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Entrevista com R.A. Salvatore

26/10/2011

Mais uma vez fuçando nos tópicos antigos do Fórum Valinor, encontrei essa entrevista muito interessante com o autor de um dos personagens mais famosos do RPG: Drizzt Do’Urden.

A entrevista fora originalmente feita por Paulo André Vieira e Maurício “Paladino do Norte”, e pode ser encontrada aqui.

Eu sei que você já deve ter respondido esta pergunta milhares de vezes, mas nossos leitores nos matariam se não a fizéssemos. Como você se sente sendo o criador do personagem de RPG mais famoso do mundo, Drizzt Do’Urden??

Bem, eu considero Drizzt apenas um dos mais famosos. Eu vejo muita coisa sobre o Raistlin em diversos jogos! É uma sensação estranha. Uma vez eu chamei o Drizzt de minha benção e minha maldição. Minha benção porque que autor não gostaria de um sucesso como este com um personagem que tanta gente parece se identificar? E uma maldição porque é muito difícil para mim convencer as pessoas que eu tenho outros trabalhos nas estantes, incluindo algumas novelas que considero importantes, como DemonWars.

Porém, agora, eu penso em Drizzt como uma benção e ponto final. Eu tive muita sorte de inventar uma coisa que ao mesmo tempo era comum mas um pouco diferente ao mesmo tempo. Um herói clássico em um corpo único, por assim dizer. Por alguma razão, aquilo criou uma onda que continua rolando até hoje, quatorze anos depois. Eu sou um cara bastante sortudo. Eu deveria colocar “Drizzt” na placa do meu carro, já que foi ele que o comprou, e se não fosse pelo elfo negro, eu não teria o tempo ou a oportunidade de escrever DemonWars.

Como curiosidade, meu gato se chama Guenhwyvar, como a companheira animal do Drizzt. Qual foi a idéia por trás da pantera? E seus outros amigos? Catti-brie me lembra bastante Tika Majere, das histórias de Dragonlance… Você poderia nos contar como criou os personagens dos livros do elfo negro? Vieram da sua imaginação ou eram a princípio personagens de seus amigos?

A idéia por trás da pantera veio do livro de Doug Niles, “Darkwalker on Moonshae”, especificamente de Canthus, o cachorro amigo de Tristan, Daryth e os outros. Doug lidou com a relação entre eles de uma maneira esplêndida. Eu queria fazer alguma coisa um pouco diferente. Na verdade, Cantus e Daryth estavam na minha proposta para o primeiro capítulo de “The Crystal Shard”, pois eu até então pensava que Forgotten Realms eram apenas as ilhas de Moonshae (os livros de Doug eram os únicos ambientados em Forgotten até então). Quando soube da verdade e trabalhei com um editor para encontrar um lugar no mundo que pudesse considerar uma criação minha, não quis desperdiçar as idéias que tive para um companheiro animal. Criou-se então Guenhwyvar. Eu tirei o nome das obras arthurianas de Mary Stewart, como “The Crystal Cave”. De acordo com Stewart, Guenhwyvar e a grafia celta (eu acho que era celta) para o nome da rainha do Rei Arthur, e o nome significava “sombra”. Quão perfeito não foi?

Quanto aos outros personagens, eles são meio que os arquétipos básicos (ou pelo menos começaram assim) das histórias de fantasia. Catti-brie nem estava na minha primeira proposta do livro, mas minha editora mostrou que faltava um personagem feminino em meu manuscrito. Aconteceu que minha esposa deu a luz a minha filha, Caitlin Brielle, quinze dias depois que entreguei os primeiros capítulos do livro, e Catti-brie, literalmente, nasceu ali.

Qual foi a primeira reação de seu editor quando lhe propôs um elfo negro ranger como personagem do livro?

Um atordoado silêncio. O que também foi a minha reação quando pensei sobre o que tinha acabado de dizer. Drizzt foi uma loucura do momento. Eu fui pressionado para criar um novo aliado para Wulfgar (que teoricamente seria a estrela), pois nós já havíamos mudado a história para longe de Moonshae, mas como já mencionei, Daryth e Canthus estavam na proposta de capítulo que eu havia enviado para a editora. Então minha editora me ligou desesperada, a caminho de uma reunião com o pessoal de marketing e precisando de um novo aliado para o personagem principal. Eu estava trabalhando como um especialista em finanças naquela época, com a mesa coberta de papéis, pressionado, e a idéia para o personagem e o nome Drizzt simplesmente apareceram na minha cabeça. Muito estranho.

A sua Lolth é muito menos sarcástica e mais vingativa do que a versão de Paul Kidd (do livro Queen of the Demonweb Pits). Como os autores lidam com as características e emoções de personagens icônicos? Há algum tipo de “guia de comportamento”?

Eu acho que tudo depende do tom que você quer imprimir no livro. A série do elfo negro, por conceito, deveria ser bastante sombria, e esse sentimento, obviamente, emanava de Lolth. Eu tentei manter os Deuses ao alcance das mãos. Eu tenho mais interesse em personagens com características humanas, mesmo que eles acabem sendo elfos negros ou anões.

Eu sinto que em Forgotten Realms, particularmente em coisas como os panteões dos Deuses, fornecem um pano de fundo que um autor pode moldar, até certo ponto, para se encaixar nas suas necessidades. E como cada autor escreve do seu próprio jeito…

É por isso que não gosto de dividir personagens!

O seu livro, Spine of the World, em parte se concentra em uma história de amor. O que o fez mudar o ritmo da série?

Ele não foi realmente uma história de amor, na minha opinião. Ele foi (pelo menos metade dele) a história de uma jovem mulher que se deparou com uma difícil escolha. Ela ama um homem, mas sua mãe está mortalmente doente e a única pessoa que pode salvá-la e o dono das terras, que a maltrata. Eu acho que Meralda foi incrivelmente altruísta e heróica naquela história. Eu adorei examinar seus sentimentos, bem como os de seu pai, que chega até a espancá-la em um ponto do livro, de tão frustrado que está de não ter a capacidade de salvar sua esposa. Eu realmente gosto deste livro, e adorei escrevê-lo. Eu não tenho tanta certeza de que ele tenha fornecido aos fãs de Drizzt o tipo de ação ou escolhas morais que eles gostariam, mas, afinal de contas, é a minha série!.

Como sua vida mudou desde que o primeiro livro de Drizzt chegou às prateleiras? Você se considera uma celebridade? As pessoas o reconhecem na rua, pedem autógrafos, essas coisas? Você gosta da atenção do público?

Bem, eu trabalho em casa, faço meus próprios horários, e tenho mais dinheiro do que jamais pensei que um dia teria. Sou capaz de dar aos meus filhos não apenas uma boa qualidade de vida (nada de jatinhos particulares ou coisas do tipo!), mas o mais importante, eu pude, e posso, passar mais tempo com eles, treinar os times de suas escolas, assistir aos seus jogos no colégio, tudo enquanto a maioria dos outros pais ainda está no trabalho.

Uma celebridade? Acho que em alguns círculos. Eu já fui reconhecido – alguém uma vez ouviu uma conversa minha com Terry Brooks em um pequeno restaurante e colocou a transcrição da conversa em um site de Star Wars no dia seguinte. Aquilo foi um duro golpe! Um duro golpe em vários lugares…

Eu não me considero uma celebridade. Eu tenho uma vida tão normal quanto você possa imaginar. Eu acho que antes eu gostava muito mais da atenção do público do que agora, apesar de ainda achar divertido conhecer novas pessoas, a particularmente maravilhoso saber que meu trabalho tem tido um efeito positivo sobre o hábito de leitura de alguns jovens. Quando eu recebo cartas que começam com, “Eu não conseguia fazer meu filho/filha ler coisa nenhuma até que eu lhe entreguei um de seus livros”, me dá um nó na garganta e me faz lembrar que meu trabalho é muito mais que cheques de direito autoral.

O lado ruim, claro, é que você tem que se expor a porradas de pessoas incrivelmente maldosas, particularmente em sites na internet, o que é a razão de raramente, se é que o faço ainda, freqüentar listas de discussão.

Há alguns rumores sobre um filme do Drizzt sendo feito pela produtora Fireworks (a mesma de Hercules e Xena). Qual seu papel neste projeto? Se você tivesse o poder e o dinheiro de escalar os atores para fazer os personagens principais do filme, quem você escolheria?

Eu vi o anúncio oficial, e me encontrei com algumas pessoas da Wizards/Hasbro e da Fireworks algum tempo atrás. Eu não tenho a menor idéia do que está acontecendo neste momento, ou sequer se terei alguma coisa a ver com este projeto. Eles sabem como me encontrar, e tendo em vista o recente sucesso dos filmes desse gênero, estou bastante empolgado com a possibilidade de ir para frente.

Quem faria os papéis? Já ouvi isso milhões de vezes. Alguns anos atrás, eu teria torcido para que Antonio Banderas fosso e Drizzt. Ele estava simplesmente ótimo no papel de Zorro. Porém, honestamente, eu não tenho a menor idéia. Eu nunca tinha ouvido falar do cara que fez o papel de Aragorn no filme do Senhor dos Anéis, mas, nossa, ele está ótimo. E o elfo… nem me deixe começar a falar sobre o Legolas. Um elfo perfeito, bem ali na tela!

Já que você é um jogador de RPG, o que você acha da ficha do Drizzt apresentada no novo livro de Forgotten Realms? Você não acha que eles o fizeram um pouquinho fraco demais? Não faria mal a ninguém que suas espadas, Twinkle e Icingdeath, fossem um pouquinho mais poderosas…

Não faço idéia do que eles fizeram com ele, e na verdade nem me importo. Fraquinho? Super poderoso? Não faço idéia; eu acho que é tudo relativo. Se o personagem mais poderoso do seu jogo é de nível 5, alguém de nível 15 vai se parecer com um Deus, mas se os seus jogadores já estão todos no nível 20, o mesmo nível 15 não passa de outro NPC qualquer. Eu sempre considerei o Drizzt um pequeno jogador em um imenso mundo, abençoado com uma boa dose de talento, uma razoável quantidade de sorte, e o mais importante de tudo, alguns dos melhores amigos que alguém poderia querer. Isso pode mudar, já que tocamos no assunto, e não para melhor.

Você ainda joga RPG? O que você está jogando atualmente? Sistema d20?

Nós estamos jogando uma mistura de 1a e 2a edição agora, mas estaremos migrando para a terceira edição em breve, se tudo correr bem com meus planos. Eu estou simplesmente muito ocupado agora com a novelização de Star Wars e as continuações das séries DemonWar e Dark Elf para aprender um novo sistema e começar uma nova campanha. Nós (meu grupo de jogo) também nos encontramos uma vez por semana para jogar Everquest.

Eu tenho dois personagens que gosto muito, o primeiro um amargurado guerreiro élfico e o outro um meio-orc bárbaro que acabou de se tornar o campeão de Anhur, Deus do panteão de Mulhorand. Qual o seu personagem mais memorável?

Belexus Backavar, meu guerreiro da primeira edição. Ele era bem diferente do Belexus de ” Echoes of the Fourth Magic”, por falar nisso, apesar de ambos compartilharem os mesmos atributos físicos. Ele é o único personagem que cheguei a elevar até o status de Deus, por assim dizer, chegando a alcançar alguma coisa perto do 27o nível. Ele destruiu várias cidades ao longo do caminho, tenho que admitir.

Eu também joguei com Oliver deBurrows, meu halfling dos livros da série “Sword of Bedwyr”, por um curto espaço de tempo. Um sujeitinho bem irritante. Acabou morto, e quando meus companheiros jogadores comemoraram, soube que ele merecia estar em um livro.

Você uma vez disse que Tolkien foi sua maior inspiração para o gênero de fantasia. O que você achou do filme O Senhor dos Anéis?

Bem, eu já assisti o filme três vezes (isso nos primeiros quatro dias de exibição), então acho que isso responde a pergunta. Eu amei o filme! Simplesmente amei! Ele me levou direto para a Terra Média. Meus profundos agradecimentos para Peter Jackson, sua equipe e aos atores. Que trabalho maravilhoso. E a Sra. Blanchett simplesmente me arrebatou como Galadriel. A maneira como ela olhava para o pobre Frodo pelo canto de seus lindos e terríveis olhos me causou calafrios na espinha. Maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!

Você ficou empolgado quando lhe ofereceram a oportunidade de escrever novelas de Star Wars, incluindo a morte do Chewie e a novelização do Episódio II?

Sim e não. Eu não estava nem um pouco empolgado quando me disseram para matar o Chewie DEPOIS que eu havia assinado o contrato para “Vector Prime”, pode ter certeza. E eu certamente não quero ser conhecido como o cara que matou a bola de pelos mais querida do mundo! Ao mesmo tempo, eu tive a oportunidade de conhecer tanta gente maravilhosa na Lucasfilms, incluindo o próprio George Lucas, e eu acabei de receber uma cópia de “Vector Prime” pelo correio, assinada, “Bob, Chewie vive!” por Peter Mayhew (que interpretou Chewie nos filmes). Você simplesmente não substitui experiências como essas.

A respeito de ter sido chamado para escrever a novelização do Episódio II, foi provavelmente a maior honra que já tive em minha carreira como escritor profissional. Mostrou que confiam em mim e foi na verdade um tapinha nas costas, e o tapinha de uma lenda, nada menos que isso. Tenho tido bastante trabalho com ela, e incrivelmente satisfatório. Espero que George Lucas esteja satisfeito com minha expansão de sua visão.

Você já leu algum dos livros do Harry Potter, de J. K. Rowling? O que você acha do jovem feiticeiro com a cicatriz de relâmpago na testa?

Eu li parte de um dos livros e acho que são lindamente bem escritos, mas um pouco fora do meu gosto pessoal. Cada um de nós tem seus próprios gostos, e Harry Potter não funcionou realmente comigo; mas, veja bem, já estou meio insensível por todos estes anos no mercado de literatura de fantasia. Por outro lado, eu não tenho nada menos que respeito pela Sra. Rowling e o que ela realizou. Ela deve se sentir muito, mas muito bem por sua contribuição para toda uma geração de leitores. E eu, como um escritor de fantasia para aqueles um pouco mais velhos, certamente a agradeço por ensinar toda uma geração a usar sua imaginação.

Salvatore… você redefiniu o gênero literário de fantasia, com seu estilo rápido e personagens carismáticos. Tracy Hickman e Margaret Weis, antes de você, prepararam o caminho com a excelente trilogia inicial de Dragonlance. Como você acha que será o futuro dessa corrente literária?

Eu estava na Inglaterra mais ou menos uma década atrás com um maravilhoso escritor chamado Tom DeHaven. Nós fizemos uma entrevista juntos para a BBC e nos perguntaram se entendíamos porque Tolkien não era tão prontamente abraçado pelo típico jovem leitor daquela época. Tom deu uma resposta brilhante, na minha opinião. Ele disse que a sensibilidade das gerações mais novas mudou, devido à mídia a qual eles estavam mais expostos: a televisão. Lendo qualquer coisa mais antiga, a literatura pré-televisão por assim dizer, requeria uma maior dose de paciência do que a maioria das pessoas acostumadas com o ritmo louco da MTV e dos jogos de computador podem dispor. Não é uma crítica a tais pessoas, que fique bem claro, como muitos esnobes literários costumam apontar. Eles simplesmente absorvem a informação de maneira diferente, mais rápido, e provavelmente preenchem por conta própria uma grande quantidade de detalhes, já que viram muito mais coisas que, digamos, meu pai pudesse jamais ter visto. Eu duvido que meu pai tenha visto alguma outra luta de espada além daquelas dos filmes de Errol Flynn, enquanto meus filhos podem coreografar suas próprias lutas em diversos jogos de computador.

Eu pertenço a uma geração de transição. Cresci tanto com a televisão quanto com a literatura. Me considero afortunado pois a maneira como conto minhas histórias ressoa bem com gente o suficiente para que eu possa continuar as escrevendo. É tudo que um autor poderia desejar.

E, ainda falando do futuro… você tem planos de fazer alguma coisa relacionada com jogos, tendo em vista o sucesso do sistema d20??

Jogos de RPG tendem a se esgueirar na minha vida sem que eu esteja esperando. Talvez haja alguma coisa no futuro. Meus dois filhos expressaram interesse (e mostraram verdadeiro talento) em criar algumas aventuras, então, quem sabe? Eu certamente não recusaria a chance de trabalhar com nenhum dos dois!

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