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Terras Frias – Uma Campanha Para Lobisomem (Cena 4)

08/10/2012

Segue a continuação da história previamente relatada aqui, aqui e aqui.
“Preparavam-se para sair do prédio, confortável se comparado à escuridão lúgubre e infinita da cidade, até que se dessem conta da repentina ausência de Ronnie.

– Você sabe o que pode ter acontecido com ele? – Serket pergunta, desconfiado. Sensação que aumenta com o olhar espantado de sua anfitriã.

– Ele já deve ‘tar ciente de nossa situação…

Melissa e seu amigo lupino se entreolharam, sem nada entender.

– Vamo logo, antes que não dê mais para sair …

– Como assim, “não dê mais para sair”?

Boca-de-Lixo pareceu confusa, como se suas esperanças estivessem à beira da ruína. Pareceu ser cuidadosa com as palavras, ao formular a seguinte pergunta:

– Onde ‘cês pensam que ‘tão?

– Em Eagle’s Nest. – Melissa respondeu secamente.

– Acham mesmo que ‘tão em alguma cidade? – Retrucou. – Nós ‘tamos presos no pior lugar deste mundo:
O Coração de Touro Sentado!

Palavras mais que suficientes para instigar a confusão na mente daqueles guerreiros…

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Saíram do prédio pela mesma porta corta-fogo que usaram para entrar, e  ambiente estava completamente mudado. A cidade deu lugar a uma ampla ravina, e o subúrbio tornaram-se um antigo acampamento indígena. Do outro lado da aldeia, um grande muro de paliçadas se mantinha em pé, similar aos grupamentos militares do Exército Confederado norte-americano.

As palavras de Boca-de-Lixo pareciam reger a transformação da terra.

– ‘Cês ‘tiveram acesso direto com o Coração, ouvindo suas batidas, não foi? ele os trouxe pra cá, e este ‘mundo’ reflete suas lembranças, memórias e medos – tudo distorcido pela essência dele, um pedaço da Wyrm ainda viva.

Serket e Melissa não queriam acreditar em tudo isso.

– É como um sonho. Os corpos estão lá onde o Coração foi visto, em um sono pronfundo, e só acordarão quando ‘cês vencerem o desafio daqui…

– E o Ronnie…? – Melissa perguntou.

Boca-de-Lixo suspirou.

– Se o encontraram depois do Coração, ele pode ser um inimigo. – Olhou para a perna mutilada de Melissa. – Infelizmente, o mesmo vale para ferimentos aqui dentro…

Evitaram atravessar o acampamento indígena, por não encontrarem nele qualquer sinal de habitação: tudo estava parado, e a escuridão se fazia mais que presente.

Contornaram o rio pela esquerda, em uma trilha íngreme e pouco segura. Passo após passo, a conversa continuou aos poucos.

– Como você acabou aqui, Boca-de-Lixo? – Serket tomou a iniciativa.

– tinha recebido a missão de guardar esse coração, e acabei caindo nele – assim como ‘cês fizeram.

– E há quanto temp faz isso?

– Mais tempo do que posso contar, filhote…

Acabu enroscada em algumas vinhas e raízes da encosta, que se assemelhavam a pequenas mãos vindas da terra. Serket conseguiu escapar, a passo que Melissa quase caiu no rio – agarrou-se no barranco com força.

A velha guia caiu, praguejando pelo banho indesejado. Mal conseguia nadar quando a Wendigo a puxou para o alto, e só então percebeu que um tronco, velho e cheio de limo, estava preso às pernas dela. Melissa o atacou com um dos braços, e acabou presa por ele da mesma forma.

Os ramos e raízes envolviam-nas como teias de aranha, e Serket precisou ser cuidadoso para libertá-las com o apoio de sua lâmina prateada. Assumindo a face do guerreiro, Melissa lutava para se libertar – mas, quanto maior a sua força, maiores eram os ferimentos causados pelas farpas afiadas da madeira.

O Peregrino teve uma vaga recordação daquele local, ao mesmo tempo que uma charada emergiu em sua consciência, em uma voz bastante familiar:

‘Tenho três vidas, e sou leve o suficiente para escorrer por sua pele. Ágil o suficiente para escoar pela terra, e forte o bastante para quebrar a rocha’.

A resposta era bastante óbvia: água! Mas, como isso poderia ajudá-lo? Até que Boca-de-Lixo estivesse livre da teia, e tomasse a iniciativa:

– Sabe nadar, guria?

O assentimento de Melissa foi o bastante para empurrá-la rio abaixo, e o menor contato com a corrente a libertou. Bolhas de ar saíram do tronco com seu braço, um suspiro contido apenas pela força das águas. A guerreira sentiu, naquela hora, o conforto e segurança de que tanto a convenceram a deixar os trajes do guerreiro para trás, e a convocar seus aliados na indefesa nudez de sua forma natural.

– Venham, por aqui!

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Prosseguiram cautelosamente pelo rio, até alcançarem a paliçada. Podiam ouvir cânticos nativos de seu interior, proferidos por uma só voz.

Mais uma vez, Serket revelou suas suspeitas com uma questão.

– Isso é o passado, uma lembrança de alguém ou o coração recontando sua própria história?

– Tudo junto. – Boca-de-Lixo respondeu, exibindo seu sorriso incompleto. – É o passado desta terra, e também é uma lembrança de Touro Sentado. Logo, é o Coração contando sua própria história. Apenas o final dela que, desta vez, não está definido…

Deram a volta até os portões escancarados do ‘Fort Custer’ – sua placa, no alto da entrada, deturpada com sangue dos mortais. Havia corpos mutilados por todo lado, seus troncos violados à altura do coração eram pistas do que estava por vir.

No centro do acampamento, uma grande figura se fez presente, banqueteando-se de todo aquele festim. Seu corpo era forte e coberto por um espesso amnto de pêlos cinzentos, como um Garou em sua face mais furiosa. O rosto, no entanto, era humano e, ao mesmo tempo, familiar.

Ronnie.

– Eu estava mesmo à espera de vocês. – O tom selvagem de sua voz rompia completamente o ideal nobre do Garou de outrora. Seus olhos ardiam como brasa viva, desejosos pela vida de seus ‘visitantes’. – Em especial, de minha jovem pupila…

Serket e Boca-de-Lixo preparavam-se para enfrentá-lo, assumindo a forma rude dos lobisomens, quando perceberam qual era sua real intenção. O brilho carmesim de seus olhos congelou Melissa, como se mobilizando nela algo maior, e mais forte…

A guia avançou para lutar com o infame espírito, sem perceber o descontrole da Wendigo. Estava sobre o efeito da fúria que a mantém viva, e seu desfecho fora o louvor do frenesi por sangue. Seus aliados não sabiam o que fazer para detê-la, e avançavam sobre Ronnie, que sequer se defendia.

Melissa, por outro lado, lutava contra seu próprio instinto. Seu corpo não conseguia lutar como das outras vezes, tamanha foi sua resistência. Boca-de-Lixo retirou de sua bolsa um frasco, e borrifou em si mesma o seu conteúdo para incapacitar a guerreira com seu fedor ampliado – algo que, com certeza, garantiu sua segurança.
Avançou sobre Melissa para desembainhar sua poderosa Adaga de Dente e, em seguida, derrotar o Wendigo – ao custo de sua própria vida. O sangue jorrava de seu peito e flancos, dilacerados pelas garras do mosntro, que gargalhava com o seu sumiço.

Antes que a luz do dia pudesse ofuscar suas visões e reconduzi-los ao sono, Serket e Melissa puderam ouvir as últimas palavras de sua gentil guia, Boca-de-Lixo:

– Mande lembranças ao povo da Reserva… em meu nome…

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Recobraram a consciência onde tudo começou: a cabana dos Uktena, no centro de seu território. A confusão veio de imediato com o vislumbre dos vários fetiches e amuletos em cada canto, e a surpresa em ver dois velhos cnhecidos confirmou a história de Boca-de-Lixo.

– Por Luna, vocês estão bem. – Persegue-a-Verdade foi o primeiro a falar, visivelmente preocupado. A fumaça de incensos e a luz cálida de velas traduziam o esforço dele no seu resgate. Mais próximo da porta, estava Olhos-do-Grifo, o olhar centrado entre o despertar dos guerreiros e a mata lá fora.

– O que deveria ser evitado transformou-se em uma provação. – Rosnou o ancião, agora sorridente.

– Provação? – Os dois se entreolharam. Ainda não podiam crer que todo perigo até agora tinha sido apenas um sonho. – Há quantas luas estamos aqui?

– Três. – Olhos-do-Grifo respondeu secamente, em tom de advertência. – Depois do sumiço dos Uktena e das bravatas dos Wendigo, procuramos vocês para reagruparmos. E acho que devemos ir logo…

O lobo cinzento se afastou, e Serket acabou perguntando a seu mentor:

– Quando o senhor me encontrou, havia outro irmão comigo… chamado Pluma-da-Justiça, não havia?

Ele ponderou por alguns instantes, à procura de familiaridade neste nome.

– Não… Você estava só, caro

filhote. Por que perguntas…?

Serket foge do assunto, indo ajudar Melissa (que ainda não tinha a perna, conforme havia ouvido nas palavras de Boca-de-Lixo). Foram juntos até a cabana de Persegue-a-Verdade, agora que tinham idéia do quê devia ser feito: resgatar a Purificadora, o Fetiche mais poderoso dos Wendigo.

A guerreira trouxera consigo a dúvida, desde seu retorno do Coração. Ponderou com as palavras de sua finada guia: ‘Se o encontraram depois do Coração, ele pode ser um inimigo. Infelizmente, o mesmo vale para ferimentos aqui dentro…’

– Serket… – Disse. – E se eu trouxe o mal comigo? Como a velha disse, minha perna foi perdida lá dentro…

Seu companheiro respondeu, placidamente:

– Não se preocupe. Nossa força é guiada pela vontade de Luna e Gaia, e nós o derrotamos lá dentro. Juntos, o faremos de novo aqui fora – você tem a minha palavra.”

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4 Comentários leave one →
  1. Monseha permalink
    09/10/2012 14:59

    Vou ser sincero. Essa parte me deixou confuso, talvez porque faz tempo que li as outras cenas. Tem como compilar as partes numa só dividindo em capítulos? É uma dica apenas. No mais, muito boa história.

  2. m4lk1e permalink
    10/10/2012 22:34

    Então, caro Gabriel, te aconselho a ler tudo junto.

  3. 03/01/2013 01:18

    Oba. um novo e-book para ler

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  1. Terras Frias – Uma Campanha Para Lobisomem (Cena Final) «

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