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Campanha em Moria – Cena 8

13/06/2012

Cena anterior: Campanha em Moria – Cena 7

A fumaça se espalhava pela pequena câmara. O cheiro forte entrava pelas minhas narinas, queimava meus olhos, trazia imagens a minha mente. Enquanto isso, o velho anão, Nordri, dançava de modo estranho ao redor da fogueira, batendo forte com os pés no chão, de forma ritmada, enquanto repetia palavras cuspidas na língua secreta dos anões.

As vezes, Nordri parava de rodear a fogueira e passava a dar suas voltas ao meu redor, fumando seu cachimbo e soltando baforadas em cima de mim. Quando parava suas voltas, largava o cachimbo na mesa de canto e pegava o pequeno martelo e ossos muito finos que injetavam uma tinta azul-prateada dentro de minha pele. O processo doía com as picadas no início, mas depois a pele adormecida ou a mente nublada camuflavam a dor.

A fumaça se transformou em neblina e as densas brumas do norte estavam de novo ao meu redor. Senti o sol em minha face, quente. O coração palpitando, a adrenalina incendiando meu corpo, o suor, refrescando-o. Estava de volta ao início de minha juventude, quando o meu nome ainda era Hanathor. Depois do meu longo treinamento entre os guerreiros dúnedain, ou como os camponeses costumavam nos chamar: entre os guardiões.

Era minha missão de “passagem”. Após ela deixaria de ser apenas um garoto para me tornar um adulto, para ser olhado pelos valentes dúnedain como um igual. Estávamos no final da trilha deixada pelos orcs de uma tropa das Montanhas Sombrias. Seguimos seu rastro até o final e quando finalmente chegamos o sol ameaçava abandonar os céus, como a coragem ameaçava me abandonar. Já era possível ver a lua cheia erguer-se na noite que nascia e suas sombras abraçaram e esconderam os orcs que estávamos caçando.

Foi quando percebemos que, na verdade, nós éramos a caça. Era um emboscada. Flechas choveram em cima de nós, uma delas atingiu meu flanco. Senti a mordida da flecha e as picadas dos insetos ansiosos por sua janta. Mas eu sempre fui forte e enquanto meus companheiros caíram para a morte, eu corri. O medo era maior que a coragem, como os orcs eram mais numerosos que os guardiões. E eu corri. Minha coragem escorreu por minha armadura junto com meu sangue. E eu corri. Atrás de mim, apenas uma estrela vermelha na noite seguindo-me, inquisidora. Essa foi a primeira vez que a vi, mas ela não me pegou, pois eu corri até desfaceler. Meus amigos, por outro lado, desfaleceram antes de correr.

A segunda vez que vi a estrela vermelha da morte foi anos depois. Eu havia sido “adotado” pela tropa rohirrim do capitão Éowulf. Tinha retomado o amor pela vida, matado cada orc que encontrara em minha jornada, para redimir meus pecados, aprendido a manejar a espada montante, a cavalgar como um cavaleiro de Rohan. Tinha um lar novamente, e amigos para defender.

Um dia, a vila dos rohirrim foi atacada ao cair da noite por orcs grandes que pareciam nada temer. Eles lutaram até o último homem, eu. Quando a batalha acabou finquei a espada montante na terra e olhei para o céu. A estrela estava lá, me observando. Dessa vez eu não tinha fugido, nem corrido. Dessa vez eu tinha ficado. Mas a estrela tinha me tomado tudo mesmo assim, pois meu novo clã já não mais existia, estavam todos mortos. Só restava eu, o último homem. E os mosquitos que não cessavam as picadas: mãos e braços, tórax e cabeça, bochecha e testa.

Então compreendi: aquela era a estrela de sangue que rege minha vida, a estrela da morte. Todos à minha volta estarão fadados a um destino sangrento. Deveria caminhar sozinho. No entanto, decidi que continuaria a lutar pelo meu capitão. Ele não seria esquecido.

Quando acordei, de súbito, do transe de Nordri, estava sem ar. Respirei forte, com avidez, como se respira após ficar muito tempo debaixo da água, num longo mergulho. Respirei vida e acordei para o tempo presente, para o mundo real. E a sala estava vazia, fumaça estava se desvanecendo na câmara. Será que Nordri viu minhas lembranças?

Quando me levantei para sair, notei um espelho na mesa de canto e observei minhas marcas. Elas eram azuis e profundas, foram feitas em auto relevo e todas tinham um padrão geométrico similar, cada uma delas tinha um significado, mas elas estavam todas interligadas como minha vida, uma sucessão de momentos diferentes interligados, me constituindo.

Nordri tatuou até o meu rosto. Metade dele estava coberto pelos pictogramas sagrados em khuzdûl. Eles subiam pela minha garganta e cobriam parte do meu rosto como uma máscara de guerra. Eles seguiam até minha testa. Eu estava bem parecido com Wiglaf agora. Tinha medo do símbolo que Nordri teria feito em minha testa. Seria a estrela da morte? E estrela vermelha que me perseguia? Olhei para as tintas e só vi tonalidades de azul e prata, nada de vermelho. Tomei coragem e inclinei o espelho. Nordri tinha marcado minha testa com um lobo, não um estrela. Mas era um lobo solitário, sem alcatéia. Porque será que ele estava sozinho? A alcatéia teria morrido? “O lobo solitário teria abandonado seus amigos para a morte?” me peguei falando em voz alta.

E Nordri respondeu: “Isso nós vamos descobrir, quando o momento chegar”. Saindo das sombras por um instante, apenas para retornar no instante seguinte às suas meditações e seu cachimbo.

“O que?” Perguntei.

E Nordri respondeu com uma única palavra: “Estigma”. E não disse mais nada. Percebi que o ritual acabara, Nordri não falaria mais. Talvez Toph falasse.

Cansado, eu estava cheio da tradição anã por um mês! Deixei o velho com seus pensamentos e fui atrás de meus novos afazeres. Eu era agora um guarda real, mas para comprar minha estadia na Colônia, dei minha palavra a Balin que ajudaria com os consertos que a Colônia precisasse. Conheci um importante artífice anão, Bruenor, meu novo chefe, que me coordenou com reparos na muralha, portões e catapultas que defenderiam a Colônia assim que os orcs a encontrassem. Sabíamos que era apenas uma questão de tempo. E havia muito a ser feito.

Habituei-me ao manejo do martelo, do serrote, do transporte das carriolas e das dores nos braços nas noites ao tentar dormir. Até porque, ao entrar na audiência com Balin minha espada montante foi tomada e não foi devolvida. Era bom ter algum instrumento para trabalhar na falta da espada. Nos dias seguintes trabalhei duro e sem folga, não vi meus amigos e comecei a me familiarizar com a estranha língua dos anões. Ao meu redor, eles só falavam khuzdûl, muitas vezes ignoravam minha presença e só falavam o idioma comum para me dar alguma ordem ou instrução. Eles continuavam desconfiados como só anões sabem ser.

No quinto dia após nossa chegada, pedi a Bruenor o dia de folga, a princípio ele foi relutante “Temos ainda muito trabalho a fazer” disse ele. No entanto, quando contei que tinha prometido aos meus amigos encontrá-los nesse dia ele mudou de idéia dizendo: “A palavra tem que ser dura como a gema da terra, cavaleiro. Não permitirei que você a quebre. Pode ir” e voltou para seu martelo e labor.

Quando encontrei meus amigos, ainda estava tenso com a sessão com Nordri e pedi a Toph que traduzisse para mim pelo menos os símbolos da minha face. Segundo ele, após percorrer meu rosto com suas mãos nodosas, as marcas diziam que eu seria um deles assim que matasse o mago. Não soube muito bem o que pensar disso na hora, mas me senti grato por não mencionar a estrela de sangue. Ufa! Nordri, afinal, não tinha conseguido ler minha história. Além disso, com a leitura das marcas, os elfos, ao contrário dos anões, ficaram contentes. Talvez eu esteja novamente encontrando um lugar no mundo.

Foi bom ouvi-los contarem suas histórias na Colônia: Toph disse que passara os dias estudando com Nordri, Tyr era mais popular que um bardo de Rohan e muitos anões vieram ter com ele em busca de notícias de seus parentes em Erebor. Butuite passava grande parte de seu tempo caminhando sobre as muralhas, patrulhando. Ellen passava os dias estudando pergaminhos e tomos na biblioteca de Nordri, mas, ao contrário de Toph, estudava sozinha. Pelo visto, eu não era o único isolado.

De repente uma correria paralisou a Colônia por 30 minutos. As carriolas pararam de correr. Os instrumentos foram deixados onde estavam e todo mundo rapidamente se reuniu na avenida principal da Colônia. Os bardos cantavam a canção da Reconquista de Erebor, dos Trabalhos de Balin e também dos Anões Cremados da Batalha de Azanulbizar e muitas outras. Artistas cuspiam fogo, dançavam coreografias de guerra.

No centro da comitiva caminhava Balin, com alguns guardas reais e suas marcas azuis. O Lorde da Colônia estava vestido para a batalha. Armadura completa: cota de malha, peitoral, grevas (que protege a parte inferior das pernas), manoplas, espaldar (que protege os ombros), escarpas (sapatos encouraçados) e mais uma infinidade de componentes. Além, é claro, do Elmo dos Anões. Forjado como uma réplica do elmo de Dúrin, tinha sua própria coroa. O conjunto todo era magnífico de ver. Balin ostentava o Machado de Dúrin e enchia os corações dos anões de esperança.

Nordri profetizou que agora Balin seria invencível num combate corpo a corpo! Era praticamente o Pai dos Anões reencarnado que tinha voltado para reclamar seu reino. Mas eu percebi algo no seu olhar. Apesar de todo o festival, o Lorde anão não estava feliz. Toph disse que ele partia para o Lago-Espelho dos anões. O lago sagrado que Dúrin se mirou nos Dias Antigos e viu em sua lâmina de água o reino de Khazad-Dûm que ele viria a construir. O reino que Balin estava tentando reconquistar. Balin estava em busca de respostas.

Dias após o Senhor de Moria deixar a Colônia, logo chegaria a nossa hora de partir. Aconselhado por Gramenos, Balin tinha deixado uma missão para nosso grupo de forasteiros: destruir a Grande Forja dos anões, que foi construída nos Dias Antigos, talvez pelo próprio Dúrin, e que agora estava armando o maior e mais organizado exército orc que a Terceira Era vira. O plano todo era bastante insensato, mas se desse certo, seria um golpe duro mesmo para os temíveis orcs de Moria!

A Grande Forja está na Primeira Profundeza, sete pavimentos abaixo de nós, bem no fundo da terra, no coração da cidade orc, onde caminham seres sem nome que não conhecem o tempo. Para chegar até lá, vamos usar o carregamento citado na carta que Ellen decifrou. Nós matamos os guardas orcs que iam escoltar o carregamento poucos dias antes de chegar à Colônia, conhecemos sua localização.

Não sei se isso é uma ameaça ou uma oportunidade. Certamente, o Imberbe não se preocupa muito com o nosso bem estar. Talvez essa seja apenas mais uma de suas missões suicidas. Balin também só me aceitou na Colônia, após eu jurar lealdade a ele e me tornar um guarda real. Os anões não me querem Debaixo da Montanha, e a estrela vermelha não me quer lá fora.

Como são estranhos os caminhos da vida. Não sou querido em lugar nenhum, mas tenho que estar em algum lugar. Já fui um guerreiro dúnedain e todos morreram. Já fui um guerreiro rohirrim e todos morreram. Agora sou um guerreiro da Colônia. Pode ser que todos morram. Pode ser que a estrela me encontre aqui, muito embaixo da terra e da rocha, na mais profunda masmorra do mundo. Mas eu vou honrar meu juramento! Vou destruir a maldita forja e com isso conseguir grandes canções. Por mais custosas que elas sejam, trarei glória ao cântico de Éowulf ou morrerei na tentativa!

Próxima Cena: Campanha em Moria – Cena 9

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9 Comentários leave one →
  1. 19/06/2012 09:26

    Eu não sumi não
    Ja li o relato, so o tempo para comentar que ta foda. ^^

  2. gerbur12 permalink
    19/06/2012 22:36

    rs, não faça isso, André.

    Sua demora em responder abala a moral dos autores, hehe.

  3. 19/07/2012 16:49

    A mesa morreu?

  4. 19/07/2012 17:09

    Hahahahaha

    Não morreu não André, continuamos vivos, apesar dos esforços dos orcs. Mas apesar de termos resistido todas as investidas do mal, o final de semestre foi matador pra todos!

    Esse fim de semana estaremos na World RPG Fest, imagino que no decorrer da próxima semana já saia o outro relato.

    Agradeço a preocupação
    :D

  5. 23/07/2012 08:56

    O velho vilão de todo estudante. O fim do semestre.
    Entendo como é.

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