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Desabafo: RPG e o “Épico”

26/06/2012
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Há alguns anos, tenho trabalhado em um cenário próprio, composto pela união de elementos de Fantasia com Faroeste e atmosfera típica de Terror e Mistério. Meu maior impecilho, em todo este tempo, foi adaptá-lo a um sistema que conciliasse fácil manejo e apelo aos elementos do cenário. Depois de vários testes (alguns com sistemas de autoria própria), acabei o adaptando no Sistema FATE – por atender ao esperado e possuir OGL.

No entanto, no primeiro teste que executei com o FATE, recebi o seguinte feedback: “Acho melhor você adaptar Ghondaria para D&D, pois o cenário é muito épico para um sistema como o FATE”.

Devo admitir que, mesmo após quase um ano, essas palavras ainda reverberam na minha mente. Afinal de contas, pode um único sistema definir o jogo como épico? Vamos um pouco mais fundo, então: pode uma sessão de RPG não ser épica?

Primeiramente, vamos à raiz de tudo isso:

“Um épico é tradicionalmente um género de poesia, conhecida como poesia épica. No entanto, actualmente o termo é também usado em outros tipos de expressão artística, como romances, peças de teatro e filmes, onde a história se centra em personagens heróicos, e a acção tem lugar em grande escala, tal como na poesia épica. Os épicos neste sentido são representações majestosas capazes de capturar lutas espantosas, tais como histórias de guerra, aventuras, e outros esforços de grande envergadura ao longo de extensos períodos de tempo.” (Fonte: Wikipédia)

Eu refutei esse feedback porque acredito que o RPG, em sua essência, já seja épico – independente de qual seja o seu gênero. Colocar as personagens, que geralmente se diferem e muito da população em geral, frente a desafios intransponíveis para “meros mortais” sempre será uma premissa do épico. E o RPG se compõe deste pensamento.

Pouco importa se as regras, e toda a descrição por elas permitida, não se adaptem completamente ao que você deseja conduzir ao grupo de jogo: elas são apenas um instrumento frente à “Regra de Ouro”, e não uma limitação para os anseios e criatividade dos jogadores.

Apenas uma coisa pode limitá-los: a imaginação deles próprios!

Caso estejam interessados em se aventurar em Ghondaria, deixo à disposição de vocês a humilde versão do Playtest pelo link abaixo:

Ghondaria.pdf

Que Luna os ilumine, e até a próxima!

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12 Comentários leave one →
  1. 26/06/2012 22:45

    Jairo, discordo totalmente do que você escreveu.
    Tenho centenas de exemplos de RPGs não épicos, e o sistema importa na medida que ele usualmente é ligado um tipo específico de cenário – que, em última análise, vai contribuir bastante para dar o tom épico ou não.

    Concordo contigo que o Narrador tem o poder de transformar o RPG num épico ou não, mas centrar nele toda a responsabilidade pra mim é uma visão equivocada.

    De qualquer forma, você citou 2 coisas interessantes no seu post:

    1 – FATE.
    Preciso fazer uma resenha desse sistema logo. Ele e o Fudge abriram minha mente em questões RPGísticas.

    2 – Ghondaria.
    Minhas férias chegaram, lerei seu cenário logo logo!
    Estou curioso pra saber como você montou seu mundo.

  2. m4lk1e permalink
    26/06/2012 22:48

    Então, Chico, o quê torna um RPG épico? Vamos, contribua com este artigo inicialmente birrento! ^^

  3. 26/06/2012 22:59

    Eu entendo como épico, coisas grandiosas, sejam diálogos, batalhas, tretas na taverna, filha da putisses…

    Depois de um tempo sendo um combo ranger, passei a procurar fazer personagens “épicos”, tanto com traços de personalidade, características, e capacidades, os famosos Daredevils. Que gostam de desafiar suas capacidades aos limites, pra tornar o jogo em si mais interessante. Só que muita vezes o mestre não está na mesma “pegada” de tornar o jogo épico, e simplesmente deixa as coisas que teriam uma repercussão calorosa na mesa de jogo, ficarem morninhas apenas…

    Então acho que pra se ter um RPG épico, é necessário um estimulo por parte do narrador, e a vontade dos Jogadores de serem épicos.

    No meu grupo atual, eu e mais um membro apenas tomamos atitudes mais “perigosas” apenas para ser épico. O resto é tudo “cagão”, fazem apenas o pianinho.

    Mesmo na interpretação, não fazem diálogos ousados com autoridades e inimigos, apenas o de praxe.

    E quando o mestre de fato gera o estímulo necessário, é muito divertido.

  4. m4lk1e permalink
    26/06/2012 23:12

    Eu acredito que esse seja o problema do D&D atual, por exemplo. Em outros tempos, dava-se margem para o improviso, que podia tornar os aventureiros mais intrépidos e dispostos a agir, como verdadeiros “heróis”.
    Desde a Terceira Edição, cada classe fornece uma gama de “poderes e talentos” próprios, que garante a segurança em toda sorte de situações. Sem a chance de improvisar e de tentar o risco, os jogadores claramente farão apenas o pianinho (como acontece em um RPG eletrônico). Talvez essa seja a razão do Next resgatar uma mecânica mais simples, e maior margem de desafio como nos velhos tempos.

  5. GKorn permalink
    26/06/2012 23:34

    Adorei a postagem, e principalmente como estudante de Letras, eu concordo com a sua definição de épico.
    Porém, também devo concordar que cada sistema dá ferramentas para um tipo diferente de jogo. Assim sendo, jogos mais aventurosos ou de grande poder acabam sendo parte do D&D (cujo livro dos níveis épicos é famoso, e leva esse título pela definição épico como algo grande), e discordo que a Terceira Edição seja muito “mecânica”.
    Nas mesas que joguei, todos nós conseguíamos ser ousados e criar personagens interessantes – as vezes tendo que apelar para prestige classes. Não ficávamos, nunca ficamos, presos ao core. Essa é a graça, eu acho.

    De qualquer forma, estou fazendo o download do seu cenário, e estou louco para lê-lo.
    Abraços, e boa sorte!

  6. 26/06/2012 23:44

    Cara, pra mim o épico está estritamente ligado ao heróismo. É aquele tipo de RPG onde as ações dos personagens tem consequências para todo o mundo.

    Mas eu posso citar facilmente muitos RPGs em que os personagens não são heróis: Penny for my Thoughts, Violentina, Shadowrun, Classroom Deathmatch…

    Eu gostei do que o Thoto escreveu, mas eu não chamaria isso de épico.
    Eu chamaria isso de OUSADO. E concordo com ele que isso realmente faz falta.

    Personagens como Alça-de-bota e Milo Roscoe fazem qualquer sessão de RPG ser única (mas não necessariamente épica)!

  7. Monseha permalink
    27/06/2012 00:09

    Não diria que Ghondaria é um cenário Faroeste. Me baseio na afirmação pela ultima vez que li seu material… Ele tem sim elementos de Fantasia Tolkiana (elfos, anões, magos…) e Faroeste, mas tem também outros elementos que podem tornar uma campanha tão diferente que nem chegue a se passar nos desertos e cidades estilo Faroeste, como por exemplo as florestas elficas e mesmo as ilhas que favorecem uma campanha de navios e piratas. Ele tem terror e mistérios, mas outros cenários, como Forgotten Realms tem também sua parcela de terror e mistério… Não como os livros da WW por exemplo. Não diria um cenário épico, mas de fantasia em sua essência principal, o que se enquadra ao D&D, por exemplo, mas como conheço sua aversão pelo sistema…
    É minha opinião, não sou expert, portanto…

  8. 27/06/2012 00:10

    Discordo de que o D&D 3.x seja muito mecânico, a maioria dos personagens consegue se virar bem no improviso mesmo sem ter as pericias treinadas…

    O que eu disse realmente se encaixa em ousado, mas grandes feitos heroicos nunca foram feitos dentro da zona de conforto, e sim com ousadia e sagacidade.

  9. m4lk1e permalink
    27/06/2012 00:27

    Eu até concordo que alguns RPGs possam não ser necessariamente heróicos, mas nem por isso deixa de ser épico. Vamos analisar o Classroom Deathmatch, por exemplo: trata-se de uma tragédia coletiva, ao mesmo tempo que uma epopéia pela vida (afinal, para manter-se vivo, basta superar o desafio de matar todos os demais). Shadowrun possui um sentido semelhante, já que a vida dos runners está sempre em risco. É um foco que julgo bastante relativo, afinal a personagem pode ser heróica para si própria, ou para sua família, amigos e afins se sobreviver.

    Uma vez que o RPG atual preza a construção elaborada das personagens, elas não poderiam ser heroínas para elas mesmas?

    Quanto ao D&D, eu nãoo descrevi apenas como “mecânico”, e sim mal-explorado; os livros fornecem subsídios excessivamente para os jogadores, sacrificando sua criatividade (“por que iria procurar uma solução se o Talento/Habilidade Extraordinária X já me ajuda nisso”?) e, ao mesmo tempo, a interpretação – já reperaram em quão pequeno é o espaço destinado às Tendências, que antes compunham uma gama de possibilidades para o jogo?

  10. Alisson permalink
    27/06/2012 02:33

    Qualquer um que tenha rolado combates em níveis épicos no D&D acabou desistindo dele. Não há quem se divirta em rolar dados num combate maçante por 1 hora.

  11. 27/06/2012 08:28

    Jairo, concordo plenamente contigo ainda mais por que minha experiência com D&D (principalmente 4a e 3.5) foi bem frustrante.

    Acho que esse sistema permite criação de ótimos personagens mas justamente pelo fato de terem tanto poderes “fáceis” as pessoas deixam de ser criativas e aquele cara com um background incrível, cheio de charme, com ideais e metas épicos; resolve todos os seus problemas com um “Eu ataco ele com meu poder de encontro e dou 3 d6+8 de dano”
    Como tínhamos comentado na sua casa outro dia, é quase impossível fazer alguma coisa que não seja usar os poderes numa cena de D&D 4a edição.

    Quanto a alguns cenários serem mais épicos que outros, acho que o correto é dizer que alguns grupos são mais épicos que outros.
    É fácil fazer uma aventura épica de Shadowrun se seu Mestre está disposto a criar uma conspiração global da qual só seu pobre runner que mal tem onde cair morto pode salvar o mundo (que ele nem tem certeza de que merece ser salvo), o que diferencia isso do bárbaro e do gatuno indo destruir a fortaleza do Lorde do Mal é que os runners brilham mais no escuro.

    Acontece que épico foi associado à aparência da coisa (medieval mágico, castelos enormes, dragões e caras fortões com espadas largas) e não com o conteúdo (sobrepor os desafios e, independente do preço a ser pago, salvar o mundo).

  12. m4lk1e permalink
    27/06/2012 13:05

    Vou ilustrar minha opinião através de minha última aquisição: Busca Final. É impressionante como uma premissa simples e aberta como a procura pelas respostas sobre Othora torna-se épica pelos valores nela trabalhados. Os Guerreiros Errantes (como são apresentadas as personagens) não são heróis de fato, mas sustentam a Busca por eles próprios – uma luta por suas convicções e qualidades, a queda de seus valores ante a desesperança que domina o mundo. Tudo isso com um sistema de regras ideal e prático, avesso ao maçante D&D.

    É pela mesma premissa que adotei o FATE para Ghondaria, e vejo a cada sessão que a escolha foi acertada.

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