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Biblioteca de Heróis – Pituco, o cavalo cometa

24/10/2012

Anos atrás, numa mesa de RPG em Atibaia, no interior de São Paulo, aconteceu uma das sessões mais marcantes para mim, e, arrisco dizer, para todos que ali estavam presentes.

Todo grupo de RPG tem seus personagens memoráveis, suas histórias engraçadas e suas aventuras inesquecíveis. Nosso grupo não era diferente, e sempre mantivemos entre nós uma grande lista de pérolas – acontecimentos, personagens e momentos marcantes.

No começo a lista de pérolas era pequena, mas conforme passavamos nossas madrugadas jogando nosso hobby predileto, o número de cenas memoráveis foi crescendo até chegar a um tamanho considerável. Digamos que se cada pérola fosse um pergaminho, já podíamos montar uma filial da biblioteca de Alexandria.

[E é com essa inspiração que inaugurei há alguns meses a “Biblioteca de Heróis“, aqui no blog].

Enfim, se alguém abordar qualquer um dos integrantes da “Equipe do Goblin Sorridente” (eu falei que temos muitas histórias…), sobre qual é a pérola mais memorável do grupo, uma chance em duas de receber como resposta: “Pituco, o cavalo cometa, é claro!”.

A outra resposta possivelmentete seria “Facada na perna!”, mas ainda assim eu aposto no Pituco.

E agora vocês verão o porque:

Pituco: Mito ou realidade?


Pituco nasceu e viveu a maior parte de sua curta vida numa fazenda.
Ele tinha uma vida pacata e feliz trabalhando como ajudante no campo.
Sua mãe sempre foi carinhosa com ele, os moradores da fazenda faziam questão de escovar
Pituco todo dia, só para ele manter o pêlo lustroso e bonito.

A perdição de Pituco foi quando ele começou a se esforçar no trabalho.
Há algo estranho no mundo: um homem quando se esforça no trabalho é promovido e ganha mais
dinheiro, enquanto um cavalo esforçado é obrigado a puxar cargas cada vez maiores e mais pesadas.

Enfim, ninguém disse que a vida é justa, e Pituco logo descobria que esse ditado é mais do que correto.

Mostrando facilidade para trabalhos forçados, Pituco logo foi posto a venda na sua cidade.
Pituco ia se aventurar. Pituco ia ser feliz. Pituco ia ser um herói.
Só que ninguém perguntou se Pituco QUERIA ser um herói!

Pituco foi comprado por um jovem e inexperiente aventureiro.
Pituco iria participar da primeira aventura do jovem, e ele estava animado.

O jovem tratava Pituco bem, sempre o alimentava, e sempre era o mais gentil que podia.
Só que nem tudo ia às mil maravilhas. A vida do jovem começou a ficar mais perigosa com o tempo.
Inicialmente Pituco só carregava o equipamento do seu dono, mas logo começou a ter que correr em
direção a inimigos perigosos e as vezes, até maiores que Pituco!

Mas Pituco nunca perdeu a fé. Ele confiava em seu dono!

Até que…

Devido a vários motivos, Pituco e seu dono precisavam atravessar uma caverna.
Enquanto os companheiros de seu dono desciam calmamente a escada, rindo e fazendo piadas,
Pituco tremia. Desde que olhou para a escada, Pituco sabia que aquela coisa cheia de degraus
não poderia ser usada para o bem.

Mas seu dono não o traiu. Recusou-se a ir em frente e abandonar o companheiro.

Mas algo estranho estava acontecendo. Pituco sentia. Ele sabia que seu dono queria seguir seus
companheiros, parece que tinha algo a ver com aquele bando de criaturas esquisitas que seu dono
vivia lutando.

De repente, seu dono começou a fazer coisas estranhas, Pituco logo se viu coberto
por algo quente e incômodo. Até que Pituco teve que subir numa tábua de madeira. Isso sim era
estranho, por que diabos seu dono queria fazer aquilo com ele? Mas Pituco confiava, Pituco sabia
que seu dono não iria trai-lo, por mais que aparecesse estranho, Pituco sabia que o que seu dono
fazia, era para o melhor.

(…)

Pituco estava com medo. Quem não ficaria com medo ao se ver descendo aquela escada gigante
amarrado a um cobertor e com um braço jovem como única coisa que o impede de descobrir se cavalos
sabem voar?

De repente Pituco parou. Parece que a corda que o jovem segurava acabou. Não havia mais como
descer mais o cavalo, não havia mais corda. De repente, Pituco pensou como ele iria fazer para
subir aquilo de volta… Mas não precisou pensar muito tempo!

Alguns dizem que Pituco vôou. Outros dizem que aquela mancha colorida era um raio, e não um
cavalo. Alguns dizem que Pituco se fundiu ao ar à sua volta e acabou descobrindo o verdadeiro
significado da vida. Outros dizem que Pituco nunca existiu.

O fato é:
Pituco literalmente surfou uma escada.
De 200 metros.

Pituco fechou os olhos. Mesmo as histórias que sua mãe contava quando ele era pequeno, que
existia um homem que comia cavalos, não era tão assustador como o que estava acontecendo com ele.

Pituco abriu os olhos.

Pituco piscou.

Pituco fechou os olhos.

De repente não haviam mais olhos.

Pituco se foi. Deixou para trás um aventureiro que descobriu que cavalos não são feitos para surfar.

.

Dario Brakensword

Rest in pieces Pituco

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8 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    24/10/2012 21:54

    Salve, Pituco! Por ter ido aonde nenhum cavalo jamais foi!

  2. gerbur12 permalink
    26/10/2012 00:14

    Só mesmo Pituco para conseguir ser engraçado e trágico ao mesmo tempo.

  3. 26/10/2012 19:11

    Tenho uma dívida eterna com o Pituco.
    Me rendeu uma importante lição – cavalos não são feitos pra surfar, e muitas risadas.

    Pra sempre Pituco!

  4. 27/11/2012 17:28

    A preparação para a descida foi possivelmente o momento mais engraçado e mais sádico de todos os meus anos narrando para esse grupo!

    Enquanto Chico dava suas ideiasnde como fazer o cavalo descer, apenas uma frase me passava pela cabeça : ‘Vai dar merda, mas vai ser engraçado!’.

    Por outro lado, a única resposta que eu dava a perguntas como ‘tem cobertor?’ era ‘Aham, mas o que você pretende fazer com isso?’

    O resultado foi a transformação de Pituco de sólido para líquido em instantes!

    Fora o desepero do cavaleiro ao ver a massa desforme… ainda lembro da pergunta ‘Putz, não posso nem jogar uma poção nele pra ver se ele sobrevive?’

    Memorável!

  5. 27/11/2012 22:58

    Eu lembro até hoje da cena: nós dois conversando perto da escada na casa do Vazora.
    Eu elaborando o plano mais desperado/imbecil do mundo, e você se segurando pra não dar risada na minha frente! hahaha

    Acho que cada momento de preparação de aventura e paciência com jogadores lerdos é pago nesse tipo de situação!
    Como é bom ser narrador pra poder presenciar esse tipo de coisa! hahaha

    A poção foi a cereja em cima do bolo.
    Uma maneira pífia de tentar apaziguar a culpa que eu sentia! hahaha

  6. vazora permalink
    18/03/2014 01:50

    lágrimas vêm aos olhos ao me lembrar de Pituco. Na época até chegamos a calcular a velocidade que ele alcançou… hauhauhauha

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