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Até que ponto a voz dos fãs devem ser ouvidas no trabalho dos artistas?

09/04/2012

Entrei no Deviantart hoje, e acabei sendo atraído para um artigo intitulado “The future of Storytelling has arrived”. O artigo é muito interessante, e tem como tema principal a discussão do papel dos fãs no trabalho do artista, evidenciando o debate sobre as novas Tartarugas Ninjas Aliens, e o final do jogo Mass Effect 3.

Medo...

Pra quem não sabe, haverá um “reboot” das Tartarugas Ninjas no próximo filme de Michael Bay, onde a origem das tartarugas estará ligada aos cosmos, e não à alterações genéticas. E, também para os desinformados (como eu, que tive que pesquisar no google pra descobrir a história), os fãs de Mass Effect 3 ficaram malucos com o final do jogo, afirmando que as dezenas de opções que eles possuíam no desenrolar do enredo na realidade eram só um engodo para uma história quase que linear. Diante disso e das consequentes manifestações raivosas dos fãs, o Deviantart (ou melhor, o autor $techgnotic) reuniu algumas opiniões de artistas renomados, e abriu espaço para os milhares de usuários do site comentarem a questão.

Bom, como sempre não irei traduzir o artigo inteiro, mas só algumas passagens que julgo interessantes do mesmo:

A indústria de jogos, e a mídia desta, estão errados em rotular consumidores insatisfeitos como reles manifestantes dos seus direitos, ou ignorarem o investimento dos fãs além do simples gastar do seu dinheiro suado. – Eric Kain, Forbes Magazine

Gostei muito desta opinião. Claro que para trabalhos que envolvem milhares de fãs, fica difícil levar em consideração o individual, ainda mais com a tradicional visão de negócios, que tende a só olhar os números das vendas. No entanto, a arte envolve o gosto, as preferências e as paixões das pessoas, e isso não pode ser desconsiderado. Afinal, qual fã não se revoltou ao ver a adaptação de Dragonball nos cinemas, ou o novo homem-aranha homossexual e latino (tão diferente da figura clássica e brincalhona do Peter Parker)? Será que um editor/produtor consciente faria a mesma coisa? Duvido!

Especial – Após conversar com o Claudio Pozas no facebook sobre este post, decidi transcrever uma opinião dele, a título de enriquecer o artigo:

Nem sempre o próprio autor tem plena convicção das suas idéias. Muitas coisas que eu escrevi ou pintei ficaram melhores com o feedback dos editores ou diretores de arte.

Idealmente, o próprio autor faria essa “auto-correção”. Um autor ou pintor termina um capítulo ou pintura, deixa de lado por uns dois ou três dias, e depois volta a ler ou observar a obra com olhos frescos. Esse hábito ajuda e pegar vários errinhos (seja uma frase mal-colocada, ou uma tangente indesejável num pintura). – Claudio Pozas

Algo interessante a se pensar hein?

Olha um caso onde a opinião dos fãs enriquece a obra!

Pessoalmente, acho que a melhor história é o produto de uma voz forte e unida. Eu penso que é importante para os criadores ouvirem seus fãs, e fazerem ajustes no caminho. Mas não tenho certeza se um esforço colaborativo pode criar uma visão singular. Eu penso que um autor não deveria escrever simplesmente para agradar sua audiência, mas também para ocasionalmente surpreende-la. – Jeff Kinney

Perfeito!  A idéia de surpreender a audiência é muito boa, e saber o que a mesma quer e gosta, é uma boa ferramente para realizar isso. Como um Mestre pode surpreender seu grupo sem levar em consideração as ambições e gostos dos mesmos?

Agora, pensando no D&D Next, imaginem a armadilha que os autores podem cair diante de milhares de vozes dando suas opiniões? Eu sei muito bem como é difícil pesar cada opinião na decisão da criação de um sistema, passo por isso ao criar o meu próprio – e olhem que não tenho fãs, e sim amigos que me ajudam!


Escritores, e todos os artistas em geral, devem achar seu caminho entre a arte e o lucro, onde eles se sentem mais confortáveis e, ao mesmo tempo, realizados. – $techgnotic

Isso é uma sombra que assola qualquer aspirante à artista. Como músico amador já passei por isso (tocar o que gosto, ou o que o público da noite quer e paga pra ouvir?) e também como autor estou passando de certa forma (deixo o RPG como me agrada, ou como agrada a maioria do público?). Não é fácil esta escolha, e tenho certeza que a mesma é muito pessoal.

No final, como sempre: a verdadeira visão e talento conquistarão seu espaço – $techgnotic

Este aqui meus amigos, é imortal.

Assino embaixo. Diante de uma época cheia de reboots, re-interpretações e reaproveitamento, aqueles com criatividade e talento se destacam na massa medíocre. Claro que há gosto e público para todos, mas são poucos que ascendem a ponto de marcar seu nome na história. E, na minha opinião, são estes, no final, que realmente fazem a diferença.

 

Grande abraço à todos!

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3 Comentários leave one →
  1. m4lk1e permalink
    09/04/2012 23:14

    Realmente, Chico, curti bastante o artigo. Em tempos que, aparentemente, a criatividade se esgotou na imensidão de títulos disponíveis aos jogadores, a resposta é seguir seus próprios impulsos.

    Falo isso não como Narrador, mas como escritor underground – e dou todo o meu apoio àqueles que se arriscam neste campo.

  2. 10/04/2012 00:34

    O problema é que existe arte e “arte”.

    Se você pega um autor original, ele está produzindo arte, mesmo que se inspirando de perto em algo que já existe. Pegue aí o exemplo de Tolkien, que você postou no fim da página. Quando o público pediu uma nova história de hobbits, ele mudou completamente o rumo das coisas e criou uma história completamente diferente daquela presente n’O Hobbit. Mas ele não devia nada a ninguém, a história era dele, original, nova, inédita! Tinha total direito de mandar os fãs se danarem e escrever ao seu bel prazer.

    Mas no caso de remakes ou adaptações, isso não é arte pura, mas é “arte” (também chamado de exploração comercial do público). O cara não inventou aquela história ou aqueles personagens, mas pegou emprestado a criação de um outro autor. O mínimo que este adaptador deve fazer é respeitar a obra original. Fazer um remake de Robocop, por exemplo, pode mudar a história (afinal é necessária uma história nova), mas deve-se manter suas características: o caráter do personagem, sua origem, aparência etc. O que vier depois disso é inovação válida, mas a base é uma questão de respeito. E a voz do fã aqui é muito importante, pois o fã é o cara que preza pela memória da obra original, pelo trabalho do criador primeiro.

    Esse é um dos motivos pelos quais a telenovela não é considerada arte, por levar em consideração a opinião do telespectador durante toda a sua duração. Se o povo não gosta do mocinho, ele é trocado. Se não gosta da trama, ela é mudada… O autor é escravo da audiência. No fim a das contas, o espectador é mais autor que o próprio autor.

    Algo parecido com o folhetim literário de alguns séculos atrás, sendo que a diferença é que os autores deste tipo de literatura, como Dummas, por exemplo, se guiavam pelo gosto do público, mas não se mantinham presos a isto. Dummas chegava a sumir com determinados personagens quando estes não agradavam seus leitores semanais, mas nunca mudava as características dos que ficavam e nunca mudava o mote de suas histórias, mesmo quando o gosto do público era contrário.

    Enfim, respeito é bom e todo mundo gosta. Se o cara não tem capacidade de criar algo novo, que não venha deturpar e estragar algo que já existe e dá certo e que já possui um nicho de fãs.

  3. Chico Napolitano permalink*
    10/04/2012 23:34

    Legal você citar os folhetins, no próprio artigo há uma citação do Dickens que também escrevia em formato parecido, mas acabei não traduzindo aqui.

    Acho que sempre cairemos na dualidade arte x lucro. Mas imagino que a tendência atual seja ficar (no mínimo) no meio termo disso. A internet facilitou muito o contato dos fãs entre si, e mesmo com os autores das suas obras preferidas!

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