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Campanha em Moria – Cena 4

03/05/2012

Cena anterior: Campanha em Moria – Cena 3

Eu sempre pensei em Khazâd-Dûm como um lugar vivo. Pensava nela cheia, vigorosa, como um lugar que acontecia, que respirava. Visualizava anões apressados andando de um salão para outro, carregando carriolas e mapas e baús secretos e relíquias suntuosas, poderosas. Podia ver em minha mente os pesados tapetes do mestre Ágatha se desenrolando por longos metros do teto ao solo dos salões. Com desenhos de mil cores que contavam nossa história. Imaginava contemplar as estátuas vivas de nossos antepassados nos recebendo em sua morada, olhar nos olhos o Pai Durin, Mahal ou quem sabe o Senhor Azaghâl, o Dragão do Oeste!

Era uma vez um sonho chamado Khazâd-Dûm. Nosso Reino-Mãe. Sim, pois se Durin é o Pai, certamente Khazâd-Dûm é nossa mãe, e da união dos dois surgiu a maior Casa de todos os anões! Khazâd-Dûm é divindade vívida, presente, sólida, firme, real. A força da maternidade concretizada, abraçando seus filhos, protegendo-os, parindo seus inventos e construções. Quando o Senhor Dain Pé-de-Ferro, Rei-sob-a-Montanha em Erebor, me convocou para averiguar e descobrir o paradeiro dos mensageiros de Lorde Balin, que estavam atrasados há meses, fiquei muito honrado. Imaginei-me sendo recebido como um rei, bebendo hidromel com grandes guerreiros e artífices, ouvindo os bardos cantarem sobre a Reconquista! Sobre a Colônia! Em meus sonhos Khazâd-Dûm estava viva e respirava, e eu estava contente por ser escolhido para visitar a Mãe. Era a primeira vez que iria até ela. Era a primeira vez que iria presenciar com meus próprios olhos o deus real, presente na terra, ver de verdade o que eu apenas ouvi desde criança, das histórias dos bardos, dos Cânticos da Montanha!

E finalmente ali estava, no Hangar das Escadarias, com um grupo estranho que não conseguia entender o que era aquele lugar, o que significava estar ali. Mesmo assim me descobri triste. Não havia música, nem tapetes e as esculturas estavam quebradas e sem rosto. O lugar era amplo, mas vazio, quente e abafado. Apenas alguns fios de luz do dia teimavam em entrar na Montanha pelas antigas lanternas de nossos antepassados, escavadas na encosta de Caradhras. As carriolas estavam tombadas e quebradas, o ouro e prata que revestiam as paredes, roubados. Os guardas estavam mortos e silenciosos. Os únicos ruídos provinham do gotejar de goteiras distantes, do eco de fantasmas, de sombras do passado em minha imaginação. Se Khazâd-Dûm era mesmo a nossa Mãe, ela já não mais nos reconhecia, tinha esquecido seus filhos e estava morta e inerte. Deus não estava mais ali, nem a força de nossos antepassados. Seu nome e espírito estava perdido no tempo e vivia agora apenas nas canções. Eu tinha partido para Khazâd-Dûm, mas tinha chegado em Moria.

              Após atravessarmos a Ponte de Durin, percebemos que havíamos perdido um membro de nossa comitiva: Lis, do Valle. A princípio essa percepção me deixou triste, apesar de não precisar, ela era minha protegida, eu fui seu guia até Moria e ela me pagaria com armamentos que fabricaria aqui. Mas ela quebrou o nosso contrato quando deixei de ser o guia, afinal desconheço os caminhos debaixo da Montanha. E lá se foi minha arma ainda não fabricada. Não se pode confiar em humanos, e ainda temos um deles conosco, sem contar os dois elfos…

Nossa busca pela humana foi infrutífera, uma pena, admito que ela era uma boa guerreira. O novo guia, Toph, um verdadeiro mestre da sabedoria da Colônia de Balin, não quis arriscar uma busca mais intensa. Ele disse que o caminho pelo qual saíra da Montanha havia sido destruído, e ele tinha perdido um amigo importante nessa passagem. Os caminhos que se mostravam diante de nós eram ameaçadores e havia sempre o risco de nos depararmos com um perigo maior do que poderíamos enfrentar. Lis estava à própria sorte agora.

Apesar de misterioso, eu confio em Toph. Ele pegou o elmo do guarda moribundo no portão do Salão dos Convidados para leva-lo à Colônia, e um anão sempre honra sua palavra.

Ele nos conduziu por cabeças de guardas da Colônia mortos espetadas em estacas no chão, resoluto, estoico, sem demonstrar qualquer sinal de dor ou desespero . Nosso guia não é um guerreiro, mas é corajoso. Caminhamos para a Cidade da Mina dos Anões no Primeiro Pavimento, mas o que encontramos lá foi um grande assentamento orc em volta dos pilares dos pais de nossos pais. A cidade orc estava tão vazia quanto à anã. Caminhamos por entre suas cabanas vazias, devagar, prestando atenção, ouvindo os sussurros da Montanha, uma vez que estávamos praticamente cegos tão abaixo dos arsenais superiores ou do Hangar das Escadarias, onde estavam as lanternas. Toph caminhava, parava às vezes, ouvia e voltava a caminhar. Direita, esquerda, novamente à direita. Desce uma escada, desce outra. Corredores apertados, barras no lugar de paredes, descobrimos então onde estávamos: numa masmorra.

Ela estava vazia, exceto pelo som de metal contra metal. Correntes? Não.  Caneca e barras de metal. Logo descobrimos que havia um dos nossos ali. O último anão das masmorras dos orcs. Seu nome é Wiglaf, guarda real da Colônia. Ele estava sem camisa, e como todo guarda real, ele tinha o corpo repleto de tatuagens azuis. Runas, desenhos e símbolos antigos. Por todo o corpo, no tronco, nos pés, nas mãos e até no rosto. Era possível ler sua história para quem conhecesse khuzdûl ou os simbolismos dos desenhos. Todos os seus segredos estavam desnudados, os bons e os maus. Só assim, podia-se tornar um guarda real. Uma honra ansiada por muitos anões, mas conquistada por poucos. Tentei ler sua história, mas muitas das tatuagens de Wiglaf estavam ilegíveis: cortadas por marcas de chicote, queimadas com ferro quente, e algumas até tinham sido removidas, junto com o próprio couro do anão. As novas marcas de Wiglaf eram hediondas, mas ele não se envergonhava delas, pois apesar de todo o sofrimento de sua origem, o guarda real tinha mantido o segredo da localização Colônia e sua honra estava intacta.

Wiglaf nos contou que havia um espião dos orcs na Colônia, um batedor, outrora de Balin, após ser capturado ele teria mudado de lado, pois os orcs não costumavam libertar seus prisioneiros.  Seu nome é Gramenos, chamado Imberbe, pois os orcs o mutilaram. Entretanto, Gramenos tinha conquistado a confiança do Senhor Balin e o persuadido a enviar 10 de seus melhores soldados em busca de uma arma que poderia mudar o destino da guerra: o Machado de Durin. Wiglaf, era o último dos dez, ele e seus irmãos juramentados haviam seguido exatamente as instruções de Gramenos apenas para acabar no covil dos orcs do Primeiro Pavimento, onde estávamos. Obviamente o machado não foi encontrado e após um duro interrogatório, os guarda reais eram levados para não mais retornar.

Tentamos libertar Wiglaf, em vão. Toph tentou até a chave que Éowulf e Butuitê retiraram do capitão orc que guardava a Sala dos Convidados. Mas a chave era muito maior que a fechadura e não entrou. Utilizamos força bruta e alavanca, e nada adiantou. Enquanto isso o tempo passava rapidamente. O corredor das masmorras era comprido e longilíneo, e podíamos ouvir gritos de orcs. Mas não eram gritos de batalha, e sim de entretenimento. Pareciam se divertir e torcer, com o quê, não conseguíamos imaginar.

Estranhamente, Wiglaf estava mais aflito que nosso grupo. Ao ver as horas passar ao som de repentinas comemorações dos orcs ele nos pediu que fôssemos embora, dando-nos duas opções: procurar a Colônia e contar sobre a traição de Gramenos ou procurar seus irmãos, guardas reais capturados. Toph escolheu procurar a Colônia e Wiglaf ensinou a ele o caminho.

Quando estávamos prestes a ir embora, Butuitê ouviu sons de alguém se aproximando e nos alertou. Logo um carcereiro surgiu no fim do túnel. Nos escondemos nas celas abertas, se dominássemos um único orc: aquele carcereiro, conseguiríamos libertar o guarda real.

Nossos companheiros se esconderam nas celas, mas Éowulf e eu ficamos no centro do corredor e atacamos de frente o enorme carcereiro, nunca tinha visto um orc tão grande, mas estava em Moria e algo me dizia que eu iria ver muita coisa na Noite da Montanha que jamais vi na Luz de Erebor. Enquanto o humano e eu combatíamos o carcereiro, Toph arriscou uma alternativa pouco confiável: magia. E começou a cantar uma música baixinho enquanto desenhava runas no chão com o cajado. A música era gostosa e sonolenta, e entrou pelos nossos ouvidos seduzindo nossas mentes. Meus movimentos tornaram-se mais vagarosos e os de Éowulf também. Graças a Mahal, antes que o sono e o cansaço me tomassem por completo, o próprio Toph caiu adormecido. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Quando Toph caiu, seu capuz caiu para trás e revelou seu rosto inteiro para nós pela primeira vez, e tudo fez sentido. O mestre de sabedoria da Colônia, Toph, o Bronze, é cego. As orbitas de seus olhos estavam vazias. Provavelmente uma cortesia dos orcs.

Mas se encantamentos e o conhecimento dos sábios se mostrava perigoso e pouco confiável, a lâmina e o aço nunca foram tão prestativos, e conseguimos derrubar nosso oponente antes que ele pudesse nos ferir seriamente.

Libertamos Wiglaf, mas nada que tentamos conseguiu acordar o mestre Toph de seu sono conjurado. Wiglaf então nos conduziu pelas masmorras, até que chegamos ao final de seu imenso túnel, e ele dava numa enorme arena redonda. Wiglaf entrou gritando: “Brecca, a ajuda chegou!” e assim que passamos pelo portão, o mesmo se fechou as nossas costas e havia outro do outro lado da arena, mas havia um obstáculo no caminho: um escorpião gigante. A fera era imensa, mas as paredes da arena eram maiores, e os orcs apostavam e comemoravam do alto enquanto suas feras digladiavam os seus prisioneiros. Não havia outra saída que não o portão atrás do monstro. É, aquele estava sendo um longo dia, e estava longe de terminar…

Próxima cena: Campanha em Moria – Cena 5

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8 Comentários leave one →
  1. Chico Napolitano permalink*
    03/05/2012 23:03

    “Eu tinha partido para Khazâd-Dûm, mas tinha chegado em Moria.”

    Fucking epic!!!!

  2. 04/05/2012 10:41

    E como sempre termina com gosto de quero mais.
    Muito bom mesmo. E o melhor guia no escuro é um cego =D
    Realmente Chico, essa frase ficou doida demais.

  3. 04/05/2012 15:15

    Quem é Wiglaf?

  4. gerbur12 permalink
    04/05/2012 15:40

    É mais um NPC do mestre que chegou causando oras, rs. Não é nenhum jogador novo.

    E obrigado a todos por terem gostado. Muito mesmo. Fico muito contente.

    Semana que vem prometo mais 1 cena da crônica.

    Barûk hazâd!

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