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Campanha em Moria – Cena 1

09/03/2012

Colônia de Khazad-dûm,  dia 247, ano 5

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Estávamos reunidos em assembléia no anfiteatro. O chamado de nosso senhor Balin fora súbito, e os murmúrios corriam soltos de todas as partes sobre o motivo do pedido. Felizmente, nossa espera fora breve, e logo consegui ouvir passos próximos a mim, vindos da direção dos aposentos do nosso senhor. Fiquei ainda mais curioso, pois não ouvi somente os passos longos e precisos de Balin, mas também passos arrastados, como se alguém se rastejasse no trajeto até o centro da multidão.
O silêncio fora imediato com a chegada de nosso senhor, mas logo diversos “Ohhhs” de espanto e xingamentos surgiram de todos os lugares. Essa reunião prometia ser animada.

O Arauto como sempre fora o primeiro a falar, apresentando Gramenos, o batedor que fora enviado aos níveis subterrâneos semanas atrás. As missões deles usualmente tem prazo de retorno definido, porém no caso do batedor subordinado de Óin, mais de uma semana havia passado da data limite de retorno, e nenhum sinal da volta do soldado. Nessas situações, assume-se a morte do homem. Porém, há sempre um risco, tão grande que a maioria torce para a causa da demora ser a morte – a captura.

E foi isso que ocorreu com Gramenos. Ao descrever o andamento do seu reconhecimento dos níveis inferiores (nossa colônia se situava no nível superior da mina), o mesmo relatara sua captura pelo inimigo. Cada conselheiro de Balin fez suas perguntas, e, depois de um tempo, ficara óbvio a ausência de descrições detalhadas, a incerteza e o medo do batedor ao responder aos questionamentos. A partir dali a reunião parecia mais uma feira, com pessoas gritando perguntas e acusações por todos os lados. A parte que Gramenos afirmara que não obtivera muitas informações dos orcs por não entender a língua dos mesmos fora ignorada, e ninguém parecia se importar com os tormentos que aquele homem sofrera.

Minha idade e sabedoria me ensinara a entender as pessoas, e senti que havia muito não dito nas respostas do batedor, mas não mentiras. Todas as falas eram secas e curtas, como se o anão tentasse espantar as lembranças da mente, falando o menos possível sobre elas. Era óbvio que esta experiência marcou o anão, e não me refiro somente ao seu corpo envolto em bandagens, mas sua mente, que manteria o medo e a paranóia presente em quase todo instante. Quem melhor do que eu para saber disso?

Não obstante, as agressões verbais logo começaram:
“- Nenhuma informação útil”
– “Arriscou a localização da colônia ao voltar pra cá”
– “Traição!”

Depois de ouvir essas palavras, não consegui me controlar, e o fogo que arde dentro de cada filho de Mahal explodiu em mim. A experiência do batedor invariavelmente me lembrou das que eu mesmo passara num passado não tão distante, e o modo que aqueles cidadãos acusavam Gramenos era totalmente insensível, mesmo para um anão.
Korf (meu corvo) me dissera que quando comecei a falar, a multidão que se encontravam no recinto emudeceu perante minhas palavras. Sinceramente, lembro pouco do que foi dito, mas creio que provavelmente, aliás, com certeza, fora um daqueles momentos que toda nossa força de vontade está concentrada em algo e nosso corpo recebe a força de nosso criador – Mahal, ou Aulë para os elfos. O fato foi que eu defendi a posição de Gramenos na mesma intensidade que defendi a minha própria no passado. A condenação dele não resolveria nosso problema atual, e havia muito ainda no que o soldado ser útil.

Haviam poucos anões na colônia. Já bastavam aqueles que morriam pelas mãos dos orcs.

E Balin concordou comigo. Nosso senhor ouviu minhas palavras e viu a sabedoria que havia nela. Ao invés da morte, Gramenos seria preso e seria pensado no que ainda poderia ser útil. Porém, nossa situação era crítica, e nosso senhor sabia disso. Eu e Ori (o primeiro a pedir a cabeça do batedor) seríamos enviados até Erebor para requisitar ajuda de nossos parentes.

Curiosamente, nesse ponto, senti que meu trabalho ainda não havia acabado. Algo me incentivava a expor meus pensamentos, mesmo já adivinhando a reação de meus pares.
Minha “aposentadoria forçada” me ensinou o valor do conhecimento, e eu tinha certeza que se alguns de nós soubessemos a língua negra, conseguiríamos mais informações dos orcs. Mas ninguém no nosso povo possuía aquele conhecimento. E os únicos que se aventuravam naquele “vocabulário”, se é que podemos chamá-lo assim, eram os elfos, nosssos antigos desafetos…

Enfim, a audácia me tomou e eu falei. E, tão rápido quanto um dragão, a reação dos presentes veio junto. Os gritos de “traição” já não tinham mais Gramenos como alvo. Era meu sangue que aqueles ignorantes queriam.

Mas Balin não é nosso líder a toa. O mesmo argumentou comigo e, com o apoio de Nordri, chefe da minha ordem de mestres da sabedoria, conseguimos que nosso senhor considerasse um pedido ao meio-elfo Elrond, antigo conhecido dele.

Antes que a mina desabasse com a pressão que estava presente no anfiteatro, ou que as agressões verbais virassem físicas, a reunião fora encerrada. Eu e Ori partíriamos no próximo dia, e nossa missão era vital para a sobreviência da colônia. Não falharíamos!

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Após algumas horas andando em completo silêncio, Ori resolveu quebrar o gelo e começamos a conversar. Ele parecia bem mais calmo, e eu com certeza estava mais à vontade para revelar meus pensamentos e suposições à sós. Disse para ele que achava que Gramenos não mentira, mas sim omitira muito do que havia acontecido. Aquele homem precisava de tempo e de alguém que pudesse conversar com ele de igual para igual. Eu sabia que seria o melhor anão para conseguir mais informações dele, mas já enfrentara Balin demais na reunião para postergar esta missão.

Ori assentiu, mas manifestou seu receio do que a captura do batedor poderis significar à colônia. Ele estava certo, claro. Muito provavelmente Gramenos fora seguido e nossa localização estava comprometida. Nosso panorama definitivamente não era bom.

Andávamos devagar, atentando para o silêncio ao atravessar os andares ainda dominados por orcs. Na nossa primeira caminhada, andamos bastante sem problemas, e fizemos bom avanço rumo à saída. Com o tempo, passamos a ficar menos preocupados, e começamos a conversar menos de forma sussurrada. Ainda estávamos alertas, mas a boa conversa entre amigos sempre transforma o ambiente, tornando-o agradável.

Após algumas horas, já perto da saída, senti que Korf começou a se agitar. Isso usualmente não é um bom sinal, e fiquei mais alerta aos sons à nossa volta. Não ouvi nada de suspeito,  mas um odor nauseabundo no ar me trouxe lembranças à mente e me relevou o que eu temia: orcs. Eles estavam ao nosso redor, e mesmo nossa proximidade à saída de Khazad-dûm não impediria de termos problemas.

Avisei Ori em khuzdûl, e começamos a andar mais rápido. As flechas logo surgiram, e começamos a correr. Estimei uma dúzia contra nós, pelo menos daqueles que atiravam as flechas. Mantive na minha cabeça que a nossa prioridade era a mensagem ao rei Dáin, não a diminuição do contingente de orcs das minas. Porém, quando chegamos às escadarias do último lance, percebemos que caímos numa armadilha. Aríetes batiam nas escadas, para que as mesmas tombassem e nos bloqueassem a rota de saída.

Antes de conseguir pensar num plano, Ori me empurrou escada abaixo, e se postou entre mim e os orcs que nos perseguiam. Quando tentei voltar para ajudá-lo, o anão gritara para que eu corresse que logo ele me seguiria. “BRROOOOOOOM”, a escada tremia com as batidas dos aríetes, e lascas se soltavam daquela estrutura centenária.

Corri forçando-me a acreditar nas palavras do companheiro de Balin, mas no fundo eu sabia o que aconteceria. Quando cheguei exausto à porta de saída, ouvi a escada atrás de mim desabando, e o grito de meu amigo se distanciando enquanto se perdia junto ao abismo sem fim.

Saí de Khazad-dûm e senti o calor do sol na minha face molhada de suor. Corri/rolei/joguei-me encosta abaixo e caí em um canto cheio de arbustos. Ori se sacrificara por mim, pela nossa missão, e o mínimo que eu poderia fazer era continuar. Porém, meu corpo mal tinha forças para se erguer, e as lágrimas que eu não podia ter ardiam dentro de mim.

Toph

Está é a história daqueles que amam o que fazem. Dos bravos anões que entortam mithril e cabeças de orcs para deixar sua marca no mundo!

Próxima cena: Campanha em Moria – Cena 2

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4 Comentários leave one →
  1. gerbur12 permalink
    26/04/2012 22:10

    Aqui está o começo de uma saga digna de ser cantada em muitos salões.

    Que honra fazer parte desse grupo e poder construir essa história com grandes fãs do Professor, em Moria, em Khazâd-Dûm.

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