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Campanha em Moria – Cena 15

29/10/2012

Cena Anterior: Campanha em Moria – Cena 14

Do mais alto aposento da Colônia até o mais baixo eu corri. Deixei meu senhor enterrado na pedra na Câmara de Mazarbûl e atravessei salões e corredores, praças e avenidas, desci degraus e rampas, até chegar ao Segundo Salão, guardado pela Muralha. Pensei que nunca chegaria, cada segundo demorava uma hora para passar, mas quando finalmente cheguei, o tempo parou. Deparei-me com as correntes dos portões tremendo e chocando-se a cada golpe das rochas atiradas pelos trolls no Primeiro Salão. Pude ver os clarões de suas fogueiras tingindo escarlate as brancas abóbodas do Sétimo Pavimento. Uma chuva de setas caia pesada sobre a muralha, mas era uma chuva invertida, pois ela vinha debaixo e voava sobre a Muralha, às vezes, levava consigo um de meus irmãos. Pude ouvir rufar dos tambores do exército dos orcs da Vara Azul. E também as pancadas de rocha e pedra que nosso portão suportava, uma risada gutural de uma Mãe que se esqueceu de seus filhos. Pude sentir o chão tremer sob meus pés e a dúvida petrificar meu coração. Foi Éowulf que me arrancou do transe com um empurrão no ombro:

_ Irmão! Vamos defender a Colônia! – Ele gritava até com os olhos!

_ Na vida ou na morte. – Completei.

Éowulf consentiu. Li suas tatuagens faciais e senti um misto de vergonha com orgulho, o rapaz estava se tornando aquilo que não era quando chegou a nossa Colônia.

Os anões presentes no funeral de Balin chegaram e nos encontraram, não havia tempo para discurso, mas era preciso. Entretanto, eles eram guerreiros anões e não poetas élficos, poucas palavras bastariam, as palavras certas. Levantei minha maça de cabeça de troll e urrei:

_ Barûk Khazâd!

_ Khazâd ai-mênu! – Eles responderam com voz de terremoto. E por um instante, o campo de batalha ficou silencioso, calamos tambores e pedradas dos orcs. Eles então entenderam que ainda haviam anões na Colônia de Balin, e nós não a entregaríamos de bom grado. Mas então os arremessos recomeçaram e Moria voltou a gargalhar.

O Exército Orc

Deixei pedreiros trabalhando nos portões como poderiam e poucos soldados para defendê-los, se necessário. Precisava de cada anão no topo da Muralha e nós a lotamos. Lá embaixo, o organizado exército da Vara Azul se estendia até onde a vista alcançava. Suas chamas revelavam nossos portões outrora ocultos e eles não tinham mais medo de nossas Pedra-Vigias, os guardas esculpidos nos ossos da Montanha que sentavam-se de pernas cruzadas diante de nossa Muralha. Os orcs as rodeavam e alguns se apoiavam nelas, em zombaria. Não pude fazer nada para evitar, antes que pudesse terminar de calcular nossa estratégia a primeira escada dos orcs alcançou o topo da muralha, então a segunda, a terceira e a décima. Debaixo da Montanha não havia árvores, mas os orcs haviam trabalhado em escadas e torres feitas de ferro. Eles estavam muito preparados para a batalha.

Mas esse não era o único meio deles subirem na Muralha. A maioria a escalava rapidamente presos nas costas de aranhas e escorpiões gigantes. Suas patas eram tão ágeis na verticalidade da Muralha, quanto eram em terreno plano. Logo tínhamos orcs montados em aranhas no topo, matando e derrubando nossos operadores de catapultas.

_ Protejam as catapultas! – Ordenei a meus guerreiros e Tyr e Éowulf lutavam lado a lado, quase intransponíveis. Os gêmeos Lóni e Náli protegiam os arqueiros que eram liderados pelo elfo Butuitê. A elfa Ellen estava no alto da Muralha lançando encantamentos de desorientação nas tropas inimigas. Os amigos de Toph eram estranhos, mas devo admitir, úteis. Falando no druida… ele é o único que não estava entre nós. Onde o maldito druida estava quando mais precisávamos dele? Não sabia dizer.

Enquanto as horas passavam, defendíamos a Muralha sem muitas baixas, mas não importava quantos orcs e aranhas matávamos, sempre havia mais escalando. Estava difícil andar com tantos corpos dessas bestas das profundezas estirados no caminho, e isso era apenas mais uma dificuldade na batalha para nós, mas não parecia ser para elas. Para as aranhas gigantes, qualquer terreno era seu terreno.

Então os orcs começaram a gritar um novo grito de guerra em uníssono. Eu não pude compreender o que era, pois era dito em seu idioma hediondo. Mas então, surgiu uma enorme tartaruga de ferro que era puxada por dois bizontes colossos e empurrada por quatro trolls de batalha.

_ Aríete! – Gritei! – Não o deixe chegar nos portões!

Mas esse era um trabalho para os operadores das catapultas, e muitos já tinham morrido. Além disso, essa era uma tarefa de absoluta importância e urgência e não podia confiar apenas nos meus operadores, eu mesmo assumiria uma das catapultas. Corri ao longo da Muralha até sua extremidade, o melhor ângulo para acertar o aríete debaixo da tartaruga de ferro era esse. Comecei a atirar na máquina do inimigo, mas estava sozinho. Não arriscaria manter guardas para proteger minhas costas ou tirá-los da batalha para recarregarem minha máquina. Eu mesmo era guarda, carregador e operador da catapulta. Fazia o trabalho de três, estava sozinho e cada tiro que eu dava consumia tempo suficiente para que a tartaruga avançasse 50 metros. Logo, o inimigo chegou à nossa porta, e começou a bater.

A Batalha no Topo da Muralha

Tyr e Éowulf comandavam os anões no centro da Muralha, jogando pedras e derramando óleo quente na tartaruga de ferro, mas seus grandes esforços não causavam muito dano na máquina do inimigo, que continha também arqueiros orcs atrasando e matando os anões pedreiros que derrubavam pedras e óleo. Então, numa atitude desesperada, Lóni e Náli saltaram do alto da muralha em cima da tartaruga e investiram sozinhos contra os arqueiros. Bem, sozinhos não, em uma ação insana e de absoluto companheirismo, o anão de Erebor pulou atrás deles e os três guerreiros começaram a atrasar os golpes do aríete. Ganhando tempo para Éowulf e os pedreiros tecerem uma cortina de fogo nos portões da Colônia e envolta do aríete. As feras que movimentavam a máquina do inimigo começaram a se dispersar. Mas não todas. Os trolls de batalha trajavam armaduras feitas sob medida para seus corpos desproporcionais. E eles eram mais resistentes e disciplinados que um simples troll das carvenas. Butuitê e seus arqueiros mandavam saraivada atrás de saraivada neles, que resistiam muito bem. Debaixo da Montanha e protegidos do sol, a pele daqueles trolls tinha quase a consistência das rochas e dos minérios, de modo que a maioria das flechas ricocheteavam em suas peles causando poucos danos.

Entretanto, nossos portões já estavam bastante avariados e percebi o exato momento que não aguentariam mais nem um golpe. Eu tinha tempo para apenas mais um tiro, e não podia mais errar. Tinha que ser certeiro, tinha que ser para valer. Mirei o melhor que pude nas pesadas correntes que os trolls puxavam para golpear com seu imenso aríete. Era uma insanidade atirar num alvo tão pequeno àquela distância, e provavelmente eu estava desperdiçando mais um tiro. Mas eu sentia que tinha que tentar mesmo assim, por Balin, pela Colônia, pelos meus amigos.

A pedra voou, silenciosa em meio ao caos da batalha, e mergulhou na terra do Primeiro Salão levando consigo as correntes do inimigo. Eu havia conseguido o impossível! O aríete despencou parcialmente, não podia mais ser operado e a tartaruga estava em chamas. Butuitê havia conseguido abater um dos trolls que tombou sobre muitos orcs.

Mas os tambores da Vara Azul não diminuíam seu ritmo e cada estandarte do mago que caia era logo levantado por outro orc que o erguia no lugar do que caiu. Bandeira e instrumento davam uma força sobrenatural aos nossos inimigos que continuavam avançando, mesmo no fogo. E agora, precisava retirar Tyr, Lóni e Náli dali o quanto antes. Mas não havia tempo, todos os orcs de Moria estavam ao seu redor e os três guerreiros estavam mais lentos a cada golpe. Os trolls restantes se reorganizaram e se dirigiram aos portões, batendo neles com as próprias mãos, rocha contra aço, que brio terrível nossos inimigos estavam demonstrando! Eles iriam destruir suas mãos, mais iriam derrubar nossos portões também. Foi então que aconteceu algo que não acontecia desde os Dias Antigos. A Montanha se lembrou de seus filhos e começou a lutar por eles.

As Pedra-Vigias esticaram suas pernas, levantaram e começaram a atacar orcs, aranhas e trolls com o vigor da própria Khazâd-dûm! Os guardas de pedra batiam com as mãos ou com armas de igualmente de pedra, esmagando o inimigo contra a Muralha enquanto proferiam seu cântico em forma de mantra:

_Parte da Montanha! Parte do exército! – É tudo o que diziam e lutavam como se nada pudesse detê-los, como quem não conhece a dor ou o medo, como os guerreiros do Cântico da Queda de Azaghâl!

Dois trolls eles abateram. Mas o terceiro conseguiu derrubar as últimas resistências dos portões. Lóni e Náli cortaram os tendões de seus calcanhares, e Tyr afundou seu machado na placa de ferro do peitoral do monstro. O golpe foi mortal, mas antes de morrer a besta conseguiu apanhar os dois irmãos um em cada mão e apertou-lhes com todo o restante da força descomunal que ainda possuía, ceifando lhes a vida.

_ NÃÃÃÃÃOOO!! – Gritou o capitão deles, Frár. Atravessando os portões quebrados sozinho em direção a horda de orcs que voltava a se fechar em cima de Tyr e das Pedra-Vigias restantes.

_ Para o Segundo Salão! – Ordenei para os soldados que haviam defendido a Muralha – Desçam todos! Defendam o pátio!

Éowulf e Butuitê me seguiram juntos com os guerreiros sobreviventes, abrindo caminho em meio a orcs e bestas do submundo. Nós estávamos exaustos, mas a batalha pela Colônia de Balin ainda não havia terminado. Que grande batalha eu estava vivendo ao lado dos heróis do meu tempo! Tempo este em que guerreiros e monstros morriam atracados uns aos outros, tamanho o seu furor!

A Batalha nos Portões

Próxima Cena: Campanha em Moria – Cena 16

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10 Comentários leave one →
  1. 30/10/2012 10:06

    Com muita emoção e sofrimento.
    Não poderia ser diferente.

  2. Fernando L Reis permalink
    30/10/2012 17:54

    A luta continua. Moria não abandonará seus filhos e, os irmãos que se foram continuarão lutando em nossos corações.

    Em frente Guerreiros!

  3. 01/11/2012 08:44

    “Falando no druida… ele é o único que não estava entre nós. Onde o maldito druida estava quando mais precisávamos dele? Não sabia dizer”.

    Cara, essa era EXATAMENTE a sensação que eu sentia quando ouvia você narrando a batalha pro resto do grupo, e eu estava longe deles fazendo minhas druidices.

    Essas últimas sessões foram uma experiência muito interessante pra mim como jogador, pois foi a primeira aventura que eu senti a responsabilidade de um comandante/líder.

    Lembrei das palavras de Gandalf na batalha de Minas Tirith, que se ele fosse resgatar Faramir, outros morreriam pela sua ausência.

    Essa sensação tem um peso enorme!!
    Como é difícil ter que fazer esse tipo de escolha no meio de um campo de batalha (mesmo que imaginário).

    Ótimo relato Mestre Anão, logo teremos a narração do Toph!

  4. gerbur12 permalink
    02/11/2012 00:39

    Caras, a batalha pelo Segundo Salão também foi para mim uma das cenas mais bacanas de mestrar!

    É isso que vocês falaram, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Tem batalha nos Portões, tem batalha na Muralha, tem a batalha dos druidas, que logo estará aqui no blog. Todos esses heróis lutando e morrendo em várias frentes me lembrou do filme dos Vingadores.

    E claro, como se trata de uma história da Terra-Média, a tragédia e a morte está sempre presente. Tudo é muito humano, tudo é muito visceral, e mesmo assim, nossos heróis continuam travando essa batalha. É por isso que eu adoro essa história. Valeu Tolkien!

  5. 05/11/2012 11:20

    Sensações que só quem admira um hobbie como nosso é capaz de sentir.
    O mais legal é que seus próprios comentários implementam o relato.
    Espero eu como mestre em formação, possa um dia junto com os jogadores criar a mesma sensação nas seções.

  6. gerbur12 permalink
    06/11/2012 23:48

    Legal André, obrigado novamente.

    Mas saiba que nós somos todos mestres em formação. Acho que nunca vamos chega num patamar e dizer: “Ah! Atingi o ápice. Agora sou um mestre completo”. Isso nunca vai acontecer, estamos sempre buscando e pensando em como criar boas sessões que entretenham a todos e que signifiquem algo, que mexam com as pessoas.

    Penso que o que ajuda muito nesse processo é se embasar nos sucessos já conhecidos como Game of Thrones, as Brumas de Avalon e muitos outros. Essa própria crônica é obviamente toda Tolkieniana. E isso ajuda muito porque nós “ficamos apoiados nos ombros de gigantes” como dizem os grandes.

    Outra boa dica é não ficar com medo de dar muitas asas aos jogadores. Se você conseguir permitir que eles sejam autênticos e façam seus próprios caminhos no jogo (claro, alguns limites são inevitáveis), mas não ingesse totalmente a história, então você como mestre acaba descobrindo que você não é o único reponsável pelas grandes emoções das sessões. Os jogadores podem contribuir e surpreender muito o narrador se o mesmo conseguir garantir essa liberdade ao seu grupo.

    No final, boas sessões são seguramente um trabalho em equipe. Eu percebi muito isso nessa crônica. Foi ótimo preparar as sessões, mas foi sensacional vê-los jogarem e depois foi muito prazeroso escrever sobre as aventuras desses heróis que todos criamos. Aposte no grupo!

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