo os degraus, e ouvindo a pequena quantidade de passos que nos seguiam, era difícil não ficar triste com o que restara da nossa Colônia.

Na Praça dos Heróis sentimos o cheiro de fumaça, e depois de Wiglaf ter entrado na Câmara de Mazarbul, descobrimos que Nordri havia ordenado que as mulheres da Colônia se refugiassem lá, e queimassem todos os registros dos anões. Nenhum segredo nosso ficaria para o mago.

– Pobre Nordri, deve ter sido duro para ele ordenar isso.

Uma barulho distante de explosão revelou que a porta havia caído, e logo ouvimos passos vindo na nossa direção.

Butuitë estava ao meu lado, e ele narrava a cena pra mim:

“Os orcs montados em aranhas são os primeiros. Malditos, deram muito trabalho lá embaixo, embora eu possa dizer que abatemos uma boa quantidade deles. Há ainda dois trolls vivos, mas um deles tem metade da cara amassada, provavelmente obra dos seus amigos de pedra. E… Caramba Toph, seu corvo tá vindo na frente deles!!!”.

.

.

.

.

.

.

– Boa noite caros heróis. Creio que ainda não fomos apresentados… chamam-me Radamanto, o Mago Azul.

Próxima Cena: Campanha em Moria – Cena 17 (Final)

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8 Comentários leave one →
  1. 19/11/2012 10:25

    Nuuu
    Esse final foi uma bela duma surpresa.

  2. gerbur12 permalink
    25/11/2012 16:44

    Chicão, parabéns pelo relato! Muito bem escrita essa, que é a penúltima cena de nossa Crônica.

    Muito bonito ver o esforço e o sacrifício dos druidas para tentarem defender a Colônia. Eu particularmente gosto muito da idéia das Pedra-Vigias lutando pelos anões e do embate das mesmas com os trolls, é como se o lado bom e o lado mau da Montanha tomasse parte nas batalhas dos anões e dos orcs.

    A despedida do druida mestre, Nordri, e a evolução de Toph de Bronze para Mithril são momentos muito emocionantes também.

    Tyr e os gêmeos pulando do alto da Muralha insanamente na tentativa de destruir ou atrasar o aríete dos orcs mostra o “sangue nos olhos” que os anões estavam e como eles lutaram bravamente por seu reino.

    Por fim, o gif do corvo foi genial, a tradicional “imagem que vale por muitas palavras”. Por essa ninguém esperava. Na próxima e última cena tudo será revelado e saberemos os planos do mago-corvo.

    Por fim, quero reforçar que a Queda do Segundo Salão foi muito bem descrita. Muito bacana ler essa batalha!

  3. 26/11/2012 18:52

    Valeu Gonça!

    Os Druidas não devem ser esquecidos, o relato é importante pra todo mundo entender o papel deles na Crônica.
    Talvez seja um sacrilégio fazer essa comparação, mas é engraçado notarmos que assim como o Tolkien deixou elementos da história sem muitos detalhes (como o Mago Azul que você aproveitou), nós fizemos o mesmo com os Druidas. Apesar de termos expandido razoavelmente bem a idéia da função deles na Colônia nas nossas conversas, não está explícito na história que publicamos.

    Enfim, acho que a gente podia fazer um “post bate-papo” depois de lançarmos todas as cenas, o que acha?
    Podíamos dissertar sobre esses assuntos. Tipo um “extra” de um dvd! haha

    Essa última sessão (que foi dividida em várias cenas) foi muito especial.
    A volta temporária da visão do Toph e a despedida do Nordri foram emocionantes demais. Mesmo que o Toph não tenha visto, eu vi o Nordri morrendo nos meus braços, e nós 2 sentimos o pesar disso no coração.

    A transformação do Korf foi um tapa na cara do Toph, e acho que toda emoção foi transformada num poço de ódio.
    Pra ser sincero, acho que em metade do discurso do mago eu estava viajando, pensando em qual seria a maneira de matá-lo do modo mais doloroso possível.

    Enfim, nem tudo sai como planejamos não é mesmo?

    E agora é minha vez de botar pressão!
    Cadê esse último relato?
    Não vá me dizer que ele vai sair no Natal só! hahahaha

  4. gerbur12 permalink
    28/11/2012 22:44

    hehe! Pode botar pressão mestre Chico! Esse relato sairá bem antes do natal, certamente.

    E sim, podemos fazer os “apêndices” da história ao estilo Tolkien de escrever. Mas a história vai acabar mesmo no próximo relato. O que é fundamental ir para o apêndice é a música do Toph.

    Galera, lembra quando Gramenos morreu algumas Cenas atrás? O Toph canta uma música que era para ser o Cântico de Gramenos, mas acabou se tornando o Cântico dos heróis dessa aventura. O Chico escreveu mesmo a música e nossa, vocês não tem noção como está fera esse cântico! A música será material obrigatório do apêndice! Com certeza! Logo vocês a verão.

    Abraço Anão a todos!

  5. 29/11/2012 11:01

    Olha ó cara, fazendo o pessoal ficar curioso sobre o Réquiem!

    Não os deixe com expectativa não, a música nem é tão boa! hahaha

    Pois é, era pra ser apenas a música do Gramenos, mas é difícil parar quando começamos a compor histórias, canções ou aventuras de RPG não é mesmo?

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